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Ler por aí

Ler por aí

18
Nov18

Jogos de Raiva, de Rodrigo Guedes de Carvalho

Patrícia

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Jogos de Raiva foi uma óptima surpresa. 

Apesar de ter em casa um dos livros deste jornalista feito escritor (se bem que o mais justo e certo seria, talvez, dizer escritor feito jornalista), o Canário, a verdade é que nunca me tinha apetecido lê-lo. Foi depois de ouvir a sua participação no podcast do Expresso Palavra de Autor (partilho abaixo para quem não conhece e tem curiosidade) que decidi que queria ler este livro. E gostei muito mesmo.

Este é um livro extremamente actual. Sem dúvida será um livro datado, um livro da nossa época. Aquele que um dia daremos aos miúdos para lhes contar como foi o início do séc XXI. Há aqui um olhar acutilante, extremamente crítico mas também muito real da vida nas redes sociais. O olhar do jornalista aqui é tão importante quanto o talento do escritor. Aquela sequência final deixou-me sem ar. Não tanto pelo conteúdo (naquela altura já não tinha grandes dúvidas sobre o resultado da coisa) mas pela consciência do quão real é. Todos os dias. A toda a hora.

Exactamente como o escritor diz no Palavras de autor, a primeira página desde livro ataca-nos, provoca-nos uma impressão que não nos larga ao longo do livro. Quem é, afinal, aquele casal?

Uma discussão entre Francisco José e o seu filho Nuno, uma daquelas discussões que provocam um terramoto e mudam a geografia da terra, é o mote para levar-nos, a nós leitores, para o seio desta família. Francisco José e Clara,  os filhos Nuno, Ana Teresa e Santiago, a neta Catarina, o cão Camões, o amigo Pedro e outros personagens igualmente interessantes. O Xerife Sousa, por exemplo, cuja história me deu um aperto no peito que nem imaginam.

A família Sereno é uma família como qualquer outra. E como tantas tem um segredo. E os segredos têm essa coisa de crescer, criar tentáculos e às tantas destruir. Exactamente como as palavras. Que, às tantas, têm o poder de nos magoar de formas que nem imaginávamos.

Mas ia contar-vos um bocadinho sobre os personagens. Francisco, o pai que conta histórias mirabolantes aos filhos e que um dia escreve um livro que se tornará um sucesso porque foi descoberto pelos leitores presentes nas redes sociais, Clara, uma psiquiatra que adora flores e não sabe se fez diferença na vida dos doentes, Nuno que cresceu para ser jornalista, Ana Teresa que toca descalça, Santiago que vê o mundo de forma especial, Pedro que não é um artista (E então? Não temos todos de o ser), Catarina que já nasceu velha.

Às tantas o autor avisa-nos: Francisco José é assombrado por três naufrágios. Depois, conta-nos tudo. Um a um. 

 

 

16
Nov18

Dos livros, com amor

Patrícia

Oferecer um livro a um leitor é uma prova de amor.

Tenho a certeza que todos vocês já ouviram o "já tens tantos livros", "não sei que livro te hei-de oferecer" ou outros mimos do género.

A verdade é que é difícil comprar um livro para um leitor a não ser que se seja tão "leitor voraz" como a outra pessoa.  Acima de tudo, a maioria das pessoas  (aquelas que querem efectivamente agradar-nos) tem receio de não escolher o livro certo, de não ver nos nossos olhos aquele mesmo brilho de quando chegamos a casa com um livro novo. E preferem seguir o caminho seguro e oferecer-nos algo totalmente diferente.

Oferecem-me muito poucos livros. Ele não é o mesmo tipo de leitor que eu mas sabe o que significa para mim receber um livro - principalmente quando é uma surpresa e foi escolhido por ele (e não retirado de uma qualquer lista que eu lhe tenha dado). E a verdade é que o tipo tem jeito.

Sim, definitivamente... oferecer um livro é uma prova de amor.

14
Nov18

Legion, the many lives of Stephen Leeds, de Brandon Sanderson

Patrícia

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Este livro (que ouvi em audiobook) começa mais ou menos desta maneira (tradução livre)

"O meu nome é Stephen Leeds e sou perfeitamente são. Já as minhas alucinações são completamente loucas"

Este é o primeiro livro do Sanderson fora do universo de Cosmere que leio. E digo-vos já que gostei. Gostei, apesar de não ser do universo Cosmere, apesar de não ser do género fantástico (isto é mais Ficção Cientifica que outra coisa qualquer) e apesar de serem contos/novelas.  Não é nem será nunca um dos meus preferidos mas é bastante interessante. Este audiobook contém as 3 novelas desta série: LegionLegion: Skin Deep e Lies of the Beholder.

Stephan Leeds é um génio com capacidade para aprender tudo, de uma forma rápida e eficaz... com a particularidade de o fazer através de uma das suas alucinações (para os devidos efeitos, daqui para a frente passarei a usar a palavra "aspecto" quando me referir a cada uma dessas alucinações). Assim, e para vos dar um exemplo, quando precisa de ir a Jerusalém, ele "imagina" Kayani (não faço ideia como isto se escreve), multilingue, que vai funcionar como tradutora. 

A primeira novela Legion, apresenta-nos Stephen, alguns dos seus aspectos (Tobias, Ivy e JC, por exemplo), a Wilson (o mordomo, muito ao estilo Batman) e ao seu modo de vida... é que, apesar dos aspectos serem uma espécie de alucinações, precisam de espaço físico pelo que Stephen precisa de muito dinheiro para ter, por exemplo, uma casa enorme (e vazia), comprar bilhetes de avião para que haja lugares vazios para os aspectos que o acompanham ou taxis para levar o JC a qualquer lado (é que como o JC tem problemas com o facto de não ser real, em vez de apanhar um uber imaginado, acaba por entrar num uber de qualquer pessoa real e ir parar onde não deve!

Pronto já afugentei 99% das pessoas que começaram a ler este post e para ti, que ainda cá estás, deixa-me que te diga: isto só é estranho no início, o BS tem a maravilhosa capacidade de nos fazer acreditar nisto tudo por um momento.

Os personagens (e aqui incluo todos os seus aspectos) são maravilhosos. É impossível não gostar do Stephen (e ter alguma pena dele - aquele cérebro é uma loucura), não querer um amigos como o Tobias (que, só por acaso é esquizofrénico), não revirar os olhos à Ivy e não rir com o JC. O resto da história não é tão interessante assim mas ouve-se bem. Ah, pelo resto da história refiro-me aos "casos" que Legion (por esta altura já perceberam o título, certo?) aceita resolver. Na primeira novela há uma câmara fotográfica que desaparece... uma câmara que tira fotos do passado. 

Na segunda História, estamos perante o desaparecimento de um corpo e na terceira percebemos finalmente para onde o autor nos queria levar deste o início.

Isto é ficção cientifica e Brandon Sanderson, por isso não é novidade que há nestas páginas muitas questões para reflectir. Os limites da ciência, ética, possibilidades, religião.

É inegável que um dos temas centrais é a realidade virtual, as suas potencialidades, os seus problemas, os seus limites. 

Para quem gosta de ficção cientifica fica aqui uma boa sugestão de um livro (não acho que ler os 3 contos em separado seja uma boa ideia) que pode permitir uma boa discussão para lá da história.

 

 

 

14
Nov18

E para fechar o assunto...

Patrícia

Isto tem sido um regabofe, aqui e por outros blogs, à conta do post anterior. Foi uma discussão interessante e divertida e chego à conclusão que tenho os melhores comentadores do mundo que, apesar de não concordarem comigo, são super educados e se dão ao trabalho de me responder e argumentar. 

De tudo o que li há 2 argumentos mais pertinentes que os outros:

1. Foi referido por quase toda a gente que uma opinião negativa pode ser construtiva - E sim, pode.

Eu até diria a coisa de forma diferente - uma opinião bem construída, mesmo que negativa, é sempre construtiva e interessante.

E acho que esse é o meu maior erro no post anterior: não insistir mais na necessidade de fundamentar, reflectir e pensar as opiniões - sejam elas negativas ou positivas.

2. O único argumento que abalou a minha decisão é o da Célia. E não é em relação à responsabilidade para com os leitores (convenhamos, vocês são uns 10 e quase todos me conhecem bem e já sabem o que achei de um livro antes de publicar o que quer que seja. Não vou estar a fingir que este é um blog muito lido, porque não é - excepto ontem mas isso foi cortesia do Sapo). Quando ela me disse "gosto de conhecer os gostos de um leitor na sua totalidade" o meu coração de blogger falhou uma batida porque percebi exactamente o que isso queria dizer. E eu tb gosto. 

Como vou conseguir conjugar com isso com este meu cada vez maior sentido de responsabilidade é algo que ainda se está para ver.

Mas para quem acha que vou começar a dar só opiniões positivas mesmo quando não gosto de um livro... bem, vocês não me conhecem bem, pois não? Mas podem estar descansadas, isso não vai acontecer.

 

07
Nov18

Falar bem ou mal, eis a questão

Patrícia

Com o poder vem a responsabilidade.

Em blogs (e outras plataformas digitais) como esta damos a nossa opinião sobre os livros que lemos e, numa escala maior ou menor, influenciamos outros leitores a ler (ou não), a comprar (ou não). E com isso vem uma dose de responsabilidade. As editoras há muito que o perceberam, os bloggers e os leitores também. E assim boa parte do marketing feito pelas editoras passa pelas famigeradas "parcerias" (que não são o tema deste post mas, para registo, é coisa que não tenho nem quero ter). E quer se goste ou não, quer se ache bem ou mal, a verdade é que esta comunidade tem algum poder e com isso tem alguma responsabilidade.

Este post é precisamente sobre essa responsabilidade. Ou melhor, sobre o meu entendimento dessa responsabilidade em relação aos livros de escritores portugueses.

Deixem-me começar por dizer que em relação ao tema "dizer bem ou mal de um livro" vs "opinião honesta" eu já mudei de opinião e tenho, ainda, sentimentos contraditórios.

Quando, há muitos anos, comecei esta brincadeira dos blogs (salvo erro, foi em 2006) , a minha ideia era apenas fazer um registo das minhas leituras. Achei piada à brincadeira de escrever sobre livros, a minha paixão, e adorei a possibilidade de encontrar outros leitores e de trocar opiniões. Este blog permitiu-me conhecer muita gente, entrar para um maravilhoso grupo de leitores, conhecer autores e, o melhor de tudo, fazer amigos. Muitos amigos. 

De uma forma um tanto ou quanto egocêntrica achava que era meu direito (quase dever) dar opiniões sinceras, quer fosse para elogiar, quer fosse para criticar. Há posts aqui a falar bastante mal de alguns livros (alguns até são ainda lembrados como tão divertidos que os levaram... a querer ler o livro para poderem ter opinião). Uma vez (até é capaz de haver por aí um ou mais posts sobre o tema) disseram-me que um blogger não devia falar de um livro se dele não gostasse. E alguém que faz (mesmo) crítica literária disse-me que só escrevia sobre livros de que tinha gostado. Confesso (ai, como a ignorância é atrevida) que aquilo me chocou. Como é que podia ser justo só falar bem de um livro? não, não, as opiniões devem ser dadas. É certo que nessa altura tinha uma ideia muito melhor acerca da minha própria capacidade enquanto leitora (ah, a arrogância da juventude) e a verdade é que quanto mais cresço e leio mais percebo o imenso caminho que me falta percorrer para ser isso que ambiciono ser "uma grande leitora"!

Hoje, anos depois, já não sou tão taxativa. Por um lado, não há nada tão divertido como desabafar e dizer mal de um livro de que não gostámos quando estamos com amigos à roda de uma mesa. Isso, garanto-vos, continuarei a fazer sempre. Mas quando penso que alguém não comprou aquele livro por causa da minha opinião, sinto que estou a prejudicar o autor. E essa é, cada vez mais e num país do tamanho de uma ervilha, uma responsabilidade que eu não quero para mim. 

Eu não tenho qualificações nem habilitações para ser critica literária (nem sequer ambição para tal). Eu não quero ser influenciadora - e se o for que o seja de forma positiva. Eu quero influenciar-vos a ler (aqueles que eu considero) bons livros. E tenho total noção que, se eu não gostar, isso não significa que seja um mau livro. Significa apenas que eu não gostei, que não é livro para mim. E sei que, muitas vezes, o problema é meu e não do livro. Quão justo é destruir esse livro por isso?

E antes que me digam que não é por uma opinião negativa que o livro não vai ser um sucesso vou ter que vos lembrar que se uma opinião positiva tem o poder de influenciar uma compra então, necessariamente, uma opinião negativa tem o poder contrário. E esse é um poder que eu não quero ter.

Ora (e lembrem-se que estou a falar maioritariamente de livros de escritores portugueses) se nunca irei dizer que adorei um livro sem que isso seja verdade começo (comecei há muito tempo aliás) a ter muito cuidado com o que escrevo quando gosto menos de um livro. Para já considero muito importante justificar a nossa opinião. É importante perceber porque é que não gostámos. E é importante, acima de tudo, pensar na nossa própria responsabilidade e pensar se valerá a pena, se será importante ou sequer relevante, dar aquela opinião negativa.

E neste caso, deixem-me ser parcial e sincera: eu defendo os nosso mesmo quando não gosto. Cada vez mais. Faço-o, não porque mo pediram, mas porque acho correcto.

Deixem-me só terminar com uma nota (ainda) mais polémica: quando pensarem em dar uma opinião negativa acerca de um livro de um escritor português pensem em quantas vezes pensaram ou disseram que "quem não gosta escusa de vir para aqui ser hater ou falar mal", "não gostam, bazem" porque "isto dá muito trabalho e vocês que não têm a capacidade de o fazer ainda têm a petulância de o criticar", pensem se querem para vocês a responsabilidade de um livro vender menos ou não vender e só depois, com base nessa reflexão, avancem para a publicação dessa opinião.

 

30
Out18

A construção do vazio, de Patrícia Reis

Patrícia

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Assim que percebi quem era a personagem principal deste livro soube como ele acabava. Tenho ainda muito presente a história que a escritora me contou em Por este mundo acima. Gosto de histórias assim, com personagens que já conheço, gosto quando se preenche os pontos vazios de uma história, gosto quando se entrelaçam histórias. 

Com a Construção do Vazio fechei o ciclo destas histórias entrelaçadas que a Patrícia Reis nos contou e sabem qual foi a primeira coisa que fiz? Sem sequer me levantar do sofá, abri o No Silêncio de Deus e recomecei a ler. Sei que estes são livros a que vou voltar mais do que uma vez.

Quem o leu perceber-me-á quando digo que este livro acabou comigo. A violência atinge-nos nas primeiras páginas. Nada pode ser pior que aqueles primeiros capítulos. E é verdade, nada é. Mas o título é certeiro e, às tantas, a sensação de vazio assalta-nos. E isso não é melhor...

 

 

26
Out18

Pão de Açucar, de Afonso Reis Cabral

Patrícia

 

 

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Lembram-se quando, na infância, faziam aqueles exercícios de unir pontinhos até aparecer um desenho? Ou de ter frases com espaços em branco para preencher? De uma certa forma foi isso que o Afonso Reis Cabral fez com a história da morte de Gisberta.

Pegar num acontecimento chocante e marcante como este, principalmente quando é ainda tão recente, requer alguma coragem. Algumas das reacções que por aí houve são prova disso. Romancear a história atrás da história não foi, certamente, fácil.

Sabendo já o final do livro, o desafio era manter os leitores agarrados às páginas através do percurso.

Humanizar o desumano. Não sei se foi isto que o Afonso tentou fazer mas foi isto que eu senti. E não acho que humanizar seja, nem de perto de longe, sinónimo de desculpar, ok?

Aqueles miúdos, que foram capazes de matar a sangue frio e em matilha, transformaram-se, ao longo do livro em gente, em miúdos. Não sei (e sinceramente não quero saber) quão próximo da realidade este livro está. O que interessa são as possíveis respostas a perguntas  como “o que leva alguém, especialmente um grupo de miúdos, a matar?”, “Como se desumaniza alguém a ponto de ser capaz de lhe fazer o que eles fizeram a Gisberta?”, “Como é que miúdos adolescentes são capazes de fazer a um ser humano, aquilo?”, “Pior, como é que se atravessa determinados limites?”.

Ao longo do livro debruçarmo-nos também sobre a educação (mais ou menos enviesada), e o (des)equilíbrio emocional e social têm um papel fundamental na sociedade.

No próximo fim de semana há uma enorme possibilidade de ser eleito como presidente do Brasil um ser que, à pergunta “e se o seu filho fosse homossexual?” respondeu “preferia que morresse”. Crimes de ódio acontecem com frequência e há, infelizmente, a tendência para essa frequência aumentar. Para além disso é cada vez mais difícil discutir e analisar o que quer que seja no espaço público. A literatura poderá, assim o queiram os escritores e os leitores, ser um óptimo palco para analisar, discutir e fazer-nos reflectir na nossa responsabilidade cívica, humana no nosso cantinho em particular e no mundo em geral.

Sim, porque não me foi possível ignorar, ao longo das páginas deste livro, quem lá não estava. Não estavam adultos, não estavam amigos, não estavam pais nem professores, não estavam educadores, não estavam médicos, nem vizinhos, nem prostitutas nem clientes. Não estava lá ninguém.

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08
Out18

Todos devemos ser feministas

Patrícia

O que tenho lido e ouvido nos últimos dias tem-me entristecido para lá do imaginável. 

As duas Ted Talks que aqui deixo (e já não são novidades neste blog) deviam de ser de visualização obrigatória... nas escolas e fora delas.

Parem de ter vergonha de ser feministas. Feminismo é a filosofia que defende a igualdade de OPORTUNIDADES, DIREITOS E DEVERES para todos!

 

 

 

 

 

30
Set18

E no fim, ela mata-se!

Patrícia

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5/9 foi o resultado à sondagem sobre spoilers que fiz no Instagram sobre spoilers.

Confesso que fiquei surpreendida por 5 pessoas terem respondido SIM. Se eu tivesse respondido, essa teria sido também a minha escolha mas talvez a razão para isso não seja a que estão a pensar.

Eu não gosto de saber o final de um livro antes de o ler (e, já agora, sabem de que livro é o spoiler no título? Aparentemente toda a gente já o sabe por isso ninguém se coíbe de o alardear!), nem fico tão ansiosa que precise saber o que vem depois. Os spoilers de que falo são de outro género.

 

Deixem-me dar um passo atrás: nos blogs, Book Tube e afins, é mais ou menos aceite que as opiniões estão livres de spoilers. Até há algum tempo eu dir-vos-ia que isso era, para mim, o mais adequado. E é, se tivermos determinados objectivos: partilhar o que achámos daquele livro e convencer os outros a lê-lo. Quando digo "convencer os outros a lê-lo" não falo de "vender livros". Acredito que quem tem parcerias, até deseje que haja quem o compre, de forma a justificar esse acordo (e todos os post/vídeos de divulgação não são mais do que isso: marketing com o objectivo da venda, coisa que é absolutamente normal e neste momento uma das poucas formas de dar a conhecer novos livros) mas a vontade de partilhar o amor aos livros em geral e àquele em particular é, não duvido, o mais importante.

Por isso pergunto-me porque raramente passamos a linha do spoiler e arriscamos o lado da verdadeira partilha de opiniões.

E eu sei que a maioria de nós sente falta dessa partilha: as leituras conjuntas que se vão fazendo, de forma mais ou menos esporádica, ou os grupos de leitura que ultimamente nascem como cogumelos (e que maravilha são) são apenas dois exemplos disso. 

Quem lê este blog sabe que ando há mais de um ano a ler bastantes livros num universo do fantástico e que passo a vida a queixar-me de que não tenho com quem falar daqueles livros. Ora, foi essa necessidade que me fez começar a procurar informação. Habituei-me ouvir um determinado podcast sempre que acabava de ler um livro e a verdade é que a experiência foi óptima. Ouvir o pessoal a esmiuçar o livro, chamando-me a atenção para passagens a que não tinha dado tanta atenção ou corroborando a minha opinião sobre determinado acontecimento foi óptimo. 

Praticamente todos os posts que fiz sobre os livros do fantástico que li estão cheios de spoilers. Fi-lo porque sei que esses posts são muito mais para mim que para vocês, são dos menos lidos por aqui mas a verdade é que são dos que mais me agradam porque não ficam a meio do discussão, porque não me refreei para não vos estragar a surpresa.

Já aqui disse várias vezes que, se tivesse tempo, é provável que me dedicasse a um podcast. Seria sempre algo que permitisse uma verdadeira discussão sobre um ou mais livros. O tipo de podcast para quem já tivesse lido aquele livro e não o contrário. Claro que eu sei que isso não teria qualquer género de sucesso mas seria exactamente o tipo de coisa que me dava gozo fazer.

Como sempre, boas leituras :)

19
Set18

Direitos dos leitores (parte 12): Esquecer o que se leu

Patrícia

Quem nunca, não é?

Quem nunca se viu na circunstância de já ter lido aquele livro e não se lembrar nem do principio, nem do meio, nem do fim?

Eu confesso, acontece-me muitas vezes. Claro que me acontece especialmente com livros que só li uma vez e há muito tempo ou com livros que não me marcaram especialmente.

Sempre ouvi dizer (qualquer coisa como) que o que realmente aprendemos é aquilo que sabemos depois de nos esquecermos do acessório.

Acho que com os livros é mais ou menos o mesmo: os importantes são aqueles que ficam. E na verdade não precisamos lembrarmo-nos da história com todos os pormenores... mas se nos lembrarmos do que sentimos quando os lemos ou de uma ou outra passagem mais especial é suficiente. Pelo menos para mim é. 

Já vos aconteceu começar a ler um livro para rapidamente descobrir que já o tinham lido? Não é muito comum (tendo a lembrar-me do título ou do autor) mas já me aconteceu. 

Esta é uma das razões pelas quais vou mantendo este blog: guardar um registo que, em apenas alguns minutos, me leve de regresso ao momento em que li o livro. 

 

Ler mais livros

Não gostar do livro que toda a gente gostou

Mudar de opinião acerca de um livro

"Viver" os seus livros

Ler em todo o lado

Ler em vários formatos e línguas

Não ler

Ler na diagonal ou saltar parágrafos/páginas

Ler...audiobooks

Ler vários livros ao mesmo tempo

Ler sem ser incomodada