Ler por aí
 
06 de Novembro de 2013

 
Um caso de amor, de paixão à primeira página foi o que meaconteceu com o “A máquina de fazer espanhóis”.
Um caso de ódio, de repulsa aconteceu-me com o “O remorso deBaltazar Serapião”.
Agora, depois de ler o “desumanização” tenho que concluir,com grande pena minha, que não me apetece ler mais Valter Hugo Mãe. E tenhopena, sinceramente, porque acho que este fulano escreve como poucos, que temuma enorme capacidade de me fazer sentir e não apenas ler. Mas a negritude dosseus livros e dos seus personagens é tal que o que sinto é apenas tristeza,repulsa, desesperança. E sinceramente não gosto de me sentir assim depois deler um livro. Há muitos leitores para este tipo de livro e de autor. Eu não souum deles.
Não sou de livros com finais felizes. Não sou fã de romances“românticos”. Gosto de livros que me façam pensar. Gosto de livros quetranscendam a história. Mas não gosto de livros sem esperança, sem um pingo dehumanidade. Ou melhor, com a pior parte da humanidade.
Este é um autor de amores e ódios. É considerado um dosmelhores da sua geração, tem uma legião de fãs que adoram tudo o que escreve etem quem o considere sobrevalorizado e que deteste, à partida, tudo o queescreve.
Eu não sou um nem outro. Sou leitora de escritores e quandogosto de um dos seus livros tenho que ler todos os outros. Ainda bem quecomecei por ler o “A máquina de fazer espanhóis”. Fez-me conhecer vhm e o seutalento. Mas apesar de ter alguma curiosidade por ler o “O filho de mil homens”,acho que não tenho coragem, não consigo ler, outra vez, algo não angustiantecomo este livro.
Este “Desumanização” conta-nos a história de Halla, umamenina de 11 anos que perde a irmã gémea. Halla sente-se metade do que era aomesmo tempo que se sente com a obrigação de carregar duas almas. A solidão etristeza desta menina é angustiante (aliás todo o livro o é). A morte de umairmã gémea deve ser terrível em qualquer situação, mas quando à ausência departe do nosso ser se junta o abandono familiar numa terra inóspita o resultadoé algo assustadoramente negro.
Os pais de Halla não sabem lidar com a situação. O pairefugia-se nas palavras e é o menos mau dos dois, ainda consegue ter algumcarinho para dar à “menos morta” das filhas. A mãe é extremamente cruel para estafilha que lhe resta, não a conseguindo perdoar por ter sobrevivido à irmã. Ascenas do livro protagonizadas por mãe e filha são de uma crueza e brutalidadeatroz.
Numa aldeia perdida nos confins da Islândia, numa terra desolidão e luta inglória contra os elementos da natureza, Valter Hugo Mãeconta-nos uma história de solidão, de morte, de perda. O único toque de amordado pelo autor é macabro. Sempre que há uma pequena luz na história, esta éconspurcada por alguma coisa.
Há imensas coisas que me perturbaram neste livro mas de quenão vou falar pois iria desvendar demasiado.
Deixo no entanto algumas notas positivas. Gosto muito daescrita do autor e acho que só isso me fez acabar de ler este livro (isso e aesperança que fosse haver uma luzinha lá para o fim). Os jogos de palavras, apoesia em tantas frases. O pai de Halla e a sua forma de ver tudo através depalavras, poemas foram a única coisa que me encantou neste livro. Ah, e o livro físico é extremamente bonito. As imagens são fantásticas.
publicado por Patrícia às 12:50 link do post
20 de Outubro de 2013

 

Este post tem spoilers por isso se não leram o livro e não gostam que vos "desmanchem os prazeres" - vão ler o livro que é muito, muito bom - e depois voltem cá, este estaminé está aberto 24 h por dia.

Não sabia nada desta história, sabia que o autor tinha ganho o Prémio Saramago (mas não com este livro), eu e Pat falámos várias vezes sobre o autor e sobre este (obrigada pelo empréstimo!) e outros livros dele  mas fiquei muito surpreendida com o facto de ser uma história sobre velhos e sobre a velhice.

Quando se pega no livro e se dá assim aquela primeira volta para ver a forma, o conteúdo e o cheiro, aparecem-nos as páginas todas preenchidas sem "diálogos" e tu pensas: - Saramago és tu? mas não, é o valter hugo mãe que escreve sem letras maísculas todo o livro, excepto nos 2 capítulos onde entram os polícias.

Percebemos o título já passado muito mais do meio do livro, embora não seja no capítulo que se chama "A máquina de fazer espanhóis" que o percebemos. Enquanto vamos lendo o livro volta e meia pensamos: - ainda não percebi o título! ou - máquina de fazer espanhóis? onde é que ele vai encaixar isto? Mas encaixa, perfeitamente.

Depois temos as personagens, o Sr. Silva a quem morreu a Laura e que é colocado no lar, não basta ter perdido a companheira de uma vida como ainda é colocado num lar cheio de velhos. O Cristiano Silva que é o Silva da Europa. O Anísio da Silva Franco que arranja uma namorada no lar - está velho mas não está morto, e é um homem de fé com várias imagens e estátuas de santos no quarto, a quem os amigos perguntam "explique lá o que lhe dá essa certeza de que alguém toma conta de nós lá para cima, depois do sótão". O sr. Pereira que fica doente com cancro e tem uma discussão com a namorada do Anísio porque ela lhe diz "... vamos para velhos e começam a surgir estas coisas, olhe, a mim doem-me os pés...". O  Américo Setembro que trabalha no lar e é amigo de todos eles - "era um rapaz solteiro, sem amores, como se tivesse sido perdido por alguém que não o sabia voltar a encontrar". E a estrela do lar que é o  Esteves do "poema da tabacaria" ou melhor João da Silva Esteves sem metafísica "verso vivo da mais valiosa poesia portuguesa" que quando morreu deixou os amigos mais pobres pois "quem acreditaria em mim agora quando eu dissesse que ali viveu verdadeiramente o esteves sem metafísica da tabacaria do álvaro de campos do fernando pessoa".
Não é um livro fácil nem leve, a velhice não é fácil, sentirmos que estamos a chegar ao fim da vida, mas depois há momentos em que somos felizes e "... a luz do sol nos parece uma dádiva inestimável e vale a pena viver apenas para fazermos a fotossíntese das tardes". E toda a história do Sr. Silva e família mistura-se com a história de Portugal, antes do 25 de Abril, perder um filho e o peso da igreja e o Salazar, mas depois o Benfica ganha o jogo ao real Madrid e "que se fodessem os espanhóis e o general franco que era uma merda como a que aturávamos nós." e entregar um homem à PIDE pelo medo de perder a família e o pós 25 Abril e a entrada de Portugal na União Europeia. E quando o Sr. Silva se apercebe que fez amigos naquele lar de velhos e "não era nada esperada aquela constatação de que a família tb vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre as pessoas"

Adorei este livro fez-me rir e fez-me chorar, fez-me ir "googlar" o Almada Negreiros, fiquei a saber que a Igreja de Nossa Senhora de Fátima tem panéis deste autor, fez-me "googlar" o poema da tabacaria e só não me fez sublinhar as passagens que mais gostei porque o livro não é meu (está intacto Pat, pronto para regressar à tua estante) e é verdade o que diz o valter hugo mãe: "um livro, com o que contém, pode ser uma fortuna eterna."

 
publicado por Catarina às 19:20 link do post
25 de Abril de 2013




Adorava ter gostado deste livro. Maravilhei-me com a escritade valter hugo mãe, o homem das minúsculas, quando li o livro “a máquina defazer espanhóis” que continua a ser um dos meus livros favoritos e que aconselhoa qualquer pessoa. Mas detestei este livro. E tenho que admitir que detesteitudo: detestei a história, detestei a escrita e o tom deste livro. Detestei.
Eu compreendo que o autor queira dizer mais do que o querealmente diz, que queira fazer-nos pensar e evoluir através de uma históriamacabra, feia, preconceituosa. Provavelmente o problema é meu, que não conseguiver para além da história do cabrão do Baltazar, ruim como as cobrinhas. E sim,eu sei que na idade média a mulher não era gente. E sei que desde que a vida évida há e sempre haverá quem seja capaz de atrocidades. A diferença é que emdeterminados tempos da história as atrocidades eram aceites e aplaudidas.Aliás, nem precisamos ir para a idade média. Atualmente, em determinados paísese culturas, a mulher ainda é considerado um ser abjeto, ainda é mutilada, aindaé tratada abaixo de cão. E eu já li muitos livros sobre isso. E horrorizam-me.Mas não detesto os livros por isso.
Porque, para mim, há vários aspetos que me fazem gostar ou nãogostar de um livro: a história, o intuito que percebo no livro, o tipo deescrita, de linguagem, as personagens, a facilidade com que entro na história,a vontade que tenho que ler mais e mais.
Quanto à história, não gostei. Não há um momento deesperança no raio do livro. Não há uma passagem que me tenha encantado. Todas,sem exceção, me enojaram ou me arrepiaram. Não houve um momento divertido. Nadaque contrabalançasse a fealdade do livro.
Segundo vhm: “O estigma de se ter um nome parece explicar àsociedade quem se é e que intenções se tem”. Seria este o intuito do livro? Nãosei, sinceramente acho que escrever aquela história macabra “apenas” para istonão tem grande sentido. Não foi o facto de Baltazar ser um dos “sarga” que ofez ignóbil, que foi o originador de todas as desgraças. A educação, opreconceito, a doença, a cultura, a maldade intrínseca, sim. O facto de ser dos “sarga”,não.
Este livro é “uma aventura de linguagem, procurandoficcionar um português antigo que, não o sendo de facto, crie a ilusão deestarmos ao tempo de uma idade média tardia”. Ah… a mim, só me dificultou aindamais a leitura. Se já era difícil ler tudo aquilo, por causa da história, terque estar constantemente a voltar atrás para perceber o raio de uma frase erachato, irritante.
Quanto aos personagens… gostei da vaca, conta? A sério, éimpossível criar empatia com quem quer que seja e passei o tempo todo a pensar:“mata-a de uma vez, que isso já é sofrimento demasiado” ou “não sejas burra,tens facas, não tens?” ou ainda “e se te matasses?” (esta dava para todos ospersonagens) e sinceramente não é agradável passar o tempo a desejar que elesmorram todos.
Acho que nunca entrei na história e nem sei bem porque é quefiz questão de ler o livro até ao fim. Foi um alívio fechar o livro e saber quenunca, mas nunca mais, o vou abrir.
Vou continuar a ler a vhm mas se me sair outra destasdesisto de vez.
publicado por Patrícia às 11:29 link do post
07 de Abril de 2013

No ano passado quando li o "A máquina de fazer espanhóis" rendi-me a valter hugo mãe, o homem das minúsculas. Considerei-o na altura (a continuo com a mesma opinião) um dos meus "livros do ano". Por isso, assim que tive oportunidade, comprei o "O remorso de Baltazar Serapião" à espera de ser novamente encantada. 
As expectativas eram altas. 
De início voltei a sentir as mesmas dificuldades com a ausência de Maiúsculas. Lamento, sinto-lhes a falta. E acho mesmo que a sua ausência causa dificuldades à leitura. Quando li o "A máquina de fazer espanhóis" abstraí-me rapidamente desta característica de Valter Hugo Mãe. Acho que tece a ver com o interesse da estória.
Desta vez e nesta primeira metade do livro que já li senti a ausência de cada maiúscula. Senti a estranheza da escrita. E apesar desta estar ligada à forma como a estória de Baltazar está a ser contada não me convence nem agrada. 
Tenho muitas vezes que voltar a trás e reler parágrafos inteiros para perceber. Tenho que me ouvir a ler para entender. E se isso pode ter a ver exclusivamente com incapacidade minha, pode também significar um excesso. Considerando a quantidade de criticas positivas que este livro teve, inclino-me para a primeira opção e Valter Hugo Mãe entra para o grupo de escritores que está para além da minha capacidade (não me parece que ele se chateasse por ouvir isto considerando que o outro ilustre membro é o António Lobo Antunes e o seu "Arquipélago da insónia").
Mas tenho também a percepção que a minha resistência a este livro está ligada à estória. Brutalmente, bestialmente chocante. É impossível criar empatia com qualquer personagem e é-me impossivel sentir senão nojo e ódio por Baltazar. Como disse antes estou a meio do livro e vou acabar de o ler mas a frustração levou-me a vir, pela primeira vez acho, escrever antes do fim. 
publicado por Patrícia às 21:06 link do post
30 de Junho de 2012


Valter Hugo Mãe, o homem das minúsculas, escreveu um dos melhores livros que já li. Para já considerei-o o meu "livro do ano". Confesso que não foi fácil começar a lê-lo, porque a falta de maiúsculas fez-me mais falta do que estava à espera. Foi a falta de maiúsculas e a falta de parágrafos. Que raio de mania esta, dos escritores se promoverem pela diferença na forma da escrita. Não me lixem, por muito que todas as virgulas estejam no lugar certo, há várias regras da gramática portuguesa completamente ignoradas. Mas como li algures a língua avança pela pena dos escritores e não através de acordos políticos por isso talvez o futuro seja esta forma de escrever. Afinal o Valter Hugo Mãe só foi pioneiro na questão das minúsculas, o resto faz lembrar Saramago. 
Mas depois de me ter habituado à falta do raio das maiúsculas e dos parágrafos fiquei rendida a este livro. Pelo que sei o autor escreveu 4 livros, cada um dedicado a uma fase da vida do ser humano. Comecei pelo fim, por este livro dedicado à 3º, à última idade. Não me fizeram falta os outros (mas vou lê-los, certamente) porque a história de António Silva (um dos Silvas) no feliz idade, um lar de idosos, para onde foi "obrigado" a ir depois do fatídico dia que lhe mudou a vida para sempre. Lá, no feliz idade, a história já não é só dele, mas também do Anísio, especialista em arte antiga, do outro Silva que se mudou para lá antes da idade certa e de livre vontade, do Esteves sem metafísica - esse mesmo, o do Fernando Pessoa-, do Pereira e de tantos outros. Do Américo, que dedica a vida aos velhos.

Como será sobreviver sem Amor? Sobreviver à pessoa Amada? A beleza de um sentimento transforma-se, numa fracção de segundo, numa maldição. De um momento para o outro o que nos mantinha ancorados à vida é o que nos arrasta para a morte. Melhor seria que morrêssemos juntos, de mãos dadas. Como viver cada dia depois disso, com os filhos que os abandonam num lar. Como fazê-los compreender que não é justo, que a velhice acontece-nos, não a escolhemos. Como evitar pôr num lar os nossos pais, quando não temos condições nem tempo para deles? Como explicar-lhes essa decisão?

Um livro livro que me fez rir muito, pensar muito e quase, quase chorar!
publicado por Patrícia às 21:32 link do post
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