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Ler por aí

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Para onde vão os Guarda-chuvas, de Afonso Cruz

***ATT SPOILER ALERT (depois não digam que eu não avisei)

 

 
 
Caro Afonso,
Deixa-me desabafar: vai-te lixar, ok? Que raio de final é este? Juro-te que me sinto quase traída com este final. Mas no que raio estavas tu a pensar? Isto lá é coisa que se faça a alguém? Não sei se alguma vez te vou conseguir perdoar.
Nestas alturas gostava de conseguir achar que Isa escolheu bem e que não se deixou enfeitiçar pelo amor (olha que raio de parvoíce escrevo eu!). Gostava de acreditar que o instinto de sobrevivência,que todos temos, prevaleceu e a necessidade de viver se sobrepôs à necessidade de ser amado e querido e de ser, finalmente, visível.
Gostava de bater em que precisa de perder para encontrar, em quem cede ao preconceito, à maldade, em quem não vê o que está à frente do seu nariz. Em quem busca sonhos impossíveis e que com isso deixa passar a possibilidade de sonho que está à sua volta.
Afinal, para onde vão os guarda-chuvas? Sabes, ninguém os perde mais do que eu. Não pude deixar de imaginar que um dia vou encontrar os meus, os que perdi (e sabe Deus que foram muitos) com alguns dos meus guarda-chuvas fugidios.
Ok, eu sei o que é uma metáfora, uma fábula, uma parábola, sei essas coisas todas, mas mesmo assim tenho alguma dificuldade em transformar as tuas personagens em minhas e em decidir eu (sinto-me assim um bocadinho fraude mas o pior é que a minha decisão é precisamente o contrário da que gostaria que fosse).
E há algumas folhas, ter-te-ia dito que este livro é fantástico, que me sinto reconfortada e que adorei  a forma como misturaste culturas, religiões e depois as reduziste à simplicidade do amor. Podes ser cristão deste que sejas um bom muçulmano. Há umas folhas dir-te-ia que gosto de acreditar, aliás escolho “crer” e, também por isso, gostei de tanta coisa neste livro. Os fragmentos persas são fabulosos. A história da pulga da pulga da pulga captou a minha atenção e fez-me rir.
Há umas horas dir-te-ia que amei o cuidado com as imagens, que o jogo de xadrez me interessou e me fez sorrir (e logo eu que, que nem sequer jogo xadrez), que vi cada página diferente, cada tipo de letra diferente. Que este é um livro para se ler e se ver (mas se um mudo pode falar em poesia, qual é o problema de apreciar um livro sem sequer precisar de o ler?).
Mas agora, Afonso, agora estou demasiado zangada contigo para te dizer isso tudo. Porque não estava preparada para este final.
Mas, apesar de ainda estar zangada contigo (esta carta tem sido escrita aos bocadinhos) tenho que te dizer que este é um livro para nos fazer pensar. Suponho que cada leitor o leia de forma diferente (e alguns de uma forma que nem tu próprio consegues imaginar) e a verdade é que poucos livros têm o poder de nos atingir desta forma. Falar de morte e de perda, de bondade e de amor, de maldade e ódio, de discriminação e preconceito de uma forma doce e bonita não é para todos.
E por tudo isto, Obrigada.
Mas aquele final, Afonso, aquele final....
Encontramo-nos num próximo livro
Patrícia

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