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Ler por aí

Ler por aí

30
Nov18

A história Secreta, de Donna Tartt

Patrícia

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Há livros que, pelo tempo ou por outra coisa qualquer, não são  para nós. Este, A história Secreta, não foi para mim. Li-o até depois da página 200 e tive que parar por uns dias (por um motivo exterior à leitura). E nunca mais arranjei coragem para lhe pegar. Não é que achasse o livro mau... simplesmente o livro estava a ser-me absolutamente indiferente - o que é o pior que consigo dizer de um livro.

Bem escrito, sim. Mas a história, a tal secreta, é-me indiferente, não tenho qualquer curiosidade em saber o que se passou. Os personagens não me interessaram nem intrigaram. 

E assim desisti de uma leitura. Há por aí opiniões muito boas (e vindas de pessoas que são grandes leitoras) e, acredito, o livro deve ser bom. Só não é para mim. 

25
Nov18

Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres

Patrícia

Uma pausa na literatura para relembrar que 24 mulheres já foram mortas este ano em Portugal em contexto de violência doméstica. Mortas por quem as devia proteger. Mortas por quem as devia amar. Mortas por quem amavam.

"“Not until the half of our population represented by women and girls can live free from fear, violence and everyday insecurity, can we truly say we live in a fair and equal world." — UN Secretary-General António Guterres

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Artwork for the UN Women interactive website, Violence Against Women: Facts Everyone Should Know. Image: UN Women

 

18
Nov18

Jogos de Raiva, de Rodrigo Guedes de Carvalho

Patrícia

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Jogos de Raiva foi uma óptima surpresa. 

Apesar de ter em casa um dos livros deste jornalista feito escritor (se bem que o mais justo e certo seria, talvez, dizer escritor feito jornalista), o Canário, a verdade é que nunca me tinha apetecido lê-lo. Foi depois de ouvir a sua participação no podcast do Expresso Palavra de Autor (partilho abaixo para quem não conhece e tem curiosidade) que decidi que queria ler este livro. E gostei muito mesmo.

Este é um livro extremamente actual. Sem dúvida será um livro datado, um livro da nossa época. Aquele que um dia daremos aos miúdos para lhes contar como foi o início do séc XXI. Há aqui um olhar acutilante, extremamente crítico mas também muito real da vida nas redes sociais. O olhar do jornalista aqui é tão importante quanto o talento do escritor. Aquela sequência final deixou-me sem ar. Não tanto pelo conteúdo (naquela altura já não tinha grandes dúvidas sobre o resultado da coisa) mas pela consciência do quão real é. Todos os dias. A toda a hora.

Exactamente como o escritor diz no Palavras de autor, a primeira página desde livro ataca-nos, provoca-nos uma impressão que não nos larga ao longo do livro. Quem é, afinal, aquele casal?

Uma discussão entre Francisco José e o seu filho Nuno, uma daquelas discussões que provocam um terramoto e mudam a geografia da terra, é o mote para levar-nos, a nós leitores, para o seio desta família. Francisco José e Clara,  os filhos Nuno, Ana Teresa e Santiago, a neta Catarina, o cão Camões, o amigo Pedro e outros personagens igualmente interessantes. O Xerife Sousa, por exemplo, cuja história me deu um aperto no peito que nem imaginam.

A família Sereno é uma família como qualquer outra. E como tantas tem um segredo. E os segredos têm essa coisa de crescer, criar tentáculos e às tantas destruir. Exactamente como as palavras. Que, às tantas, têm o poder de nos magoar de formas que nem imaginávamos.

Mas ia contar-vos um bocadinho sobre os personagens. Francisco, o pai que conta histórias mirabolantes aos filhos e que um dia escreve um livro que se tornará um sucesso porque foi descoberto pelos leitores presentes nas redes sociais, Clara, uma psiquiatra que adora flores e não sabe se fez diferença na vida dos doentes, Nuno que cresceu para ser jornalista, Ana Teresa que toca descalça, Santiago que vê o mundo de forma especial, Pedro que não é um artista (E então? Não temos todos de o ser), Catarina que já nasceu velha.

Às tantas o autor avisa-nos: Francisco José é assombrado por três naufrágios. Depois, conta-nos tudo. Um a um. 

 

 

16
Nov18

Dos livros, com amor

Patrícia

Oferecer um livro a um leitor é uma prova de amor.

Tenho a certeza que todos vocês já ouviram o "já tens tantos livros", "não sei que livro te hei-de oferecer" ou outros mimos do género.

A verdade é que é difícil comprar um livro para um leitor a não ser que se seja tão "leitor voraz" como a outra pessoa.  Acima de tudo, a maioria das pessoas  (aquelas que querem efectivamente agradar-nos) tem receio de não escolher o livro certo, de não ver nos nossos olhos aquele mesmo brilho de quando chegamos a casa com um livro novo. E preferem seguir o caminho seguro e oferecer-nos algo totalmente diferente.

Oferecem-me muito poucos livros. Ele não é o mesmo tipo de leitor que eu mas sabe o que significa para mim receber um livro - principalmente quando é uma surpresa e foi escolhido por ele (e não retirado de uma qualquer lista que eu lhe tenha dado). E a verdade é que o tipo tem jeito.

Sim, definitivamente... oferecer um livro é uma prova de amor.

14
Nov18

Legion, the many lives of Stephen Leeds, de Brandon Sanderson

Patrícia

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Este livro (que ouvi em audiobook) começa mais ou menos desta maneira (tradução livre)

"O meu nome é Stephen Leeds e sou perfeitamente são. Já as minhas alucinações são completamente loucas"

Este é o primeiro livro do Sanderson fora do universo de Cosmere que leio. E digo-vos já que gostei. Gostei, apesar de não ser do universo Cosmere, apesar de não ser do género fantástico (isto é mais Ficção Cientifica que outra coisa qualquer) e apesar de serem contos/novelas.  Não é nem será nunca um dos meus preferidos mas é bastante interessante. Este audiobook contém as 3 novelas desta série: LegionLegion: Skin Deep e Lies of the Beholder.

Stephan Leeds é um génio com capacidade para aprender tudo, de uma forma rápida e eficaz... com a particularidade de o fazer através de uma das suas alucinações (para os devidos efeitos, daqui para a frente passarei a usar a palavra "aspecto" quando me referir a cada uma dessas alucinações). Assim, e para vos dar um exemplo, quando precisa de ir a Jerusalém, ele "imagina" Kayani (não faço ideia como isto se escreve), multilingue, que vai funcionar como tradutora. 

A primeira novela Legion, apresenta-nos Stephen, alguns dos seus aspectos (Tobias, Ivy e JC, por exemplo), a Wilson (o mordomo, muito ao estilo Batman) e ao seu modo de vida... é que, apesar dos aspectos serem uma espécie de alucinações, precisam de espaço físico pelo que Stephen precisa de muito dinheiro para ter, por exemplo, uma casa enorme (e vazia), comprar bilhetes de avião para que haja lugares vazios para os aspectos que o acompanham ou taxis para levar o JC a qualquer lado (é que como o JC tem problemas com o facto de não ser real, em vez de apanhar um uber imaginado, acaba por entrar num uber de qualquer pessoa real e ir parar onde não deve!

Pronto já afugentei 99% das pessoas que começaram a ler este post e para ti, que ainda cá estás, deixa-me que te diga: isto só é estranho no início, o BS tem a maravilhosa capacidade de nos fazer acreditar nisto tudo por um momento.

Os personagens (e aqui incluo todos os seus aspectos) são maravilhosos. É impossível não gostar do Stephen (e ter alguma pena dele - aquele cérebro é uma loucura), não querer um amigos como o Tobias (que, só por acaso é esquizofrénico), não revirar os olhos à Ivy e não rir com o JC. O resto da história não é tão interessante assim mas ouve-se bem. Ah, pelo resto da história refiro-me aos "casos" que Legion (por esta altura já perceberam o título, certo?) aceita resolver. Na primeira novela há uma câmara fotográfica que desaparece... uma câmara que tira fotos do passado. 

Na segunda História, estamos perante o desaparecimento de um corpo e na terceira percebemos finalmente para onde o autor nos queria levar deste o início.

Isto é ficção cientifica e Brandon Sanderson, por isso não é novidade que há nestas páginas muitas questões para reflectir. Os limites da ciência, ética, possibilidades, religião.

É inegável que um dos temas centrais é a realidade virtual, as suas potencialidades, os seus problemas, os seus limites. 

Para quem gosta de ficção cientifica fica aqui uma boa sugestão de um livro (não acho que ler os 3 contos em separado seja uma boa ideia) que pode permitir uma boa discussão para lá da história.

 

 

 

14
Nov18

E para fechar o assunto...

Patrícia

Isto tem sido um regabofe, aqui e por outros blogs, à conta do post anterior. Foi uma discussão interessante e divertida e chego à conclusão que tenho os melhores comentadores do mundo que, apesar de não concordarem comigo, são super educados e se dão ao trabalho de me responder e argumentar. 

De tudo o que li há 2 argumentos mais pertinentes que os outros:

1. Foi referido por quase toda a gente que uma opinião negativa pode ser construtiva - E sim, pode.

Eu até diria a coisa de forma diferente - uma opinião bem construída, mesmo que negativa, é sempre construtiva e interessante.

E acho que esse é o meu maior erro no post anterior: não insistir mais na necessidade de fundamentar, reflectir e pensar as opiniões - sejam elas negativas ou positivas.

2. O único argumento que abalou a minha decisão é o da Célia. E não é em relação à responsabilidade para com os leitores (convenhamos, vocês são uns 10 e quase todos me conhecem bem e já sabem o que achei de um livro antes de publicar o que quer que seja. Não vou estar a fingir que este é um blog muito lido, porque não é - excepto ontem mas isso foi cortesia do Sapo). Quando ela me disse "gosto de conhecer os gostos de um leitor na sua totalidade" o meu coração de blogger falhou uma batida porque percebi exactamente o que isso queria dizer. E eu tb gosto. 

Como vou conseguir conjugar com isso com este meu cada vez maior sentido de responsabilidade é algo que ainda se está para ver.

Mas para quem acha que vou começar a dar só opiniões positivas mesmo quando não gosto de um livro... bem, vocês não me conhecem bem, pois não? Mas podem estar descansadas, isso não vai acontecer.

 

07
Nov18

Falar bem ou mal, eis a questão

Patrícia

Com o poder vem a responsabilidade.

Em blogs (e outras plataformas digitais) como esta damos a nossa opinião sobre os livros que lemos e, numa escala maior ou menor, influenciamos outros leitores a ler (ou não), a comprar (ou não). E com isso vem uma dose de responsabilidade. As editoras há muito que o perceberam, os bloggers e os leitores também. E assim boa parte do marketing feito pelas editoras passa pelas famigeradas "parcerias" (que não são o tema deste post mas, para registo, é coisa que não tenho nem quero ter). E quer se goste ou não, quer se ache bem ou mal, a verdade é que esta comunidade tem algum poder e com isso tem alguma responsabilidade.

Este post é precisamente sobre essa responsabilidade. Ou melhor, sobre o meu entendimento dessa responsabilidade em relação aos livros de escritores portugueses.

Deixem-me começar por dizer que em relação ao tema "dizer bem ou mal de um livro" vs "opinião honesta" eu já mudei de opinião e tenho, ainda, sentimentos contraditórios.

Quando, há muitos anos, comecei esta brincadeira dos blogs (salvo erro, foi em 2006) , a minha ideia era apenas fazer um registo das minhas leituras. Achei piada à brincadeira de escrever sobre livros, a minha paixão, e adorei a possibilidade de encontrar outros leitores e de trocar opiniões. Este blog permitiu-me conhecer muita gente, entrar para um maravilhoso grupo de leitores, conhecer autores e, o melhor de tudo, fazer amigos. Muitos amigos. 

De uma forma um tanto ou quanto egocêntrica achava que era meu direito (quase dever) dar opiniões sinceras, quer fosse para elogiar, quer fosse para criticar. Há posts aqui a falar bastante mal de alguns livros (alguns até são ainda lembrados como tão divertidos que os levaram... a querer ler o livro para poderem ter opinião). Uma vez (até é capaz de haver por aí um ou mais posts sobre o tema) disseram-me que um blogger não devia falar de um livro se dele não gostasse. E alguém que faz (mesmo) crítica literária disse-me que só escrevia sobre livros de que tinha gostado. Confesso (ai, como a ignorância é atrevida) que aquilo me chocou. Como é que podia ser justo só falar bem de um livro? não, não, as opiniões devem ser dadas. É certo que nessa altura tinha uma ideia muito melhor acerca da minha própria capacidade enquanto leitora (ah, a arrogância da juventude) e a verdade é que quanto mais cresço e leio mais percebo o imenso caminho que me falta percorrer para ser isso que ambiciono ser "uma grande leitora"!

Hoje, anos depois, já não sou tão taxativa. Por um lado, não há nada tão divertido como desabafar e dizer mal de um livro de que não gostámos quando estamos com amigos à roda de uma mesa. Isso, garanto-vos, continuarei a fazer sempre. Mas quando penso que alguém não comprou aquele livro por causa da minha opinião, sinto que estou a prejudicar o autor. E essa é, cada vez mais e num país do tamanho de uma ervilha, uma responsabilidade que eu não quero para mim. 

Eu não tenho qualificações nem habilitações para ser critica literária (nem sequer ambição para tal). Eu não quero ser influenciadora - e se o for que o seja de forma positiva. Eu quero influenciar-vos a ler (aqueles que eu considero) bons livros. E tenho total noção que, se eu não gostar, isso não significa que seja um mau livro. Significa apenas que eu não gostei, que não é livro para mim. E sei que, muitas vezes, o problema é meu e não do livro. Quão justo é destruir esse livro por isso?

E antes que me digam que não é por uma opinião negativa que o livro não vai ser um sucesso vou ter que vos lembrar que se uma opinião positiva tem o poder de influenciar uma compra então, necessariamente, uma opinião negativa tem o poder contrário. E esse é um poder que eu não quero ter.

Ora (e lembrem-se que estou a falar maioritariamente de livros de escritores portugueses) se nunca irei dizer que adorei um livro sem que isso seja verdade começo (comecei há muito tempo aliás) a ter muito cuidado com o que escrevo quando gosto menos de um livro. Para já considero muito importante justificar a nossa opinião. É importante perceber porque é que não gostámos. E é importante, acima de tudo, pensar na nossa própria responsabilidade e pensar se valerá a pena, se será importante ou sequer relevante, dar aquela opinião negativa.

E neste caso, deixem-me ser parcial e sincera: eu defendo os nosso mesmo quando não gosto. Cada vez mais. Faço-o, não porque mo pediram, mas porque acho correcto.

Deixem-me só terminar com uma nota (ainda) mais polémica: quando pensarem em dar uma opinião negativa acerca de um livro de um escritor português pensem em quantas vezes pensaram ou disseram que "quem não gosta escusa de vir para aqui ser hater ou falar mal", "não gostam, bazem" porque "isto dá muito trabalho e vocês que não têm a capacidade de o fazer ainda têm a petulância de o criticar", pensem se querem para vocês a responsabilidade de um livro vender menos ou não vender e só depois, com base nessa reflexão, avancem para a publicação dessa opinião.