Ler por aí
 
12 de Abril de 2017

Gato.jpg

 

Depois de "Que Importa a Fúria do Mar" Ana Margarida de Carvalho regressou com este "Não se pode morar nos olhos de um gato" e a primeira coisa que tenho que referir é que, mais uma vez, o título deste livro é fabuloso (e é inspirado num poema de Alexandre O'Neill).

 

No livro, tal como no poema, este título esconde uma crueza que nos atinge às primeiras palavras.  Logo no primeiro capítulo é a santa de madeira do navio que nos fala, de enxurrada, num monólogo carregado de dor e raiva.

Os personagens vão-nos sendo apresentados aos poucos, por camadas. Primeiro estereótipos (o capataz, o passageiro, a fidalga, o criado) vão-se tornando gente à medida que nos vão contando a sua história. E cada um deles tem uma história, um segredo por contar, um pecado para expurgar.

O grupo que sobrevive ao naufrágio e se junta naquela praia está sujeito a todos os preconceitos que, na altura, ontem e hoje, moldam a sociedade. Numa situação extrema, como a que este grupo está sujeita, os preconceitos de raça, género ou religião tornam-se incontornáveis e é a absoluta necessidade que leva a que cada um dê o melhor de si (que nem sempre é suficiente ou aceitável) para que a sobrevivência seja uma realidade. Aliás, nem sequer é o melhor que emerge, mas o necessário, quando existe capacidade para tal. Ou correm o risco de se consumirem no processo.

A escrita irrepreensível de Ana Margarida de Carvalho e o tom que imprime a este livro deixaram-me interessada desde a primeira página mas este livro vive dos personagens.

A construção dos personagens é impressionante. Conhecemos cada um deles através do seu passado, de alguns das muitas histórias que o compoem.  Muitas vezes os livros apresentam-nos apenas o futuro, como se a qualquer momento pudéssemos esquecer quem somos, quem fomos e com que barro nos fizemos. Aqui, neste livro, não há disso. Há crueza, crueldade, preconceito, empatia, repulsa, coragem e cobardia, paixão, amor, amizade. Há toda a gama de emoções que atravessaram as épocas e através delas ficamos a conhecer melhor um conjunto de personagens que, ao serem obrigados a enfrentar os seus próprios fantasmas, se conhecem e se dão a conhecer.

Não esperem uma história de redenção nem uma história parecida à do Robinson Crusoe. Esperem uma história crua e impiedosa, cheia de histórias dentro, histórias feias e duras, histórias de desesperança. Não esperem redenção, esperem realidade. 

 

 

 

publicado por Patrícia às 10:37 link do post
03 de Março de 2014

 


 

 

 

 

O primeiro romance de Ana Margarida de Carvalho foi um dos finalistas do prémio LEYA. Foi também um dos livros mais recomendados pela Márcia (podem ver aqui a opinião que ela escreveu para o blog da Roda dos Livros). As expectativas eram, por isso, muito altas.

 

Gostei, mas não é o meu livro favorito.

 

A ideia da história é fantástica. Escrever sobre o Tarrafal é de uma enorme coragem, principalmente porque este episódio negro da nossa História é ainda muito recente e ainda há demasiadas feridas abertas. Escrevê-lo sob a forma de romance é ainda melhor, é a minha forma favorita de conhecer/recordar episódios históricos.

 

Os saltos temporais neste romance estão muito bem conseguidos. Saltitar entre o passado longínquo de Joaquim, o passado recente de Eugénia e o presente de ambos é interessante e conseguiu interessar-me. Não me senti minimamente perdida.

 

Este livro está bastante bem escrito. Gostava de um dia ter um vocabulário assim. Infelizmente não tenho e isso obrigou-me a ir várias vezes ao dicionário. No geral considero óptimo que um livro me faça abrir o dicionário (gosto sinceramente de aumentar o meu vocabulário). O problema foi que, em algumas partes do início do livro cheguei a ter que ir à procura do significado de várias palavras na mesma frase. Depois lá encarrilei e a coisa passou.

De início achei bastante piada ao facto de estar sempre a tropeçar em referências literárias. Referências a títulos de livros, a personagens de romances, a poemas (é ou não fantástico quando o vosso poema favorito subitamente vos aparece à frente?). Mas depois tudo o que é demais enjoa e todas aquelas referências me pareceram um exagero. Às tantas só pensava,“ok, eu sei que tu és super culta, mas já chega!”. E acredito não ter sequer apanhado muitas das referências (ou ter percebido mal outras porque o título do livro é mesmo “a história da gaivota e do gato que a ensinou a voar”, são os felinos que ensinam as gaivotas a voar e não o contrário).

Mas o que me faz ficar de pé atrás com este livro é mesmo a Eugénia. Jornalistazinha petulante, enjoadinha, irritante e extremamente arrogante. Arre, que não consegui sentir a menor simpatia ou empatia com a senhora. E eu não gosto de alguém que não gosta de animais, pelo que não consigo gostar nem um pouco desta fulana.

 

Já me tinham dito que era possível ler este livro sem ser linearmente. E é verdade. Acredito que, no final, o resultado era quase o mesmo qualquer que seja a ordem pela qual se leiam os vários capítulos. Talvez a ordem considerada seja a mais óbvia mas não é, de todo, a única possível.

 

Apesar dos muitos defeitos que atribuo a este livro, gostei de o ler. Gostei desta viagem à loucura, gostei de conhecer a força do amor a opor-se ao pior de que o ser humano é capaz, gostei de ler sobre o Tarrafal, sobre essa aberração que foi esta prisão.

 
publicado por Patrícia às 13:59 link do post
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