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Ler por aí

Ler por aí

17
Fev19

A estranheza de gostar de ler

Patrícia

Por mais estranho que pareça (e para mim, "não ler" é um conceito estranho) há quem se interrogue como é que alguém gosta de ler. Eu sei que nenhum leitor deste blog acha estranho gostar de ler mas tenho a certeza que todos já se depararam com esta questão: Porque lês?

É demasiado simples e redutor responder "porque gosto". Provavelmente cada leitor terá as suas próprias razões. Eu sei que tenho as minhas. 

Ler é, para mim, um modo de vida. Não exagero quando digo que ler já terá, provavelmente, salvado a minha vida. Talvez "salvar a vida" tenha um toque de exagero. Mas digo com 100% de certeza que ler ajudou-me a manter a sanidade mental em todos os períodos negros da minha vida. E já tive vários.

Quando tinha medo era nos livros que ganhava coragem. Quando me sentia sozinha era nas páginas dos livros que encontrava amigos. Quando precisava chorar e não o podia fazer abertamente era através do sofrimento das personagens que me permitia exteriorizar essa tristeza. 

A possibilidade de fuga oferecida por uma história emocionante é uma das mais-valias da leitura. E desde miúda, sempre que se tornava muito difícil viver na minha própria pele, era dentro de um livros que mergulhava. Pelo menos por algumas horas.

Conheço muito bem a circunstância de não ter tempo para ler. E isso desestabiliza-me de uma maneira muito similar à falta de tempo para dormir. São coisas de que preciso para me manter viva. 

A verdade é que quando estou mais triste, tenho mais trabalho ou tenho um problema qualquer, leio mais. Não leio, necessariamente, muito, até porque são épocas de uma grande pressão e em que as 24 horas do dia não chegam. Mas leio mais. Leio em cada momento. Leio na pausa do café, leio à hora do almoço, leio enquanto conduzo (calma, falo de audiobooks, não sou louca), leio enquanto espero que uma peça de teatro comece (true story). Eu que, normalmente, sou fã de não fazer a ponta dum corno e aterrar no sofá a ver uma má série de tv, nessa épocas... leio. Faço-o porque sei que ler vai permitir que o meu cérebro se desligue do que quer que me esteja a incomodar, faço-o porque ler é o meu porto seguro, faço-o porque funciona*. 

 

 

 

*Mas nunca se esqueçam que ler não substitui um bom amigo, um médico ou um psicólogo. 

 

13
Fev19

Por amor aos livros

Patrícia

Diz a editora Maria do Rosário Pedreira, no seu Horas Extraordinárias:

Por mais que Umberto Eco nos tenha assegurado em variadíssimas entrevistas que o livro nunca vai morrer, a verdade é que todos os dias me convenço mais de que, se as coisas não mudarem muito depressa em relação ao excesso de atenção dada por jovens e adultos aos dispositivos digitais, a leitura a sério (não só em papel, mas em profundidade, com as sinapses todas a funcionar) tem os dias contados (excepto para a pequena minoria que não desiste, e ainda bem).

Ora, também eu me convenço que sim, as coisas têm que mudar.

Por um lado não acredito que o livro alguma vez vá morrer. Basta olharmos para o exemplo de Portugal e percebemos que o principal interveniente da coisa não o faz por dinheiro. Falo, obviamente, dos escritores. Os que conheço escrevem por amor à escrita, escrevem porque querem e têm que escrever ou por qualquer outra razão que eles lá sabem mas , parece-me, não é por dinheiro, que raros são os casos que podem "viver e comer" do que ganham com os livros. Há quem traduza, há quem edite, há quem faça outra coisa qualquer... mas por cá, não se vive da escrita. Aliás, isto é tão assim que há quem ache que escrever não é bem uma profissão e que não há mal em pedir um texto, só por favor... A verdade é que um dos problemas é esse, é que escrever não é bem uma profissão mas devia ser. 

Por outro lado, não sei se acredito bem nessa história de haver menos leitores... Acho que até há mais, mas há mais livros, outros formatos e, acima de tudo, uma democratização das leituras, uma acessibilidade diferente. E é aqui que, na minha opinião, reside o problema.

Não é a leitura pela rama (que a há), nem os maus livros (que também os há), nem os dispositivos electrónicos e a atenção exagerada que os jovens e adultos lhes dão (que dão, é certo) que está a matar o livro. O que, para minha grande tristeza, está a sucumbir, é a edição em português. E com isso, a edição de livros escritos por escritores portugueses. 

Deixem-me dar-vos o meu exemplo.

Sou leitora, gosto de ler em português e livros de escritores portugueses (cerca de metade dos livros que leio são de escritores portugueses), compro mais do que leio (e lerei, num mau ano de leituras, entre 20 a 30 livros por ano). Compro parte dos livros em formato digital (sejam ebooks ou audiobooks) e parte em formato físico (gosto muito de ter uma, ou várias, estantes cheias de livros). Tenho a sorte e o privilégio de poder comprar os livros que me apetece e a minha consciência é uma treta e não me permite fazer downloads ilegais.

Mas a verdade é que os livros são caros, estão acessíveis com uma facilidade tremenda - qualquer nabo  informático tem acesso a todo os ebooks e audiobooks que quiser sem gastar um tostão (especialmente se ler em inglês ou não for esquisito com o PT-BR) e a maioria dos jovens ganha uma miséria que mal lhe dá para ir beber um copo ao fim de semana quanto mais para comprar livros - que estão, seja através de downloads ilegais ou de uma biblioteca, plenamente acessíveis de borla.

A questão nem é ler ou não ler... é comprar ou não comprar! E enquanto todos nós - leitores e editores - não tivermos consciência disto e não mudarmos alguma coisa, a coisa vai piorar.

Não me venham com merdas: antigamente lia-se mais? Não me façam rir. A sério, não façam. Uma elite lia mas a maioria? Não, sorry mas não. 

Lê-se o suficiente? Não, nem de perto nem de longe. Mas lê-se mais do que se lia.

Antes comprava-se em livrarias. E ia-se à biblioteca.

Agora, compra-se em livrarias e alfarrabistas, vai-se à biblioteca...compra-se (e vende-se) no OLX, facebook, alfarrabistas (sou fã), livrarias, livrarias online, "saca-se da net", troca-se com amigos  (também sou fã), compra-se em ebook, em audiobook, manda-se vir de sites de troca.

E muitas vezes faz-se isto porque se quer ler logo e as traduções tardam, porque se vive no presente e no futuro e esperar é uma seca, porque se os outros lêem, nós também queremos ler.

Eu não tenho soluções.. faço a minha parte, comprando livros em Português, não alinhando no que chamo carinhosamente de "mafia dos livros no facebook" ... mas faço-o porque posso, essa é que é a verdade. 

 

 

 

12
Fev19

Quem disse que eu não sugiro livros para o dia dos namorados?

Patrícia

Já vos disse que oferecer um livro a um leitor é uma prova de amor e não quero que pensem que não ligo ao dia dos namorados por isso aqui vim fazer-vos algumas sugestões de livros para oferecerem aos e às "mais-que-tudo".

Em primeiro lugar: Senhores, a não ser que saibam que a v/ namorada adora aquele/a autor/a fujam a 7 pés dos livros que vos são sugeridos pelas livrarias. É verdade que alguns deles até podem ser bons mas a maior probabilidade é que comprem gato por lebre. Fujam dos livros com fitinhas, saquinhos, corações ou outros que tal. 

Confesso que quando pensei em escrever este post o primeiro livro que me veio à cabeça foi o "Em parte incerta" de Gillian Flynn mas depois achei que era esticar a corda e que não estava a passar a mensagem certa. Assim limito-me a sugerir o Americanah, da Chimamanda Ngozi Adichie (também pensei no A cor do Hibisco mas também achei que não seria exactamente o ideal... mas é um grande livro) e o A história de uma serva da Margaret Atwood. Para os mais românticos (e para que não digam que não há aqui um grande amor*) sugiro o E tudo o vento Levou, de Margaret Mitchell, Orgulho e preconceito, de Jane Austen o Norte e Sul, de Elizabeth Gaskell,  Terra Bendita de Pearl S. Buck ou O (maravilhoso) Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.

 

 

* Não garanto que acabem bem, mas que há amor aqui, há!

 

07
Fev19

Interlúdio

Patrícia

Ontem foi dia de futebol, que é como quem diz, dia de leituras lá em casa. É sempre assim, quando há jogos em canal aberto, na tv o jogo corre (às vezes bem para um, outras bem para outro) mas no sofá as pernas entrelaçam-se e enquanto ele vai vendo o jogo, eu leio e o gato dorme. Claro que quando há um golo ou uma jogada mais marcante, eu dou um olhinho e o gato apanha um cagaço e dá um salto mas no geral há aquele silêncio que é o do barulho já esperado e nesse barulho (a bem dizer nos outros barulhos também) eu leio. Tenho até uma certa pena que não haja mais jogos em canal aberto, não por mim e pelas minhas leituras mas pelos velhos que já não têm direito a sequer acompanhar os seus clubes do coração. Lembro-me sempre do meu tio que passava os domingos dentro do carro a ouvir os relatos do jogos do benfica (nunca percebi porquê no carro, ele lá deveria saber, se havia rádios com fartura em casa) e às vezes pergunto-me se ainda há quem vá ouvir para o carro ou cole a orelha à telefonia para ouvir os jogos. Há nas tv's (e, para dizer a verdade, em todos os sítios deste país à beira-mar plantado) demasiadas conversas sobre futebol e poucos jogos, os jogos já não são para os velhos nem para os pobres. Mas falava eu da leitura, que é das leituras que este blog é feito não é de coisas que não me preocupam nada como o futebol, nem de coisas que me preocupam muito como o facto de já terem morrido 9 mulheres às mãos dos homens da família, isto sem contar com uma bebé assassinada pelo cabrão do pai, que há coisas tão horríveis que custa a respirar quanto falamos delas, nem é feito de guerras e mais guerras que nascem todos os dias. É feito de livros e leituras e é nas leituras que esqueço a merda que o mundo é e que a idade adulta é tão diferente daquilo que julgava ser, o Peter Pan é que tinha razão mas ninguém lhe deu ouvidos e todos insistimos em crescer e depois dá nisto. Dizia eu que enquanto dava o jogo eu acompanhava um certo Edmond Dantés na sua pena de prisão no castelo de if e com ele sofria, como sofro sempre mesmo sabendo tudo o que vai acontecer, como vai fugir, de quem se vai vingar, as aventuras, as desventuras, os amores e desamores deste conde de quem gosto tanto. Dizia eu que é sempre bom voltar à companhia de velhos amigos, que o conheci há tantos anos e que lhe acompanhei a aventuras tantas vezes, tantas que várias páginas do livro estão soltas e vou ter que as colar com fita-cola mas pôr fita-cola naqueles livros dá-me pena mas não quero correr o risco de perder as páginas. Dizia eu que, de pernas entrelaçadas em quem escolhi para partilhar a vida e com um gato ao colo, reencontrei velhos amigos.

30
Jan19

A saga de Alex 9: A guardiã da Espada

Patrícia

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Deixem-me começar por dizer que não gosto da capa e não gosto da referência ao George Martin  Português. Estas duas coisas quase me fizeram passar ao lado deste livro. Resolvi dar-lhe uma oportunidade porque quero começar a ler mais ficção científica e fantasia portuguesa. E depois da acabar de ler o primeiro livro da trilogia (esta edição contém os 3 livros, o que é uma excelente ideia) não me arrependo. 

Em primeiro lugar deixem-me contextualizar este livro: foi publicado (e muito bem, no meu ponto de vista) numa colecção "Teen". É um livro pequeno, direccionado a adolescentes e é o início de uma saga de ficção científica. É um livro de construção do mundo. Ou, neste caso de mundos. 2 para ser mais precisa.

Uma das coisas que me atraiu, que considero extremamente relevante e importante é que o herói desta jornada é uma mulher. É importante para meninas e meninos que haja alternativa ao comum herói. Claro que há sagas em que a personagem principal/heroína é uma mulher mas, neste caso, a heroína é apresentada como uma lutadora, uma protectora, na verdade uma máquina de guerra. Outra coisa que me deliciou foi a total ausência de romance. Ah, como gostei disso. E sim, eu sei que ficou a ideia de um romance, que isso vai mudar nos próximos volumes mas não faz mal. Eu não sou contra todo e qualquer romance (euzinha, casada e feliz que sou). Só sou contra a inevitabilidade do romance. O romance, a existir, será secundário. Mesmo quando o amor se desenvolver e se intrometer no caminho, a minha aposta é que não será um amor romântico tradicional. 

Achei a apresentação dos mundos (a terra futurista - a parte sci-fi deste livro - e a terra medieval - deve ser daqui que vem a comparação com o Martin) muito bem conseguida. Quem lê este género de livro sabe que a primeira impressão é sempre de confusão e resistência mas a transição de "estou a ler um livro de fantasia" para "estou a viver esta aventura com a Alex" é rápida e natural.

Para já prefiro não falar muito acerca desta história que está, claramente, incompleta. 

O tabuleiro está montado, cada personagens tem o seu lugar. As primeiras alianças estão feitas. Para o bem e para o mal, os lados estão escolhidos (e claro que se espera ainda algumas surpresas neste aspecto mas a coisa não teria piada de outra forma) e os dados estão lançados.

Quem me dera ter tido este livro nas mãos quando tinha 15 anos. 

 

 

29
Jan19

A última ceia, de Nuno Nepomuceno

Patrícia

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A frase de Pablo Picasso "Os maus artistas copiam. Os bons roubam" ganha toda uma outra dimensão assim que percebemos a ousadia do autor que decidiu roubar um quadro. 

Eu sei que isto não é uma trilogia (pelo menos é o que o Nuno diz) mas a minha expectativa era que este livro se debruçasse na terceira "religião do livro" , o Cristianismo, uma vez que do Islamismo o autor tinha tratado no "A célula adormecida" e  do Judaísmo no "Pecados Santos". Ora, como iria o Nuno fazer isso era algo que me deixava na expectativa uma vez que o que não falta por aí são thrillers baseados em teorias, dos mais diversos géneros, relativas às personagens mais marcantes do Cristianismo. E o Nuno resolveu... roubar um quadro. Claro que não podia ser um quadro qualquer, ele tinha que escolher logo o "A última ceia".

Como leitora, impressionou-me a pesquisa que, uma vez mais, se torna visível a cada página. E a forma como toda essa informação nos é transmitida, sem nos maçar, nem nos aborrecer. Não conhecendo muito de arte (nem da comum quanto mais da sacra) agradeci o que aprendi e que essa ignorância não me impedisse de apreciar o decorrer da história.

Este é um livro diferente dos anteriores. Não é tanto o "quem" mas sim o "como" e o "porquê" que nos levam a ler página após página. 

A sinopse prometia-nos um romance. E um assalto. E uma história que não nos deixasse pôr este livro de lado. Claro que, quando começamos a ler um livro destes, estamos conscientes que vamos ser enganados. E depois do que o Nuno fez no "Pecados Santos", eu já não confio nas personagens criadas por ele (desculpa Nuno mas é verdade) pelo que estou de pé atrás a cada momento. 

O autor não roubou apenas um quadro (ou três, sequer). Como podemos ver pelas notas finais (que são, como o Nuno me disse, "como o nome indica, para ler no fim e não no início") também roubou vários acontecimentos à realidade. E isso fez-me olhar para determinados acontecimentos com outros olhos (a verdade é que não há ficção literária que bata a realidade). 

Eu sei que não vos falei da história, não é? Mas a verdade é que não vos quero estragar o prazer da leitura deste livro.

Uma nota final para um reencontro. O Afonso Catalão, apesar de não ser protagonista desta história, tem um papel aqui. E o Afonso é o meu personagem favorito de todos os livros do Nuno. Foi bom, muito bom, ver como ele (e a Diana) reagiram aos acontecimentos do livro "Pecados Santos". Uma das coisas que me irrita sobremaneira neste género de livros é que, na maioria das vezes, os acontecimentos passados, sejam ou não traumáticos, ficam no passado assim que são "resolvidos". Felizmente isso não acontece aqui. O Afonso está nestas páginas com todas as dores que trouxe do passado. E isso deu-lhe, uma vez mais, uma dimensão real.

Acho que fica apenas por dizer, se é que não o perceberam já, que gostei muito deste livro.

24
Jan19

Foi bonita a festa!

Patrícia

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Foi mesmo. Falo, claro, da apresentação do mais recente livro do Nuno Nepomuceno, o A última Ceia. 

A apresentação ficou, e muito bem, a cargo da jornalista e escritora Ruth Manus, do Presidente da Associação Portuguesa de Museologia, João Neto e do editor da Cultura Editora.

Não foi surpreendente ver o carinho com que tanta gente fez questão de ir à apresentação deste livro. Tantas vezes oiço realçar e elogiar a postura de respeito do Nuno em relação aos leitores e ontem percebeu-se o quão os leitores o respeitam também.

A escritora Ruth Manus foi divertida e simpática e arrancou de toda a gente boas gargalhadas, dando o mote para uma tarde bem passada. Deixo-vos abaixo um pequeno vídeo de quando ela resolveu fazer algumas perguntas ao Nuno. O Dr. João Neto foi, para mim, a grande surpresa. Sem peneiras algumas foi divertido e falou-nos um bocadinho de arte. E deixou-nos um muito importante recado: leiam este livro, apoiem a cultura e leiam, leiam, leiam. 

O Nuno... bem, o Nuno foi igual a si próprio. Simpático e meio encabulado, sempre de sorriso pronto e pronto a assinar todos os livros e a falar com todos os leitores.

Foi bonita a festa.

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22
Jan19

Vou ali à livraria e já volto

Patrícia

É dia 22 de janeiro e ainda não comprei nenhum livro este ano. Ao contrário do que estão a pensar não digo isto com grande alegria, como se estivesse a fazer um enorme esforço. Não estou.

Simplesmente não tenho tido tempo para ir a nenhuma livraria laurear.

É verdade que recebi um livro de oferta, o A última Ceia, do Nuno e que não tenho lido muito (o tempo, sempre o tempo, essa coisa tão escassa) mas a verdade é que ainda não comprei nada.

Raramente compro online (excepto ebooks, claro) porque gosto muito de ir à livraria e escolher um ou mais livros. Compro geralmente por impulso. Gosto de me deixar atrair por um título, por uma capa, por um nome e de ali ficar, um bocadinho, a ler a sinopse. Gosto de ir à procura de livros novos ou velhos dos meus escritores favoritos. Raramente compro um livro de uma lista. Claro que há livros que eu sei que vou comprar, mais cedo ou mais tarde mas estou a falar de outra coisa. Falo daqueles livros que vamos adicionando à lista porque ouvimos alguém falar deles ou porque vimos um post, ficámos interessados e escrevemos aquele nome num caderno. Se me interessar realmente, realmente, não vou precisar de listas e vou comprar o livro da próxima vez que entrar numa livraria. 

Também não faço nenhum esforço consciente para não comprar livros. Eu gosto de livros, gosto de os ter e gosto de comprar livros e não me sinto minimamente culpada por isso. Não compro por atacado, nem compro livros que não tenho intenção de ler, nem compro livros quando não tenho dinheiro para isso... por isso, porque raio me deveria sentir culpada?

A verdade é que é dia 22 e eu ainda não comprei nenhum livro. Tenho que ir à livraria.

 

20
Jan19

Quem lê como nós

Patrícia

As "pessoas dos livros" gostam de falar. Muito. Especialmente sobre livros.

Eu sou, também, uma pessoa dos livros. E também gosto muito de falar (bem, já gostei mais mas isso é outra história, talvez um dia fale sobre isso).

Com esta brincadeira dos blogs (e se eu for lá atrás, ao meu primeiro blog, percebo que já ando nisto desde 2006), mesmo sendo esquiva e quase anónima, fiz imensos amigos. Tudo começou com o convite do Nuno para ir à Roda dos Livros, um grupo de leitores. A Roda dos livros e a Biblioteca onde nos encontramos tornou-se uma espécie de segunda casa onda me encontro comigo e com outros iguais a mim. Mais do que um encontro de leitores é um encontro de amigos.

Durante algum tempo juntei-me a um outro grupo de leitores, a Comunidade Leya ou Leya em grupo, em que aprendi imenso. Pela primeira vez tive leituras obrigatórias e não me dei mal. Tive oportunidade de conhecer escritores e de, tal como na Roda, aprender com quem sabe bem mais do que eu desta coisa chamada "Livro". Li livros que nunca teria lido de outra forma e senti-me pequenina ao perceber o quão pouco conheço da Literatura Portuguesa. Este grupo acabou mas ainda sinto saudades daquelas noites na Buchholz.

2019 começou e surgiu a oportunidade de passar uma tarde de chuva com um outro grupo de leitores. Pessoas dos blogs e dos canais que se juntam, com chá, risos e livros, para uma tarde de conversa e partilha. À Elisa, à Maria João, à João, à Vera, à Cristina, à Cris, à Isa e à Dora resta-me agradecer o terem-me recebido tão bem e terem partilhado comigo o seu tempo e os seus livros.

Se sinto que ler faz bem porque me permite fugir para outros mundos, fazer parte destes grupos é importante para a minha sanidade mental especialmente porque percebo que não sou tão alienígena como tantas vezes pareço. São horas de paz, de partilha e de aprendizagem. Não é, para mim, uma questão de aumentar a lista de livros a ler. É acima de tudo, ter a oportunidade de ouvir outras opiniões, outros pontos de vista. É ouvir o porquê de alguém ter pegado e gostado de um livros de que eu fujo a sete pés. É explicar aos outros porque um livro, um personagem me marcou tanto. E todas as pessoas dos livros sabem que este tipo de conversa só se pode ter com quem lê como nós.

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16
Jan19

A mão esquerda das trevas, de Ursula K. Le Guin

Patrícia

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Escrito em 1969, por Ursula K. Le Guin que com ele ganhou o Nebula e o Hugo, faz parte do ciclo Hainish mas lê-se perfeitamente a solo.

Andava com vontade de pôr as mãos neste livro há muito mas há livros que nos fogem. Começo já por vos dizer que gostei muito mas que preciso relê-lo. Há livros assim, que precisam ser lidos e relidos. Posso dizer-vos que assim que o teminei voltei a ler os primeiros capítulos. 

Não sei do que estava à espera (sou leitora de fantasia mas não sou grande leitora de Ficção ciêntifica - estou a mudar isso) mas não era disto. E ainda bem. 

Esta é a história de Genly Ai, nativo do planeta terra, que vai em missão (em nome do Ecuménio - o orgão governativo interplanetário) para Gethen (ou Inverno), um planeta que, tal como o nome indica, vive numa era glaciar. 

A missão? Convencer as nações daquele planete a juntarem-se ao ecuménio e assim estabelecerem, com os restantes 84 planetas, relações comerciais, de partilha de tecnologia e de comunicação. Não há invasões nem as haverá: um único homem é enviado como prova disso. Tempo é coisa que não falta ao Ecuménio (afinal o planeta mais próximo está a 17 anos-luz de Inverno).

Assim, temos Genly Ai a tentar convencer Karhide (principal região de Gethen) a juntar-se à coligação interplanetária de forma a que Orgoreyn e as restantes regiões do planeta lhe sigam o exemplo. Desde o início que o principal apoiante de Genly é Estraven que não só acredita nele como apoia a sua causa junto do rei. Mas na véspera da audiência com rei de Karhide, Estraven retira-lhe o apoio...

Gethen, para além de ser um planeta inóspito e gelado, tem a peculiariedade de que os seus habitantes são andróginos e apenas uma vez por mês entram em Kemmer, um período de sexualidade activa onde podem assumir o género feminino ou masculino. A vivência destes períodos de sexualidade activa é de tal forma aberta que não há crime sexual em Inverno. E o incesto é permitido.

Uma pausa para reflectir um bocadinho nisto. Um ser que pode ser mãe de um filho ( quando engravidam assumem 9 meses de género feminino) e pai de outro. 

Aquilo que mais chocou Genly quando chegou a este planeta foi precisamente esta questão. Como se relacionar com outro ser que não é homem nem mulher mas ambos simultaneamente?

Quais são as consequências sociais desta androginia?

Ursula K Le Guin pensou esta sociedade e estes seres. E nós, leitores? Como os conseguimos imaginar? Em primeiro lugar é simples, nós temos uma palavra para isto mas na prática é muito mais difícil: só temos os pronomes ELE e ELA para usar  e nenhum deles é neutro por isso, queiramos ou não, usamos o pronome pessoal MASCULINO para cada um dos habitante de Gethen. Para além disto (patente em cada página deste livro) temos a associação de características masculinas e femininas extremamente estereotipadas - várias vezes temos Genly a dizer que viu características femininas em Estraven ou no Rei - sejam doçura ou vontade de mexericar, por exemplo.

Uma das partes menos conseguidas do livro que, ainda assim, é uma excelente reflexão sobre igualdade e identidade de género (não consegui não fazer alguns paralelismos com o livro Orlando, da Virginia Woolf), é que todas as relações em Gethen (a não ser que eu tenha perdido alguma coisa, o que é possível) são heterossexuais - se em Kemmer, duas pessoas sentem atracção, uma manifesta-se como mulher, outra como homem. Isto torna-se bastante mais relevante na parte final do livro.

A escritora tenta imaginar uma sociedade sem tensão sexual, nem que o sexo ou o género, interfira nas decisões e na sociedade e isso é extremamente interessante.

Os jogos políticos também são uma constante ao longo do livro mas não se tornam uma questão tão proeminente como tudo o resto. Como todas as dualidade que são expostas ao longo destas páginas: mulher/homem, Luz/Trevas, confiança/traição, amizade/solidão, vida/morte.

Até aqui falei-vos, muito superficialmente, das questões que saltam à vista, que estão na capa e contracapa e em qualquer sítio onde se fale deste livro. Falta uma. Falta aquela que é, para mim, o verdadeiro tema deste livro, aquele que sobra depois de retiradas todas as camadas superficiais, as políticas, de género, culturais ou sociais: amizade. Por que a jornada de Genly Ai não pode ser dissociada da jornada de Estraven.

 

 

 

 

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