Ler por aí
 
02 de Janeiro de 2017

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Sempre receara que isto acontecesse, mais do que alguma vez receara a morte. Morrer é perder o eu e reencontrar o resto. Ele conservara-se a si mesmo e perdera o resto

Acabei o ano de 2016 com um livro cuja primeira edição data de 1974. E que excelente final foi.

A ficção cientifica não é um dos géneros que mais leio e é um dos mais subvalorizados do panorama literário… e que injustiça isso é.

Ler Os despojados- uma utopia ambígua de Ursula K. Le Guin é muito mais ler um ensaio político, filosófico, feminista do que ler uma história com naves espaciais. Nesta primeira parte do livro a parte das “naves espaciais” (ou seja, das teorias que suportam a parte da ficção cientifica – com especial destaque para a teoria da simultaneidade, que Shevek desenvolveu – ainda mal deu um ar de sua graça) é claramente preterida em relação à parte política e social.

Não é possível ler este livro e começar sequer a compreendê-lo sem o contextualizar historicamente. Em 1974 duas guerras estavam na ordem do dia: a fria e a do Vietnam que ceifavam vidas e confrontavam ideologias políticas e sociais. Nem sequer é preciso ter grandes conhecimentos de história para perceber que em Urras estão presentes os Estados Unidos e a União Soviética. A introdução de um terceiro movimento, representado por Anarres, ajuda a complementar a reflexão a que a escritora se (e nos) propõe.

Nesta primeira parte (a edição que estou a ler é da Europa-América e está divida em 2 partes) é-nos contado que um grupo de pessoas vai viver para a lua de Urras contruindo ali uma sociedade anarquista/socialista com base nas ideias de Odo, uma mulher que, curiosamente, não sobreviveu tempo suficiente para ver a concretização dos seus sonhos. Algumas gerações depois, Shevek, um físico, vem para Urras tentar estabelecer uma ponte entre duas sociedades que se tinham separado de forma radical – a única comunicação entre estes dois planetas era feita atrás de muros.

Estes muros surgem literal e metaforicamente logo nas primeiras páginas deste livro. Literalmente quando separam os habitantes de Anarres das naves espaciais que chegam do planeta-mãe Urras e que nos levam a questionar se os muros são um símbolo de liberdade (uma vez que os habitantes de Anarres se exilaram por escolha própria) ou uma prisão mascarada. Metaforicamente quando começamos a perceber a filosofia base da sociedade de Anarres. Na página 20 podemos ler, a respeito das “ideias” que “Havia paredes à volta de todos os seus pensamentos e parecia não ter nenhuma consciência delas, embora se escondesse perpetuamente por detrás”.

Ao longo destas páginas todos os sistemas são questionados. Todos os conceitos são dissecados, transformados e refeitos. Muitos chocam com tudo o que conhecemos, que aprendemos, que nos é inerente. O conceito de família, por exemplo. Absolutamente deturpado (em relação ao que conhecemos) leva-nos a questionar a obrigatoriedade dos laços de sangue, do casamento, da sexualidade, dos sentimentos (e falar de sentimentos em Anarres é até uma coisa que parece estranha).

Apesar de ter ganhado bastantes prémios (Nebula, Hugo ou Locus) este é um livro claramente subvalorizado. Assim como Ursula K. Le Guin é, infelizmente, uma escritora esquecida em Portugal.

publicado por Patrícia às 15:48 link do post
19 de Agosto de 2015



Continuofascinada pela saga de Terramar da Ursula K. Le Guin e é sempre muito interessantevoltar à companhia de Gued. Agora, pela Extrema Sul, na companhia de Arren,Gued busca respostas para perguntas que nem sabe bem quais são. É o instinto ouo próprio destino que o leva a partir para tentar perceber o porquê da magiaestar a desaparecer do mundo. Partir acompanhado por um jovem sem magia é algoque nem todos compreendem. Mas Gued há muito aprendeu que o próprio destino seencarregará de mostrar o caminho.
Este é acimade tudo um livro calmo, para pensar e aprender. Gued é professor e ao mesmotempo aluno. Arren, transforma-se e cresce tanto ao longo destas páginas quenos força a crescer com ele.
Cada vezmais acho esta coleção uma pérola (quase) esquecida e como gostava de a terlido na minha adolescência. Tenho a certeza que teria lido e relido e que, acada leitura, teria aprendido mais um pouco.
Aqui a Mortee Vida são temas incontornáveis neste livro. E é inevitável que algumasquestões nos obriguem a refletir. O medo da morte far-nos-á perder o importanteda vida? Até que ponto vale a pena prolongar a existência? De que estamosdispostos a abdicar? De quem estamos dispostos a abdicar? Até que ponto somosinfluenciados pela inevitabilidade da morte?
Mas nem sóde temas escuros se faz este caminhode Terramar. Afinal a confiança e amizade são sempre temas presentes.
E a escrita da autora é, sem surpresas, a cereja no topodo bolo. Simples (e não banal) mas cuidada, da que dá gosto ler e nos envolve earrebata. O tipo de livros que gostava de ver lidos e analisados nas nossasescolas
publicado por Patrícia às 16:11 link do post
04 de Novembro de 2014



Uma menina é escolhida,ainda uma criança, para ser outra pessoa. Ela, que nasceu na mesma hora damorte de sua antecessora, é a nova sacerdotisa dos Túmulos de Atuan. Gued, o nosso feiticeiro, busca a outra metade do anel de Erreth-Akbe. As vidas deTenar e de Gued cruzam-se mas os destinos de ambos são incompatíveis.

Neste segundo livro dociclo de Terramar conhecemos mais uma faceta de Gued. Depois do feiticeiroinexperiente do “O feiticeiro e a sombra”, conhecemos um Gued maduro, ponderadoe bondoso. Mas é a personalidade de Tenar que é mais explorada neste livro. Aimportância e as consequências da educação de uma criança são bem visíveis noadulto em que se transforma. A ignorância que não deixa de ser criminosa. Asigrejas que, com base na fé, moldam mentes e gentes a seu bel-prazer.
Um livro que mesurpreendeu. Espera algo leve, mais ao jeito do primeiro volume, cheio de açãoe de magia. E até pode ser lido assim. Pode ser lido assim. Ou então não. Enesse caso há tanto para ler nas entrelinhas.

Gostei e espero pegar noterceiro volume desta saga rapidamente.
publicado por Patrícia às 23:48 link do post
02 de Outubro de 2014


Precisava ler qualquer coisa mais leve, algo que me ajudasse a libertar da carga emocional do livro que tinha acabado de ler. Nada como ler algo de fantasia. Mas eu e a fantasia andamos meio desavindas, culpa dos livros YA que tenho andado a ler. Mas a Roda dos Livros não falha e as meninas que gostam de fantasia aconselharam-me esta colecção (apresentada várias vezes como tetralogia mas na realidade é, desde 2001, composta por 5 livros).

Para já li o primeiro livro.  Como a capa indica, é um livro juvenil mas engane-se quem o julga um "Livreco para miúdos".  Achei este livro adequado para todas as idades. Basta gostar de fantasia e de uma história bem contada. E, acima de tudo, de um livro extremamente bem escrito.

O nosso feiticeiro é o Gavião (tem um nome verdadeiro que não vos vou dizer porque os nomes verdadeiros têm muito poder) que cedo descobre um talento inusitado para a magia. Depois de dar mostras desse talento meio por acaso (ou por talento inato) acaba por ir desenvolver os seus poderes para uma escola de magia. Mas o orgulho e a raiva são perigosos quando crescem a par com o poder e o Gavião terá que aprender da pior maneira possível. 

É inevitável fazer comparações com o feiticeiro mais conhecido da actualidade (mr. Harry Potter, of course) mas de facto não tem nada a ver. Este é um livro muito mais sombrio que os do HP, com excepção dos dois últimos volumes da saga, e apesar de ambos terem escolas de magia, estas são tão diferentes que não há comparação possível. Mas tenho a convicção de que os fãs de HP (eu sou uma delas) irão gostar deste Ciclo de Terramar.

Uma curiosidade: este primeiro volume foi publicado pela primeira vez em 1968.

Adoro esta capa. Senti-me atraída para ela desde o primeiro minuto e imediatamente uma palavra me saltitou no pensamento: Danuta. Fui ver de quem era a capa e não consegui deixar de sorrir ao ver o nome "Danuta Wojciechowska"! Impressionante. É de facto a minha ilustradora favorita. E eu, uma naba completa nesta cena das artes (a sério, sou mesmo muito má) reconheço uma ilustração "Danuta" a léguas. E quando tenho que comprar livros para crianças são os livros ilustrados por ela que procuro. São maravilhosos. Adoro, Adoro, Adoro.

publicado por Patrícia às 19:51 link do post
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