Ler por aí
 
27 de Setembro de 2016

Quando foi a última vez que tiveram que ir ao dicionário, durante a leitura de um livro em Português, para verificar o significado de uma palavra?

 

Todos (ou quase) nós nos sentimos um bocadinho orgulhosos quando nos dizem que "saudade" é uma palavra Portuguesa sem tradução. Como acho que é impossível que não se sinta saudade em estrangeiro, diria que, quanto muito, não há uma tradução óbvia, literal, uma correspondência perfeita. Talvez nós, portugueses  tenhamos conseguido fazer a tradução perfeita de um sentimento tão grande.

 

Diz-se por aí que estamos a perder vocabulário, que cada vez usamos menos palavras, que cada vez sabemos menos vocábulos, que a língua Portuguesa está a perder a riqueza (ou estamos a esquecê-la). Diz-se que isso é mais ou menos transversal e que acontece também noutras línguas mas choca-me mais que isso nos esteja a acontecer a nós porque... bem, porque eu gosto da língua Portuguesa, é minha, é nossa e, em última análise, está na mão dos escritores, dos leitores e de todos os falantes mimá-la, cuidá-la, protegê-la.

É verdade que já tenho reclamado (e agora começo a ter alguma vergonha disso) por deparar com textos que me obrigam a parar de ler para ir ao dicionário. Quebra a leitura, não é? Chateia um bocadinho e depois já não podemos dizer que a leitura foi "fluída" (essa maravilhoso adjetivo tão em voga e que basicamente significa "fácil"). Mas a verdade é que eu gosto de livros que me ensinem e considero (também) minha obrigação aprender e evoluir.

Uma pessoa (que tem quase sempre razão) dizia-me muitas vezes "Mas porque é que usas tantos anglicismos? Com a língua tão rica que temos, não haverá em Português, forma de dizer o mesmo?". Ainda hoje, fica um bocado irritada quando ouve jornalistas, deputados e outros que tais a deturpar a nossa língua. É verdade que há palavras, especialmente francesas, que por motivos sociais, culturais ou políticos, vieram para ficar e que hoje estão completamente aportuguesadas mas também isso faz parte da evolução da língua. Não é disso que falo. Falo de utilizarmos palavras como "performance" quando podíamos usar "desempenho" apenas porque isso nos faz parecer mais "fashion" (ou na moda). Falo de usarmos a palavra spoilers quando podemos dizer "vou falar dos pontos cruciais da história, estragando-vos a possível surpresa" (podemos fazer como a Catarina e chamar-lhe estragadores). Falo das TAG que de simples etiquetas que permitem identificar tudo o que se diz sobre um determinado assunto passaram a coisas um bocadinho diferentes. Falo de "taguear" (ou coisa que o valha) que não existe nem em português nem noutra língua qualquer e que se pode traduzir por "identificar" ou o velhinho "passa ao outro e não ao mesmo".

 

E sim, eu também uso muitos anglicismos. Eu também uso palavras inglesas porque às vezes é mais fácil do que procurar a tradução correta em Português. Portanto este post é (como aliás todos os que, por aqui, tratam assuntos generalistas) mais para me fazer pensar a mim do que a vocês mas ainda assim gostava de ouvir a vossa opinião sobre este assunto.

 

 

publicado por Patrícia às 10:59 link do post
Também não gosto da palavra spoiler ou Tag, mas parece-me que veio para ficar e, mesmo que não queiramos, a rápida divulgação na net fez com que se torna-se normal dizê-las.
Mudam-se os tempos...
edite a 30 de Setembro de 2016 às 14:22
Olá Edite,
É verdade. Todas estas palavras (e escolhi-as precisamente por isso, há imensos exemplos) já entraram no nosso dia-a-dia. Para determinadas pessoas são já normais, nem pensamos que as estamos a utilizar.
(e digo determinadas porque se formos usar TAG ou Spoiler com quem não domine o inglês ou a internet, torna-se complicado)
E a minha questão é precisamente o "mudam-se os tempos...", questiono-me se estaremos a errar e perder vocabulário limitando a nossa própria língua (como tenho ouvido alguns especialistas na matéria dizer) ou se estaremos a fazer uma evolução positiva introduzindo novos vocábulos que até permitem uma aproximação à unificação da liguagem (o esperanto não teve grande sucesso neste aspecto).
Patrícia a 30 de Setembro de 2016 às 14:44
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