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Ler por aí

Ler por aí

03
Nov16

Desde a Sombra, de Juan José Millás

Patrícia

desde a sombra.jpg

 A premissa é simples: um homem, que nada tem, para não ser apanhado a roubar, acaba por (num centro comercial) se enfiar dentro dum armário. Esse armário é levado, com o nosso protagonista lá dentro, para uma casa onde vive uma família. E, só porque sim, esse homem continua a viver nessa casa, num armário, sem que ninguém saiba. Uma espécie de fantasma que, ainda por cima, arruma a casa toda e faz o jantar enquanto a família está fora.

 

150 páginas que contam esta história, que podia ser divertida só que não é, chega a ser angustiante, que podia ser simples, mas que de simples não tem nada. 150 páginas que contam uma história que não cabe em 150 páginas. Ou melhor, que só lá cabe porque o escritor é um génio com as palavras e que condensou a coisa de tal forma que deve ser impossível retirar uma frase deste livro sem desvirtuar a história.

n formas de escrevermos sobre este livro mas se escrevermos sobre todas arriscamo-nos a escrever mais do que estas 150 páginas. Por isso apenas vos falar do que mais me impressionou.

Logo nas primeiras páginas percebemos que toda uma outra realidade se passa na cabeça do protagonista. Paralelamente à vida real, uma vida vazia de gente e sucesso, este homem, na sua cabeça e de uma forma absolutamente consciente, mantém uma conversa com um jornalista. Ao mesmo que tempo que vive, imagina-se num programa de televisão a dar uma entrevista onde vai contando pormenores do seu dia a dia ou simplesmente histórias do passado. O público imaginário reage, as audiências sobem ou descem consoante o interesse da conversa, às vezes há até a necessidade de apimentar a coisa. Aquelas conversas imaginárias são fantásticas - e atenção, em nenhum momento do livro o homem acredita serem reais, ele está sempre consciente de que aquele homem, aquele programa de televisão, é uma criação sua, que só existe na sua cabeça.

Ao longo da leitura pensei várias vezes "deve ser extremamente cansativo viver na cabeça deste homem" mas a verdade é que é extremamente cansativo viver na maioria das nossas cabeças. Calma, eu não tenho amigos imaginários nem me imagino a ser trending topic por contar promenores escabrosos da minha vida... mas a verdade é que é inevitável, após ler este livro, pensar no mundo, às vezes ligeiramente diferente da realidade, que existe apenas dentro de nós e como temos a capacidade de fugir da realidade para um mundo só nosso.*

 

Mais um livro que recomendo sem reservas.

 

*ok, acredito que estejam agora convencidos que eu sou completamente maluca, um caso de estudo da psiquiatria, mas calma, isto é tudo teoria e literatura. A mente humana fascina-me.

03
Nov16

As viúvas de Dom Rufia, de Carlos Campaniço

Patrícia

As viúvas de dom Rufia.jpgQue livro surpreendente, este.

Carlos Campaniço leva-nos, mais uma vez, numa viagem ao Alentejo, na companhia de personagens inesquecíveis. 

Um homem, Firmino Pote, mais conhecido por Dom Rufia, é encontrado morto. Ora, o nosso Dom Morto foi criado por uns tios (Maria Teresinha e Homero Dente D'Alho) que por muito bem lhe quererem sempre lhe desculparam os disparates (aqueles que lhe deram, por exemplo, a alcunha de Dom Rufia).

Tudo se complica quando, ao velório, chega uma mulher que se diz viúva do morto. E mais, essa mulher, desconhecida na aldeia de Dom Rufia,  diz ter recebido a comunicação da morte através duma carta escrita por Homero Dente D'Alho dias antes do assassinato. 

Ora, está dado o mote para o livro. O tio, passa a velório no xelindró (exigem-lhe, obviamente, algumas explicações, chega a ser suspeito, afinal anunciou a morte antes dela acontecer) enquanto a tia vela o morto na companhia das sucessivas viúvas que vão aparecendo... e de Armindinho Costureirinha.

Afinal, Quem matou Dom Rufia? Porquê? 

Quem foi este homem com "viúvas" (sim, no plural) que não arredam pé do velório mais divertido da história da literatura mesmo depois de se saberam enganadas? 

E não me posso esquecer de Juan de los Fenómenos, um chileno que percorre o alentejo enquanto documenta fenómenos vários, desde um menino cujos olhos mudam de cor quando muda a estação do ano a um homem com o dom da ubiquidade. 

Divertido do princípio ao fim, este é um livro que nos deixa de bem com a vida. E ainda nos leva ao início do sec. XX, mostrando-nos pormenores deliciosos da vida rural alentejana. E, como a rir é possível falar de coisas sérias, Carlos Campaniço explora uma série de temas ao longo destas páginas. Seja a religião, a politica, os costumes das gentes ou simplesmente a capacidade de um homem se reinventar só pela força de vontade e de se perder pela bondade que não consegue evitar, este é, também, um livro de grandes temas.

E para mim, um bónus. Conheço boa parte daquelas terras, daquelas aldeias e vilas onde tudo aconteceu. Garanto-vos que me lembrarei sempre de Dom Rufia quando por lá passar.

Se tiverem oportunidade não deixem passar este livro. Este autor merece ser lido (Os Demónios de Alvaro Cobra é maravilhoso)