Ler por aí
 
19 de Agosto de 2017

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Acabei de ler este livro de coração partido.

O autor propõe-nos entrar na mente de um miúdo de 10 anos e ver o mundo pelos seus olhos. Desconstruir o mundo, simplificar o complicado e sonhar com o impossível. Está nestas páginas a inocência, a coragem e a frieza que só é possível a quem não tem preconceitos e para quem o mundo tem ao mesmo tempo o tamanho do que podemos ver pelos nossos próprios olhos e o tamanho do universo. Analisar cada um dos temas abordados dessa perspectiva é o desafio. 

O escritor conquistou-me nas primeiras páginas com as brincadeiras lexicais, as confusões fruto da inocência/ignorância de um gaiato que, apesar de ser super inteligente, tem 10 anos. Como ponto positivo, destaco que o João Reis soube dosear este tom ligeiro e apesar de conseguir manter durante todo o livro um tom absolutamente credível para uma criança, também foi capaz de nos mostrar a sua evolução e abordar inúmeros assuntos, alguns que nem sequer fazem grande sentido para o miúdo (aqui temos que fazer uma pausa e pensar em como aqueles pequenos seres absorvem o que vêem, ouvem e lhes transmitimos) mas fazem para nós, leitores adultos.

Apesar de ser um livro relativamente pequeno, somos convidados a fazer uma viagem na história e reflectir sobre temas tão distintos como religião, economia ou política.

Foram as relações entre as personagens que me fizeram mergulhar de alma e coração nesta história. O amor incondicional deste miúdo pela avó (que foi atingida pelos ares atómicos de Chernobyl) ou a amizade com Matt, um sem-abrigo, fizeram com rapidamente criasse uma ligação aos personagens. A importância da memória; a forma como o presente, o que somos, é também parte da memória dos outros ou a tristeza que é quando a memória nos atraiçoa; a coragem de acreditar; a importância de questionar, reflectir, desconstruir para entender... tudo isto está nestas páginas.

Este é um livro que vou levar comigo durante muito tempo. É um livro triste a que o escritor conseguiu imprimir uma leveza surpreendente. 

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publicado por Patrícia às 15:03 link do post
10 de Agosto de 2017

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Fiquei agarrada a este livro nas primeiras páginas. Logo aí decidi que o "Madre Paula" seria uma das minhas próximas leituras e que Patrícia Müller é uma escritora a seguir.

Maria Laura é uma mulher fascinante. Muitas vezes irritante e quase sempre incompreensível. É preciso recuar no tempo e ir novamente a 1974, ao dia da revolução e começar a compreender. Não, minto, é preciso ir mais atrás. E mais ainda. É preciso olhar em volta e perceber o espaço e o tempo envolvente para começar a perceber esta mulher, esta vida fascinante. 

A crítica social está presente, claro. Como disse não seria possível perceber esta mulher, a sua família, as suas atitudes, sem perceber o país, o regime, a sociedade, a igreja de então. A hipocrisia. A moral. E esta parte do livro é impressionante. 

Mas o que me fascinou neste livro foram duas mulheres. Maria Laura e Glória. As suas atitudes, as relações com os que as rodeavam. As várias camadas que tinham. Não há heroínas nesta história, tal como não as há na vida real. Há pessoas que cometem erros, que acertam, que fazem asneiras com a melhor das intenções ou que acertam por acaso, porque o objectivo era outro. E são essas pessoas que moram nestas páginas. São essas mulheres que têm voz pela mão da Patrícia Müller. E como ambas são fascinantes. 

Espero que o protagonismo da escritora com a adaptação televisiva do seu Madre Paula permita que mais gente conheça este "Uma Senhora Nunca" que, injustamente, tem passado despercebido.

 

Deixo-vos um excerto de "um texto inédito que complementa Uma Senhora Nunca", que a escritora partilhou na rubrica Ao Domingo com... do blog da Cris (O tempo entre os meus livros). Sigam o link no texto para lerem, não só o texto completo como o que Patrícia Müller escreveu para o blog da Cris. 

 

 

O que uma senhora ainda não pode é ter falta de amor paternal. 
Mas Maria Laura não se senta na obrigação de cumprir com outras regras que não as que ela conhece desde pequena, desde que se reinventou e chamou a si o epíteto senhorial, à custa de puxar as veias certas do coração e desligar as que pertencem a classes mais simplórias e populares. A senhora não é pontual, a senhora faz as horas do dia. Não é económica, é rica. Não é sincera e leal, usa de todos os recursos que possui para conseguir o que quer, incluindo mentir, exagerar e até verter lágrimas de crocodilo. A senhora é um crocodilo mal humorado. Tem confiança de que a educação – fornecida através da perceptora que a acompanha em casa; do pai que tudo sabe sobre o mundo e da avó, detestável avó que a ensinou a comer como se pudesse ir amanhã jantar com um membro da realeza europeia – é a chave para uma boa vida. Uma senhora ainda não pode prescindir de regras, sob pena de se engolir no seu próprio vómito. É um balanço complicado, uma linha de água muito escorregadia: um desequilíbrio e afunda. Maria Laura não afunda, porque a mão de Deus está sempre debaixo dela. E uma senhora ainda não pode permitir-se ficar sozinha neste mundo, sem a companhia do pai e de Deus. Por isso, Maria Laura, a senhora de todas as senhoras, reza todas as noites pelas semelhantes a ela e pede, com fervor, que nunca esmoreçam na tarefa de construir o mundo. Sem as senhoras, era tudo uma cambada de ordinaríssimos. E valha-nos Deus que isso venha alguma vez a acontecer.

 

Sobre este livro a Cris também escreveu uma opinião. E a Vera. E a Cris Rodrigues.

 

publicado por Patrícia às 10:29 link do post
05 de Agosto de 2017

 

 

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Apesar de não ter sido o primeiro livro de Virgínia Woolf que comecei a ler, este foi o primeiro que acabei. Posso dizer que gostei muito mas que não foi uma leitura sempre fácil (o que não a desmerece em nada).

O título remete-nos imediatamente para uma dicotomia que não deixa de nos acompanhar toda a leitura. Noite e dia. Mulher e Homem. Amor e dever. Privilégio e trabalho. Família e Sociedade. Razão e Emoção.

Comecemos pelas duas personagens femininas: Katharine e Mary. Duas mulheres, diferentes e iguais. Uma, Katharine, de uma família tradicional, rica e privilegiada. Neta de um poeta famoso, é a imagem da mulher perfeita para a época: rica, bonita, excelente dona de casa, inteligente e a noiva perfeita. Mas os livros que guarda no seu quarto e que lê à noite quando está sozinha contam outra história. Mary, igualmente inteligente, vinda de uma família bem mais modesta, reclamou para si uma vida diferente: trabalha e é uma sufragista.

Os homens deste romance, William e Ralph, são o contraponto de Katharine e Mary. Ambos são pura emoção e romantismo enquanto elas são muito mais razão e força. 

Confesso que senti um empatia muito maior, ou pelo menos muito mais rápida, com Mary (que gostava que tivesse tido um maior protagonismo nestas páginas) que com Katharine e que os homens... bem, digamos, que nenhum me agradou especialmente. Para além de Mary, também gostava de ter lido mais acerca da deliciosa Mrs. Hilbery, uma mulher maravilhosamente doida. 

Foi a troca dos tradicionais e expectáveis papéis, num romance escrito por uma mulher e publicado em 1919, que me interessou de imediato. Só uma mulher muito especial, muito à frente do seu tempo, escreveria algo assim. Na verdade quem eu gostei mesmo, mesmo de conhecer ao longo destas páginas foi Virginia Woolf, tenho a certeza que vou continuar a ler os seus livros e que ainda me vou surpreender e aprender.

 

 

publicado por Patrícia às 16:28 link do post
04 de Julho de 2017

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 Regressar a Scadrial é sempre bom. Ter a "Allomancy" (Alomância) e a "Feruchemya" (será Feruquímia em português? não faço ideia), de volta às minhas leituras é sempre positivo.

Este foi um livro bastante divertido de ler. 300 anos depois, Kel, Vin e Elend fazem parte da história, das lendas e da religião. Há comboios, electricidade e armas convencionais. Mas também há Twinborns que queimam metais e têm determinadas capacidades de armazenamento. 

Wax, é um destes TwinBorn. Para além de conseguir "empurrar" metais também consegue armazenar o seu peso, tornando-se extremamente leve ou pesado sempre que dá jeito. Já Wayne, o seu homem de confiança e também TwinBorn, tem outros poderes, igualmente importantes: através da Allomancy consegue fazer "ganhar tempo" (enquanto dentro da bolha que cria, o tempo corre normalmente, fora dela tudo parece parar) e através da Feruchemya, armazena saúde.

Depois de muitos anos como "homem da lei" nas fronteira da terra conhecidas como Roughs, Wax assume o seu lugar em Elendel como chefe de família, após a morte do seu tio, deixando no passado a sua vida . Mas quando a mulher com quem pretende casar é raptada tudo muda...

Este livro está cheio de lutas intermináveis (depois de dizer ao meu marido que "tenho que ir acabar de ler a luta de ontem" ele perguntou-me se estava a ler o Dragon Ball) mas com alomância até isso é aceitável.

Gostei bastante das personagens deste livro. Confesso que tenho um fraquinho pelas meninas (o Brandon Sanderson tem jeito para criar personagens femininas).

Apesar de não ser o meu livro favorito do autor (The Way of Kings e o Words of Radiance têm um lugar muito especial no meu coração) é uma boa forma de esperar pelo Oathbringer. Acredito que só quem já leu a trilogia Mistborn vai gostar a sério deste livro. Quanto a mim, espero continuar a ler as aventuras de Wax e Wayne, nesta espécie de western à moda do Sanderson.

 

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imagens daqui 

 

publicado por Patrícia às 23:04 link do post
18 de Junho de 2017

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(vou tentar que o post tenha o menor número de spoilers possível, mas terá SPOILERS)

Não será novidade para ninguém que este é um livro “duro”, difícil de ler. Difícil, não pela linguagem, mas pelo conteúdo. Não é possível haver qualquer empatia com os personagens. Também não é novidade que este é um livro sobre o “mal”. Mais um livro sobre o Mal, um tema recorrente nos livros do GMT, um livro sobre a capacidade, a tendência ou predisposição que o ser humano tem para o mal.

Estou a ler a tetralogia de “O Reino” numa ordem absolutamente aleatória e assim este é o segundo livro que leio (na verdade é o terceiro mas não conto a primeira vez que li o Jerusalém pois, claramente, não estava preparada para o ler).

Na primeira parte deste livro conhecemos Lenz Buchmann e ficamos (eu pelo menos fiquei) com certeza de que estamos perante um ensaio sobre “como se atinge o grau máximo de maldade”. Não é necessário estar com meias medidas, não acredito que haja uma pessoa capaz de ler este livro e não o associar imediatamente ao nazismo. Lenz Buchmann é um psicopata, infelizmente inteligente (geralmente são), execrável e que odiamos a cada página que passa. A construção deste homem, o resultado da sua educação ou da genética (teremos que ter em conta o contraste com a personalidade do irmão), a sua evolução de médico frio e orientado para os resultados (e para a excelência da técnica conseguida à custa da eliminação de qualquer réstia de compaixão ou empatia) para o político sedento de poder prepara-nos para tudo, menos para a segunda parte do livro.

O mais assustador, nesta fase, é o quão simples é o raciocínio atrás das atitudes daquele homem. A certeza que é superior, que as regras (sejam as da lei ou da ética) não se aplicam a si, a necessidade de controlo (sobre si e sobre os outros), a total ausência de humanismo (ou de humanidade) patente em cada gesto, em cada atitude, fazem de Lenz um líder extremamente eficaz e perigoso.

Disse que é impossível não associar este livro, este personagem, ao nazismo mas o mais assustador é que, a cada página, a cada atitude de Lenz, reconhecemos atitudes extremamente actuais, reais, contemporâneas. Atitudes que, sem dificuldade, reconhecemos.

A segunda parte do livro, é outra coisa absolutamente diferente. Lenz, continua a ser o ser humano execrável que é na primeira parte do livro, e obviamente que também me passou pela cabeça que “cá se fazem, cá se pagam” mas não me parece que esse seja o objectivo do autor. Aliás, parece-me que a aleatoriedade é um factor a ter em conta. As personalidades de Júlia e do irmão, o seu crescimento e transformação também nos devem fazer pensar.

No início deste texto disse que não foi possível criar empatia com qualquer personagem. Então porque gostei tanto deste livro? Porque gosto tanto dos livros do GMT?

Acho que é a escrita crua e dura, sem floreados, sem aparentes tentativas de tornar literariamente belas as reflexões sobre o mal. Posso passar metade do tempo horrorizada com o que este autor escreve mas ao mesmo tempo penso, reflicto sobre o que está ali e sobre o que eu vejo ali. E não é essa grande função da literatura?

publicado por Patrícia às 16:29 link do post
21 de Maio de 2017

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Aqui entre nós: esta capa é, ou não, brutal? Bastante diferente do cansaço que são as capas da maioria dos livros de fantasia, esta capa fascinou-me. Compraria este livro só por esta capa. 

Acho que é unânime que o melhor desta história é a teoria dos mundos paralelos, as várias Londres que nos são apresentadas são muito interessantes. A teoria dos mundos paralelos não é propriamente uma enorme novidade mas é-nos apresentada de uma forma interessante e para mim, que não sou propriamente uma especialista neste género de teoria, coerente o suficiente. Gostei do desenvolvimento deste universo. A construção do mundo, as regras que o regem são fundamentais para que uma história de fantasia funcione. Esta parecei-me ser simples o suficiente (às vezes menos é mesmo mais) para funcionar. E quando digo "simples" talvez esteja a ser injustamente simplista, uma vez que temos magia e regras diferentes em cada mundo, uma linguagem própria, artefactos que encaixam e que com, pelo menos, 4 mundos diferentes isto funciona.

O primeiro livro de uma série de fantasia é sempre, e acima de tudo, uma apresentação. Do mundo, dos personagens que nos vão acompanhar durante (esperemos) vários livros, das histórias a desenvolver.

Kell, um Antari, capaz de viajar entre os vários mundos, é originário da Londres  Vermelha, onde o equilíbrio entre a magia e a humanidade parece mais estável. Lila é uma ladra originária da Londres Cinzenta, um mundo com pouca ou nenhuma magia. Hollande, da Londres Branca, onde o equilíbrio entre magia e humanidade parece estar a ser vencido pela magia, pela corrupção, pela maldade. Talvez a sua proximidade à Londres Negra não seja inócua.

O meu maior problema com este livro é que, ao longo de toda a leitura, não consegui deixar de comparar a Lila e o Kell com o Kelsier e a Vin (e como não ver o Elend no Rhy???). E ninguém ganha ao Kel e à Vin (com uma possível excepção para o Kaladin e a Shallan). É injusto, eu sei, comprar esta série com Mistborn mas não deu para evitar. Demasiados pontos em comum. Ainda por cima o último livro de fantasia que li foi precisamente o Words of Radiance, o segundo volume dos Stormlight Archives, cujo nível de complexidade é vários graus acima deste livro. A razão porque refiro isto é, precisamente, para justificar a minha falta de entusiasmo em relação a estas personagens.

Espero, no entanto, continuar a seguir as aventuras de Lila e Kell ao longo dos próximos volumes desta série. 

Acho que este Uma Magia Mais Escura, é uma boa forma de começar a ler fantasia, um óptimo cartão de visita para quem está a descobrir o género literário mais apaixonante de todos.

publicado por Patrícia às 12:01 link do post
12 de Maio de 2017

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Às vezes a solidão aos 30 é igual à solidão dos 60 ou dos 70. Às vezes há amizades que não parecem fazer muito sentido mas a verdadeira e mais interessante relação entre duas pessoas é quando ela acontece sem que haja preparação, escolha ou preconceito envolvido. Quando simplesmente acontece.

A sinopse deste livro diz

    Um livro sobre os livros e o exercício da escrita.

    Um escritor descobre que está a morrer.
    Uma jornalista tenta desvendá-lo.
    Ambos procuram a redenção.
    Encenam uma fuga à realidade.
    Três cidades: Lisboa, Jerusalém, Amesterdão.
    E ainda uma prostituta, um barman, um médico homeopata.
    A possibilidade da salvação e a procura da humanidade.
    As falhas de cada um. O passado como identidade. Um fado.
    Vários livros. Dor e consternação.
    No fim, sem medo, uma ideia melhor.

 

E, de facto, a solidão está presente em todas as personagens, em todas as páginas. E a procura de um sentido para a vida, no sentido mais restrito e particular do termo. O que faz de uma vida uma boa vida? Uma vida digna se ser vivida? Todos temos, em maior ou menor grau, o medo de chegar ao final do caminho, olhar para trás e não encontrar nada que realmente tenha valido a pena. Nada em que tenhamos deixado a nossa marca. E da mesma forma já olhámos para o vazio do futuro com medo, sem esperança.

Sara e Manuel, os dois protagonistas desta história são, à primeira vista muito diferentes, mas em ambos encontramos a mesma solidão, a mesma falta de esperança. E digo-vos já que me apeteceu, muitas vezes, abanar ambos. Mais a Sara, que o Manuel. Apesar de tudo compreendo-o melhor a ele que a ela. 

Este é um livro sobre sentimentos, decisões, momentos, escolhas. Sobre arrependimento. Sobre a possibilidade de nos reinventarmos.

Gostei muito e, ainda antes de terminar esta leitura, comprei o "Por este mundo acima"  que será, uma das minhas próximas leituras.

publicado por Patrícia às 11:57 link do post
27 de Abril de 2017

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Dizia o autor (nesta entrevista) que neste livro a história fazia tangentes à História e à tradição oral de contar histórias. De facto, é impossível não perceber algumas dessas tangentes até para alguém tão distraído e pouco culto como eu.

Neste novo universo, a que chamou Mitologias, Gonçalo M. Tavares apresenta-nos a personagens fascinantes. Desde logo a mulher-sem-cabeça e o homem-de-mau-olhado que nos são apresentados no título. Mas não acredito que haja leitores indiferentes a Ber-lim, cujo nome (e não só) foi divido ao meio numa viagem de comboio a alta velocidade, por exemplo. Ou à Mulher-ruiva. Ou aos Cem-homens mais um. Ou até, quiçá, ao Lobo.

Uma das coisas que me fascina na escrita deste autor é a possibilidade de ler o que escreve de uma forma mais ou menos literal. Optei por ler este livro devagar, com calma, sempre em busca de pistas para outros significados, outras camadas. Gosto da lógica estranha do escritor (não será por acaso que o meu livro favorito dele é o O  Torcicologologista, Excelência) que permite várias leituras, que permite que a sua escrita (especialmente neste tipo de livro onde as leis da física e da lógica sejam completamente deturpadas – gosto do fantástico, já sabem) se transforme quase num jogo, sempre em busca de mais uma camada.

E se pararmos para pensar um pouco começamos a perceber que, também aqui, num livro que podia ser considerado um livro de contos de terror, se reflecte sobre o mal, a natureza humana, a coragem e a cobardia, a aleatoriedade, as escolhas de cada um a cada momento. Afinal, são os temas que GMT vai explorando em cada livro.

Não espero que todos gostem deste livro mas eu não hesito, nunca, em recomendá-lo. E tendo em conta que já o li 2 vezes, acho que ainda vou voltar a estas páginas outras vezes. Gosto e pronto.

 

"O Muro é da altura de um homem de um metro e oitenta, cujos pés balançam quatro metros acima do solo. Era esta a medida, a referência" pag 66

 

 

publicado por Patrícia às 18:20 link do post
18 de Abril de 2017

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Sinopse:

Uma semana antes da inauguração de uma exposição de arte nos museus do Vaticano, Ugo Nogara, o curador responsável, é encontrado morto em Castel Gandolfo. A polícia papal não consegue descobrir o autor do crime. E o padre Alex Andreou, amigo do curador assassinado, decide investigar por conta própria.

Para encontrar o homicida, tem de desvendar o segredo do curador - a verdade dos evangelhos acerca da relíquia sagrada mais controversa e misteriosa do Cristianismo. Porém, quando começa a compreender os contornos da morte de Ugo Nogara, e as suas consequências para o futuro das Igrejas Católica e Ortodoxa, o padre Alex apercebe-se de que também corre perigo.

O Quinto Evangelho é um thriller arrebatador, baseado numa profunda investigação histórica e bíblica. Dá-nos a conhecer os meandros da Santa Sé e agradará a todos os fãs de Dan Brown.

 

 

Se vos agrada a sinopse leiam a opinião da Célia, do Estante de livros, que é muito mais completa que a minha será.

 

 

 

Que melhor livro para ler durante a época Pascal que um (mais ou menos) thriller religioso? Confesso que oiço "polémica", "Vaticano", "teoria da conspiração" e não hesito em pegar no livro. E uma vez mais correu muito bem e foi o livro certo para ler em dois ou três dias (leio sempre estes livros de forma compulsiva).

Aprendi algumas coisas (nomeadamente sobre o Diatéssaron e a igreja ortodoxa) e acima de tudo diverti-me imenso. Confesso que a resolução do crime não me interessou muito nem me surpreendeu mas também não esperava que o fizesse. O que gosto mesmo nestes livros é ler (mais uma) teoria da conspiração (ou não) sobre um determinado facto ou crença. E como não há coincidências e tenho andado a ler algumas coisas sobre os evangelhos este livro veio mesmo a calhar. Na verdade não houve muita teoria da conspiração mas as explicações bíblicas compensaram e muito esse facto. 

 

 

publicado por Patrícia às 22:03 link do post
12 de Abril de 2017

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Depois de "Que Importa a Fúria do Mar" Ana Margarida de Carvalho regressou com este "Não se pode morar nos olhos de um gato" e a primeira coisa que tenho que referir é que, mais uma vez, o título deste livro é fabuloso (e é inspirado num poema de Alexandre O'Neill).

 

No livro, tal como no poema, este título esconde uma crueza que nos atinge às primeiras palavras.  Logo no primeiro capítulo é a santa de madeira do navio que nos fala, de enxurrada, num monólogo carregado de dor e raiva.

Os personagens vão-nos sendo apresentados aos poucos, por camadas. Primeiro estereótipos (o capataz, o passageiro, a fidalga, o criado) vão-se tornando gente à medida que nos vão contando a sua história. E cada um deles tem uma história, um segredo por contar, um pecado para expurgar.

O grupo que sobrevive ao naufrágio e se junta naquela praia está sujeito a todos os preconceitos que, na altura, ontem e hoje, moldam a sociedade. Numa situação extrema, como a que este grupo está sujeita, os preconceitos de raça, género ou religião tornam-se incontornáveis e é a absoluta necessidade que leva a que cada um dê o melhor de si (que nem sempre é suficiente ou aceitável) para que a sobrevivência seja uma realidade. Aliás, nem sequer é o melhor que emerge, mas o necessário, quando existe capacidade para tal. Ou correm o risco de se consumirem no processo.

A escrita irrepreensível de Ana Margarida de Carvalho e o tom que imprime a este livro deixaram-me interessada desde a primeira página mas este livro vive dos personagens.

A construção dos personagens é impressionante. Conhecemos cada um deles através do seu passado, de alguns das muitas histórias que o compoem.  Muitas vezes os livros apresentam-nos apenas o futuro, como se a qualquer momento pudéssemos esquecer quem somos, quem fomos e com que barro nos fizemos. Aqui, neste livro, não há disso. Há crueza, crueldade, preconceito, empatia, repulsa, coragem e cobardia, paixão, amor, amizade. Há toda a gama de emoções que atravessaram as épocas e através delas ficamos a conhecer melhor um conjunto de personagens que, ao serem obrigados a enfrentar os seus próprios fantasmas, se conhecem e se dão a conhecer.

Não esperem uma história de redenção nem uma história parecida à do Robinson Crusoe. Esperem uma história crua e impiedosa, cheia de histórias dentro, histórias feias e duras, histórias de desesperança. Não esperem redenção, esperem realidade. 

 

 

 

publicado por Patrícia às 10:37 link do post
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