Ler por aí
 
29 de Fevereiro de 2016

Será possível separar o escritor da sua obra? O que é mais justo: separar ou não? Julgar a obra esquecendo a mão que a escreveu ou rejeitar a obra por não suportar a mão que a escreveu?

Tenho pensado neste tema por causa de dois escritores específicos mas antes de abordar casos específicos, generalizemos.

Acho que será mais ou menos unânime que a obra é uma coisa e que a pessoa é outra. Não faltam exemplos de grandes artistas que são, para ser simpática, fantásticas pessoas. Basta uma busca rápida no Google para se ficar horrorizado com o que se lê sobre Picasso, Byron ou Wagner. Hemingway, Enid Blyton ou Lewis Carrol também não ficam bem na fotografia.

A minha opinião é assim meio esquizofrénica. A verdade é que tanto acho que há pessoas e crimes que me fazem ter vontade de dizer que as suas obras, por melhores que sejam, deviam ser proibidas, banidas da face da terra, por outro lado sei que o tempo e o espaço fazem com que a obra seja julgada por si e que isso é o mais correto.

O tempo e o espaço.

Qualquer um de nós será capaz de ler os livros (ou obras) de qualquer criminoso desde que consigamos ter uma distância temporal suficiente para não haja uma identificação com as vítimas ou com o crime em si. E quando a pessoa é “apenas” má pessoa, sem que haja crimes envolvidos, então torna-se bem mais fácil conseguir apreciar as suas obras “humanizando-a”. Quem se importa que um escritor tenha sido um pai ausente se foi isso que permitiu que desse ao mundo uma obra fantástica? Quem se importa que tenha sido um marido desprezível se o seu trabalho é fenomenal?

Quem se importa que tenha sido uma pessoa menor se foi um artista maior?

A verdade é que só se importa quem tem uma ligação mais ou menos pessoal com ele/a. Caso contrário os defeitos são apenas uma nota de rodapé, uma curiosidade. Aqui o tempo e o espaço fazem o seu trabalho de protetores da arte.

Por vezes debatemo-nos com informações sobre os autores das nossas obras de arte favoritas que preferíamos não saber, que de alguma forma diminuem a obra por diminuírem a pessoa. Até chegam a diminuir-nos a nós, porque sermos apreciadores da obra mas a verdade é que se deixarmos o tempo e o espaço fazerem o seu trabalho talvez (apenas talvez) consigamos separar o autor e sua obra.

Sim, tenho dois nomes na cabeça ao escrever este texto. Nomes grandes da literatura Portuguesa e Mundial de gente de quem não gosto enquanto pessoa mas a quem reconheço o génio na obra. E acabo sempre por preferir fazer um esforço de distanciamento (nem sempre corre bem) e tentar olhar apenas para a obra.

 

(Mais opiniões sobre este tema:  Magda )

publicado por Patrícia às 13:14 link do post
curiosamente já abordei este tema aqui - http://stoneartbooks.blogs.sapo.pt/escritor-vs-pessoa-25234 - acerca da Marion Zimmer Bladley,uma das minhas escritoras favoritas. E mantenho o que disse na altura. Uma coisa é a pessoa outra é a sua escrita. Consigo separar os dois e apreciar os livros sem me lembrar sequer do que ela terá eventualmente feito
Magda L Pais a 29 de Fevereiro de 2016 às 16:29
Olá Magda,
Acho que todos os leitores em alguma altura se vão confrontar com esta pergunta.
A MZB é, também, uma das minhas escritoras favoritas (li tudo dela, excepto as darkover, que não são a minha praia) e é uma dos nomes que tinha em mente quando escrevi o texto. E basicamente concordamos. O ideal é separar as águas, apesar de nem sempre ser possível. Pelo menos para mim nem sempre é. Aliás, diria que a altura em que sei dos "podres" é fundamental. Teria eu a paixão que tenho pela Marion se quando devorava os seus livros já soubesse dessas alegações?
A verdade é que nunca terei resposta para esta pergunta.
Adicionei no meu texto um link para o seu, espero que não se importe...
Boas leituras
Patrícia a 29 de Fevereiro de 2016 às 16:59
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