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Ler por aí

Ler por aí

12
Mai22

Uma boa história

Patrícia

Neste momento, preciso mais de uma boa história que de um bom livro.

Não me julguem já, deixem-me explicar-vos o porquê desta afirmação.

Não preciso de vos definir "boa história" (até porque essa definição seria diferente de pessoa para pessoa) mas talvez vos precisar dar a conhecer a minha definição de "bom livro".

Há várias coisas que quero num livro: que esteja bem escrito, que me ensine qualquer coisa, que acrescente qualquer coisa, que tenha uma boa história. Nem sempre se consegue tudo e nem sempre queremos ou temos disponibilidade mental para tudo isto.

E não há nenhum problema com isso.

Às vezes queremos apenas uma boa história. Nestas minhas fases tenho várias hipóteses. A mais fácil, a da "calona" que há em mim, é simples: pego no O Conde de Monte Cristo ou num qualquer Sanderson e já está. Simples. Excelentes livros e um regresso a casa. Releitura de um "livro da vida" e que já sei que me vai dar exactamente o que preciso. Por norma são livros que sei de trás para a frente de tantas vezes que os li mas que, por isso mesmo já nada acrescentam ou ensinam. Depois há o meio termo: pegar num livro de fantasia de um bom autor ou bem recomendado por fãs do género e geralmente a coisa dá-se. A boa história está garantida, o bom livro aparece muitas vezes. Por fim há o risco de ir a uma livraria ou seguir um conselho de alguém que sem sempre tem gostos que coincidem com os nossos. Na livraria, o factor surpresa é uma mais valia, adoro ir comprar livros de que sei pouco, que escolho pela sinopse ou por um outro método qualquer (totalmente cientifico) como um pormenor da capa ou o tamanho (sim, já aconteceu, deslarguem-me). Mas, tal como ler um livro apenas porque alguém nos disse "adorei" não é garantia de que aquele é O livro para o momento. Bem, para dizer a verdade nunca temos esta garantia e esse é uma das magias da leitura.

Isto tudo para dizer que ando a precisar de uma boa história, daquelas que me faça ler compulsivamente e me deixe com a alma cheia. Conhecem livros assim?

05
Mai22

Não, não é!

Patrícia

Na segunda-feira o É ou NÃO É, programa da RTP, foi sobre a leitura. 

O Índice de Leitura dos Portugueses

Episódio 13 de 43

Mais de metade dos portugueses não leu um único livro no último ano. E quem leu, em termos médios, leu pouco.
Não faltam esforços públicos e privados para incentivar a leitura, mas alguma coisa está a correr mal.
Como fazer com que os mais jovens não ignorem os livros? E como podem os livros competir com o ecrã? Seja o do cinema, o da televisão ou o das redes sociais no telemóvel?
Se somos o que lemos, e lemos pouco ou nada, que país seremos afinal hoje e no futuro?

Foi com bastante expectativa que me preparei para ver o programa. 

O painel: Teresa Calçada, comissária do PNL; Francisco José Viegas, ex-secretário de estado da cultura, editor e escritor; Joana Bértholo, escritora; César Carvalho, professor bibliotecário e Joel Neto, escritor.

Tive aqui a primeira desilusão: ausência de jovens, de leitores fora da elite, de não-leitores. Admito que talvez não fosse fácil levar ali alguém que seja, por opção ou convicção, um não-leitor mas não compreendo a ausência de (jovens) leitores pouco assíduos que pudessem explicar o porquê de não lerem mais. Duvido que alguma daquelas pessoas compreenda (em nome próprio) a falta de motivação para pegar num livro, a ausência de curiosidade em relação a uma história, a dificuldade em pôr de lado qualquer coisa para passar umas horas a ler. Aliás, logo na primeira intervenção, Joana Bértholo disse, e muito bem, não ser representativa dos números que tinham sido apresentados no início do programa. E a falta dessa representatividade sentiu-se sempre.

Depois foi "mais do mesmo" com alguns pontos e comentários certeiros. A Teresa Calçada ainda tentou falar da ausência de "Leitores áudio"  mas foi ostensivamente ignorada (é giro pensar que Joel Neto teve uma iniciativa muito gira, a de ler um dos seus livros em podcast, ao longo de um ano. Infelizmente ficou a meio do projecto e quem, como eu, aguardava ansiosamente pela conclusão do projecto, ficou "a ver navios") e "o digital" foi tratado como um inimigo da leitura (e os ebooks como um parente pobre dos livros - aparentemente a experiência dos presentes com os livros electrónicos não é a melhor) - atrevo-me a dizer que enquanto assim acontecer, enquanto os leitores do digital forem tratados como leitores menores, não se avança grande coisa nisto de "fazer leitores". Já mais para o final, a Joana Bértholo ainda falou de clubes de leitura e da sua importância para leitores e escritores mas também este tema não teve continuidade. Falou-se da dificuldade de pôr adolescentes a ler e a única solução que se apresentou fora "as novelas gráficas que são uma boa opção" mas, sendo verdade, juro que aquilo foi bastante insultuoso quer para os adolescentes quer para as novelas gráficas, assim um "isto com bonecos é mais fácil para os meninos". E nem uma palavra para a vergonhosa falta de opções de livros giros e interessantes para esta faixa etária. Parte do programa foi passado a discutir o preço dos livros (quando descobrirem que as "novelas gráficas" - a tal solução tão boa para os adolescentes - são das coisinhas mais caras que existem nas livrarias até ficam abananados), tema gasto e batido que não leva, nunca levará, a lado nenhum. 

Uma nota para a defesa tímida dos professores e da escola na questão da leitura - Os professores são dos que mais fazem pela leitura mas aparentemente a maioria das pessoas acha que fazem pouco. Aliás, os professores são sempre os culpados dos males do  mundo e da falta de educação dos filhos dos outros. E a maioria das pessoas considera normal e aceitável que os professores desenvolvam todo o género de projectos de leitura e se esforcem por fazer leitores no seu tempo livre e apenas por amor aos livros. Mas isto foi um aparte, não houve grande discussão sobre este assunto no programa. Algo de que foi falado e muito bem (salvo erro, Francisco José Viegas) foi de uma (hipotética e desejada) disciplina de leitura. Isso era de valor - mas, por amor do deus dos livros, nada de leituras obrigatórias.

Um dos temas abordados foi o exemplo, ou a falta de exemplos, de leitura. E já no finalzinho A Teresa Calçada chamou a atenção para a responsabilidade dos media (nomeadamente a RTP) na questão da leitura. De facto, não há nada (acho eu) na televisão que contribua para fazer leitores. Os (poucos) programas que existem são para leitores feitos, (e de um determinado tipo) porque não se gasta tempo de antena com cenas "rasca" e populares (assim numa versão literária de Caco Antibes e do seu "odeio pobre"). Quando foi a última vez que houve uma personagem de novela /série leitora? A última de que me lembro foi a Rory e ainda hoje há quem leia os livros da série como um desafio. 

Uma nota positiva: houve um debate sobre a leitura. São precisos mais debates, mais vozes, mais livros nas nossas televisões. Um clube de leitura na TV, com convidados, livros, miúdos, livros diferentes.

Os parentes pobres da literatura são os géneros que fazem leitores: romances românticos, policiais, fantasia, FC. Mas os livros destes géneros só são levados a sério quando quem os escreve é um escritor dos géneros "bem" (um Tordo nos policiais ou um Gonçalo M. Tavares no fantástico, apenas para dar dois exemplos). 

A separação entre o digital vs não-digital na questão da leitura é tão errada quanto é a Letras Vs Ciências na leitura. O digital abriu novas portas para a leitura, novas ferramentas, novas possibilidades. E se querem um argumento velho, pensem nos preços dos livros físicos vs livros electrónicos. Em vez de lutar contra os ecrãs é preciso pôr nesses ecrãs letras, histórias. É preciso regressar à magia das histórias, regressar à oralidade com os audiobooks. Sim, passamos muito tempo no trânsito - e podemos passá-lo a ouvir um livro - mas em PT a escolha é tão, tão pequena, que é difícil até sugerir isso (eu já não sei estar sozinha num carro sem que me estejam a contar "histórias"). Os novos formatos podem fazer leitores mas é preciso que os "fazedores de leitores" não lutem contra estes formatos que sobrevivem apesar dos esforços contra. Sim, o livro-objecto é uma coisa maravilhosa - mas quantas edições bonitas, daquelas que nos fazem querer correr para a livraria, existem? De quantos livros e de que livros se fala nas TV e nos jornais? As rádios, ainda assim, são a plataforma mais inclusiva. As redes sociais vieram colmatar essa ausência mas são, infelizmente e por natureza, fechadas em si mesmas e acabam por ser um trabalho de leitores para leitores - ainda assim têm um papel extremamente importante nesta luta de fazer leitores. E por isso é que deixei o melhor para o fim.

O programa apresentou-nos a Sarah Luz e o seu Poesia de Cor. Deixo-vos a sua participação:

 

 

 

 

 

30
Abr22

A importância dos livros

Patrícia

Dir-me-ão vocês que os livros são importantes por inúmeras razões e terão razão em todas e cada uma delas.  Hoje, quero falar sobre a que considero a (ou pelo menos uma das) mais importantes. 

Os livros ajudam a moldar-nos enquanto pessoas.

Depois de ter recomendado a trilogia Mistborn a uma amiga não resisti a uma leitura e estive a re-ouvir todos os livros. Isto ao mesmo tempo acompanho com tristeza, raiva e incredulidade a guerra decorrente da invasão da Ucrânia pela Rússia e, na verdade, o estado geral da humanidade que parece cada vez mais não ter solução ou, se diz na minha terra, "mezinha". 

A humanidade precisa de heróis e heroínas, gente que mude o mundo, que o torne melhor, gente com os valores humanos e éticos certos, que saiba respeitar os outros e as diferenças. Basicamente alguém capaz de acreditar que é capaz de fazer o impossível e que tenha as motivações certas.

As motivações certas são, em primeiro lugar, responsabilidade de quem educou aquele ser humano- mas não vamos entrar por aí - e dele mesmo mas foquemo-nos no período de tempo em que somos mais permeáveis aos estímulos - a infância.

Acreditar que se é capaz de mudar o mundo? Ah, não há como uma boa história para fazer isso. 

Não vos consigo dar números e falo de cor mas lembro-me de ler qualquer coisa sobre o facto da maioria dos grandes cientistas actuais terem sido, em crianças ou adolescentes, leitores de ficção cientifica. E, se pensarmos bem, faz todo o sentido.

A imaginação, que se desenvolve de várias formas sendo a leitura uma das mais importantes, é fundamental para desenvolver coisas novas. Acreditar que se é capaz do que parece impossível não é mais que imaginar Ver aquilo em que algo ainda não é mas em que se pode tornar não é mais que imaginar.

Não querendo estragar a leitura de Mistborn a quem não leu mas vai ler mas há uma cena que fez nascer este post: num cerco a uma cidade, o exército invasor, está finalmente em condições de atacar e com pouquíssimas chances de perder e é aí que se dá a conversa de "os fins justificam os meios?" ou "o que raio estou eu a fazer em nome de uma superioridade moral que nem sequer tenho?" ou "do outro lado estão pessoas" que alguém acaba por implicar e resumir num "ele não vai atacar porque é um homem bom".  Estes livros não têm a simplicidade do "bem contra o mal" mas têm o dom de nos fazer imaginar, pensar, reflectir...e querer ser mais e melhores.

Para além de imaginar é preciso querer ser melhor (digamos que sonhar ser o Dexter não é, diria eu, o melhor dos sonhos), é preciso desenvolver valores, compreender valores a diferença entre o bem e o mal. Desenvolver um sentido de ética que se torne no nosso guia. E isto apenas para nos tornarmos adultos decentes. Para mim, os livros, são a melhor forma de fazer isto. Transmitir valores e ao mesmo tempo ensinar a pensar, a decidir por si. 

Nunca desvalorizem o poder de um livro nas mãos e na mente de uma criança (agora podia citar um outro caso em que alguém vai enfrentar um exército com um livro na mão mas não quero ser demasiado groupie do Sanderson). 

24
Abr22

O dia do Livro é quando uma mulher quiser

Patrícia

Sim, eu sei, foi ontem o Dia Internacional do Livro e dos Direitos de Autor. E para dizer a verdade ontem ainda comecei a escrever um post alusivo à efeméride mas tive que sair e quando voltei já não me apeteceu pegar no computador.

Não quis, no entanto, deixar passar a coisa sem aqui vir deixar um comentário.

Os livros são, sempre foram e sempre serão, a minha mais consumista paixão. Seja directa ou indirectamente.

Apesar de tudo o que se diz não é pelos preços dos livros que não se lê. Há, felizmente, muitas bibliotecas que o podem comprovar. E não falo apenas das bibliotecas municipais que, apesar de todos os esforços, não chegam a todo o lado. Mas todas as escolas têm uma mini-biblioteca e toda a gente tem amigos que lhes podem emprestar livros. E há sempre as releituras - eu vivia numa aldeia, os únicos livros que a "biblioteca" (se é que aquilo se pode chamar de biblioteca) tinha com algum interesse para uma miúda eram os de Júlio Dinis, e eu lia e relia os meus livros. Sim, tive o privilégio de ter uma família de leitores mas ainda assim não me compravam livros todas as semanas nem todos os meses. Aniversário, Natal e feiras do livros e já não ia nada mal até porque despachava a grande velocidade os livros das bibliotecas das escolas por onde fui passando (uma vez chamaram a minha encarregada de educação para saber se eu lia efectivamente os livros que requisitava porque não estavam habituados àquela cadência).

Por outro lado, comprar um livro é a única forma de recompensar o autor. Será que muitos escritores em Portugal conseguem viver apenas do que recebem pelos livros que vendem? Duvido. Para a grande maioria escrever parece ser apenas uma paixão. E isso está tão, tão errado. 

Eu, apesar de leitora de ebooks e de audiobooks, gosto tanto do livro objecto como qualquer outro leitor e a minha casa tem livros nos cantos mais inesperados. E sonho com uma biblioteca pessoal, com paredes cheias de estantes e estantes cheias de livros, com escadas para aceder aos livros das prateleiras de cima, com lombadas e lombadas cheios de letras e cor. E é especialmente por isto que chamo à minha paixão pelos livros uma "paixão consumista". Não me arrependo do dinheiro que gasto em livros, considero-o mais um investimento que qualquer outra coisa.

Os livros são uma das belezas da minha vida.

09
Abr22

Deuses Americanos, de Neil Gaiman e Destino, de Raffaella Romagnolo

Patrícia

Curiosamente, ontem acabei de ler 2 livros. De manhã, a caminho do trabalho, ouvi os capítulos finais de Deuses Americanos, de Neil Gaiman, e à noite terminei o Destino de Raffaella Romagnolo.

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Ouvir Gaiman é sempre uma experiência "do caraças". Acho que estes livros ganham muito com a experiência do audiobook. Ouvir uma história obriga-nos a vivê-la de uma forma diferente. A verdade é que a escolha do/s narradores é fundamental e pode fazer a diferença. Não costumo ser fã de Audiobook "full cast" mas, neste livro, isso funcionou lindamente. A súbita entrada de uma voz diferente não me condicionava, antes me obrigava a reposicionar no sítio certo. Deuses Americanos é um livro surreal, non-sense, mas absolutamente certeiro. Como sempre, um livro de fantasia fala mais sobre nós enquanto humanidade que outros (supostamente) realistas.

Ao longo destas páginas/horas conhecemos a história de Shadow que, após ter cumprido 3 anos de prisão, só quer regressar a casa e a Laura. Dias antes do dia de liberdade é informado que Laura morreu num acidente juntamente com Robbie, o primo para quem iria trabalhar. Sem família, sem trabalho, acaba por aceitar trabalhar para Wednesday, um dos antigos deuses, como "homem para todo o serviço", durante a sua road trip para reunir as tropas e prepará-las para a batalha com os "novos deuses". 

Shadow é fascinante. Não apenas para nós para para todos os deuses, os antigos, os novos, todos disputam, sem razão aparente, a sua lealdade. 

Numa viagem marada pelo país e pela mitologia, Gaimam faz uma crítica feroz à sociedade actual, sempre pautada pela estranheza e pela loucura divertida a que já nos (me) habituou.

Se este livro vale pena? Sim, completamente. Não superou o Good Omens (my favourite) mas ainda assim, tão, tão bom.  Leiam, ou melhor, oiçam e divirtam-se.

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Raramente me oferecem livros pelo que, quando o fazem, faço questão de priorizar essas leituras. Foi o Caso de Destino, de Raffaella Romagnolo. Provavelmente não era livro que comprasse e por vários motivos. Um deles é o título. Destino? a sério? Ficava cortado à partida. Outro é a colagem à Ferrante. Não só não sou a maior das fãs da Ferrante (nunca acabei a tetralogia, para dizer a verdade) como me irrita este género de publicidade. Mas seria um erro crasso. A verdade é que este foi "o livro certo na altura certa" e isso fez toda a diferença.

Conhecer as histórias de Giulia e de Anita (e não esquecer Adelaide, Rita, Rosa), misturadas com a história da Itália (e da emigração Italiana) na primeira metade do Sec.XX, foi o garante de umas boas horas de leitura. É sempre muito bom conhecer mulheres resistentes, cheias de amor, força, empatia. Este é um daqueles livros que nos deixa de coração cheio e que vamos recordar sempre com carinho.

 

 

28
Mar22

Falemos sobre... tristeza

Patrícia

Às vezes temos tendência a achar que estar feliz incomoda muita gente mas experimentem estar tristes. Experimentem responder "não" em vez do tão português "vamos andando" à pergunta tudo bem? e sintam o incómodo e choque que essa resposta provoca. 

Na verdade tenho que ser sincera: nas primeiras vezes a tristeza de alguém dá a oportunidade à empatia (sei como te sentes), à amizade, à disponibilidade (estou aqui para ti) e a várias outras manifestações de carinho. E a verdade é que todas estas manifestações são, não apenas bem intencionadas mas verdadeiras. Mas a tristeza é, de todos os sentimentos, aquele que mais cansa, o próprio e os outros.

Infelizmente o próprio não pode optar por se afastar da sua própria tristeza mas os outros podem. E frequentemente, fazem-no. A tristeza pega-se e como tal há tantos que se protegem de uma potencial infecção. Mas a ausência como resultado da tristeza de outrem não é a pior das consequências.

O pior é quando se faz questão de mostrar o quão a tristeza dos outros pesa; o quão egoísta é aquele que não consegue esconder essa tristeza; o quão fraco é aquele que não a consegue ultrapassar. O pior é sentir que não se tem direito a estar triste, a sentir aquilo que se está a sentir.

A tristeza boa é a tristeza romântica, sofrer por um amor, por um tempo limitado é aceitável. A tristeza por nojo (leia-se luto, para quem não conhece a expressão) é também aceitável mas também por um tempo limitado e com peso, conta e medida. A tristeza que se transforma em arte, essa, sempre foi enaltecida. As outras formas de tristeza são dispensáveis e tantas vezes tratadas com uma espécie de condescendência que roça o insulto.

Porque teremos deixado de saber lidar com a tristeza dos outros? Porque insistimos em acrescentar-lhe o peso da culpa, da vergonha, exigir-lhe a decência do isolamento, da ausência?

Provavelmente não conseguirão eliminar as causas da tristeza dos outros mas não há tristeza que não seja atenuada com um abraço, com um chocolate quente (ou frio), com um passeio ou simplesmente com a abertura para ouvir, sem julgar e sem mostrar que é um frete aturar aquilo.

28
Mar22

A Noiva Judia, de Nuno Nepomuceno

Patrícia

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Num livro que é, claramente, o fim de um ciclo, o Nuno escreveu os leitores. Este é uma espécie de presente para quem acompanhou a série do princípio ao fim e viu agora desvendados os segredos, os porquês e o que aconteceu no "e depois viveram felizes para sempre", mas sem o felizes que isto é um thriller e sangue, mortes macabras e temas polémicos é o que não falta. 

Com um ritmo rápido, e dicas suficientes para que nos recordemos e quem é quem nesta saga, o autor dá um nó nesta história e faz o Afonso passar maus bocados. Como habitualmente os temas da ordem dos dia estão presentes nestas páginas tal como uma série de referências, mais ou menos subtis, ao mundo literário. 

Duas mortes dão o mote para mais uma história. Quem os matou, porquê? Será Diana capaz de deixar no passado quem quer ficar no passado? Podemos também falar de redenção, de acções e consequências, de amizade, de perda (e da Sofia, Nuno, temos que falar da Sofia!).

Este é um livro inevitável para quem tem acompanhado a saga de Afonso Catalão.

03
Mar22

podemos fechar a guerra?

Patrícia

Acordo.  Ainda é noite e sei, por isso, que ainda tenho algumas horas até ter que me levantar. Este é um dos meu pequenos dramas, não durmo bem há anos e as consequências disso já se fazem sentir. O primeiro pensamento lógico é para a guerra. Em 2022 e acordo a pensar na guerra. Como é possível? Como chegámos aqui? Em quantas encruzilhadas falhámos para que um povo esteja a sofrer daquela maneira? 

Um louco, com a loucura dos sãos que têm em si o mal, decidiu invadir um país apenas devido às suas ideias megalómanas e o mundo assiste armado com sanções económicas e armando os outros, aqueles que defendem a sua terra e nos defendem dos sonhos de expansão de um homem. A nossa consciência apazigua-se com aquela caridade fácil e rápida em que somos tão bons e com a ideia de que a inacção é o único garante da paz porque o Golias tem armas nucleares e não tem medo de as usar (leiam a crónica da Carmo Afonso de ontem sobre isto) . Apaziguamos a nossa consciência com manifestações e gritos pela paz, que nos lavam a alma e justificam plenamente que assistamos a mais uma guerra através dos telemóveis. 

Esta noite caiu mais uma cidade nas mãos dos russos, Kherson, lemos nós enquanto nos preparamos para sair do quentinho da cama, tomamos café ou escrevemos um post no blog (hipocrisia alert). Elogiamos a coragem Zelensky, um dos homens que nos está a impedir de deixar esta guerra cair para um cantinho do jornal, mas sabemos que será apenas umas questão de tempo até a Ucrânia cair nas mãos de Putin. Alguém acredita que os Russos estão nas negociações de paz com seriedade? Quero muito estar enganada mas, se nada mais mudar, isto só acaba com a Ucrânia com nas mãos de Putin. Com as sanções económicas em vigor - se não deixarmos este assunto desaparecer - talvez, talvez, a fome de poder do Putin seja, de certa forma, refreada, e ele fique por ali durante uns tempos. Arrefece a guerra mas é guerra na mesma.

Infelizmente esta guerra não nos uniu, tal como a pandemia não o tinha feito. Mas em tempos difíceis há sempre pessoas que se destacam e nos dão esperança ao mesmo tempo que ajudam os outros. Pessoas que trabalham incansavelmente para fazer estas coisas acontecer. A elas, o meu obrigada. As iniciativas multiplicam-se para ajudar os refugiados, para enviar medicamentos, roupa e comida para ajudar os que estão a lutar pelo seu país e os que fogem de casa. E sim, isto também é importante. Neste momento é uma obrigação. E é fácil contribuir. 

 

22
Fev22

da leitura por aí

Patrícia

Já muito se falou sobre o resultado de um inquérito às práticas culturais dos Portugueses, feito pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, com financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian, mas eu ainda não tinha tido tempo de vir aqui deixar a minha opinião.

Os números entristecem-me mas muitos não surpreendem: lê-se pouco e a maioria lê em contexto escolar (leia-se "obrigatório"). 

Não surpreende. Todos o sabemos. Quantos de nós teve que procurar entre desconhecidos para encontrar gente com hábitos de leitura compatíveis? Diz a estatística que a maioria de nós tem leitores na família - antes de dizerem que não, procurem na memória, pensem em família alargada, em quem foi para vocês um exemplo: a maioria deve encontrar leitores (mesmo que não tão assíduos como vocês) por lá. 

Eu tenho bastantes exemplos. A principal responsável pelo meu amor aos livros foi a minha mãe (e este argumento sempre resultou muito bem quando queria comprar mais um livros) mas tenho também que agradecer a algumas primas mais velhas que me davam acesso às suas estantes. Ainda hoje os livros são um ponto que nos une.

No geral reconheci naquele estudo a nossa realidade. 61% de não-leitores, 10% lêem ebooks, audiobooks sem expressão e apenas 8% lê mais de 6 livros ao ano.

O que me chocou deveras foram outros números.

71% nunca foi com os pais a uma livraria? 75% a uma feira do livro? 77% a uma biblioteca?

Mesmo considerando que o estudo abrangeu apenas pessoas com mais de 15 anos e que a maioria já não será jovem estes números chocam. Não acredito que sejam um reflexo da infância de hoje mas ainda assim não deixo de me perguntar quantos miúdos vão crescer sem saber o que é uma livraria (e vão achar que os únicos livros que existem são aqueles que se pode comprar no supermercado), sem ir a uma feira do livros (cada vez há menos, e o país não é Lisboa) ou aqueles que nunca terão a hipótese de ir a uma biblioteca (uma vez mais, o país não é  Lisboa nem toda gente vive em cidades). 

Pensar que há pessoas a quem nunca contaram uma história faz o meu coração saltar um batimento. Nos mais velhos ainda há a possibilidade de terem tido pais que não sabem ler mas ainda assim 54% é um número demasiado elevado.

Como mudar isto?

A literacia, a cultura, a educação são as bases de qualquer sociedade. A leitura é uma das armas para combater a pobreza. A educação é a única forma de mudar o mundo de forma duradoura. 

Mas os livros não são valorizados. Ler não é sexy. Ler não é másculo. Ler não é uma vantagem competitiva reconhecida (apenas reconhecida, porque quem achar que não é uma vantagem competitiva está absolutamente errado). Ler só é visto como uma qualidade por outros leitores.  Ler muito ainda é ter "pouco que fazer" ou "muito tempo livre". Ler ainda é a primeira coisa da qual se abdica. 

Os livros não estão nas televisões, nas novelas, nos jornais.

A publicidade aos livros é feita por carolice ou amor. A publicidade aos livros nem é bem publicidade, é paga em géneros e feita por gente sem formação ou qualificação na área. E é considerada suficiente. Vá, isso e "comprar montras" nas livrarias. É preciso ganhar um prémio (e não é qualquer prémio) para ter honras de notícia - geralmente uma cinta nos livros é suficiente.

Os livros são, cada vez mais, bens descartáveis - só a novidade é importante.

As livrarias estão a morrer. Podemos dizer que não faz mal, conseguimos comprar qualquer livro online ou ir a uma fnac ou hipermercado e temos lá livros. Mas  Fnac não é bem uma livraria, apesar de ser maravilhosa, e a escolha nos hipermercados é rísivel.A Bertrand ainda é uma livraria e tem das melhores livrarias do país - não fosse a brincadeira das montras compradas e podia ser ainda melhor.

Mas há cada vez menos livrarias de rua. Livrarias criadas por amor aos livros. Menos livrarias, menos alfarrabistas, menos originalidade e personalidade neste negócio que é estranho porque não valoriza os produtores e a matéria prima (sinceramente, pela forma como às vezes são tratados, parece que os escritores são dispensáveis neste processo todo) e, ao mesmo tempo, parece ter-se acomodado aos nicho de mercado - não se vê uma tentativa clara de ganhar novos clientes.

As bibliotecas, por outro lado, são o motor de muitas iniciativas. Quem lá trabalha e quem as frequenta, tantas vezes num esforço voluntário e por amor aos livros, tem feito um trabalho maravilhoso de aproximação das pessoas aos livros. Quantos grupos de leitores não têm sido desenvolvidos através ou com a ajuda de bibliotecas? Quantas iniciativas são dinamizadas pelas bibliotecas? Quantas bibliotecas têm nascido?

Lembro-me das bibliotecas estarem moribundas, esquecidas e abandonadas por esse país fora. E fiquei feliz por vê-las renascer. E isso dá-me esperança.

 

 

13
Fev22

A vida acontece

Patrícia

Não há meio de conseguir manter uma publicação regular neste blog. Nem vos consigo dar outra razão que não "A vida acontece".

Há muitos anos resolvi separar o blog sobre livros de um outro, que fui mantendo, onde escrevia sobre temas mais mundanos, sobre mim e sobre a actualidade se fosse essa a minha preocupação do momento. Poucas pessoas sabiam que eu tinha um blog quanto mais dois. Aliás, poucas pessoas sabem que eu tenho um blog. Apesar de qualquer pessoa que me conheça o conseguir identificar como meu pela foto de capa (o meu gato é mais conhecido que sei lá o quê, coisa que não deixa de ser estranha uma vez que é o mais insociável ser que já pisou neste planeta) a verdade é que os anos têm passado e só os meus "amigos dos livros" e mais meia dúzia sabem que ele existe. E, por aqui, rapidamente aprendi a ser anónima, quis ter um sítio para partilhar leituras, registar opiniões e que fosse um caminho para livros que de outra forma não leria. Este semi-anonimato, que tem sido o meu registo nas redes sociais que tenho, acaba por ser um espartilho que me impede, tantas vezes, de me tornar real e completa nesta personagem virtual. Enfim, são escolhas e não me arrependo nem as vou mudar mas explicam um pouco porque venho tão poucas vezes aqui. 

Nestas últimas semanas tenho lido mais jornais que livros. Os acontecimentos que merecem atenção e reflexão - e que têm o potencial para influenciar a nossa vida de hoje - têm-se sucedido a uma velocidade vertiginosa e, cada vez mais, é necessário fazer uma pausa, desligar todos os estímulos, para conseguir formar uma opinião ou, pelo menos, começar a ter uma ideias das repercussões, razões e consequências de cada acontecimento.

Vivemos tempos interessantes, seja lá como for, e por muita vontade que tenha de fugir para dentro de um livro e não sair de lá até que a nossa assembleia deixe ter 12 deputados de extrema-direita a verdade é que não o podemos fazer ou, daqui a uns tempos, vamos, por exemplo, voltar a ter livros proibidos.

Tenho a sensação que retrocedemos muito, muito tempo. Não sei se as mais de 400 mil pessoas que votaram na extrema-direita o fizeram por serem anti-sistema ou por acreditarem que, de facto, o mundo se divide em pessoas de bem e bandidos, mas inegavelmente fizeram-no por se sentirem representados por aquele discurso de tasca. 

Não sei se foi a pandemia, se é da moda ou se simplesmente as pessoas se cansaram de esconder quem são, mas os últimos tempos trouxeram para a vista de todos o que de pior a humanidade tem. Sem medo e sem vergonha. O egoísmo substituiu a empatia de uma forma brutal e esmagadora. O ódio está a ganhar em toda a linha. O relógio do doomsday está a 100 segundos para meia-noite e nós estamos à beira de uma 3ª guerra mundial. 

 

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