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Ler por aí

Ler por aí

12
Fev16

Os Interessantes, de Meg Wolitzer

Patrícia

interessantes.jpg

 

 

Crescer com o peso de aos 15 anos ter decidido ser “interessante” pode ser o estímulo certo para se tornar um adulto de sucesso ou a receita para o desastre.

Jules, Ash, Ethan, Goodman, Cathy e Jonah são seis adolescentes que se autointitulam de “os interessantes” porque a promessa de talento que vêem (eles e os outros) em si é forte o suficiente para tal.

Ao longo destas muitas páginas (que se lêem num instante) vamos conhecer o percurso destes seis (mais de uns que de outros). Dos 15 aos 50.

É caso para dizer que a realidade venceu a ficção. Este livro pode ser completamente ficcionado mas retrata a realidade de uma forma que me agarrou por completo. A inveja é o primeiro dos sentimentos que vemos explorados aqui. A autora começa desde cedo a brincar com a verdade, com os valores e com a nossa própria perceção acerca dos outros (e no fundo acerca de nós mesmos). Jules, o fio condutor desta história, é uma personagem extremamente bem construída e complexa e é sob o seu ponto de vista (na maior parte do livro mas não sempre) que vamos acompanhando a história dos seis interessantes.

Falemos de talento. O que é melhor, tê-lo e vencer? Descobrir que afinal não se tem?  Tê-lo e não ter a sorte/capacidade para o desenvolver ou deliberadamente ignorá-lo? Falemos de amizade. Pode a amizade sobreviver à inveja? Pode a amizade sobreviver à rejeição? Pode a amizade sobreviver ao amor? Falemos de amor: pode o amor vencer mesmo tudo? Pode o amor sobreviver aos segredos? Pode o amor sobreviver à rejeição? Falemos de dinheiro, de carreira, de feminismo, de família, de valores, de crime… Falemos de tudo o que nos passar pela cabeça, falemos de realidade ou de ilusão.

Falemos acima de tudo de perceção e de expectativas, de ajuste às expectativas inerente ao crescimento.

Escuso de vos dizer que gostei muito deste livro e que, como tal, é muito difícil escrever algo de coerente sobre ele. Leiam.

 

10
Fev16

Conversas (sur)reais #1: Há horas próprias para ler?

Patrícia

Conversa real com um colega (cujo turno começava às 10h):

 

Colega 08:09:

Bom dia!!! É verdade... já a pé! Olha vou ajudar-vos... pode ser?! Assim sinto-me útil...

Eu 08:09:

bom dia

estás maluco?

Colega 08:09:

Epá... ter filhos é levantar às 6:30 e pronto para a vida... :)

Eu 08:10:

vai ver um filme

ler um livro

e depois queixam-se que não têm tempo e que eu é que sou viciada no trabalho

Colega 08:10:

Ler um livro??? Mas quem é que lê um livro às 8 da manhã?! :)

Eu 08:10:

hummppfff

(eu? tantas vezes)

Colega 08:10:

:)

Pois... só tu... :) Eu não... de manhã nunca... só à noite.

 

Sim, leio de manhã, à tarde ou à noite. Na hora de almoço, nos transportes públicos e em qualquer fila onde esteja parada. E sim, é assim que “tenho tempo” para ler.

08
Fev16

O Coro dos Defuntos, de António Tavares

Patrícia

O coro dos defuntos.jpg

 

É impossível não começar a leitura deste livro com imensas expectativas. O vencedor do Prémio LEYA será sempre analisado, comparado, esmiuçado. Como leitura, leio os prémio LEYA com curiosidade e tento formar uma opinião imparcial. A qualidade de um livro que ganha este prémio é indiscutível pelo que o que resta é a opinião emotiva de cada leitor.

Diz ela que naquela terra da Beira, onde faunos havia tal como o Aquilino os tinha predito, as pessoas eram feias e duras. E dizia que o mundo é feito de gente que ainda não é bem gente ou então já está muito para além dela. Os da cidade e de outras paragens não conheciam o que isso era. Não ouviam os lobos nem sabiam do saltitar manhoso das raposas entre as giestas. Não adivinhavam que havia espíritos em todas as coisas, fosse nas águas do rio, nas árvores ou até nas cinzas de uma fogueira, e que os antigos permaneciam entre os vivos, apesar de os enterrarem num cerro a duas léguas dali.

Pág 6

Fosse a linguagem deste excerto exemplo da praticada em todo o livro e teria ficado fascinada. Com o intuito de evocar Aquilino Ribeiro e a sua linguagem riquíssima, cheia de regionalismos, este livro está pejado de expressões e palavras que me obrigaram a ir ao dicionário (demos graças pelos ebooks que nos permitem o acesso imediato ao dicionário, que isto de ir ao glossário no final do livro não é para mim) e me dificultaram a leitura, tornando-a lenta, fraturada e sinceramente, com menos interesse do que aquele que teria tido noutra circunstância.

Mas será difícil esquecer Manuel Rato, um filósofo escondido dentro de uma pedra, ou a avó d'Ela, parteira e cangalheira, misto de sabedoria e superstição. E a Olivita? De santa a amante. E Tritão, cheio de sabedoria atrás do balcão?

Histórias avulso contadas com graça e sempre salpicadas pela História. Delicioso como, quase sem nomes e referências, a História pré-25 de Abril está contada naquelas páginas. Este registo histórico, quase um jogo de escondidas, foi o que mais me agradou neste livro.

Mais do que uma história com princípio, meio e fim (apesar de haver um crime a desvendar) este é um livro de pequenas histórias, episódios que nos mostram a vida num Portugal rural, onde tudo é (demasiado) lento a chegar.

Sendo eu duma aldeia tenho sempre alguma dificuldade em reconhecer estes retratos pois, do que conheço e me contaram, lá pelas serras algarvias as coisas eram diferentes. O pré-25 de Abril viveu-se com ansiedade, o medo da PIDE era uma realidade e informação chegava.

Aprendi bastante com este livro.

Pela primeira vez, olhou com atenção os homens, vistos do lado de fora da taberna. Quem diria o quanto tinham mudado e como estavam diferentes? Para perceber isto era preciso estar além, ver os outros como se se fosse também um outro, um estranho dentro de si, alguém que não tinha feito parte daquele teatro, o que significava ter mudado. Imaginava que, noutros tempos, os homens deveriam nascer e morrer sendo sempre os mesmos. A mudança das coisas fazia-os alterarem-se, e eles próprios provocavam novas mudanças, ficando sem se saber a verdadeira origem de se trocar a volta às coisas. 

    Já dentro da taberna, o Tritão anunciou que havia um copo por conta da casa para se fazer um brinde. E foi assim, de copo na mão, bem erguido, que os homens atónitos ouviram o dono da tasca dizer: À mudança do mundo!

Pág 190

Vá, vão lá descobrir quem é que, afinal, matou a Chichona!

Pág. 2/2