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Ler por aí

Ler por aí

21
Jun19

Shadows for Silence in the Forests of Hell, de Brandon Sanderson

Patrícia

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Quão brutal é este título?

Shadows for Silence in the Forests of Hell é uma novela (é bastante difícil chamar conto Ou Short Story a qualquer coisa que o Brandon Sanderson escreva) inserida na colectânea Arcanum Unbounded. Este livro é uma espécie de doce oferecido aos leitores que desesperam por perceber Cosmere, esse universo que está a ser construído pelo autor e que engloba as grandes sagas Elantris, Mistborn (era 1), Mistborn (Era 2), Warbreaker e Stormlight Archives. Não é necessário saber sequer o que é Cosmere… mas é brutal quando sabemos. Na verdade o que os leitores que não conhecem Cosmere acham “palha” nestas séries é aquilo que nós, geeks, procuramos porque queremos muito perceber este universo.

No Arcanum Unbounded estão juntos os contos e novelas que foram sendo publicados aqui e ali pelo autor. Este, por exemplo,também faz parte de uma antologia organizada pelo George R.R. Martin chamada “mulheres perigosas”.

Se tivesse que catalogar esta história, diria tratar-se de uma mistura de Thriller com uma pitada de Horror muito mais que uma história de fantasia.

Num mundo pós-apocalíptico, onde as Sombras (Shades) matam quem não cumpre as regras básicas (não fazer chamas, não derramar sangue, não correr) e só podem ser combatidas com Prata, Silence Montane dirige um dos lugares mais seguros da Floresta do Inferno, terra dos danados, uma estalagem onde as Sombras não entram e que se diz ser assombrado pela Sombra do ex marido da Silence. Quando esta mulher reconhece um dos assassinos mais procurados a comer calmamente à sua mesa, é a vez de White Fox, o mais perigoso caçador de recompensas da floresta, entrar em acção.

Gostei imenso deste conto, de Silence e William Ann. Tive pena da personagem de Sebruki não ter sido mais desenvolvida e da maioria das personagens e criaturas se ter ficado pelas duas dimensões. Mas isto é um conto e não uma saga, por isso não dá para reclamar.

Adorei (e confesso que dei uma gargalhada quando me apercebi do que estava a acontecer) a avó da Silence.

E adorei a mulher que é Silence, a sua força, a sua determinação. E tiro o chapéu ao Sanderson que contou a história de uma mulher perigosa sem a transformar num homem.

10
Jun19

Índice Médio de Felicidade, de David Machado

Patrícia

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Não me apetece tentar calcular o meu IMF. Acho que ficaria deprimida. Acho que qualquer número me faria sentir uma fraude. E a culpa é precisamente da tal relativização de que David Machado fala neste livro.

À primeira vista dir-vos-ia que este livro fala de resiliência ou de coragem. Pensando bem, fala de teimosia e de orgulho e de como facilmente estas (e outras) características passam, com toda a facilidade, de qualidades a defeitos e vice-versa.

Esta é a história de um homem que perdeu tudo excepto um irritante optimismo que insiste em preservar. É certo que apenas conhecemos a sua história do seu ponto de vista e todos sabemos o quão enviesadas são, tantas vezes, as nossas opiniões sobre nós mesmos. Daniel perde o emprego e com essa perda, perde (quase) tudo. A sua recusa em desistir consegue ser, ao mesmo tempo, admirável e irritante.

Admirável, por razões óbvias: a resiliência, a resistência à má-sorte e às vicissitudes da vida é uma enorme qualidade que Daniel tem de sobra.

Irritante porque insistir em arriscar tudo (mas tudo mesmo) só para não pedir ajuda, só para não aceitar ajuda é extremamente estúpido. 

Ao contrário do que podem, neste momento, estar a pensar, eu gostei bastante deste livro. Gostei porque é um livro que levanta algumas questões e porque se centra na relação que todos temos uns com os outros.

Na verdade, se tivesse mesmo que escolher um tema (numa palavra) para este livro, eu escolheria Altruísmo. 

Que preço estamos dispostos a pagar para ajudar os outros? No que estamos dispostos a perder para ajudar um amigo? 

Muitas vezes achamos que fazer uma boa acção de má vontade  não tem valor, que só a abnegação é virtuosa mas não será exactamente o contrário? Uma boa acção feita apesar da má vontade, apesar do que deixamos para trás é tão maior. Não quero com isto desvalorizar aquilo que é feito apenas com amor e alegria mas às vezes devíamos olhar para os custos do que os outros abdicam por nós para lhes dar verdadeiro valor.

Não sou uma optimista por natureza pelo que tenho a minha interpretação muito própria deste género de final mas ainda assim não fiquei desiludida e acho mesmo que será o ideal para este livro. E o final (e todo o livro afinal) davam uma óptima discussão e isso é, afinal, o grande propósito da literatura.

 

 

 

08
Jun19

Assassin's quest, de Robin Hobb (***SPOILERS***)

Patrícia

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Finalmente acabei uma das séries de fantasia mais amadas e aclamadas. Antes de começar a esmiuçar a minha opinião (e atenção que vai ter SPOILERS) deixem-me dizer-vos que a minha opinião resumida é um "gostei, mas...". 

Gostei mais do segundo e do terceiro livros que do primeiro. Para dizer a verdade, o segundo foi o meu favorito uma vez que o terceiro se arrastou muito no início.

Um dos pontos altos deste livro é a relação entre Fitz e Nighteyes. No início deste livro, Fitz regressa, relutantemente, ao seu próprio corpo mas o tempo em que partilhou a consciência do Lobo deixou marcas. Neste relação é muito bem explorado o que é ser "humano", o que nos separa (ou une) aos restantes animais. Toda a jornada de Fitz é acompanhada pelo nighteyes e a forma como este vai adquirindo características exclusivamente humanas está muito bem conseguida.

As novas personagens são extremamente interessantes mas confesso que senti falta das antigas. Para dizer a verdade estava à espera que o Chade morresse e até compreendo a necessidade de afastar o Burrich, deixar o Fitz crescer e enfrentar os seus próprios erros (e só deus sabe quantos erros o Fitz teve que cometer até acertar) mas senti-lhes a falta. E se o final do Burrich me agradou não posso dizer o mesmo do Chade.

Ainda não sei se as explicações sobre os red ships me convenceram completamente mas confesso que adorei a ideia dos elderlings. Talvez tenha sido demasiado fácil para o Fitz acordá-los (too much e nem sequer havia necessidade) mas o sacrifico do Verity deixou-me de coração apertado - fabuloso. 

Gostei muito da ideia - já antes explorada q.b mas que aqui tomou um lugar fundamental - do Catalyst e do White profet. Ter o Fitz (e não o Verity), o catalisador como protagonista foi um golpe de génio mas, caramba, não era necessário que o desgraçado falhasse tanto. Ao longo dos três livros, se pensarmos bem, Fitz teve pouquíssimas vitórias - escusava portanto de ter descoberto como acordar os elderlings de forma tão fácil e casual. Pessoalmente preferia que ele fosse tendo algumas vitórias pelo caminho.

Regal acabou por se tornar num verdadeiro vilão mas podia ter bastante mais consistência e nuances do que teve.

Kettle, Starling e Kettricken são todas maravilhosas à sua maneira. E o Fool, bem, o Fool continua a ser a minha personagem favorita. Foi maravilhoso vê-lo tornar-se um membro de pleno direito do pack do nighteyes e companhia.

 

04
Jun19

Agustina Bessa-Luís

Patrícia

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É um nome incontornável da nossa literatura. Agora, que morreu, tornar-se-á o ídolo que não foi em vida. É sempre assim por cá. 

A minha relação com os livros da Agustina Bessa-Luís é complicada. A Sibila foi a minha leitura obrigatória do 12º. Um 12º de Ciências, com uma professora tão pouco memorável que nem do seu nome me recordo (e acreditem que me recordo do nome de todas as minhas professoras de Português). Aquela leitura obrigatória estragou-me a Agustina. E isso é algo que não perdoo à escola.

Fiquei sempre com a sensação de que os livros da Agustina Bessa-Luís não eram mim e só há poucos meses ganhei coragem e tirei da estante da casa minha mãe o A Sibila. Na mesma altura comprei o "A ronda da noite" porque acho que, finalmente, tenho maturidade para ler esta escritora.

Numa das (sempre poucas) homenagens feitas a Agustina Bessa-Luís li esta frase e é com ela que lembro esta mulher que devia, merecia, ser mais lida do que é. Enquanto tiver leitores, Agustina viverá nos seus livros.

"quando aprendi a ler, no mundo fez-se luz e passei a compreender tudo"

 

 

 

 

31
Mai19

Aquela época do ano

Patrícia

Acho que os leitores gostam mais da feira do livro que do Natal. É verdade que no Natal recebemos livros mas a (triste) verdade é que a maioria das pessoa tem algum receio de oferecer livros a leitores (talão de troca, gente, talão de troca) e que os leitores não só não controlam a quantidade das ofertas como não controlam a sua qualidade (mais uma vez... talão de troca, ok?). Na feira tudo depende da vontade...e do dinheiro, claro. Mas já estamos todos à espera que a feira nos leve à beira da falência, não é?

Adoro ver o entusiasmo com que os leitores esperam e vivem este evento. Listas e mais listas. A felicidade de carregar livros, os projectos de leitura que nascem naqueles momentos. 

Eu gosto muito de ir à feira no primeiro dia. Há muito menos gente, os alfarrabistas ainda têm muita coisa e é uma excelente forma de "tomar o pulso à coisa". 

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Fui à feira e apesar do calor horroroso (levem águas, sumos, chapéus) foi muito bom. A paragem obrigatória na banca das promoções da promoção da Relógio d'Água teve como resultado este Mrs. Dalloway, da Virginia Woolf que queria há muito. O "essa puta tão distinta" foi um achado nos alfarrabistas - acho que o livro nunca foi lido, tem marcador e está impecável - e era também um dos livros que eu queria ler.

Não sou de me perder em promoções nem de vir carregada com livros que não sei se algum dia vou ler - mas garanto-vos que às vezes é difícil resistir. Não me importo muito de investir em clássicos - são livros que hei-de ler um dia - mas por norma opto por livros que quero ler no imediato. 

Claro que a feira é, hoje em dia, bem mais do que apenas livros. Adoro os eventos, os encontros com escritores e outros leitores mas torço o nariz à panóplia de outros eventos que já se tornaram normais por lá. Por muito que eu goste de música (e gosto)  irrita-me imenso a poluição sonora que emerge na confusão de músicas tocadas todas ao mesmo tempo. Eu percebo a ideia, percebo que os grupos editoriais querem criar uma ilha no meio da feira mas, na minha opinião, só conseguem criar confusão e estou sempre com vontade de sair daqui para um local mais calmo onde possa abrir os livros que comprei e começar a ler.

 

 

 

22
Mai19

Estudos, estatísticas, números.. precisam-se. Com urgência.

Patrícia

É mais ou menos consensual que cada vez se lê menos. Há menos leitores.

É verdade que, tal como disseram o Guilherme e o Hugo, numa conversa bastante interessante no podcast Sem Barbas na Língua, muitas das competências que adquirimos ao ler um livro podem ser adquiridas noutro género de leituras ou ou até noutro género de actividade - quem diz que, por exemplo, a criatividade não pode ser estimulada com um jogo de computador?

A este respeito também gostei bastante da conversa, moderada pela Fernanda Almeida, entre a Patrícia Reis, a Inês Pedrosa e a Rita Ferro no A Páginas Tantas de 15 de Maio.

Num país tão pequeno como o nosso, o que fará isto ao meio literário, aos livros? 

Sem leitores, ou com menos leitores, o mercado terá que se adaptar e redimensionar necessariamente e todos sofreremos com isso. Escritores, editores, livreiros e leitores.

Eu gostava de ter dados mais específicos:

Perceber qual a real dimensão da queda de leitores. Há uma diferença entre leitores e pessoas que compram livros. Será a queda em ambos os grupos proporcional?

A relação entre leitura e compra de livros alterou-se? O mercado paralelo de venda de livros está a deturpar estes dados? Qual é a dimensão do mercado paralelo? Se incluirmos o mercado paralelo (e aqui falo de olx, custo justo e afins; grupos de facebook; feira da ladra e restantes "dealers") qual a dimensão do universo de leitores?

E qual a dimensão de leitores que compram em sites estrangeiros? Bookdepository, amazon e tantos sites de livros em segunda-mão... quão residual é este grupo? É que a mim não me parece, de todo, que seja residual.

Estudos, estatísticas, números.. precisam-se. Com urgência.

É preciso perceber qual o peso do preço dos livros na compra de livros. E qual o peso do preço dos livros na leitura. E não, não me estou a repetir. Compra e leitura de livros são efectivamente variáveis diferentes. Qual o peso do preço dos livros na compra de livros em sites estrangeiros. 

É preciso perceber quais as razões para que os miúdos e graúdos optem por outras actividades em detrimento da leitura (é fácil culpar os dispositivos electrónicos mas também é uma treta). 

É preciso falar e pensar leituras obrigatórias, o papel da escola na leitura, o papel da família, a localização e o número de bibliotecas. Os livros existentes das bibliotecas. O papel das comunidades.

É preciso perceber efectivamente o que se passa, os porquês para pensar em formas de acção.

 

 

19
Mai19

Um, dó, li, tá , de M. J. Arlidge

Patrícia

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Um, dó, li, tá...

A premissa deste livro é assustadora: Duas pessoas raptadas e presas... pelo menos até que um deles morra. Queres viver? Mata o teu companheiro de infortúnio. Simples e eficaz.

Helen Grace, a inspectora-chefe que lidera o caso tem, como normalmente acontece neste tipo de livros, muitos fantasmas e é uma pessoa bastante interessante. Gostei bastante dela.

Não vos vou contar nada sobre o enredo deste livro por razões óbvias: é um policial e não vos quero estragar a diversão.

No meu ponto de vista, não sendo o melhor policial que já li na vida, lê-se bem e tem um final suficientemente agridoce para agradar. As cenas negras são suficiente macabras para me dar a volta ao estômago. 

Só fiquei com pena de não ter tido a hipótese de descobrir quem era o assassino... 

 

15
Mai19

Berta Isla, de Javier Marías

Patrícia

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Berta Isla foi o primeiro livro de Javier Marías que li. Este autor estava naquela lista dos "incontornáveis e adorados por todos que não li porque tenho um medo do caraças de não gostar e ser a ovelha ronhosa cá do sítio". Em vez de começar pelos livros mais famosos ou por aqueles de quem todos os meus amigos falam (com o Os enamoramentos à cabeça desta outra lista) comecei por um que comprei por impulso no dia em fiz 40 anos.

Berta Isla conta a história de um casamento... não, de um "casamento" talvez não seja a palavra certa. Berta Isla conta a história de como duas pessoas, por pura teimosia (e no fundo talvez seja isso a que chamamos amor) se mantêm numa relação quando toda a lógica diz que aquela não faz nenhum sentido. É a história de duas pessoas que não deixam que a vida se intrometa na sua relação.

Berta e Tómas (ou Tom) conhecem-se no liceu. Ela, madrilena, ele, filho de um inglês e de uma espanhola, cedo percebem que é um com o outro que querem ficar. A separação do tempo da faculdade (ela estuda em Madrid, ele em Oxford) marca o início e, afinal, o ritmo de toda uma vida. As separações frequentes, a vida a dois e as vidas, que não se misturam, quando estão separados. É durante a estada em Oxford que Tom é recrutado, após um incidente que tem o poder de mudar o curso de uma vida e por ter um talento especial para as línguas, para os serviços secretos ingleses. Mas não é certamente a necessidade de secretismo que advém deste tipo de ocupação que se irá intrometer na vida de Berta e Tómas.

Berta não sabe, na verdade, a que se dedica o seu marido. E quando descobre continua a não saber. E como tal, como qualquer pessoa que, na verdade, não sabe mas tem parte da informação... especula, adivinha, remói, inventa, sonha, julga. E vou confessar-vos - esta parte chateou-me um pouco. Metade do espaço dedicado às especulações da Berta tinha sido mais que suficiente. É certo que a escrita de Javier Marías é excepcional. É certo que nos consegui transmitir o solidão, o isolamento, o abandono que Berta sente. É certo que as suas dúvidas são também as nossas (apesar de sabermos mais que ela, cortesia do narrador omnisciente da primeira parte do livro) e os seus medos e julgamentos são também os nossos. Ainda assim... demasiado longa, esta segunda parte. Resistir-lhe foi um exercício de persistência (bastante facilitado pela magnífica escrita do autor). 

Por outro lado gostei muito mesmo das primeira e terceira parte. Ouvir as histórias de Berta e Tom por um narrador omnisciente com um ritmo me me fazia virar página atrás de página foi mesmo muito interessante. O que me leva a querer ler a trilogia "o teu rosto amanhã" porque acho que vou gostar muito.

Apesar de ter achado desnecessariamente longa a parte em que são levantadas todas as questões morais e existências deste livro achei-as bastante pertinentes. Reflectir sobre o conceito e o pré-conceito do amor e das convenções sociais; sobre o casamento; a lealdade que devemos aos outros e a nós mesmos ou sobre quem somos, sozinhos ou com os outros, é sempre bom.

No geral acabou por ser um livro de que, apesar de não ter sido fácil de ler, gostei muito.

 

 

14
Mai19

O que eu aprendi com o GOT

Patrícia

Please, please, please, please, please.. nunca façam uma adaptação (seja, série, filme, anime ou o raio que o parta) de nenhum dos livros do Sanderson. Ou de quem quer seja.

Se quiserem muito, muito, fazer algo... fiquem-se pelos YA. Assim, como assim, têm muito mais público. 

29
Abr19

Vivemos tempos interessantes

Patrícia

Eu podia vir aqui falar-vos das eleições espanholas, do quão fico chocada por ver miúdos a fazer a apologia do salazarismo, do ponto de não-retorno no que à saúde do planeta diz respeito, do Sri-Lanka e da Nigéria e de Moçambique. Podia vir ter uma conversa mais filosófica e em vez do Apocalipse das alterações climáticas falar-vos do quão falhámos enquanto humanidade. Mas isto é um blog sobre livros e leituras e hoje é dia 29 de Abril de 2019, mais conhecido como o dia da Batalha de Winterfell, e por isso venho falar-vos do mundo pós GOT.

Não se preocupem, não há spoilers por aqui, é seguro, podem continuar a ler.

Vivemos tempos interessantes, sim. Tempos em que gente de todas as idades, credos e etnias, discute quem vive e quem morre, quem vai ganhar a guerra pelo trono de ferro,  numa série... com dragões.

A fantasia épica tem honras de primeira página, é notícia na televisão e rainha na internet. Uma série de televisão fez, após a emissão da novela Gabriela (que era, dizem as más-línguas, discutida até nos corredores do parlamento), o brilharete de pôr todos a falar da coisa... nem que seja pela ausência (e o orgulho com que é dito "eu não vejo game of thrones"?).

Confesso que acho piada a tudo o que se vai passando. 

Eu, leitora de fantasia épica, estou habituada a ter gente a olhar-me meio de lado, meio com pena, quando estou a ler ou a falar de algum dos meus livros. Até dos leitores habituais há, tantas vezes, a desvalorização da fantasia, tratada com um género menor da literatura. Eu estou habituada a ser a geek, a nerd, que vibra com universos alternativos, que fala de magia como se de ciência se tratasse  e subitamente vejo toda a gente a vibrar com o mesmo. É giro e divertido. 

Eu sei que não vai durar. Eu sei que depois de game of thrones, a maioria vai regressar ao cinzentismo da vida, vai continuar a achar que ler fantasia é coisa de miúdos e vai descobrir outra série qualquer. Também sei que a série foi um sucesso mas que os livros ainda vão continuar a ser só para alguns e que saltar dali para outras séries de fantasia não vai acontecer para a maioria (your lost, not mine). Mas para já deixem-me curtir o facto de ser normal por umas semanas.

E agora vou ali ver quem morreu, quem se safou e quem vai lutar pelo trono de ferro. E depois vou insultar o Martin mais um bocadinho por ter deixado isto acontecer, a série acabar antes dos livros serem todos lançados.