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Ler por aí

Ler por aí

25
Nov22

Gente Séria, de Hugo Mezena

Patrícia

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Miguel, o narrador deste livro tem a minha idade. Miguel viveu numa aldeia a sua infância, exactamente como eu. Miguel cresceu numa família católica exactamente como eu.

Bem, não exactamente, porque confesso não me ter sentido assim tão representada nas páginas deste livro mas talvez isso seja apenas demonstrativo da minha sorte. 

Sendo de uma aldeia e vivendo há vários anos na zona da grande Lisboa, sou frequentemente confrontada com a ideia que muita gente tem do interior, do isolamento total, da falta de informação, da "saloiice" no pior que a palavra tem e confesso que me irrito quase sempre, não gosto de estereótipos nem de certezas fechadas. E este livro está cheiinho deles. Desde a beata que prega mas na hora da verdade diz "Deus me perdoe mas não" até à professora que faz o bom aluno ir buscar-lhe o lanche e ainda lhe aquece as orelhas se se atrasar.

Se este "gente séria" vos passou pela mão, se leram alguma coisa sobre ele, será inevitável conhecerem de antemão a hilariante lista de pecados deste gaiato que nos conta a história. Miguel resolve escrever todos os dias os pecados, os seus e dos outros, numa contabilidade cristã que encaixa perfeitamente no desenho da igreja católica que o autor nos apresenta e que é fundamental neste livro. 

Mas o que parece, de início, apenas um retratado datado e divertido de uma aldeia perdida nos anos 80, torna-se algo mais escuro e sério a cada passo. E ainda bem, porque acabo esta espécie de opinião com a certeza que este é um livro que perde com a leitura individual e que se presta a uma enorme discussão. Uma discussão que é cada vez mais necessária na nossa sociedade, uma discussão que faça tremer tradições e algumas "certezas" que nos estão entranhadas enquanto sociedade.

 

 

 

 

08
Nov22

isto não é o que parece

Patrícia

Vou começar logo pelo disclamer: isto não é um post "no meu tempo é que era bom".

Mas...

Ando a ouvir o podcast Verdes Anos, em que o Ricardo Duarte tenta perceber como alguém se torna escritor. É inevitável começar com a parte em que cada um deles se tornou leitor e há, nesta parte, um denominador comum que é a disponibilidade de livros. Para além da disponibilidade de livros há a disponibilidade de cada um para se tornar leitor, que é outra forma de dizer que houve uma altura da vida em que não havia nada mais interessante para fazer que ler. 

Muitas vezes não queremos admitir mas não há nada como o aborrecimento para nos fazer leitores, para nos fazer descobrir o prazer que é viajar através de um livro. E é sobre isso que, hoje, quero reflectir.

Obviamente é importante ter exemplos, ver os pais, avós, amigos a ler. É importante ter livros em casa. É importante ter livros adequados à idade dos miúdos mas nada como uma tarde de aborrecimento e não ter nada para ler para dar a um miúdo a vontade, a urgência, de descobrir coisas novas.

Eu li imensa coisa que não era para a minha idade. Li livros que não percebi e que só mais tarde fizeram sentido. Aborreci-me muito, nas longas tardes de verão, nas longas noites de inverno. E encontrei muitos livros e escritores nestes períodos de puro ócio, em que precisava arranjar qualquer coisa para passar o tempo. 

Fiz-me leitora ao mesmo tempo que a minha mãe fazia o jantar. Juro, verdade. Ela não tinha grande tempo para me ler e eu queria mais mas os livros sem bonecos assustavam-me. Então ela punha-me a ler em voz alta, um capitulo por dia, enquanto ela fazia o jantar. Claro que isto durou uns 3 dias porque me cansei de esperar pelo tempo dela e queria saber o fim da história, foi-se o medo, veio a fome de livros. Fiz-me leitora a reler livros. Fiz-me leitora a procurar nas estantes lá de casa e da casa dos primos, livros que me interessassem. Fiz-me leitora ao passar tardes de verão, no vão da janela, a ler livros sem ordem, sem tino, só porque sim. Não me lembro de nenhuma proibição, apenas de uns pouco convincentes "isso não é para a tua idade" que me fazia imediatamente ler aquele livro.

Nunca deixei de ir para a galdeirice para ler... mas primeiro acabava de ler o livro e só depois rumava à rua e às brincadeiras - e isso era uma escolha minha. Nunca me disseram "lês demais", só "lês depressa demais, não deves perceber nada assim" (o que me fazia debitar resumos de livros e permitia que conversassemos sobre o assunto) ou "não lês suficientes autores portugueses" (coisa que só muito mais tarde admiti ser verdade).

Acho que só tempo dirá o que faz mais e melhor leitores e escritores, se a necessidade de procurar e descobrir, se a disponibilidade de livros e informação. Uma coisa que não muda com o tempo é que o exemplo é fundamental. Ver adultos a ler é importante.

03
Nov22

Diário de leitura #4 ou "raisparta não tenho tempo para ler"

Patrícia

É verdade. Estas duas últimas semana foram uma desgraça em termos de leituras, podia dizer apenas que não tenho tido tido tempo mas isso nunca é bem verdade, pois não? O tempo está lá, temos é prioridades diferentes. E confesso, esta semana tive prioridades diferentes, nomeadamente aterrar no sofá e descansar. Ando novamente a dormir mal e isso reflecte-se no meu estado de espírito (por outro lado estou a escrever este post antes de ir trabalhar, enquanto "faço tempo" para sair de casa). Dizia eu que ando a ler pouco, continuo muito lentamente a avançar com o livro "A mulher que correu atrás do vento" do Tordo, de que estou a gostar mas pelo qual ainda não estou apaixonada e não resisti a pegar no Histórias Bizarras, da escritora Olga Tokarczuk , que trouxe do encontro da Roda dos Livros a que fui, e do qual já li 3 ou 4 contos. Bem bons, só vos digo. E estranhos.

Já tinha tantas saudades de estar à roda de uma mesa, a rodar livros, a jogar conversa fora, que é como quem diz, a aumentar a lista de livros que quero muito ler a ponto de me deixar assoberbada mas extremamente feliz. Apesar de ler continuar a ser, para mim, uma actividade essencialmente individual, há poucas coisas tão boas como conversar sobre livros e leituras com quem compreende este amor.

Bom dia e boas leituras

28
Out22

Leve, leia, devolva

Patrícia

Já era noite quando fui à padaria comprar pão. Não uma daquelas padarias com montras bonitas cheias de mau pão. Uma daquelas padarias onde o forno é a lenha e se faz pão tipo alentejano e de onde saio com um pão quente, enrolado num bocado de papel rasgado de um dos sacos de farinha porque está demasiado quente para vir num saco de plástico. Uma daquelas padarias a sério e aquela que tem o melhor pão do mundo. Estranhei o "Gosto muito da nossa biblioteca" da M. (padeira e amiga de longa data) porque a biblioteca da aldeia nem merece esse nome. 

Fui ver (não caia neve do azul cinzento do céu mas, por acaso, chovia que "deus a dava") e era uma caixa linda do projecto "Leve, leia, devolva" com livros para partilhar.

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Acho que podem imaginar o meu entusiasmo. Claro que trouxe um livro para ler (A máquina do Tempo Acidental) e deixei por lá muitos outros para, espero, serem "levados, lidos e devolvidos". Um mês depois voltei, devolvi o livro lido, deixei mais uns quantos e voltei a trazer outro, desta vez o "A mulher que correu atrás do vento" do Tordo, que ando a ler.

Deixem-me tentar explicar-vos a importância desta caixa e a razão do meu entusiasmo, que não é apenas a não displicente alegria de partilhar livros e ler "de borla".

Esta aldeia, onde passei a minha infância e me tornei leitora, fica no meio da serra do Caldeirão e longe de tudo. Dizer que fica a 42km da sede de concelho não diz muito quando esses 42km são às curvas e não há transportes públicos (para terem noção só há 1 autocarro, aos dias úteis, parte às 07h15 e regressa às 19h15, aos fins de semana a aldeia fica "isolada"). A verdade é que um miúdo só de lá sai de carro. E isto implica que o adulto tenha tempo e vontade para tal. Na prática, ir a uma biblioteca nas férias é bastante difícil. Trocar livros com amigos também não é das coisas mais fácil porque há poucos miúdos. (para não falar de que nem todos lêem - no meu tempo, éramos bastantes e a única que lia era eu). A possibilidade de encontrar um livro diferente para ler pode ser muito importante para estes miúdos. Estas coisas (e as muitas outras caixas, caixinhas, cabines deste género por este país fora) podem fazer leitores.

Claro que nem tudo é positivo e há a possibilidade de, apesar da biblioteca municipal deixar e trocar os livros, as caixas estarem quase vazias (visitei uma outra destas caixas numa localidade diferente e era assim que estava, praticamente vazia), serem vandalizadas (roubadas, destruídas) ou simplesmente se desintegrarem (convenhamos, são muito giras mas que raio de ideia de fazem isto em madeira, ainda por cima de má qualidade ou mal tratada a ponto de às primeiras chuvas já estarem uma miséria, a lascar e empenar).

Mas a esperança contida nestas caixas supera largamente os possíveis pontos negativos. Um livro é uma possibilidade e cabem aqui muitos livros.

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15
Out22

Diário de leituras #3 ou a vontade que tenho de ler tudo

Patrícia

Nos últimos anos tenho andado meio arredada de algumas leituras. A vida acontece e deixei de ter disponibilidade mental para determinadas coisas, sendo a mais importante delas a leitura. Nos últimos 2 anos li acima de tudo fantasia, o meu género conforto, ficção cientifica e policiais. Volta e meia lá pegava num livro mais desafiante mas foram estes os géneros que me salvaram  quando precisava esquecer o presente, o mundo e limpar a cabeça. A vida continua a acontecer mas habituamo-nos a tudo, organizamo-nos e, de alguma forma, voltei a ler livros desafiantes e voltei a ter, sobretudo, vontade de os ler. A minha lista (se eu fizesse listas) de livros para ler é novamente enorme e diversificada. Voltei a ouvir podcasts sobre livros e isso também ajudou (ando a ouvir os Verdes Anos, o podcast do jornalista Ricardo Duarte, onde ele conversa com escritores sobre o percurso que percorreram até à publicação dos seus primeiros livros). Não me lembro da última vez que aguardei a publicação de um livro e agora isso acontece. Já tenho vontade de me enfiar numa livraria e ficar lá a escolher um ou dois livros. E a verdade é que nada disto acontecia há muito tempo.

Há dois anos, quando fui à feira do livro, comprei livros que sabia poderem interessar-me ou, pelo menos, ficar bem na estante, porque a verdade é que chegar a casa sem livros, que era o que me apetecia, ia levantar demasiadas perguntas, demasiada preocupação e eu já tinha que lidar com a constatação do facto de estar no fundo do poço, não precisava de lidar com perguntas. Nestes anos entrei muitas vezes em livrarias e saí de lá sem nada, por escolha e falta de vontade. No meu trabalho temos o hábito de oferecer uns aos outros, no aniversário, cheques oferta e claro que o meu é sempre para gastar em livros  e, apesar do meu aniversário ser em Fevereiro, só este mês o gastei.

A minha relação com a leitura sempre foi uma forma simples e eficaz de me perceber. Não sou como muita gente que deixa de ler quando está triste ou que lê menos quando está feliz; eu leio quase sempre, simplesmente  leio livros diferentes dependendo do estado de espírito. E este renovado interesse por livros de que vou ouvindo falar é o sinal que estou, lentamente, a voltar a ser eu.

Ah, Ando a ler o segundo volume do Livro do Pó, ainda não me decidi se é o melhor ou o pior livro da série. A acção passa-se 10 anos depois do Telescópio de Âmbar (isso foi uma boa surpresa, já que primeiro volume se passa 10 anos antes da história contada na trilogia dos Mundos Paralelos) e Lyra e Pan estão crescidos e bastante diferentes - e a coerência dessa diferença é aquilo que me faz hesitar. Acho que só vou mesmo decidir no fim. E também tenho lido alguns textos dos Evangelhos Apócrifos, traduzidos pelo escritor Frederico Lourenço, textos que sempre me interessaram. 

08
Out22

Diário de leituras #2 e outras minudências

Patrícia

E por falar com rapidez ou quantidade de leitura, tenho que admitir que estas semanas foram miserável nos dois parâmetros. Ao contrário do que pensava só em 2 dias consegui ler à hora de almoço (eu sou daquelas pessoas que gosta de almoçar sozinha com um livro) e tenho saído do trabalho tão cansada que apenas tive energia para as "obrigações". 

Se pensar que estive de férias até me parece estranho estar tão cansada mas, na verdade, é porque estive de férias que estou tão cansada. Este ano tirei férias a sério, daquelas em que descansar é uma prioridade, e isso não acontecia há mais ou menos 6 anos e agora o meu corpo reaprender a relaxar e livrar-se de algum cansaço acumulado e não quer outra coisa. O trabalho tem sido muito e barulhento e complicado (coisa que não vai melhorar) e, apesar de gostar muito do que faço, ando um bocado enervada. Tenho uma lista interminável de coisas para fazer (e curiosamente a maioria são coisas que me vão dar imenso gozo e que quero muito tentar) mas não consigo pegar em nada. Na verdade ando a fazer todo o meu trabalho aos bocadinhos porque sou constantemente interrompida para ir fazer outras coisas ou para ajudar alguém a resolver um problema. Uma das razões pelas quais sou tão fã do teletrabalho é que, em casa, conseguia efectivamente despachar o que tinha para fazer, nem que fosse antes ou depois do horário de trabalho (e como não perdia tempo em viagens inúteis isso não me tirava tempo da vida privada). Agora tenho tentado não trazer trabalho para casa - não me pagam para isso e iria efectivamente ter que deixar para trás algo de pessoal e não estou disposta a fazê-lo - mas a verdade é que não estou a dar conta do recado e isso bule-me com os nervos.

Mas voltando às leituras, um ponto alto da minha semana foi a noite em que simplesmente nem ligámos a TV e fiquei a ler em silêncio. O problema é que só consigo fazer isso quando o cansaço ainda não atingiu determinado nível.

E, perguntam-me vocês, o que andas a ler, Patrícia Maria?

O livro do pó, de Philip Pullman, uma prequela da série Os mundos paralelos. Comprei dois volumes (o terceiro ainda não saiu) desta série na feira do livro do ano passado e achei que estava mais que na hora de lhes pegar, afinal tenho a trilogia inicial bem presente após ter visto a série e relido o Telescópio de âmbar. Para já acho-o ligeiramente mais infantil que Os mundos paralelos mas igualmente bem escrito. 

Em audio ouvi, finalmente, Dwanshard. Esta a guardar esta novela de Cosmere para uma daquelas alturas em que precisasse mesmo regressar a Cosmere e foi desta. Soubesse eu que os protagonistas eram Rysn, Chiri-Chiri e The Lopen e acho que não tinha resistido tanto tempo. Já sabia que esta novela pequenina (na escala Sanderson, claro) ia ser um bombom para os leitores de Cosmere, ia trazer novidades e revelações fundamentais para completar este puzzle que é uma absoluta loucura do Sanderson e que nós leitores não apenas aprovamos como encorajamos. Há uma probablidade não irrelevante de morrermos antes disto estar acabado mas, bem, journey before destination, não é?

Entretanto li também Balada para Sophie, de Filipe Melo e Juan Cavia e é, de facto, maravilhosa. A história é um doce e o livro-objecto é daqueles de pôr em exibição na estante (e um presente muito especial).

Não sou uma grande apreciadora de novelas gráficas, leio-as demasiado depressa, não consigo concentrar-me nas imagens mas confesso que alguns "quadrinhos" desta história ficaram na minha cabeça. Acredito que, se algum dia, dali sair um filme vai ser qualquer coisa de extraordinário - tem, pelo menos, o potencial para tal.

Hoje é dia de livros. A roda dos livros começou finalmente a reunir em formato físico e, como não pude participar da última vez, hoje é o dia dos meu regresso. Vai ser fantástico, já sei.

                   O-Livro-do-Po-Livro-1-La-Belle-Sauvage.jpegbalada para sophie.jpeg

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01
Out22

O milagre da multiplicação de livros

Patrícia

O tema da quantidade de livros lidos é recorrente e geralmente polémico. Uma comentadora neste blog, a propósito do último post em que falei de 15 livros lidos, falou do "milagre da multiplicação de livros". Houve uma má interpretação (dela, que achou que eu dizia ter lido 15 livros em 2 semanas enquanto eu na realidade eu falava de "verão", o que na realidade inclui o período de junho a setembro, não chegando, ptto, à fantástica média de 4 livros por mês) e algum afinanço da minha parte que não tenho pachorra para este tipo de conversa. 

Mas este "milagre de multiplicação de livros lidos" é sempre um um tema recorrente e inclui sempre uma certa descrença de que aquela pessoa leu, de facto, aqueles livros todos naquele período de tempo. 

A mim surpreende-me logo a ideia de que dizer que se leu n+10 livros quando apenas se leu n. Mas admito que possa haver quem goste de acrescentar uns livritos às suas leituras, numa competição infantil e tola. Não é sobre isso que quero falar. Se não me interesso pela quantidade de livros alguém leu num mês  ou pela rapidez de leitura de alguém, ainda menos me interesso pelos livros que alguém não leu.

Mas quero falar um bocadinho sobre a rapidez de leitura, sim. 

Vou começar por dizer o óbvio: há livros de 400 páginas que se lêem num instante e outros que implicam uma dedicação de dias.

Outra coisa óbvia: há dias em que uma pessoa se consegue concentrar e devorar páginas e outras em que um mosquito nos distrai e não conseguimos passar da mesma página.

Não somos máquinas, temos sentimentos e estados de alma, gostos e interesses diferentes e inconstantes. 

Há livros para despachar, há livros para pensar. Há livros de leitura compulsiva, há livros que pedem tempo. 

Dou-vos dois exemplos, de dois calhamaços, um que li numa questão de dias/semanas, outro que levei um ano. Falo de qualquer um dos livros da série Stormlight Archives e do As benevolentes, qualquer um excelente mas com ritmos de leitura completamente diferentes. Ler fantasia, um tipo de história que me leva a mergulhar num outro mundo e ficar completamente alheada da realidade durante horas seguidas, é diferente de ler um livro que me magoa, enoja, entristece, horroriza a cada página. Um custa-me parar de ler, o outro não consigo consumir senão em doses homeopáticas. 

Ler um romance leve e que não implique grandes considerações filosóficas é diferente de ler um romance que me leve a querer parar para pensar, sublinhar, fazer pesquisa, saborear.

Para mim é importante ler todo o género de livros. Gosto de pegar num livro e lê-lo de uma assentada tanto como gosto de mergulhar numa série interminável de fantasia ou ler livros que me façam crescer como pessoa, reflectir, mudar.

Ler é uma actividade que faço ao meu ritmo, no meu tempo. Há meses em que leio muito, outros em que leio pouco. E está tudo bem.

26
Set22

uma espécie de diário de férias e leituras

Patrícia

Os dias começam a ficar mais pequenos que as noites e as minhas férias de verão acabaram. Há anos que não tinha férias, férias, mas este ano vinguei-me e consegui tirar uns dias para não fazer mais que ler e mergulhar quando o calor se tornava mesmo insuportável. Nas duas semanas intercaladas que tirei consegui ler vários e bons livros. Eu sei que ando muito preguiçosa para escrever opiniões e de todos só o Velhos Lobos teve direito a opinião a solo mas as leituras foram bastante interessantes.

Neste verão (com uma grande ajuda das férias mas não só) li o Chamavam-lhe Grace, da Margaret Atwood, onde a questão "será que Grace é culpada?" nos acompanha da primeira à última página já que conhecemos a história pela própria, sabendo apenas o que ela nos quer contar, e por olhos exteriores aos acontecimentos. É bom quando um livro não nos faz a papinha toda, nos obriga a pensar e nos relembra que é perigoso ter apenas certezas. Num contraponto, precisamente porque considero que nos levou pela mão, está o Canção Doce, da Leila  Slimani. Talvez lhe tenha pegado com demasiadas expectativas mas sinto que se a estrutura do livro não fosse assim, com o fim contado logo de início, a história não teria resultado. Ao contrário do Chamavam-lhe Grace, que aposta na indecisão do desconhecimento, na incerteza que acompanha todos os acontecimentos que não são testemunhados em primeira mão, este Canção Doce, opta por conduzir o leitor, migalha a migalha, apesar de sabermos exactamente o caminho. Não me conquistou.

Depois da depressão que foi o Canção Doce, li um livro fofinho e divertido, Lições de Química, de Bonnie Garmus, que vale pela leveza e sorriso  com que nos deixa.  E pelo Seis e meia. Conta a história de uma mulher que, se não é do seu tempo é certamente do nosso.

O livro da Paulina Chiziane que escolhi para este verão, Niketche, uma história de poligamia é, como já esperava, uma maravilha. Esta mulher escreve maravilhosamente e vou querer ler e ter todos os seus livros na minha estante. 

Culpa de Jeff Abbott foi um livro de circunstância. O meu marido começou a lê-lo, não gostou e eu quis perceber porquê. Tem vários clichés e alguma previsibilidade mas lê-se bem. Conta a história de uma miúda que não se consegue lembrar o que aconteceu no acidente que vitimou o seu melhor amigo e que vive com a culpa de ter sido a culpada da sua morte.

Olho da rua, da Dulce Garcia, não me encheu as medidas. Não consegui sentir empatia com nenhum dos personagens (o que, no caso, me parece uma boa coisa) e isso fez-me falta. Demasiado ressentimento por ali. E sim, talvez essa parte seja o verdadeiro reflexo da sociedade mas ainda quero acreditar que não.

A noiva cigana, de Carmen Mola (um pseudónimo Agustín Martínez, Jorge Diaz e Antonio Mercero), surpeendeu-me... não fazia ideia de que se tratada de um policial. É um bom livro, dentro do género.

Um tempo a fingir, do João Pinto Coelho (já sabem que está quase aí novo livro do escritor?) foi uma leitura de impulso. Eu gosto bastante dos livros deste escritor e sei que, mais tarde ou mais cedo, vou lê-los todos. Estava na praia a falar de livros com o meu primo e a namorada dele e falei-lhes do Sarah Gross e foi essa conversa que me levou a começar o Um tempo a fingir. Curiosamente, ainda não o tinha acabado quando fui à feira do livro ouvir o escritor numa conversa muito interessante com o João de Melo (que contou o final do livro mas eu perdoo-lhe o spoiler) sobre a linguagem quando se escreve de dentro ou de fora de uma história. O tempo a ouvi-los foi um ponto alto do meu verão. Hoje este livro ganha especial relevância porque Itália resolveu escolher dar a vitória ao partido de extrema-direita mostrando-nos o quão pouco aprendemos com a história. 

Uma das coisas que foi falada na conversa de JPC com JM foi o quão era difícil, através da linguagem, transmitir determinadas sensações. Dizia, e bem, o JPC que "todos já tivemos frio mas que, no contexto de um campo de concentração, frio é um conceito muito diferente deste que sentimos. Frio é uma coisa e aquele frio é outra completamente diferente". A literatura tem um papel fundamental na memória dos povos mas também tem o poder de suavizar determinados acontecimentos. A literatura ganhou o hábito de nos contar o holocausto de uma forma romantizada, levezinha, assim uma espécie de versão light para gente sensível e isso é coisa que me enerva solenemente.

Foi  por causa de uma conversa com as meninas da Roda dos Livros que peguei no A balada de Adam Henry, de Ian McEwan  um livro que nos conta a história de Fiona, uma juíza a quem cabe decidir se os pais de Adam têm o direito de,  de acordo com os costumes da sua religião, impedirem que um miúdo de 17 anos receba a transfusão de sangue que lhe pode salvar a vida. Um livraço.

Trouxe da Feira do Livro o A ilha de Sukkwan, de David Vann, um dos livros mais sombrios, tristes, angustiantes que já li na vida. Não aconselho a almas sensíveis nem a mães/pais mais impressionáveis. Nem consigo falar muito disto. Acho que quando o fechei disse apenas uma palavra começada por F e fiquei por aí.

Depois deste livro tinha que ir para algo fofinho. Li o A casa do Mar Cerúleo, de T. J. Klune e, sinceramente, não fiquei fã. Eu sei, eu sei, que quase toda a gente amou. Se fosse um livro infantil eu até diria que sim, senhor, tinha o seu interesse. Mas não é um livro infantil (supostamente nem juvenil), até pela linguagem e estrutura e, como tal, achei fraquinho. 

O telescópio de Âmbar, o terceiro volume da sério Mundos Paralelos de Philip Pullman, foi uma releitura de que gostei muito. Tenho tanta pena de não ter lido esta série na minha adolescência. Quero ler o O livro do pó e precisava recordar a história. Além disso estive a ver há pouco a série Mundos Paralelos (HBO) e apeteceu-me reler o terceiro volume já que a série termina no segundo.

Finalmente li o A boneca de Kokoschka do Afonso Cruz. Gostei bastante apesar de ter, como de costume, sentimentos contraditórios com os livros do AC. Ele escreve de forma demasiado bonita coisas muito feias. É um livro cheio de frases sublinháveis e a edição que eu tenho é extremamente bonita enquanto objecto.

O último livro de que vos falo hoje é fraquinho mas tenho por ele um carinho especial. Chama-se A máquina do Tempo Acidental e é de Joe Haldeman. No outro dia foram pôr lá na aldeia uma daquelas caixas de livros "leve, leia, devolva" e eu fiquei, obviamente, deliciada (hei-de escrever um post só sobre isto). Fui lá logo enfiar o nariz e fiz questão de trazer um livro para ler. Este foi o escolhido. Li-o num instante, é uma ficção cientifica levezinha e sem grande história mas espero que cumpra o seu propósito ali - fazer com que mais pessoas naquela aldeia leiam. Escuso de vos dizer que lá deixei alguns livros :) mas a caixa é nova e não estava bem composta. Agora está. 

31
Ago22

Velhos Lobos, de Carlos Campaniço

Patrícia

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"como se houvesse luxo mais procurado do que a liberdade de viver sem dono"

Esta é a história da solidão. É uma história de vidas entrelaçadas, de calor alentejano, de mulheres com poderes extraordinários, de homens que usam o poder a seu bel-prazer, de vidas banais. O Carlos Campaniço conta o Alentejo, o interior do sul de Portugal, e fá-lo muitíssimo bem.

Talvez para quem não tenha raízes na terra este seja apenas um livro que conta a história da quezília de duas famílias, os Velho e os Lobo, de uma mulher que põe as mãos na terra para falar com os mortos, de gente que quase morre de amores ou de quem procura o seu lugar na vida. Ou de quem, como Sebastião, vê a vida quase fora para depois a contar com mestria. Mas há quem entre nas páginas deste livro e se deixe arrastar pelo cheiro e pelas cores. Este é um livro que cheira a calor alentejano, a planícies secas, a silêncios apenas quebrados pelos sons da natureza. É um livro cheio de tardes escaldantes que se arrastam, tal como as guerras familiares se arrastam, intermináveis, sem razão (ou alguma da qual poucos ainda se lembram). É um livro de um tempo em que era fácil acreditar no poder de algumas pessoas, das mezinhas que ajudavam a curar maleitas e onde a religião é adaptada para uso corrente. 

Os livros do Carlos Campaniço não têm caído em graça na comunidade de leitores online (o que se percebe pelos números do goodreads e pela falta de reviews nas redes sociais) o que é uma pena porque é tão bom lê-los, a sua qualidade merecia muito mais. Até é estranho já que conheci o Carlos Campaniço e os seus livros através da Roda dos Livros onde somos, quase todos, fãs do escritor ("olhem, saiu um livro do Campaniço" é sempre uma boa notícia por ali).

Confesso que são dos livros que mais ofereço e recomendo (não sei quantas vezes já o fiz com Os demónios de Álvaro Cobra e com o Dom Rufia, que é divertidíssimo) e já sei que este "Velhos Lobos" vai ser um dos livros que vai chegar a algumas mãos no próximo natal.

 

 

25
Ago22

Vamos à feira?

Patrícia

A perspectiva de ir a uma feira do livro sempre me deixou entusiasmada. Para já, sabia que ia comprar livros, um ou dois que fossem, era uma certeza. Saber que ia ter algumas horas para ver, escolher, passear entre livros era, no entanto, a melhor coisa.

Eu gosto de livros. Gosto de ler mas também gosto de livros, do objecto em si, das pessoas que rodeiam os livros, dos eventos que se constroem ao redor dos livros. Gosto de ler, comprar, receber, dar ou apenas ver livros. Gosto de viver livros sozinha ou em comunidade. E como tal as feiras do livros sempre foram um dos meus eventos de eleição. 

A feira do livros de Lisboa é um evento em grande, onde imensa coisa acontece. A maioria relacionada com livros (embora a feira já tenha extravasado um pouco o âmbito dos livros - coisa que vou ignorar ostensivamente) e entre sessões de autógrafos, conversas com escritores e debates, podemos sempre comprar alguns livros. Há hora H, há livros do dia, há promoções, há alfarrabistas e até sessões de leitura conjunta.

Gosto de ir à feira acompanhada mas gosto muito, muito, de ir à feira sozinha. Costumava sempre tirar um dia para pegar na máquina fotográfica e num livro e ir passear para a feira. Subia e descia o parque várias vezes, parava o tempo que me apetecia em cada pavilhão, sentava-me a ler um pouco algures por ali e, por momentos, sentia-me feliz e em paz. 

 Também gosto de partilhar a feira, aproveitar para jantar e trocar dois ou mais dedos de conversa com aquelas amigas com quem partilhar a feira é já um hábito. 

Nos últimos anos deixei de ter tempo para muita coisa e ir à feira foi uma delas. Ir à feira passou a ser um acto único e optei por estar lá em modo conjunto (já que o tempo para os amigos também tem escasseado) e acabava por nunca conseguir viver a feira a feira à minha maneira. A pandemia ainda piorou tudo.

Este ano decidi ser egoísta (um dia escrevo sobre isso, como estes pequenos actos de egoísmo me têm ajudado a manter a sanidade mental, como precisei deles para sobreviver e como é estúpido considerar umas horas sozinha numa feira do livro um acto de egoísmo). Vou tirar algum tempo para viver a feira à minha maneira, vou assistir pelo menos a um ou dois debates e vou sozinha à feira. Claro que os planos que faço costumam dar asneira e raramente consigo cumpri-los mas a intenção está cá. Vou à feira.

Vamos à feira?

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