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Ler por aí

Ler por aí

12
Mai16

A Amiga Genial, de Elena Ferrante

Patrícia

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"Foi durante esse percurso até à Via Orazio que comecei a sentir-me claramente uma estranha, que a minha própria estranheza tornava infeliz. Crescera com aqueles rapazes, achava os seus comportamentos normais, a sua linguagem violenta era a minha. Mas havia seis anos que seguia diariamente um percurso que eles ignoravam completamente, e que eu, pelo contrário, enfrentava de forma tão brilhante que revelara ser a mais competente. Com eles não podia usar nada daquilo que aprendia todos os dias, tinha de conter-me, de certo modo autodegradar-me. Aquilo que eu era na escola, ali era obrigada a pô-lo entre parêntesis, ou a usá-lo à traição, para os intimidar"

 

Lenú conta-nos a sua própria história, contando-nos a história de Lila. Amigas, rivais, cúmplices, duas faces de uma moeda numa vida que se insiste em entrelaçar.

Ferrante é uma exímia contadora de histórias. Ou melhor, Ferrante é uma exímia contadora de vidas, de sentimentos, de emoções. De uma forma pungente pega-nos na mão e leva-nos para dentro da vida desta menina-mulher que é Lenú. E é, na minha opinião, essa maravilhosa capacidade de contadora de histórias que faz dela o fenómeno literário que é.

Este livro (e claro, a tetralogia de que faz parte) é a maior surpresa literária da atualidade. Resisti a lê-lo porque não sou a maior fã de best-sellers, consigo sentir-me sempre a ovelha negra dos leitores e ando, quase sempre, às avessas com a crítica literária. As expetativas são tramadas e o "A Amiga Genial" é a estrela da literatura. Conseguiu-o de duas formas - uma fenomenal campanha de marketing (que inclui o "de mão em mão") e um regresso à literatura clássica (talvez não o devesse chamar assim, mas é a única forma que o sei dizer). E eu fico feliz por ver o sucesso de uma "estória" bem contada. 

Senti-me novamente a ler o "Mulherzinhas", de Louise May Alcott (talvez não seja coincidência ser o livro favorito da infância de Lenú e Lila) ou o Terra Bendita de Perl S. Buck, livros que marcaram a minha adolescência. Numa altura em que a literatura contemporânea está numa busca permanente pela novidade e pela diferença, ler este "A Amiga Genial" é como voltar a casa, voltar ao conforto das leituras intemporais. 

Talvez por fazer o paralelo entre este livro e o Terra Bendita, fiquei surpreendida por não ter ficado fascinada pelo "A amiga Genial". Para dizer a verdade precisei chegar quase ao fim para me interessar por esta história e apenas por suspeitar que as Lenú e Lila adulta serão infinitamente mais interessantes que as versões infantis. Talvez, mas só talvez, dê uma oportunidade ao resto da série.

 

12
Mai16

Rio do Esquecimento – Isabel Rio Novo

Catarina

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Este livro tem uma letra gordinha e uma escrita rápida que se lê num instante.

Por volta de 1860, Miguel Augusto está doente e resolve voltar do Rio de Janeiro para o Porto, trazendo a “afilhada” Guilhermina e a vontade de perfilhar Teresa Henriqueta Baldaia (nome lindo que eu também sou Henriqueta), filha da fidalga Camila Rosa Emília Baldaia que Miguel Augusto tinha desonrado anos antes. Há um bocadinho de “O Conde de Monte Cristo” quando Miguel Augusto volta do Brasil mas não vem para se vingar, embora voltar milionário já deixe toda a gente à sua volta, ricos e pobres, bem azedos.

Na contra capa Nuno Júdice fala em “tom novelesco da prosa camiliana” mas para mim é Camilo Castelo Branco encontra Edgar Alan Poe e vão os dois beber um café. Não vou fazer estragadores mas há 3 momentos na história em que dizemos - eh lá!! – e vamos reler para confirmar.

Então, Miguel Augusto instala-se no Porto num palacete chamado a Casa das Camélias (diz que a camélia é a flor da cidade do Porto) e contrata como governanta, Maria Ema Antunes, cruel e vil, aliás há uma cena em que parece mesmo a Cruella de Vil mas em vez de dálmatas fofinhos, têm de ler, já disse que não vou fazer estragadores. Ema tem um primo, Nicolau Kuntegard Sommersen, que perdeu a fortuna e assim passa a ser o par ideal para casar com Teresa. Nicolau ao princípio pareceu-me bem bom, dinamarquês, viking, alto, imponente e “muito lido” mas rapidamente se torna um chato, depois há ali um dos momentos eh lá!! mas está apaixonado pela mulher do melhor amigo e é um grande, enfadonho bocejo. A prima Ema é sempre coerente, acha que todos são medíocres e odeia toda a gente: “Ema sentiu o desaforo da velha como uma bofetada, ..., prometeu a si própria, de futuro, incluir os velhos e os pobres no seu ódio especial”. Tive pena que a Guilhermina fosse sempre tão apagadita durante toda a história, ela é mencionada logo na primeira página e esperava mais. A senhora Maria Adelaide Clarange, paixão de Nicolau, é uma grande sonsa.

Conheço um bocadinho do Porto e gostei de ir reconhecendo no meu mapa mental as ruas mencionadas, a ponte pênsil, sei onde ficava o Palácio de Cristal. A comparação entre o Porto e o Rio de Janeiro está excelente, a descrição da evolução da noite no Porto também. O título é totalmente compreendido e explicado ao longo da história que anda para trás e para a frente no tempo e faz pessoas que já morreram aparecerem novamente para contarem mais um pedacinho do que se passou. De tudo dispensava a poetisa Matilde Engrácia de Sousa e Ávila e o Epílogo, sei que estão lá com um propósito porque o narrador/escritor assim nos diz, “Não pensem que um escritor consciencioso escreve uma linha que seja com o intuito de encher papel” mas não entendi o porquê, falha minha com certeza.

Concluindo está muito bem esgalhado, sim senhora.