Ler por aí
 
28 de Junho de 2014



Tudo o que nos é proibido exerce sobre nós uma atracção irresistível. Eo que não sabemos torna-se grande, um mistério por resolver. E depois apareceeste livro e permite-nos ter um vislumbre do que se passa naquela terra. ACoreia do Norte é hoje um dos únicos pontos do planeta que não nos estáacessível. E como ansiamos por conhecer este país de que tanto se fala mas deque tão pouco se conhece. E a imaginação cresce como quando vemos aquele vídeoque corre no facebook acerca de uma suposta notícia norte-coreana de que teriamsido os primeiros a chegar ao sol (de noite, para não queimar). A ausência deinformações leva-nos a acreditar em tudo. Afinal é nisso que acreditamos: que aausência de informação que eles têm os levam a acreditar em tudo.
E este livro é um doce para quem acredita que aqui está um documentoverídico acerca daquele país. Afinal foi escrito com base numa imensa pesquisa.E esse é o problema deste livro: acabei-o com a sensação de “a montanha pariuum rato”, um livro escrito com as palavras que eu esperava ouvir sobre aquelepaís. Um livro escrito por um americano sobre a América e sobre a Coreia doNorte. (e depois penso que a minha crítica não é justa e que é normal que umamericano use como bitola os USA), cheio de comparações e de fantasia. Pormuitos factos que lá constem, este livro é ficção, não tenham dúvidas acercadisso. E é como livro de ficção que deve ser apreciado (o problema são sempreas expectativas e o marketing à volta de um livro).
E como livro de ficção devo confessar que gostei. Gostei muito mais daprimeira parte em que conhecemos Jon Do, um menino que, por culpa do acaso,cresce num orfanato na Coreia do Norte. E as imagens que nos são mostradasnesta primeira parte, são de uma violência atroz. O crescimento de Jun Do, oseu percurso vai-nos fazendo o retrato de uma sociedade fechada, de um ditadurae de um ditador manipulador e sádico.
Depois, na segunda parte do livro, onde o protagonismo se divide entrevários personagens começamos a perceber as pessoas, o que as move, como sãomanipuladas, como a inocência se mistura com a ignorância e dá um resultadocruel, violento. Como a força do amor pode mudar o mundo.
O que me desiludiu nesta segunda parte do livro foi a ridicularizaçãodo personagem do ditador. Ridicularizar aquele homem é subestima-lo emenosprezar todos aqueles que vivem sob o seu jugo. E isso incomodou-me,confesso. Alguém capaz de fechar um país daquela forma (e falo do que vejo nasnotícias e não do que li no livro) não deve ser menosprezado nem tratado comoalgo ridículo.
Achei muito interessante a personagem do “interrogador”, o seupercurso, as suas dúvidas, as suas escolhas. Talvez este homem seja o que maisse aproxima da realidade: a inocência, até mesmo alguma humanidade, que acabapor ser fruto da manipulação da desinformação e que se tem que adaptar e quetantas vezes acaba por desistir e se tornar parte do mesmo sistema.

No geral gostei de ler o livro mas as expectativas não foram, de todo,atingidas.
publicado por Patrícia às 10:53 link do post
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