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Ler por aí

Ler por aí

20
Jan19

Quem lê como nós

Patrícia

As "pessoas dos livros" gostam de falar. Muito. Especialmente sobre livros.

Eu sou, também, uma pessoa dos livros. E também gosto muito de falar (bem, já gostei mais mas isso é outra história, talvez um dia fale sobre isso).

Com esta brincadeira dos blogs (e se eu for lá atrás, ao meu primeiro blog, percebo que já ando nisto desde 2006), mesmo sendo esquiva e quase anónima, fiz imensos amigos. Tudo começou com o convite do Nuno para ir à Roda dos Livros, um grupo de leitores. A Roda dos livros e a Biblioteca onde nos encontramos tornou-se uma espécie de segunda casa onda me encontro comigo e com outros iguais a mim. Mais do que um encontro de leitores é um encontro de amigos.

Durante algum tempo juntei-me a um outro grupo de leitores, a Comunidade Leya ou Leya em grupo, em que aprendi imenso. Pela primeira vez tive leituras obrigatórias e não me dei mal. Tive oportunidade de conhecer escritores e de, tal como na Roda, aprender com quem sabe bem mais do que eu desta coisa chamada "Livro". Li livros que nunca teria lido de outra forma e senti-me pequenina ao perceber o quão pouco conheço da Literatura Portuguesa. Este grupo acabou mas ainda sinto saudades daquelas noites na Buchholz.

2019 começou e surgiu a oportunidade de passar uma tarde de chuva com um outro grupo de leitores. Pessoas dos blogs e dos canais que se juntam, com chá, risos e livros, para uma tarde de conversa e partilha. À Elisa, à Maria João, à João, à Vera, à Cristina, à Cris, à Isa e à Dora resta-me agradecer o terem-me recebido tão bem e terem partilhado comigo o seu tempo e os seus livros.

Se sinto que ler faz bem porque me permite fugir para outros mundos, fazer parte destes grupos é importante para a minha sanidade mental especialmente porque percebo que não sou tão alienígena como tantas vezes pareço. São horas de paz, de partilha e de aprendizagem. Não é, para mim, uma questão de aumentar a lista de livros a ler. É acima de tudo, ter a oportunidade de ouvir outras opiniões, outros pontos de vista. É ouvir o porquê de alguém ter pegado e gostado de um livros de que eu fujo a sete pés. É explicar aos outros porque um livro, um personagem me marcou tanto. E todas as pessoas dos livros sabem que este tipo de conversa só se pode ter com quem lê como nós.

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16
Jan19

A mão esquerda das trevas, de Ursula K. Le Guin

Patrícia

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Escrito em 1969, por Ursula K. Le Guin que com ele ganhou o Nebula e o Hugo, faz parte do ciclo Hainish mas lê-se perfeitamente a solo.

Andava com vontade de pôr as mãos neste livro há muito mas há livros que nos fogem. Começo já por vos dizer que gostei muito mas que preciso relê-lo. Há livros assim, que precisam ser lidos e relidos. Posso dizer-vos que assim que o teminei voltei a ler os primeiros capítulos. 

Não sei do que estava à espera (sou leitora de fantasia mas não sou grande leitora de Ficção ciêntifica - estou a mudar isso) mas não era disto. E ainda bem. 

Esta é a história de Genly Ai, nativo do planeta terra, que vai em missão (em nome do Ecuménio - o orgão governativo interplanetário) para Gethen (ou Inverno), um planeta que, tal como o nome indica, vive numa era glaciar. 

A missão? Convencer as nações daquele planete a juntarem-se ao ecuménio e assim estabelecerem, com os restantes 84 planetas, relações comerciais, de partilha de tecnologia e de comunicação. Não há invasões nem as haverá: um único homem é enviado como prova disso. Tempo é coisa que não falta ao Ecuménio (afinal o planeta mais próximo está a 17 anos-luz de Inverno).

Assim, temos Genly Ai a tentar convencer Karhide (principal região de Gethen) a juntar-se à coligação interplanetária de forma a que Orgoreyn e as restantes regiões do planeta lhe sigam o exemplo. Desde o início que o principal apoiante de Genly é Estraven que não só acredita nele como apoia a sua causa junto do rei. Mas na véspera da audiência com rei de Karhide, Estraven retira-lhe o apoio...

Gethen, para além de ser um planeta inóspito e gelado, tem a peculiariedade de que os seus habitantes são andróginos e apenas uma vez por mês entram em Kemmer, um período de sexualidade activa onde podem assumir o género feminino ou masculino. A vivência destes períodos de sexualidade activa é de tal forma aberta que não há crime sexual em Inverno. E o incesto é permitido.

Uma pausa para reflectir um bocadinho nisto. Um ser que pode ser mãe de um filho ( quando engravidam assumem 9 meses de género feminino) e pai de outro. 

Aquilo que mais chocou Genly quando chegou a este planeta foi precisamente esta questão. Como se relacionar com outro ser que não é homem nem mulher mas ambos simultaneamente?

Quais são as consequências sociais desta androginia?

Ursula K Le Guin pensou esta sociedade e estes seres. E nós, leitores? Como os conseguimos imaginar? Em primeiro lugar é simples, nós temos uma palavra para isto mas na prática é muito mais difícil: só temos os pronomes ELE e ELA para usar  e nenhum deles é neutro por isso, queiramos ou não, usamos o pronome pessoal MASCULINO para cada um dos habitante de Gethen. Para além disto (patente em cada página deste livro) temos a associação de características masculinas e femininas extremamente estereotipadas - várias vezes temos Genly a dizer que viu características femininas em Estraven ou no Rei - sejam doçura ou vontade de mexericar, por exemplo.

Uma das partes menos conseguidas do livro que, ainda assim, é uma excelente reflexão sobre igualdade e identidade de género (não consegui não fazer alguns paralelismos com o livro Orlando, da Virginia Woolf), é que todas as relações em Gethen (a não ser que eu tenha perdido alguma coisa, o que é possível) são heterossexuais - se em Kemmer, duas pessoas sentem atracção, uma manifesta-se como mulher, outra como homem. Isto torna-se bastante mais relevante na parte final do livro.

A escritora tenta imaginar uma sociedade sem tensão sexual, nem que o sexo ou o género, interfira nas decisões e na sociedade e isso é extremamente interessante.

Os jogos políticos também são uma constante ao longo do livro mas não se tornam uma questão tão proeminente como tudo o resto. Como todas as dualidade que são expostas ao longo destas páginas: mulher/homem, Luz/Trevas, confiança/traição, amizade/solidão, vida/morte.

Até aqui falei-vos, muito superficialmente, das questões que saltam à vista, que estão na capa e contracapa e em qualquer sítio onde se fale deste livro. Falta uma. Falta aquela que é, para mim, o verdadeiro tema deste livro, aquele que sobra depois de retiradas todas as camadas superficiais, as políticas, de género, culturais ou sociais: amizade. Por que a jornada de Genly Ai não pode ser dissociada da jornada de Estraven.

 

 

 

 

14
Jan19

Encontro marcado!

Patrícia

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Temos encontro marcado no próximo dia 23 de Janeiro, às 18h30 (ou um bocadinho antes para 2 dedos de conversa), na FNAC do Colombo para assistir à apresentação do último livro do Nuno.

Por tudo o que já ouvi sobre o livro estou bastante curiosa e quero muito conhecer esta história, saber em que ponto estão o Afonso e a Diana depois de tudo o que lhes aconteceu em Pecados Santos e como se conseguiu o Nuno superar uma vez mais.

 

 

13
Jan19

TAG | PostScript 2018

Patrícia

1. O livro mais longo que leste este ano e o livro que demoraste mais tempo a ler.

Não sei se foi o que demorei mais tempo a ler (não registo esse tipo de dado) mas não tenho grandes dúvidas que foi o maior. Falo de Oathbringer  do Brandon Sanderson. O goodreads diz que tem 1248 páginas. É M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O.

2. Um livro que leste este ano fora da tua zona de conforto.

2018 foi um ano de excelentes leituras mas a minha zona de conforto é relativamente grande pelo que o único que posso considerar ser diferente do que leio habitualmente é o  Os brancos também sabem dançar  de Kalaf Epalanga. Não sou propriamente fã de Kuduro e sendo uma mistura de biografia, ficção e ensaio foi definitivamente um desafio. E um desafio superado. Só tive pena de não ter conseguido estar na sessão da Comunidade Leya com o autor para a qual li este livro.

3. Quantas releituras fizeste este ano?

Antes de começar a ler o Oathbringer (o 3º volume dos Stormlight Archives) reli (versão audiobook) os dois primeiros volumes, The Way Of Kings e Words of radiance. Comecei essas releituras em 2017 e terminei-as em 2018. Não me lembro se reli mais alguma coisa.

4. Releitura favorita do ano.

Sem dúvida Words of Radiance.

5. Um livro que leste pela primeira vez este ano e que desejas reler em breve.

Aqui, em jeito de provocação, vou ter que referir o  Elantris . Ando a tentar convencer umas meninas a arriscar e ler fantasia e esta é uma excelente forma de começar a ler Sanderson. Se isto algum dia for para a frente, eu releio Elantris para acompanhar essa leitura.

6. Conto ou novela preferido deste ano

Não leio muitos contos nem muitas novelas. Este ano acho que só li os que constam da antologia Arcanum Unbounded e o conto que a Márcia escreveu para a antologia dos novos escritores da FNAC. Do Arcanum escolho o Mistborn Secret History e o conto da Márcia foi o Ponto de fuga.

7. Um livro de que gostaste e que recomendarias abertamente a um leque variado de leitores.

Posso escolher vários? A distopia da Patrícia Reis Por este mundo acima vale a pena ser lida e sendo um livro pequeno pode agradar a muita gente, o clássico  Jane Eyre é sempre uma excelente opção e o maravilho Jogos de Raiva do Rodrigo Guedes de Carvalho entrou directamente para o meu TOP de livros a aconselhar.

8. Um livro de que gostaste, mas que não recomendarias abertamente.

Tenho que, nesta categoria, escolher o Pão de Açucar do Afonso Reis Cabral. E só não recomendo abertamente ou seja não recomendo a todos porque já percebi pelas pouco entusiastas opiniões que por aí andam que é um livro que não é para toda a gente. Não é para quem espera um texto jornalístico com novas e bombásticas revelações e não é para quem espera um final diferente. É, acima de tudo, para quem quer reflectir sobre a sociedade em que vivemos. 

9. Reflecte no teu ano enquanto criador de conteúdo.

ehhh Eu não sou grande criadora de conteúdo mas vou interpretar isto como uma reflexão acerca deste blog e da minha presença na "blogosfera livresca".

Este foi um ano um bocadinho estranho neste aspecto. O blog esteve a meio gás durante muito tempo, houve dias em que esteve quase, quase, "a morrer de morte matada" mas acabou por ir sobrevivendo. Fiz mais posts de reflexão e de comentários gerais que de opinião de livros e, muito graças aos destaques que o sapo foi fazendo ao longo do ano, aumentaram bastante os leitores. Pela primeira vez perdi a paciência com um comentador. Podem não concordar comigo à vontade, podem discutir tudo o que quiserem, não me passem lições de moral nem de estupidez que eu não só não tenho paciência para isso como tenho um mau feitio dos diabos. Da próxima vez que acontecer, terei ainda menos paciência. 

Este ano mergulhei em Cosmere, o universo criado por Brandon Sanderson. Isto significou ter que me afastar de outras leituras durante boa parte do ano. Não me arrependo nem um bocadinho. Foram leituras estimulantes, que me deram imenso gozo  e que pretendo continuar a fazer. 

Continuei a ler bastante escritores Portugueses e a achar que se escreve muito bem por cá. Fico bastante feliz por ver tantos projectos de leituras em Português e que começa a haver uma preocupação para ler na nossa língua, os nossos escritores. Acho que ficamos todos a ganhar.

10. TAGGa outros.

Quem quiser pegar nesta TAG sinta-se à vontade para o fazer e depois deixe-me o link que vou gostar de ver as v/ respostas.

Obrigada Isa por me marcares para fazer a TAG. 

Deixo-vos o link do vídeo da Isa:  https://www.youtube.com/watch?v=jctriMgBM4Y

Vídeo Original do Adam no canal MementoMori: https://www.youtube.com/watch?v=yydtcQRDtMU

Tradução para PT do Aprendiz de Leitor: https://www.youtube.com/watch?v=pmbW-lqIFBA

 

 

 

12
Jan19

TAG: 19 desejos, objectivos ou ideias para 2019

Patrícia

Fui desafiada pela Beatriz para criar uma lista de 19 desejos, objectivos ou ideias para concretizar em 2019.  Ela inspirou-se no podcast Happier, apresentado pela escritora Gretchen Rubin e pela sua irmã Elizabeth Craft.  Vamos lá ver o que consigo fazer.

  1. Ler todos os dias
  2. Ler escritores portugueses
  3. Ler mulheres
  4. Ler escritores de que nunca ouvi falar
  5. Ler contos
  6. Ler poesia
  7. Ler ensaios
  8. Ler jornais
  9. Ler não-ficção
  10. Ouvir Audiobooks
  11. Ler/Ver noticias internacionais
  12. Não falhar encontros do clube de leitura
  13. Ver mais TED Talks
  14. Divertir-me a aprender mais sobre Cosmere
  15. Escrever finalmente a opinião sobre um dos melhores livros que li no ano passado (Pode um desejo imenso, de Frederico Lourenço)
  16. Escrever mais no blog
  17. Reler livros
  18. Ter paciência 
  19. Não me preocupar minimamente se não cumprir o objectivo nº1 ou qualquer um dos outros.

Beatriz, olha que eu não sou nada de objectivos mas eu tenho, de facto, estes objectivos em mente. Tenho cada vez mais a preocupação de me inteirar do que se passa à minha volta, no país e no mundo. Faço-o muito à conta dos livros que leio. 

Obrigada por me teres desafiado a fazer esta lista e a comprometer-me em público :)

 

08
Jan19

Confesso-me... preconceituosa

Patrícia

Neste blog geralmente só abordo temas relacionados com livros e literatura mas hoje venho falar-vos de algo um bocadinho diferente.

Confesso-vos que o meu sentido de humor é... algo entre o negro e o parvo (tenho um amigo que me manda todas as piadas secas que encontra porque diz que sou a única pessoa que se ri com aquilo). A verdade é que não perco muito tempo com cenas de humor (mas já prometi a mim mesma que este ano vou a um espectáculo de stand-up) e não gosto da maioria dos humoristas que conheço (sendo que são apenas os que vão dando um ar da sua graça na TV). Vou dando uma olhadela aos vídeos da Bumba na Fofinha e leio o blog Por falar noutra coisa há alguns anos e pouco mais.

Quando começou o podcast Sem barbas na Língua comecei a ouvi-lo mais por causa do Hugo Gonçalves que do Guilherme Duarte e, apesar de pouco se falar lá de livros, sou ouvinte assídua porque me sinto outra vez no meio das conversas dos meus amigos de faculdade (e com a mesma vontade de, às vezes, lhes dar um par de estalos e outras um beijinho na testa).

Num dos últimos episódios do podcast o convidado foi o Dário (aka Môce dum Cabréste)  que eu conhecia apenas ligeiramente (há uns anos ele fez um vídeo qualquer acerca de quem "gosta de chuva" e tive umas 10 pessoas a mandarem-me o link) e fiquei muito surpreendida. Para além do sotaque maravilhoso (eu sou, para grande tristeza minha, uma algarvia sem sotaque) gostei tanto de o ouvir que acabei por subscrever o seu Segundo podcast e tenho andado a ouvir os pódios do moço.

Eu, que sempre fui um bocadinho preconceituosa com canais/blogs/podcast de humor, tenho andado a ouvir humoristas a falar de coisas mais ou menos sérias e tenho que admitir que vale a pena ouvi-los. 

Uma das coisas de que sinto falta nos blogs/canais sobre livros (e mea culpa faço porque eu raramente escrevo sobre algo para além dos livros aqui) é a discussão de temas actuais (com excepção da Sara, claro). Às vezes sinto que os leitores actuais se escondem dentro dos livros, fazendo questão de ignorar a realidade (fico sempre chocada quando um leitor diz/escreve que não lê jornais, por exemplo) quando a literatura também serve (ou "serve acima de tudo") para compreendermos e discutirmos o nosso tempo. E dou por mim a encontrar essa discussão nestes podcasts. E a sentir-me muito mais "em casa" a ouvir algumas destas conversas que ler alguns blogs ou a ouvir alguns canais "literários". 

ah e depois há isto:

 

 

08
Jan19

Três coroas negras, de Kendare Blake

Patrícia

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Apetecia-me ler um livro "pastilha elástica" e escolhido foi este "Três Coroas Negras".

Quando pego num livro destes tento não ter grandes expectativas porque sei que este é um género que permite (quase) tudo: romance, filosofia, política. 

A premissa deste livro é interessante q.b: três irmãs com poderes distintos (uma naturalista, uma envenenadora e uma elemental) que ao chegar aos 16 anos iniciam uma luta de morte até que uma delas suba ao trono.

Assim uma espécie "jogos da fome" com uma intriga política e feminista. 

Neste caso vi-me perante um YA (o que geralmente não me agrada) e, acima de tudo, um romance disfarçado (o que ainda me agrada menos). E tive pena porque isto tinha tudo para ser algo bem mais intrincado e interessante.

Vamos por pontos:

Vamos sendo apresentados às três rainhas, e à forma como cada uma foi educada, à vez em capítulos distintos. Esta forma de apresentação é bastante utilizada nas sagas de fantasia mas geralmente um livro acaba sempre por se focar mais numa das personagens que nas outras. Neste caso não senti essa divisão de forma relevante (apesar da história pender mais para o lado da Arsinoe, a naturalista). Pessoalmente não me incomodou apesar de achar que a história tinha bastante a ganhar com isso.

Gostaria de ter conhecido mais acerca da história do mundo, das tradições e do "sistema de magia". Pouco explicito, sem bases que me fizessem acreditar naquele universo (senti-me a ler um conto de fadas) e a revelação final fez-me revirar muito os olhos. Para além de ser (mais ou menos) óbvia não foi lá muito credível. E vai uma aposta que "aquela" não é a única troca lá do sítio??? 

Nem vou perder tempo a falar de triângulos amorosos ou do "poder do amor", ok? (os YA "perdem-me" sempre aqui). 

Há personagens interessantes nesta história e que têm potencial. Das "rainhas" a que me parece ter mais potencial é a Katherine que, ou muito me engano, ou vai ser desconsiderada muito rapidamente. Mas são as personagens secundárias (e não, não estou a falar da Jules) que me parecem mais interessantes. As mentoras, acima de tudo. Aquelas que estão a puxar os fios das marionetas.

05
Jan19

Livro meu, livro meu, há lá estante melhor que a minha?

Patrícia

A maioria dos leitores tem 2 tipos de drama: falta de livros e livros demais. E sim, ambos os dramas acontecem em simultâneo.

Qualquer leitor tem falta de livros. Basta entrar numa livraria, seja ela online, física, de livros novos ou de livros usados e a reacção é sempre a mesma: "quero", "preciso", "procurava este livro há tanto tempo", "olha, não sabia que isto já tinha saído", "um novo livro da minha escritora favorita??!!". 

Qualquer leitor tem livros demais. Basta arrumar a estante ou simplesmente olhar para ela e ver quantos livros "por ler" lá estão.

E qualquer leitor vai conviver com estes dramas toda a sua vida. E vai continuar a comprar, acumular e a ter muitos, muitos livros (que são e não são demais, ao mesmo tempo).

Mas eu hoje queria falar-vos de um fenómeno que me acontece regularmente, quer na casa da minha mãe, quer na minha. 

Eu juro-vos que encontro, SEMPRE que olho para uma das estantes, livros que quero ler, que preciso ler e que já me tinha esquecido (ou não sabia de todo) que tinha. E a verdade é que o sítio mais barato para encontrar preciosidades ou boas leituras totalmente gratuitas são estas estantes.

Acontece muito quando olho, com olhos de ver, para as estantes da minha mãe. A verdade é que eu já sabia que aqueles livros lá estavam porque olhei para eles toda a minha vida (mas ainda não sei porque raio tem ela 3 edições diferentes do "os meus amores" de Trindade Coelho) mas a verdade é que, quando com eles mais convivi, não me interessavam. Hoje em dia encontro por lá preciosidades como um Dostoievski, o Servidão Humana ou o Nossa senhora de Paris e de cada vez que lá vou trago comigo um "novo" (da última vez trouxe o Alexandra Alpha, do Cardoso Pires).

Mesmo na minha própria estante, quando a arrumo/organizo (aka, escolho os que já posso levar para a casa de mamãe, que ainda tem espaço porque é ligeiramente maior que a minha), encontro sempre livros que quero ler.

Contem-me tudo. Também vos acontece?

03
Jan19

Ecologia, de Joana Bértholo

Patrícia

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Diz Ursula K. Le Guin (introdução, A mão esquerda das trevas, ed Relógio D'agua) que "A ficção ciêntifica não prediz, descreve." e que "O que os autores de ficção tentam fazer é dizer-nos como são e como nós somos - o que está a acontecer - como está o tempo hoje, agora, neste preciso momento, a chuva, o sol, olhem! Não nos dizem o que veremos e ouviremos. Podem apenas dizer-nos o que eles próprios viram e ouviram, na sua passagem pelo mundo, um terço da qual foi despendida a dormir e a sonhar e o outro terço a dizer mentiras" .

Uma distopia é sempre muito mais sobre a actualidade do que sobre o futuro. Aliás, corrigo, qualquer distopia é sempre sobre o presente, sobre as escolhas que fazemos hoje, sobre a forma como o escritor (e de certa forma o leitor) vê o mundo. Eu, enquanto leitora de fantasia considero que estes géneros - fantasia, ficção ciêntifica, distopias - são aqueles que mais comunicam e envolvem os leitores - a sua interpretação, a forma como o leitor escolhe ler estes livros é fundamental. 

Joana Bértholo, neste ecologia, apresenta-nos uma ideia (brilhante) em 3 fases: um mundo onde tudo se paga, tudo se privativa, tudo se paga... até as palavras. Sim, alguém teve a ideia de privatizar as palavras. E alguém conseguiu pôr essa ideia em prática. E uma ideia mudou o mundo. revolucionou tudo. Abriu portas, fechou portas. Ao longo desta história acompanhamos vários personagens neste percurso de privatização de tudo. Lúcia e Pablo, um casal como tantos que conhecemos, um casal a tentar manter um casamento e um filha, a Candela. Carolina e Tápio. Jeff, Darla, a Mulher-Eco, Nelson, Pedro. Cada um deles, da sua forma, a tentar viver e adaptar-se às mudanças no mundo como todos nós fazemos.

Nós temos o privilégio de viver tempos interessantes. Somos das gerações que vimos o mundo mudar. Somos as gerações que, para o bem e para o mal, mudaram o mundo. A evolução das espécies baseia-se na sobrevivência do mais apto. Hoje isso é (quase) tão verdade como no passado distante... o que mudou foi a definição de mais apto.

Sim, eu sei que estou a divagar e que pouco ou nada vos contei acerca da história mas vou deixar as coisas assim, para não estragar a leitura a quem a quiser ler.

Apenas mais duas notas.

A premissa deste livro, a ideia base, a história, é genial. A escrita é fabulosa, acho mesmo que a Joana Bértholo escreve muito bem. Mas acho que por vezes escreveu demais. O ritmo deste livro não é o que acho mais adequado para as distopias. Este tipo de livro ganha mais com uma escrita mais escorreita, ganha mais sendo de leitura compulsiva, rápida e a deixar as conclusões para o leitor. No meu ponto de vista, há demasiada reflexão - que gostava de ter sido eu a fazer. Não precisava ser conduzida pela mão da escritora. Menos 100 páginas e este seria o livro que ia, durante anos, aconselhar a toda a gente. Assim, sei que a maioria das pessoas que conheço não terão pachorra para o ler. Às vezes "menos é mais".

Uma das coisas que adorei neste livro foi a forma como o livro interage connosco. Encontrar os segredos escondidos nos QR codes espalhados nestas páginas foi bastante interessante (também quebrou um pouco o ritmo mas valeu a pena).

 

 

02
Jan19

Ainda as sugestões livrescas

Patrícia

Consegui sugerir, se não me falham as contas, livros de 21 escritoras portuguesas. Faltaram-me dias com tempo/vontade de vir preparar o post e assim ficaram fora nomes como Maria Velho da Costa, Cristina Drios, Raquel Ochoa, Sandra Carvalho, Isabela Figueiredo, Ana Teresa Pereira, Rosa Lobato de Faria, Maria Archer, Ana de Castro Osório, Florbela Espanca e tantos outros nomes que deveria ter incluído. 

Digam-me vocês, que escritoras me faltaram? Melhor, façam um post/vídeo/cena de instangram ou facebook/qq coisa assim com algumas sugestões (e deixa-me o link, que eu prometo um post de divulgação - é o melhor que posso fazer).