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Ler por aí

Ler por aí

20
Mar19

Hardy, irmãos em acção, versão 2019

Patrícia

Ontem descobri, por puro acaso, que os Hardy tinham ressuscitado pela mão da editora Bertrand. A minha primeira reacção foi de um enorme sorriso. Voltei à minha infância, às histórias de mistério em que acompanhava Frank e Joe enquanto estes resolviam mistérios e crimes. 

A minha segunda reacção foi: mas que raio, os Hardy? Isto vai ter sucesso?

Eu não duvido que vá vender. A minha geração e as gerações antes da minha garanti-lo-ão. Os Hardy, como a Patrícia ou a Nancy Drew fazem parte da nossa infância e quando chegar a altura de oferecer um livro, a parte afectiva vai ajudar-nos a tomar uma decisão - afinal queremos que os putos tenham as mesmas experiências literárias que nós.

Conheço mais ou menos a história da série - e as polémicas que a envolveram, obrigando a várias revisões após queixas de racismo e xenofobia - e não falo do "politicamente correcto" de hoje em dia uma vez que a primeira revisão foi de 1959. Mas com esta revisão os Hardy, que eram pobres  e um bocadinho anárquicos, passaram a ser ricos e respeitadores da lei. As personagens não brancas quase desapareceram da série (para apenas voltarem nos anos 70), os enredos foram alterados para eliminar cenas e pormenores de maior violência. 

A série conseguiu sempre reinventar-se e sobreviver, e foram muitos os livros editados em cada uma das séries - há uns 190 volumes no The Hardy Boys Mystery Stories (cá foram editados como Os Hardy em Acção, pela Verbo), 42 nas série Nancy Drew and the Hardy Boys (Be a Detective Mystery Stories e  SuperMystery Series), 127 na The Hardy Boys Casefiles Series, 17 na The Clues Brothers, uns 40 no The Hardy Boys: Undercover Brothers, que teve mais de 20 graphic novels e já há pelo menos 20 títulos no The Hardy Boys Adventures que começaram a ser editados em 2013.

Como volta e meia gosto de ir procurando pelos livros da minha infância/adolescência e porque gosto de saber o que se vai editando para os 9-12 anos (ainda nada conseguiu bater as viagens no tempo, da Ana Maria Magalhães e a Isabel Alçada) fui logo cuscar esta ressurreição dos Hardy. 

E eu, que esperava a edição de alguns dos livros não editados em Portugal fiquei um bocado desiludida quando percebi que não, que são reedições de livros que já se venderam por cá (eram editados pela Verbo) - e enervo-me sempre quando isso não é referido quando se fala deste tipo de livro - "A Bertrand Editora publica pela primeira vez os dois volumes que iniciam esta saga de clássicos juvenis" ... é verdade, a Bertrand edita pela primeira vez... mas a Verbo já editou antes e apesar de ter também presença no Brasil, esta editora tinha uma enorme presença cá.

Agora estou cheia de curiosidade para analisar o texto e perceber se houve uma nova tradução (a antiga tradução de O tesouro da torre era da Maria Helena Lopes Ribeiro, foi editado pela Verbo em 1989), se mexeram no texto (o original é de 1927) e se o "actualizaram" ou se é apenas uma nova revisão e uma capa. Infelizmente, pelos detalhes do produto no site da editora não consigo perceber (devia ser obrigatório indicar o tradutor)

o segredo da torre.JPG

A minha versão era esta:

o segredo da torre 2.jpg

Quando puser as mãos nesta nova versão hei-de reler ambos e depois venho cá contar-vos tudo.

 

 

15
Mar19

Fantasia?

Patrícia

O post do Craig Hanks no blog do Legendarium Podcast "The Rising Cost of Entry to the Nerd Tribe" vale a pena ser lido na integra mas deixo-vos aqui alguns excertos e algumas considerações (mas ide lá ler tudo, sff).

O género Fantástico sempre foi um dos meus preferidos mas, a verdade, é que não tive muitas oportunidades de o explorar quando era miúda e tinha tempo para ler e reler os livros (e que é como a fantasia precisa ser lida). Sou uma apaixonada mas não conheço assim tanta coisa. Agora, mais adulta do que às vezes gosto de admitir (e não tem nada a ver com a idade que vivo bastante bem com os 40 anos que tenho), falta-me o tempo para lhe dedicar -  e a verdade é que gosto demasiado de outros géneros de literatura para apenas me dedicar a um. 

Ainda assim, tenho imensa pena de não ser uma total geek da fantasia que acho um género de eleição porque, na verdade, permite tudo. Mas tudo mesmo. O Craig fala neste texto um bocadinho disso.

Há uns anos teria dúvidas se ainda era possível que alguém se tornasse um "geek" deste género literário - com a quantidade de livros que existem por aí - mas depois de conhecer Cosmere deixei de questionar.

Ser fã, mas fã a sério, de fantasia é sempre motivo para um sorriso e para se ser absolutamente posto de lado... mas isso apenas revela burrice porque, a verdade, é que ser fã de fantasia dá mais trabalho e exige mais dedicação do que vocês possam pensar. 

E consome "espaço no disco". Um verdadeiro fã sabe pormenores. Leu e releu as obras.. várias vezes. Conhece as personagens de dentro para fora. E não esquece. Não são livros que possamos pôr na estante e esquecer o enredo, deixando espaço para os próximos. Nós vamos acumulando... não só porque sabemos que aquilo nos vai fazer falta mas porque não conseguimos esquecer. Aqueles personagens agarram-se a nós, fazem parte da nossa vida. E ajudam-nos a conhecer bem melhor a realidade do que aquilo que vocês possam pensar.

The year 2001 was a major turning point for nerd culture. The holiday season that year saw the release of two major, era-defining movies, the debuts of two franchises: Harry Potter in November and The Lord of the Rings in December. (...)

There had always been a pretty vivid line separating nerds from the rest of the mainstream culture. Even with something as widely loved as Star Wars, there were fans, and there were fans. (...)

With the release of LotR and HP, that vivid line in the sand had just been washed over by the tide and nobody was sure where to redraw it. And if you think nerds didn’t badly want it redrawn, you’re mistaken. It’s tempting to think that we want everyone else to love the things we love. But that’s not always (usually?) the case. We want some people to love the things we love. Our people.

Like any art form, a good fantasy novel teaches us something about human nature, about ourselves and our purpose, about how to relate to the people around us. And that deserves to be shared.

14
Mar19

The Assassin's Apprentice, de Robin Hobb

Patrícia

Assassin's apprentice.jpg

Fitz fitz fice fitz. Fatz sfitz

FitzChivalry Farseer, bastardo de Chivalry, o príncipe herdeiro dos Six Duchies é entregue à família do pai aos 5 anos. Sem lugar na corte, acaba por crescer, sem nunca conhecer o pai (que acaba por abdicar do trono), aos cuidados de Burrich, o responsável pelos animais em Buckkeep. Um bastardo tem que encontrar o seu lugar. Mas não deixa de ser uma falha no plano, uma carta fora do baralho, que cria todo um leque de novas possibilidades.

"Do you think I keep you alive because I am so entranced with you? No. It is because you create so many possibilities. While you live you give us more choices. The more choices, the more chances to steer for calmer water. So it is not for your benefit, but for the Six Duchies that I preserve your life. And your duty is the same. To live so that you may continue to present possibilities.”

Este primeiro livro da série, conta-nos o crescimento de Fitz, o bastardo, como King's Man, como aprendiz de assassino, como ajudante de tratador de animais, como adolescente.

Não posso dizer que tenha sido o melhor livro de fantasia que li na vida. Não me foi difícil entrar na história mas foi complicado convencer-me a continuar - confesso que, de início, não me interessei muito pelo que andava Fitz a fazer mas sabendo a paixão que a Célia e a Carla tem por esta saga tinha mesmo que chegar ao fim. E senti muito a falta de um verdadeiro anti-herói, de um verdadeiro antagonista.

Tendo ouvido o audiobook, narrado por Paul Boehmer, fiquei bastante surpreendida quando, numa busca para perceber como raio se escreviam o nome dos personagens (tenho sempre este problema), percebi que este livro é de 1995. Nem imaginam como gostaria de ter lido este livro nessa altura - não só teria gostado muito mais como o teria lido inúmeras vezes (que é como os livros de fantasia devem ser livros) e nenhum dos seus segredos me teria passado ao lado.

Mas, não tendo sido o melhor dos livros de fantasia que já li, é um bom livro e tem um enorme potencial. 

(a partir de agora poderá haver alguns spoilers... nada que estrague a leitura mas sigam por vossa conta e risco)

 

Fitz, o nosso protagonista, conta-nos a sua história na primeira pessoa, o que significa que ao longo de todo o livro vemos os acontecimentos pelos olhos de miúdo. Às vezes vemos um bocadinho mais que ele (aquela mania de ser um King's man... vá, convenhamos que todos a percebemos quando o Verity contou ao Fitz o que Chiv tinha feito ao Galen quando eram miúdos) outras deixamo-nos enganar, sorrimos e sofremos com ele. Mas ainda não me "apaixonei" por esta personagem. Falta qualquer coisa nem vos sei explicar bem o quê. A personalidade dele ainda não está bem formada, as escolhas ainda não são bem dele e só no fim, mesmo no final deste livro, comecei a interessar-me pelas suas escolhas.

Mas gostei imenso de algumas das personagens deste Assassin's Apprentice.

Burrich ainda nos irá surpreender. É, desde o início, óbvio que também possui o talento para a ligação provocada pelo Wit e tem sido um bocadinho irritante por causa disso mas é daqueles que ainda vai aprender. E é, de facto, o pai do Fitz. Não o progenitor mas o pai.

Adoro a Lady Patience. Adoro. Deposito algumas fichas nela e no papel que ainda vai desempenhar.

E gosto muito do Verity. Ele e a Kettricken ainda vão provocar bons momentos de leitura. Da Molly e do Shrewd será inevitável falarmos nos próximos livros mas para já nem um nem outro me deixaram grande impressão.

O Galen desiludiu-me como vilão. Demasiado a preto e branco. A história do Chivalry com ele lá lhe deu alguma cor mas foi só de passagem. O Regal é, para já, apenas irritante e ainda terá que crescer muito para se tornar realmente o antagonista desta história (mas é ele a minha primeira aposta para o lugar) a não ser que apareça alguém verdadeiramente marcante nos Red-Ship (esta parte bem que podia ter sido um bocadinho mais desenvolvida mas lá chegaremos, não é?)

Já perceberam para quem vai o meu amor e entusiasmo nesta história, não é?

Pois, isto valeu pelo Fool e pelo Chade. Quem ou que género de criatura é o Fool? E o que vou sofrer quando o Chade morrer? Gosto tanto dele mas o mentor morre sempre... (ca nervos). 

Outro ponto forte do livro é o(s) sistema(s) de magia. Wit e Skill. Quero muito saber mais sobre ambas e se tivesse que escolher uma para mim, nem hesitava. Wit, obviamente. Ainda não recuperei do destino que Nosy e Smithy tiveram. Não se faz.

08
Mar19

O Processo Violeta, de Inês Pedrosa

Patrícia

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Violeta, uma professora, envolve-se com um aluno, Ildo. Ana Lúcia, professora, vive o seu drama pessoal após ter sido violada por outro aluno. Clarisse, jornalista, persegue a história de Violeta e Ildo, enquando vive uma gravidez com a qual não se consegue conciliar. Paulina, mãe de Ildo, tenta sobreviver às consequências de uma verdade revelada.

Inês Pedrosa não nos facilita a vida e tenta obrigar-nos a olhar para os nossos próprios preconceitos (principalmente aqueles que insistimos que não existem). Apesar de nos transportar para os "loucos e maravilhosos" anos 80, é dos temas fracturantes da sociedade actual actual que este livro trata. Mas não é (ou não deveria ser) sempre assim na literatura?

Como olhar para a relação entre um miúdo e uma adulta? Aos 14 anos é-se miúdo ou adulto? O tema "consentimento", discutido até à exaustão nas tascas actuais (aka redes sociais) tem um lugar de destaque neste livro. Amor ou abuso? 

E quem acha que, com 14 anos, Ildo não tem maturidade para consentir num relacionamento como vê o miúdo, exactamente com a mesma idade, que viola Ana Lúcia?

E Violeta? Abusada ou abusadora? Mulher apaixonada ou infantil? 

Este livro, cheio de histórias de mulheres, obriga-nos a rever as convicções com que olhamos a sociedade actual. Não tenho dúvidas que, por isso, por ser uma história de mulheres que se atreve a pôr em causa limites e convicções estabelecidas será um livro mal visto, polémico e muito criticado. Aliás, já o é.

Por mim, gostei bastante. Não concordo sempre com as opiniões da autora que oiço regularmente no programa Páginas Tantas e no O último apaga a luz. Nem sequer concordo com tudo o que escritora (parece-me) quis transmitir com este livro. Mas isso não me impediu de o ler, de pensar e de formar as minhas próprias conclusões. Este é um bom ponto de partida para uma excelente discussão. E se há coisa que reconheço e respeito neste livro é que nele se ouve a voz da Inês Pedrosa em cada página...

Quando leio um livro, tento sempre separar o escritor das suas personagens e tento não o procurar em cada página. Claro que neste livro isso foi completamente impossível. Afinal, já ouvi "uma ou duas" daquelas histórias contadas na primeira pessoa pela escritora. Foi inevitável passar o tempo a pensar "quem é quem" no Insubmisso. E gostei do olhar crítico ao jornalismo...

Foi bom, muito bom rever Clarisse e Ana Lúcia, curiosamente duas personagens dos dois únicos livros que já li da Inês Pedrosa (Os íntimos e Desamparo). Gosto destas novas vidas dos personagens, gosto de os encontrar nas páginas de outros livros.

04
Mar19

Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho

Patrícia

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Um livreiro cego, que vai coleccionando amantes que lhe lêem em voz alta. Um escritor de sucesso que precisa de ajuda para escrever o derradeiro livro da sua vida.

O regresso ao passado leva-nos, pela mão do livreiro, do escritor e da editora,  à história de três amigos, Yankel, Eryk e Shionka. "Preciso de um preâmbulo de pureza, tem de haver crianças. Uma coisa tão virginal como um conto de fadas (...) As últimas páginas vão ser obscenas (...) A inocência é crucial. Sem ela nenhum leitor aceita o absurdo do desfecho".

A história dos três amigos vai confundir-se com a história de uma cidade, um circulo perfeito, dividida entre judeus e cristãos, num equilibrio periclitante. 

No manicómio da rua Mazur, coexistiam os loucos (Depois havia Kasia, a irmãzinha de Florian, tirada da rua poucos dias depois dele. Era uma catraia, a mais nova do hospício, e nunca se conformara por ali estar: aquilo era para loucos e o seu mal estava nos olhos, não na cabeça. No lugar de pessoas, via animais, e então? (...) No círculo perfeito, só os cães eram cães e as crianças crianças.) e, durante a ocupação russa, os presos. E mais tarde... bem, para o saberem têm que ler o livro.

Numa estrutura muito semelhante ao do Sarah Gross, o autor volta a fazer-nos saltar entre dois tempos da mesma história, permitindo-nos respirar antes de mergulhar naquele obsceno desfecho. 

A capacidade para o mal é algo exclusivo do ser humano e é dessa capacidade que trata este livro. A forma como somos capazes de nos distanciar dos outros, de os desumanizar a tal ponto que não existir qualquer empatia, qualquer identificação, que nos impeça de matar, de torturar, de destruir. 

Mas este livro também fala de amor. Do que somos capazes de fazer por amor. E de confiança. E de amizade. 

Há livros que lemos e esquecemos rapidamente. Há livros que levamos algum tempo a esquecer. E depois há livros que nos magoam de tal forma que deixam uma marca permanente.

Já o Perguntem a Sarah Gross me tinha magoado q.b e é um livro que recomendo sem reservas. Este Os loucos da Rua Mazur vai deixar, desconfio, marcas permanentes. Vou esquecer os nomes das personagens, vou esquecer parte do enredo mas nunca vou esquecer o horror, a tristeza, a revolta que este livro provocou.

Percebo perfeitamente todos quantos preferem o Sarah Gross a este Os loucos da Rua Mazur. Pessoalmente, prefiro este. 

 

21
Fev19

Leituras conjuntas

Patrícia

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imagem daqui

 

As leituras conjuntas são uma óptima forma de tirar livros da estante que, de outra maneira, lá ficavam a ganhar pó enquanto esperavam pacientemente pela sua vez. As leituras conjuntas são uma óptima maneira de manter um ritmo de leitura. As leituras conjuntas são uma fantástica maneira de conhecer gente da nossa "tribo". As leituras conjuntas são, acima de tudo, uma óptima maneira de falar de livros. Mas....

Ter a oportunidade de ler um livro e discuti-lo, falar sobre ele, poder partilhar aquele choque, aquela lágrima, aquele sorriso, é maravilhoso. Adoro a ideia de leituras conjuntas. Mas na prática não me dou com elas. Na verdade sou a fraude das leituras conjuntas)

Estou neste momento a ler em modo "leitura conjunta" o maravilhoso "O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas. Quando a Elisa me falou pela primeira vez deste projecto nem pensei duas vezes e disse-lhe que também entrava. Há muito tempo que queria reler este clássico que é um dos meus livros favoritos. Li-o e reli-o inúmeras vezes na adolescência (de tal forma que os meus livros - tenho em versão trilogia - estão a desfazer-se, as páginas ficam-me nas mãos quando lhes toco, enfim, são livros que mostram ter sido muito amados) e achei que esta era uma boa oportunidade para o fazer. É giro ir vendo as reacções e previsões (imaginem-me com um riso à Mutley e não estarão muito longe da verdade) e maravilhoso ver como este livro está a agradar. É muito bom ter a oportunidade de discutir certos episódios do livro.

Mas deixem-me fazer-vos uma confissão que vos vai fazer entender porque é que eu não me dou com leituras conjuntas: eu não cumpri uma única das metas de leitura. Eu passei todas e na verdade eu já acabei de ler o livro (releitura, só leio um livro de cada vez, sou viciada neste livro, etc, etc). Sendo uma releitura, ninguém estava ali à espera das minhas reacções mas se assim não fosse a leitura tinha deixado de ser conjunta para mim... 

Seria também normal eu não ter cumprido as metas por não ter lido o suficiente para acompanhar o ritmo. Nunca me dei bem com o ritmo dos outros e tanto sou capaz de devorar livros como de ler uma página por dia. 

Esta não é a primeira vez que entro numa leitura conjunta - as outras, menos formais, foram mais leituras paralelas que conjuntas porque o ritmo das pessoas envolvidas nunca foi o mesmo). 

O que eu aprendi com esta experiência é que só me posso meter em leituras conjuntas de livros que já li. Será a única forma da coisa resultar mais ou menos e de não defraudar as restantes companhias literárias. 

17
Fev19

A estranheza de gostar de ler

Patrícia

Por mais estranho que pareça (e para mim, "não ler" é um conceito estranho) há quem se interrogue como é que alguém gosta de ler. Eu sei que nenhum leitor deste blog acha estranho gostar de ler mas tenho a certeza que todos já se depararam com esta questão: Porque lês?

É demasiado simples e redutor responder "porque gosto". Provavelmente cada leitor terá as suas próprias razões. Eu sei que tenho as minhas. 

Ler é, para mim, um modo de vida. Não exagero quando digo que ler já terá, provavelmente, salvado a minha vida. Talvez "salvar a vida" tenha um toque de exagero. Mas digo com 100% de certeza que ler ajudou-me a manter a sanidade mental em todos os períodos negros da minha vida. E já tive vários.

Quando tinha medo era nos livros que ganhava coragem. Quando me sentia sozinha era nas páginas dos livros que encontrava amigos. Quando precisava chorar e não o podia fazer abertamente era através do sofrimento das personagens que me permitia exteriorizar essa tristeza. 

A possibilidade de fuga oferecida por uma história emocionante é uma das mais-valias da leitura. E desde miúda, sempre que se tornava muito difícil viver na minha própria pele, era dentro de um livros que mergulhava. Pelo menos por algumas horas.

Conheço muito bem a circunstância de não ter tempo para ler. E isso desestabiliza-me de uma maneira muito similar à falta de tempo para dormir. São coisas de que preciso para me manter viva. 

A verdade é que quando estou mais triste, tenho mais trabalho ou tenho um problema qualquer, leio mais. Não leio, necessariamente, muito, até porque são épocas de uma grande pressão e em que as 24 horas do dia não chegam. Mas leio mais. Leio em cada momento. Leio na pausa do café, leio à hora do almoço, leio enquanto conduzo (calma, falo de audiobooks, não sou louca), leio enquanto espero que uma peça de teatro comece (true story). Eu que, normalmente, sou fã de não fazer a ponta dum corno e aterrar no sofá a ver uma má série de tv, nessa épocas... leio. Faço-o porque sei que ler vai permitir que o meu cérebro se desligue do que quer que me esteja a incomodar, faço-o porque ler é o meu porto seguro, faço-o porque funciona*. 

 

 

 

*Mas nunca se esqueçam que ler não substitui um bom amigo, um médico ou um psicólogo. 

 

13
Fev19

Por amor aos livros

Patrícia

Diz a editora Maria do Rosário Pedreira, no seu Horas Extraordinárias:

Por mais que Umberto Eco nos tenha assegurado em variadíssimas entrevistas que o livro nunca vai morrer, a verdade é que todos os dias me convenço mais de que, se as coisas não mudarem muito depressa em relação ao excesso de atenção dada por jovens e adultos aos dispositivos digitais, a leitura a sério (não só em papel, mas em profundidade, com as sinapses todas a funcionar) tem os dias contados (excepto para a pequena minoria que não desiste, e ainda bem).

Ora, também eu me convenço que sim, as coisas têm que mudar.

Por um lado não acredito que o livro alguma vez vá morrer. Basta olharmos para o exemplo de Portugal e percebemos que o principal interveniente da coisa não o faz por dinheiro. Falo, obviamente, dos escritores. Os que conheço escrevem por amor à escrita, escrevem porque querem e têm que escrever ou por qualquer outra razão que eles lá sabem mas , parece-me, não é por dinheiro, que raros são os casos que podem "viver e comer" do que ganham com os livros. Há quem traduza, há quem edite, há quem faça outra coisa qualquer... mas por cá, não se vive da escrita. Aliás, isto é tão assim que há quem ache que escrever não é bem uma profissão e que não há mal em pedir um texto, só por favor... A verdade é que um dos problemas é esse, é que escrever não é bem uma profissão mas devia ser. 

Por outro lado, não sei se acredito bem nessa história de haver menos leitores... Acho que até há mais, mas há mais livros, outros formatos e, acima de tudo, uma democratização das leituras, uma acessibilidade diferente. E é aqui que, na minha opinião, reside o problema.

Não é a leitura pela rama (que a há), nem os maus livros (que também os há), nem os dispositivos electrónicos e a atenção exagerada que os jovens e adultos lhes dão (que dão, é certo) que está a matar o livro. O que, para minha grande tristeza, está a sucumbir, é a edição em português. E com isso, a edição de livros escritos por escritores portugueses. 

Deixem-me dar-vos o meu exemplo.

Sou leitora, gosto de ler em português e livros de escritores portugueses (cerca de metade dos livros que leio são de escritores portugueses), compro mais do que leio (e lerei, num mau ano de leituras, entre 20 a 30 livros por ano). Compro parte dos livros em formato digital (sejam ebooks ou audiobooks) e parte em formato físico (gosto muito de ter uma, ou várias, estantes cheias de livros). Tenho a sorte e o privilégio de poder comprar os livros que me apetece e a minha consciência é uma treta e não me permite fazer downloads ilegais.

Mas a verdade é que os livros são caros, estão acessíveis com uma facilidade tremenda - qualquer nabo  informático tem acesso a todo os ebooks e audiobooks que quiser sem gastar um tostão (especialmente se ler em inglês ou não for esquisito com o PT-BR) e a maioria dos jovens ganha uma miséria que mal lhe dá para ir beber um copo ao fim de semana quanto mais para comprar livros - que estão, seja através de downloads ilegais ou de uma biblioteca, plenamente acessíveis de borla.

A questão nem é ler ou não ler... é comprar ou não comprar! E enquanto todos nós - leitores e editores - não tivermos consciência disto e não mudarmos alguma coisa, a coisa vai piorar.

Não me venham com merdas: antigamente lia-se mais? Não me façam rir. A sério, não façam. Uma elite lia mas a maioria? Não, sorry mas não. 

Lê-se o suficiente? Não, nem de perto nem de longe. Mas lê-se mais do que se lia.

Antes comprava-se em livrarias. E ia-se à biblioteca.

Agora, compra-se em livrarias e alfarrabistas, vai-se à biblioteca...compra-se (e vende-se) no OLX, facebook, alfarrabistas (sou fã), livrarias, livrarias online, "saca-se da net", troca-se com amigos  (também sou fã), compra-se em ebook, em audiobook, manda-se vir de sites de troca.

E muitas vezes faz-se isto porque se quer ler logo e as traduções tardam, porque se vive no presente e no futuro e esperar é uma seca, porque se os outros lêem, nós também queremos ler.

Eu não tenho soluções.. faço a minha parte, comprando livros em Português, não alinhando no que chamo carinhosamente de "mafia dos livros no facebook" ... mas faço-o porque posso, essa é que é a verdade. 

 

 

 

12
Fev19

Quem disse que eu não sugiro livros para o dia dos namorados?

Patrícia

Já vos disse que oferecer um livro a um leitor é uma prova de amor e não quero que pensem que não ligo ao dia dos namorados por isso aqui vim fazer-vos algumas sugestões de livros para oferecerem aos e às "mais-que-tudo".

Em primeiro lugar: Senhores, a não ser que saibam que a v/ namorada adora aquele/a autor/a fujam a 7 pés dos livros que vos são sugeridos pelas livrarias. É verdade que alguns deles até podem ser bons mas a maior probabilidade é que comprem gato por lebre. Fujam dos livros com fitinhas, saquinhos, corações ou outros que tal. 

Confesso que quando pensei em escrever este post o primeiro livro que me veio à cabeça foi o "Em parte incerta" de Gillian Flynn mas depois achei que era esticar a corda e que não estava a passar a mensagem certa. Assim limito-me a sugerir o Americanah, da Chimamanda Ngozi Adichie (também pensei no A cor do Hibisco mas também achei que não seria exactamente o ideal... mas é um grande livro) e o A história de uma serva da Margaret Atwood. Para os mais românticos (e para que não digam que não há aqui um grande amor*) sugiro o E tudo o vento Levou, de Margaret Mitchell, Orgulho e preconceito, de Jane Austen o Norte e Sul, de Elizabeth Gaskell,  Terra Bendita de Pearl S. Buck ou O (maravilhoso) Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.

 

 

* Não garanto que acabem bem, mas que há amor aqui, há!

 

07
Fev19

Interlúdio

Patrícia

Ontem foi dia de futebol, que é como quem diz, dia de leituras lá em casa. É sempre assim, quando há jogos em canal aberto, na tv o jogo corre (às vezes bem para um, outras bem para outro) mas no sofá as pernas entrelaçam-se e enquanto ele vai vendo o jogo, eu leio e o gato dorme. Claro que quando há um golo ou uma jogada mais marcante, eu dou um olhinho e o gato apanha um cagaço e dá um salto mas no geral há aquele silêncio que é o do barulho já esperado e nesse barulho (a bem dizer nos outros barulhos também) eu leio. Tenho até uma certa pena que não haja mais jogos em canal aberto, não por mim e pelas minhas leituras mas pelos velhos que já não têm direito a sequer acompanhar os seus clubes do coração. Lembro-me sempre do meu tio que passava os domingos dentro do carro a ouvir os relatos do jogos do benfica (nunca percebi porquê no carro, ele lá deveria saber, se havia rádios com fartura em casa) e às vezes pergunto-me se ainda há quem vá ouvir para o carro ou cole a orelha à telefonia para ouvir os jogos. Há nas tv's (e, para dizer a verdade, em todos os sítios deste país à beira-mar plantado) demasiadas conversas sobre futebol e poucos jogos, os jogos já não são para os velhos nem para os pobres. Mas falava eu da leitura, que é das leituras que este blog é feito não é de coisas que não me preocupam nada como o futebol, nem de coisas que me preocupam muito como o facto de já terem morrido 9 mulheres às mãos dos homens da família, isto sem contar com uma bebé assassinada pelo cabrão do pai, que há coisas tão horríveis que custa a respirar quanto falamos delas, nem é feito de guerras e mais guerras que nascem todos os dias. É feito de livros e leituras e é nas leituras que esqueço a merda que o mundo é e que a idade adulta é tão diferente daquilo que julgava ser, o Peter Pan é que tinha razão mas ninguém lhe deu ouvidos e todos insistimos em crescer e depois dá nisto. Dizia eu que enquanto dava o jogo eu acompanhava um certo Edmond Dantés na sua pena de prisão no castelo de if e com ele sofria, como sofro sempre mesmo sabendo tudo o que vai acontecer, como vai fugir, de quem se vai vingar, as aventuras, as desventuras, os amores e desamores deste conde de quem gosto tanto. Dizia eu que é sempre bom voltar à companhia de velhos amigos, que o conheci há tantos anos e que lhe acompanhei a aventuras tantas vezes, tantas que várias páginas do livro estão soltas e vou ter que as colar com fita-cola mas pôr fita-cola naqueles livros dá-me pena mas não quero correr o risco de perder as páginas. Dizia eu que, de pernas entrelaçadas em quem escolhi para partilhar a vida e com um gato ao colo, reencontrei velhos amigos.