Ler por aí
 
08 de Outubro de 2017

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Quanto mais leio de Virginia Woolf mais tenho vontade de ler. 

Orlando - Uma biografia é, antes de mais e na minha opinião, mais um ensaio que um romance ou uma biografia. 

De novo, é o vislumbre da mulher (Virginia Woolf), das suas opiniões, da sua visão do mundo, o que mais me agradou neste livro. E é muito difícil saber o que escrever sobre ele. Por um lado porque já tudo foi escrito e por quem sabe bem mais do que eu, por outro porque fico com a sensação que precisava de uma nova leitura para chegar perto de compreender verdadeiramente as várias dimensões deste livro.

Numa altura em que as questões de género estão na ordem do dia - e parecem ter sido inventadas hoje - a personagem Orlando tem especial interesse. Começa por ser homem e ter uma grande paixão e um dia, simplesmente e sem ser grande surpresa para quem o rodeia, acorda mulher. Fisicamente mulher. A transição para o género feminino comummente entendido como tal pela sociedade demora mais tempo. A ambiguidade sexual, as convenções sociais associadas ao género, o lugar da mulher, do homem, na sociedade, no tempo e no espaço são dissecados e analisados neste livro. E como em qualquer boa resposta, levantam mais questões e oportunidades de análise do que dão respostas.

O tempo é outra questão. Passado e presente confundem-se e não nos é difícil aceitar que Orlando vive mais de trezentos anos, que a imortalidade se pode condensar num poema, que a literatura atravessa o tempo sem dar conta. Virginia Woolf, como qualquer escritor, vive nas páginas e nas vidas dos seus leitores.

 

publicado por Patrícia às 21:06 link do post
05 de Outubro de 2017

... que é como quem diz "O Nobel da Literatura vai para......"

Não faço ideia mas é hoje. Daqui a menos de 60 minutos já saberemos que foi o/a galardoado/a este ano. Depois da polémica do ano passado (e da de há 2 anos) espero que este ano haja uma boa surpresa. E para mim "boa surpresa" significa já ter ouvido falar do escritor/a.

Sou, desde há muito, "team Murakami" mas este ano o meu coração até pende mais para a Margaret Atwood. Provavelmente ganhará outro qualquer. Não faz mal, estou entusiasmada na mesma.

 

Quando hoje de manhã li a crónica "Previsões - E o Nobel da Literatura vai para..." fiquei logo irritada:

"Além de que os desvarios dos últimos três anos mostraram que não há um critério, pois Patrick Modiano era um escritor totalmente de nicho, já Svetlana Alexievich pouco tem que ver com a Literatura e Bob Dylan nem vale a pena comentar."

"Portanto, hoje a grande dúvida é se os 18 membros do júri do Nobel da Literatura vão premiar um verdadeiro escritor ou se se mantêm apostados na espectacularidade. Até obedecerem a "critérios" desfasados da Literatura, como é o das quotas mulher, poeta, negro, activista social... Afinal, o que está em causa é já o prestígio da Academia Sueca. "

 

A facilidade com se desvaloriza alguém pela cor, género ou qualquer característica é impressionante. É que pelo texto parece que, ou ganha alguém de quem o senhor gosta homem, branco, apático e do género literário certo ou será sempre um prémio injusto e um preenchimento de quotas.

Bem, suponho que ganhar a Margaret Atwood esteja absolutamente fora de questão para este senhor... para além de ser mulher é uma activista dos diabos.

Estou um bocado farta desta mania de que lutar por alguma causa é ser histérico. A sério que há palermas que se sentem tão ameaçados por quem tem a audácia de achar que somos todos iguais em direitos, deveres e oportunidades?

Cá para mim, o Nobel da palermice vai para este senhor.

 

publicado por Patrícia às 11:20 link do post
26 de Setembro de 2017

Que tal juntarem-se à Roda dos Livros no próximo sábado?

 

Quando fomos desafiados, pelos alunos finalistas da segunda edição da Pós-Graduação em Curadoria de Arte, para nos sentarmos à mesa e falar de livros não pensámos duas vezes antes de aceitar. O tema, Lisboa. À mesa, os suspeitos do costume  (Roda dos Livros) e quem se quiser juntar a nós. 

Eu já escolhi os livros que vou levar. 

Quem quer juntar-se a nós?

 

Abaixo o texto que consta do evento do facebook:

 

Nesta quarta atividade do programa paralelo da exposição "ENSAIOS (SOBRE A MESA): A partir da coleção do Museu de Lisboa e do Museu Bordalo Pinheiro", elegemos a Roda dos Livros (Roda dos Livros - Livros em Movimento, uma "comunidade de leitores compulsivos" criada em 2013, que se reúne mensalmente na Biblioteca Municipal dos Olivais) como anfitriã de uma tertúlia de leitura na Galeria Quadrum. Sugerimos a cidade, no seu sentido mais abstrato, ou Lisboa, em concreto, como ponto de partida para a seleção livre dos textos ou dos excertos de textos - crónicas, contos, romances, biografias, poemas, por aí adiante - a discutir informalmente na reunião. Convidamos cada um dos participantes à discussão a partir deste material, em torno do que foi, do que é e do que pode ser a cidade. Convidamos toda a comunidade, desta e de qualquer cidade, a juntar-se ao grupo, para assistir ou mesmo para intervir neste diálogo.

"Em cada objeto da coleção, o murmúrio da cidade. Em cada caixa. Em cada estante. Em cada armazém. Há que perscrutar essa imensa acumulação de histórias e de estórias que fez cidade esta cidade. Há sempre algo por dizer. De facto, o objeto museológico existe sempre para e na iminência de ser redescoberto. Uma e outra vez. A cada dia que passa, novos significados e novos sentidos se entretecem. A cada novo olhar, outras memórias se avivam. Buscamos o olhar contemporâneo, esse olhar a partir, através, além, para lá de. Que trespassa, pela intemporalidade, a infinita cacofonia de acasos. Que reanima o objeto, depois da sujeição ao número de inventário. Procuramos transcender as classificações, as hierarquias, as etiquetas. Ensaiamos as correlações, as afinidades, as sincronias. De entre as possíveis, as nossas, as vossas.

Sobre a mesa, sem rede nem reticência. Uma casa de todos, para todos. Que se habite a coleção. Que nunca se cale. Lançamos aqui as pistas para o diálogo. Numa encenação sugestiva e inevitavelmente inacabada, as peças reclamam as nossas e as vossas interpelações. Queremos as perguntas, mais do que as respostas. Abrimos esta casa ao debate informal, despretensioso, livre. Trata-se de uma proposta para a ativação da coleção, assente na participação e, por isso, indefinidamente em construção. Que entre toda a gente, a gente desta e de qualquer cidade. Façamos a coleção. Façamos a cidade. Cruzemos as nossas e as vossas memórias. Ouçamos as experiências e as confidências, as opiniões e as sugestões, as ideias e os projetos. Reflitamos sobre os acontecimentos e as circunstâncias, os símbolos e as retóricas, as topografias e as biografias. Construamos juntos um lugar de encontro, de comunhão, de partilha.

Mas não necessariamente de concordância. Importa afirmar a crítica, no sentido da pluralidade, da divergência, da dissensão. Buscamos o olhar caleidoscópico, esse que atravessa – e que, por vezes, fere irremediavelmente – a estrutura institucional, o discurso hegemónico e a verdade absoluta. Propomos um diálogo inédito, reformador, provocatório até. Não impondo uma certa e determinada leitura. Não lendo, mas dando a ler. Que se diga. Que se contradiga. Cremos na contradição, tanto ou mais que no consenso.

Em cada objeto da coleção, a latência do agora, essa urgência de contemporaneidade. Há que trazer a coleção à luz desta cidade, a de hoje, hoje e sempre, para que se mantenha como organismo vivo. Convidamos ao debate a partir das micronarrativas, dos fragmentos ou mesmo dos restos. O que fica do que passa? O que fica para lá da espuma das coisas? Pensemos a coleção em todas as suas vertentes – histórica, antropológica, simbólica, urbanística, social, económica, por aí adiante – e no confronto com a atualidade. É sob a luz destes dias que a coleção respira, mesmo que aludindo a outros, mais ou menos distantes. Concebamos a exposição como ponto de partida para a recuperação da vitalidade interrompida. Um novo fôlego. Em cada conversa, a epifania.

Sobre a mesa, sem mestre nem aprendiz. Uma exposição de todos, para todos. É a interpretação como exercício de questionamento. É a curadoria como trabalho de revelação. Diríamos até como prática social, não querendo, ainda assim, ceder às categorizações ou às tendências. Além disso, a superação do abismo entre a vida e a arte. Mas também entre a arte e o artefacto. Não há por que restringir, preterir, elitizar. Construamos juntos um espaço de experimentação. Façamos da galeria o nosso laboratório. Reencontremos a cidade no cidadão anónimo, no lisboeta desconhecido. Em cada retrato seu. Em cada objeto de decoração ou de mobiliário. Em cada representação, artística ou não, dessa pertença. E tanto que fica por expor. E tanto que fica por contar. Devolvamos a coleção à cidade, mesmo que uma ínfima parte, assumindo o compromisso da sua revivificação."

"ENSAIOS (SOBRE A MESA): A partir da coleção do Museu de Lisboa e do Museu Bordalo Pinheiro" resulta de um projeto curatorial dos alunos finalistas da segunda edição da Pós-Graduação em Curadoria de Arte daFaculdade de Ciências Sociais e Humanas - NOVA FCSH.

publicado por Patrícia às 22:27 link do post
05 de Setembro de 2017

Agora que já tenho umas horas valentes de "leitura" em audiobook, já posso opinar com (algum) conhecimento de causa.

Não é, para mim, o mesmo que ler. Não é. Mas é óptimo para uma releitura. Escolhi o audiobook certo, queria muito reler o The Way of Kings mas aquilo é um calhamaço de mais de 1000 páginas e lê-lo efectivamente não estava nas minhas prioridades literárias. Assim, aproveito o tempo no trânsito, o almoço, as caminhadas voluntárias ou involuntárias e os tempos em que faço coisas muito menos interessantes e que não me ocupam metade do cérebro (leia-se atenção). Como já conheço a história não faz mal se perder alguns pormenores pelo caminho e a verdade é que tenho reparado em pormenores suficientes para perceber que estou efectivamente a aproveitar o audiobook. 

Mas não é leitura no sentido convencional do termo. Mas é a releitura que estava a precisar no momento. Estou fã.

 

publicado por Patrícia às 23:01 link do post
22 de Agosto de 2017

Convenhamos, dragões à parte, esta temporada do GoT está a ser péssima. 

Para quem, como eu, gosta de fantasia e acha que o world building e a coerência são o mais importante numa história esta forma apressada e cheia de buracos e incongruências como a coisa está a ser feita está a estragar tudo.

Não é por ter dragões que tudo é permitido numa história de fantasia. Não é por ter dragões que soluções miraculosas e estapafúrdias são aceites. Não é por ter dragões que as regras definidas podem ser ignoradas.

O que eu gosto numa saga de fantasia é a possibilidade de entrar num outro mundo/universo/época, com regras absolutamente diferentes e acreditar que aquilo é possível. Essa é para mim, a definição de uma boa série de fantasia: viver, por algumas horas, naquele mundo e dar por mim a achar que uma spren ou um dragão existem mesmo e que fazem todo o sentido. Uma má série de fantasia é aquela em que passo o tempo a dizer "sério?  mas.. sério? Foi mesmo esta solução que arranjaste para o teu problema?". (confesso, a espada da Kelda ainda me deixa furiosa)

Pior que o Martin não acabar a série é deixar que a destruam. 

 

publicado por Patrícia às 10:05 link do post
21 de Agosto de 2017

O audiobook

Depois de uma experiência desastrosa da qual não vale a pena falar estou a ouvir o meu primeiro audiobook. Resolvi comprar o The Way Of Kings para ir recordando enquanto espero por 14 de Novembro para começar a ler o terceiro volume dos Stormlight Archives Oathbringer. Sou maluca? Provavelmente. Afinal vão ser 45 horas de audio-leitura. 

A minha ideia sempre foi ouvir o audiobook no carro, tal como oiço os podcast que sigo, mas resolvi comprar o audiobook no itunes sem me lembrar que o meu telefone não é um iphone. A sorte é que há sempre um ipod perdido lá me casa (foi difícil encontrar um que ainda funcionasse) e que também liga ao carro. Menos mal, a coisa dá-se. Depois conto-vos como correu.

 

A hashtag mais fixe do momento

Encontrei-a num Twitt da Inês Pedrosa e achei uma ideia genial. . Acho que era muito engraçado fazer desta hashtag a nova moda literária do Twitter. Quem alinha?

publicado por Patrícia às 16:43 link do post
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19 de Agosto de 2017

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Acabei de ler este livro de coração partido.

O autor propõe-nos entrar na mente de um miúdo de 10 anos e ver o mundo pelos seus olhos. Desconstruir o mundo, simplificar o complicado e sonhar com o impossível. Está nestas páginas a inocência, a coragem e a frieza que só é possível a quem não tem preconceitos e para quem o mundo tem ao mesmo tempo o tamanho do que podemos ver pelos nossos próprios olhos e o tamanho do universo. Analisar cada um dos temas abordados dessa perspectiva é o desafio. 

O escritor conquistou-me nas primeiras páginas com as brincadeiras lexicais, as confusões fruto da inocência/ignorância de um gaiato que, apesar de ser super inteligente, tem 10 anos. Como ponto positivo, destaco que o João Reis soube dosear este tom ligeiro e apesar de conseguir manter durante todo o livro um tom absolutamente credível para uma criança, também foi capaz de nos mostrar a sua evolução e abordar inúmeros assuntos, alguns que nem sequer fazem grande sentido para o miúdo (aqui temos que fazer uma pausa e pensar em como aqueles pequenos seres absorvem o que vêem, ouvem e lhes transmitimos) mas fazem para nós, leitores adultos.

Apesar de ser um livro relativamente pequeno, somos convidados a fazer uma viagem na história e reflectir sobre temas tão distintos como religião, economia ou política.

Foram as relações entre as personagens que me fizeram mergulhar de alma e coração nesta história. O amor incondicional deste miúdo pela avó (que foi atingida pelos ares atómicos de Chernobyl) ou a amizade com Matt, um sem-abrigo, fizeram com rapidamente criasse uma ligação aos personagens. A importância da memória; a forma como o presente, o que somos, é também parte da memória dos outros ou a tristeza que é quando a memória nos atraiçoa; a coragem de acreditar; a importância de questionar, reflectir, desconstruir para entender... tudo isto está nestas páginas.

Este é um livro que vou levar comigo durante muito tempo. É um livro triste a que o escritor conseguiu imprimir uma leveza surpreendente. 

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publicado por Patrícia às 15:03 link do post
14 de Agosto de 2017

Há pessoas para quem ler é uma actividade solitária. Para mim é e não é ao mesmo tempo.

Não gosto de ler por obrigação. Sou péssima até nas leituras conjuntas, conceito que só percebo na teoria porque para mim ler é algo que acontece, que é natural. Não páro numa determinada página porque assim o programei, acho isso contra-natura. Leio ao sabor da vontade e isso não funciona qdo queremos ir discutindo o livro ou temos alguém a pressionar-nos para saber o que achámos de determinada parte do livro. 

Mas as comunidades de leitores fizeram de mim uma melhor leitora. O caos da Roda dos Livros ajudou. Por lá não há obrigação nenhuma, posso ir só ouvir, posso partilhar mas sempre, sempre vou receber mais do que dou. Vou conhecer novos livros, novos autores, novas perspectivas sobre "velhos" livros, autores que ficaram perdidos no tempo ou deixei passar. Inspiração e amizade, recebo sempre. 

O Leya em Grupo foi fundamental para me tornar a leitora que sou. Pela primeira vez tive leituras obrigatórias (1 por mês) e,  apesar de por vezes me custar horrores começar a ler aquele livro (cheguei a fazer maratonas na noite anterior ao encontro para acabar de ler), a verdade é que aprendi imenso. O Ricardo, o moderador, tem  um enorme talento para conduzir uma conversa, deixando sempre o protagonismo para o livro e para o autor.

A comunidade funcionava na maravilhosa livraria Leya na Buchholz e tinha 2 partes. Na primeira éramos só nós, os leitores, que discutíamos o livro, trocávamos opiniões. Na segunda parte tornávamo-nos tímidas já na presença do escritor. Foi espantoso ter o privilégio de ouvir e conversar com escritores como Mia Couto (nem vos consigo dizer o quão hipnotizante é), Dulce Maria Cardoso, Hélia Correia, Teolinda Gersão, João de Melo, João Pinto Coelho, Rui Zink, Afonso Cruz, Maria Manuel Viana (fui um bocado grupie nessa noite, confesso),José Luís Peixoto, Patrícia Reis, Afonso Reis Cabral, Pedro Vieira, Lídia Jorge, Inês Pedrosa... Muitos outros nomes podiam constar nesta lista mas acho que vocês já compreenderam.

Tenho imensas saudades daqueles encontros que, infelizmente, terminaram (espero ainda que essa paragem seja temporária) e ao mesmo tempo que tenho vontade de procurar outro grupo literário sei que não vai ser igual, não vai ter as mesmas pessoas, a mesma cadência e a mesma importância. 

publicado por Patrícia às 10:28 link do post
10 de Agosto de 2017

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Fiquei agarrada a este livro nas primeiras páginas. Logo aí decidi que o "Madre Paula" seria uma das minhas próximas leituras e que Patrícia Müller é uma escritora a seguir.

Maria Laura é uma mulher fascinante. Muitas vezes irritante e quase sempre incompreensível. É preciso recuar no tempo e ir novamente a 1974, ao dia da revolução e começar a compreender. Não, minto, é preciso ir mais atrás. E mais ainda. É preciso olhar em volta e perceber o espaço e o tempo envolvente para começar a perceber esta mulher, esta vida fascinante. 

A crítica social está presente, claro. Como disse não seria possível perceber esta mulher, a sua família, as suas atitudes, sem perceber o país, o regime, a sociedade, a igreja de então. A hipocrisia. A moral. E esta parte do livro é impressionante. 

Mas o que me fascinou neste livro foram duas mulheres. Maria Laura e Glória. As suas atitudes, as relações com os que as rodeavam. As várias camadas que tinham. Não há heroínas nesta história, tal como não as há na vida real. Há pessoas que cometem erros, que acertam, que fazem asneiras com a melhor das intenções ou que acertam por acaso, porque o objectivo era outro. E são essas pessoas que moram nestas páginas. São essas mulheres que têm voz pela mão da Patrícia Müller. E como ambas são fascinantes. 

Espero que o protagonismo da escritora com a adaptação televisiva do seu Madre Paula permita que mais gente conheça este "Uma Senhora Nunca" que, injustamente, tem passado despercebido.

 

Deixo-vos um excerto de "um texto inédito que complementa Uma Senhora Nunca", que a escritora partilhou na rubrica Ao Domingo com... do blog da Cris (O tempo entre os meus livros). Sigam o link no texto para lerem, não só o texto completo como o que Patrícia Müller escreveu para o blog da Cris. 

 

 

O que uma senhora ainda não pode é ter falta de amor paternal. 
Mas Maria Laura não se senta na obrigação de cumprir com outras regras que não as que ela conhece desde pequena, desde que se reinventou e chamou a si o epíteto senhorial, à custa de puxar as veias certas do coração e desligar as que pertencem a classes mais simplórias e populares. A senhora não é pontual, a senhora faz as horas do dia. Não é económica, é rica. Não é sincera e leal, usa de todos os recursos que possui para conseguir o que quer, incluindo mentir, exagerar e até verter lágrimas de crocodilo. A senhora é um crocodilo mal humorado. Tem confiança de que a educação – fornecida através da perceptora que a acompanha em casa; do pai que tudo sabe sobre o mundo e da avó, detestável avó que a ensinou a comer como se pudesse ir amanhã jantar com um membro da realeza europeia – é a chave para uma boa vida. Uma senhora ainda não pode prescindir de regras, sob pena de se engolir no seu próprio vómito. É um balanço complicado, uma linha de água muito escorregadia: um desequilíbrio e afunda. Maria Laura não afunda, porque a mão de Deus está sempre debaixo dela. E uma senhora ainda não pode permitir-se ficar sozinha neste mundo, sem a companhia do pai e de Deus. Por isso, Maria Laura, a senhora de todas as senhoras, reza todas as noites pelas semelhantes a ela e pede, com fervor, que nunca esmoreçam na tarefa de construir o mundo. Sem as senhoras, era tudo uma cambada de ordinaríssimos. E valha-nos Deus que isso venha alguma vez a acontecer.

 

Sobre este livro a Cris também escreveu uma opinião. E a Vera. E a Cris Rodrigues.

 

publicado por Patrícia às 10:29 link do post
05 de Agosto de 2017

 

 

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Apesar de não ter sido o primeiro livro de Virgínia Woolf que comecei a ler, este foi o primeiro que acabei. Posso dizer que gostei muito mas que não foi uma leitura sempre fácil (o que não a desmerece em nada).

O título remete-nos imediatamente para uma dicotomia que não deixa de nos acompanhar toda a leitura. Noite e dia. Mulher e Homem. Amor e dever. Privilégio e trabalho. Família e Sociedade. Razão e Emoção.

Comecemos pelas duas personagens femininas: Katharine e Mary. Duas mulheres, diferentes e iguais. Uma, Katharine, de uma família tradicional, rica e privilegiada. Neta de um poeta famoso, é a imagem da mulher perfeita para a época: rica, bonita, excelente dona de casa, inteligente e a noiva perfeita. Mas os livros que guarda no seu quarto e que lê à noite quando está sozinha contam outra história. Mary, igualmente inteligente, vinda de uma família bem mais modesta, reclamou para si uma vida diferente: trabalha e é uma sufragista.

Os homens deste romance, William e Ralph, são o contraponto de Katharine e Mary. Ambos são pura emoção e romantismo enquanto elas são muito mais razão e força. 

Confesso que senti um empatia muito maior, ou pelo menos muito mais rápida, com Mary (que gostava que tivesse tido um maior protagonismo nestas páginas) que com Katharine e que os homens... bem, digamos, que nenhum me agradou especialmente. Para além de Mary, também gostava de ter lido mais acerca da deliciosa Mrs. Hilbery, uma mulher maravilhosamente doida. 

Foi a troca dos tradicionais e expectáveis papéis, num romance escrito por uma mulher e publicado em 1919, que me interessou de imediato. Só uma mulher muito especial, muito à frente do seu tempo, escreveria algo assim. Na verdade quem eu gostei mesmo, mesmo de conhecer ao longo destas páginas foi Virginia Woolf, tenho a certeza que vou continuar a ler os seus livros e que ainda me vou surpreender e aprender.

 

 

publicado por Patrícia às 16:28 link do post
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