Ler por aí
 
10 de Outubro de 2015

E de como os africanos inventaram o mundo


 
Vou começar pelo princípio ou, neste caso, pela capa maravilhosa, bonita, colorida que tem tudo a ver com o título, adorei (não costumo ligar às capas em geral só servem para me enervar, quando vejo edições com novas capas de livros do tempo da Maria Cachucha como se fossem novidades, é uma coisa que me agasta, mas adiante).
Depois ao abrir o livro e ver o tamanhão da margens, caramba... Cabia mais um livro no espaço destas margens.
Mas quando começamos a ler esquecemos capa, margens, tudo. As palavras são redondas e quentes: malungas, mucama, tandala, ambundosmuxicongos, quibuca, quimbanda, quitandeira, quilombo, macota, mulembalibambos, maboque, banza, diculundundo … a escrita é cantada e tudo faz sentido. 
Entramos numa outra era, como era o mundo no séc. XVII. Estória com História contada pelo padre Francisco José da Santa Cruz que se torna o secretário e conselheiro da Rainha Ginga, que o acha “estranho” de aparência:
 A minha mãe era índia — expliquei-lhe —, da nação Caeté. ... Meu pai era mulato, filho de um comerciante da Póvoa do Varzim e de uma negra mina... Sou a soma, por certo um tanto extravagante, de todos esses sangues inimigos.
É uma aventura, há escravos, guerreiros, ciganos, padres, mouros, judeus, piratas (à séria com perna de pau e tudo), de todas as tonalidades e misturas, amor, ódio, e guerra, muita guerra: os soldados com “bexigas” (varíola) eram cortados aos bocados e catapultados para o lado do inimigo.
A Rainha Ginga é completamente invulgar, e os homens acham que é o demo: Ali conheci o senhor Rodrigo de Araújo, anfitrião da Ginga, que era um dos que mais surpresa manifestava pela inteligência da embaixadora. É coisa sobrenatural, disse-me, a fluência com que ela fala. No juízo dele, a inteligência, quando manifestada numa mulher, e para mais numa mulher de cor preta, de tão inaudita, deveria ser considerada inspiração do maligno e, portanto, matéria da competência do Santo Ofício.
Carismática, inteligente, resistente, lutou contra os portugueses, fez alianças usando a ideia “inimigos dos meus inimigos meus amigos são”.
E não sei se os africanos inventaram o mundo mas foram o motor sem dúvida, os escravos eram o combustível para tudo e foram centenas de milhares os africanos a serem traficados para o Brasil:  Os portugueses não respeitam nenhuma destas leis, enviando para o Brasil não somente os escravos ou caxicos mas também os homens livres (murinda). Este desrespeito foi sempre uma das queixas da rainha contra os portugueses.
O padre vive sempre atormentado pela cobiça e crueldade que vê à sua volta, foi fiel à Ginga e considerado um traidor pelos portugueses, já não acredita na igreja:
- Já não sou padre.
- Não ter martirizes com isso. Os brancos têm boas obras, mas a Igreja não é uma delas.
Deixa de ser padre para seguir o seu coração ou melhor uma rapariga chamada Muxima. Tudo faz sentido porque muxima é a palavra Angolana para coração.
 
Fecho o livro e volto à capa, vejo a Ginga, sei da sua vida e história mas não foi a voz da rainha que ouvi, foi sempre a do seu secretário, o padre. Como teria sido esta estória contada por ela?
 
 
 
 
publicado por Catarina às 09:35 link do post
07 de Setembro de 2015

 

       Li este livro em duas horas numa manhã de praia. Reli-o depois a marcar as minhas partes favoritas (numa folha à parte que este livro foi emprestado - obrigada amiga! - nada de sublinhar frases e escrever notas nas margens), calmamente, a saborear a escrita e os pormenores.

 

As personagens são maravilhosas.
Eu já sabia que o narrador é uma osga mas, quando estava a ler, surpreendeu-me e quando reli continuei a achar as primeiras páginas ambíguas o suficiente para ver o Eulálio e não a osga.
Félix Ventura um albino em Angola, não sabe quem é, foi encontrado por Fausto Bendito Ventura, alfarrabista, dentro de um caixote cheio de livros do Eça de Queirós – “Eça foi o meu primeiro berço”, vende passados falsos e tem como amigo uma osga com quem conversa.
Um vendedor de passados e uma osga chamada Eulálio? Supimpa.
Mas há mais. José Buchmann, repórter fotográfico, cliente que quer comprar um passado ou melhor toda uma vida, uma identidade africana:
“...O albino ouvia-o aterrado:
"Não!", conseguiu dizer. "Isso eu não faço. Fabrico sonhos, não sou um falsário... Além disso, permita-me a franqueza, seria difícil inventar para o senhor toda uma genealogia africana."
"Essa agora! E porquê?!..."
"Bem... O cavalheiro é branco!"
"E então?! Você é mais branco do que eu!..."
"Branco, eu?!", o albino engasgou-se. Tirou um lenço do bolso e enxugou a testa: "Não, não! Sou negro. Sou negro puro. Sou um autóctone. Não está a ver que sou negro?..."
A sério que a osga se fartou de rir com esta.
Temos ainda Ângela Lúcia de quem Félix diz:
<<Ela é assim ...>>, fez uma pausa, as mãos espalmadas, os olhos apertados num esforço de concentração, demorando-se a encontrar as palavras: <<Pura luz!>>
Há outras personagens paralelas a Velha Esperança, salva de ser fuzilada pela “logística”, que se julga imune à morte e diz que são os muros que fazem os ladrões. O Ministro que compra toda uma genealogia e passa a ser neto de Salvador Correia de Sá e Benevides libertador de Luanda do domínio holandês.
Mas a história principal é a de Ângela Lúcia e José Buchmann que, vimos a descobrir, têm um passado em comum e o final da história dos dois, não o fim do livro, mas o final da história dos dois é surpreendente e brutal.
 
José Eduardo Agualusa, sou fã. Vou ler o “A Rainha Ginga”. Volto mais tarde.
publicado por Catarina às 21:45 link do post
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