Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ler por aí

Ler por aí

07
Nov15

SALTO MORTAL - Marion Zimmer Bradley

Catarina
Que livro perturbador. São 878 páginas cheias de palavras, e eu ando aqui às voltas para encontrar meia dúzia que descrevam como este livro me esmagou.
Já conhecia Marion Zimmer Bradley, as Brumas de Avalon fazem parte da minha estante, foram lidos e relidos, mais uns quantos do mesmo universo. Também sabia deste Salto mortal, é um dos preferidos da senhoria aqui do estaminé, minha amiga Pat com quem falo de livros desde sempre, estava preparada para não haver magia mas não estava preparada para tanta brutalidade, há mortos, há feridos, há dedos entalados, violência física e abusos verbais.
Os nossos braços ficam a doer e não é do peso do calhamaço é da força que fazemos para não cairmos do trapézio. A escrita é tão expressiva que viajamos, com o circo pelos EUA, nos finais dos anos 40 princípio dos anos 50 mas as angústias, as dúvidas e encruzilhadas que encontramos são intemporais.
Conta a história de Tom Zane da família dos domadores de leões que quer ser trapezista e é adoptado pela família de trapezistas Santellis Voadores. O seu mentor é Mário (Matt) Santelli, estrela da família, trapezista maravilha capaz do triplo salto por quem Tom se apaixona. Esse amor é correspondida por Mário e o nosso coração fica a doer da força que fazemos para que o salto mortal que Mário e Tom fazem na vida do dia a dia para estarem juntos, tal como no trapézio, não os faça esbandalharem-se. Na época da história a homossexualidade dava cadeia ou colocava pessoas na lista negra.
Acho importante mencionar a diferença de idades dos dois rapazes. Tom tem 15 anos (a caminho dos 30) e Mário 23 e, embora esta diferença de idades seja atenuada na segunda parte do livro quando Tom regressa do exército, ela existe.
Para além disso a história dos dois não é daquelas fofinhas cheia de coraçõezinhos e outros diminutivos, para além da dureza dos treinos no trapézio há violência em algumas partes. Decididamente dá que pensar.
 Apesar do fio condutor do livro ser a história de Mário e Tom, todos os restantes personagens são igualmente ricos. Tom Senior e Beth Zane domadores de grandes gatos cuja história nos deixa atordoados. Papa Tony Santelli o avô da família que dirige os voadores como um excelente maestro que nos emociona. Tio Ângelo o base de apoio em muito mais do que o trapézio que nos deixa estupefactos e a perguntar, em mais do que uma situação: “como é que ele foi capaz?!". Johnny com as ideias novas e arrojadas, Stella a executá-las e ambos a criarem fricção na estrutura dos Santelli Voadores. Liss com as suas angústias de mãe trabalhadora/boa esposa e uma das minhas preferidas, Lúcia (Lulu) mãe de Matt e Johnny:
Quando eu trabalhava na pista central ,as mulheres não tentavam fazer os exercícios mais difíceis. Esperava-se que fôssemos bonitas e graciosas e não que mostrássemos os músculos.
-Em termos de pura forma, nunca houve ninguém – ninguém! – como tu Lulu.
Tu eras uma bailarina voadora.
Lúcia sorriu.
-E se se tiver em conta que eu tinha tido quatro filhos em cinco anos...
Lulu não deixa o trapézio por causa dos filhos mas sim porque cai do trapézio e quase se mata.
Ela foi a melhor de sempre, sabias? E recorda-se bem disso, se bem que aja como se a única preocupação fosse não deixar arrefecer o esparguete.
E há mais pessoas da família e da família alargada do circo que contribuem para acreditarmos não só neles, nas suas histórias mas também no mundo do circo e na época  em que vivem.
 

 

Quando damos por nós viramos 878 páginas e ficamos a pensar nelas durante muito mais tempo do que o tempo que as levamos a ler.
03
Nov15

Curtas #16 (2015) : Escrever um livro

Patrícia
Não, não estou a pensar escrever nenhum, não se preocupem. Mas apeteceu-me vir falar do assunto.
Enquanto leitora e "blogger" tenho sempre uma opinião sobre um livro. E dou-a. A tentação de amenizar a coisa é tanto maior quanto maior é o carinho que me liga aos escritores. Como se dá uma opinião menos positiva a um miúdo que ainda agora começou a escrever? Como podemos separar o que achamos da pessoa do que achamos do livro?
É muito bonito pensarmos que a nossa opinião é absolutamente sincera e imparcial mas a verdade é que não é fácil opinar quando sabemos que alguém interessado vai ler a nossa opinião. Não é fácil dizer na cara de um escritor: olha, desculpa mas achei o teu livro uma treta.
 
Mas como raio um escritor melhora se não for estimulado para isso? Se não lhe forem apontadas as falhas? Se não tiver opiniões diferentes do: "és o melhor da tua geração"?

Ninguém gosta de ter opiniões negativas (basta vermos o que acontece quando alguém se atreve a ter uma opinião diferente) mas não serão essas as mais importantes? As que fazem crescer?


Pág. 2/2