Ler por aí
 
07 de Março de 2011

Há muito tempo que não me era tão difícil ler um livro.
Já li quase todos os livros de JRS e a minha opinião tem sido pior a cada livro novo (com excepção do “A ilha das Trevas”, que li há ouço tempo, mas que é o primeiro dos livros deste escritor). A qualidade decai cada vez mais até se tornar quase insuportável. Admito que este escritor é um óptimo investigador e que isso transparece nos seus livros. E essa é a parte interessante da sua escrita.
Sempre que tenta dar um cunho pessoal a alguma personagem espalha-se ao comprido. O Tomás Noronha é completamente inverosímil e só quem tem a felicidade de nunca ter conhecido ninguém com Alzheimer consegue “acreditar” na relação dele com mãe. Não sei se é desleixo ou falta de capacidade para nos transmitir a importância das coisas mas a verdade é que não me convence.
Este Anjo Branco está cheio de cenas ridículas que destroem completamente a facilidade de leitura. Sempre que estou a começar a achar uma parte do livro interessante (devido à tal parte histórica – investigação - de que falei antes) aparece uma cena baseado no “tamanho” do pirilau (estou a tentar pouco brejeira, coisa que NÃO acontece no livro) do personagem principal. Considerando que o personagem principal é baseado no pai do escritor a coisa parece-me de mau tom.
O livro tem pormenores interessantes: a ida da família Branco à grande exposição, a parte de África enfim, a ligação da parte ficcionada à realidade. Acredito que parte da vida do médico será real. Não acredito que ninguém seja assim tão bonzinho ou inocente, mas compreendo que um filho (ou um escritor relativamente a uma personagem) seja parcial.
No final o livro tornou-se um pouco mais suportável, até porque a história passa a focar-se mais na parte histórica da guerra do ultramar e no papel dos portugueses do que na relação pessoal do Dr. José Branco com as restantes personagens.
No entanto, também aqui fica a faltar muita coisa.

***Spoiler Alert--- que ainda não leu o livro não continue a ler, ok?****

Ok, o grande clímax pretende ser o massacre e a coragem do médico na denúncia. Mas, e apesar da parte do massacre ser triste, pareceu-me muito pouco explorada. A imaginação faz muito mas o livro só teria a ganhar com uma análise mais séria e completa ao que aconteceu. Pareceu-me muito leve considerando a enormidade do que aconteceu.
Seria interessante explorar o que aconteceu ao médico enquanto este à “guarda” da PIDE e dizer que o pai nunca falou sobre o assunto não chega. Então tenta vender a história do pai mas não a conhece?
Ok, eu compreendo que, perante uma situação complicada como a que aconteceu, o par de cornos que o senhor pôs à mulher perdia a importância, mas o assunto pareceu ter ficado aberto. E o final da Sheila e do Diogo?
Foi um final do género: ah e tal houve o massacre e depois aconteceu isto e isto e mais isto e já está.

Resumindo: Lê-se mas não gostei.


publicado por Patrícia às 12:24 link do post
E eu que até tinha curiosidade para ler este do JRS... Como não tinha o Tomás Noronha pensei que fosse mais na onda do A Filha do Capitão. Sendo como dizes, talvez o traga um dia da biblioteca. :)
N. Martins a 8 de Março de 2011 às 18:28
Eu gostei muito mais do "A filha do capitão". Mas não deixes que a minha opinião te faça não o ler. Para ser justa tenho que dizer que já ouvi/li boas criticas ao livro. :) simplesmente eu não gostei.
boas leituras
Patrícia a 8 de Março de 2011 às 19:24
Já vi várias vezes esse livro (está em cima da mesa da minha colega do lado) mas sinceramente sinto um bocado isso, que o JRS tem pouca habilidade para que tenhamos empatia pelo Tomás e, consequentemente, pela história.

Beijoca!
Rafeiro Perfumado a 10 de Março de 2011 às 09:47
Não concordo, não acho o livro de difícil leitura, na minha opinião "O Anjo Branco" tem uma escrita tão fluida que o torna de muito fácil leitura. Além da reconstituição histórica o que mais gostei no livro é das descriminações que são descritas ao longo do livro, e de como elas podem ser perigosas para todos nós. JRS também nos fala do outro lado da guerra, o lado em que crianças e civis são mortos indiscriminadamente.
Tiago M. Franco a 29 de Maio de 2011 às 11:17
Este comentário foi removido pelo autor.
Tiago M. Franco a 29 de Maio de 2011 às 11:17
Olá Tiago, Welcome
É verdade, o livro até é de fácil leitura, excepto no sentido de "não quero parar de ler". Simplesmente eu não consegui gostar. E acho que se essa parte do outro lado da guerra e das discriminações fossa mais explorada o livro só teria a ganhar.
Mas ainda bem que há opiniões contrárias à minha. Nem todos podemos gostar dos mesmos livros, certo?
Boas leituras
Patrícia a 29 de Maio de 2011 às 14:52
Cara Patrícia,
Apenas estamos a trocar impressões dos livros que lemos. Para mim todas as opiniões são validas desde que construtivas. Confesso que quanto estava nas páginas 250-280 não estava a gostar muito da obra, mas na ponta final o autor conseguiu dar a volta por cima.
A minha opinião pode não ser a mais correcta, mas é a opinião do leitor que eu sou.
Tiago M. Franco a 2 de Junho de 2011 às 15:40
Concordo, Tiago. É muito bom trocar opiniões e todas as são válidas. Não há opiniões correctas ou incorrectas.
Patrícia a 2 de Junho de 2011 às 15:58
Achei incrível o mau gosto de comentar a anatomia do pai que lhe fez as orelhas. Incrível e a carecer de décadas de terapia. Já agora, quanto a investigação histórica:
- a camionete do Benfica que se vê nas fotos da chegada dos bi-campões europeus (e que o autor descreve NÃO transportava os juvenis do voleibol às aldeias do Norte... até porque...
- o campeonato nacional nunca foi disputado assim em poule; e mesmo que fosse...
- os sorteios de nenhun cameponato nacional (nem o de séniores de futebol) nunca foram, nem o são hoje, difundidos pela rádio;
- a ideia de os anciões de uma aldeia estarem a roer as unhas na taberna à espera de saberem, não os resultados de um jogo de juvenis, mas a ordem do sorteio de uma poule de juvenis, é ainda mais absurda que a ideia de esta informação ser radiodifundida, se possível; e...
- a presença de groupies promíscuas a assediarem voleibolistas juvenis à saída dos treinos, no Porto de sessenta, é uma fantasia pré-adolescente, não tão grave como fantasiar sobre a anatomia íntima paterna, mas mesmo assim, bastante pueril.
Isto, digo eu, que gostaria de vender o que o autor vende, e pode ser a inveja a inspirar-me. Como leitor, achei horrível e penoso.
Anónimo a 13 de Maio de 2012 às 22:14
Olá Anónimo :)
Quando falei em investigação histórica não estava a falar dessa parte, que sinceramente, não conheço mas que admito perfeitamente que não faz qualquer sentido. Mas até lhe perdoaria essas adaptações livres... mas o resto, ai o resto.
bas leituras
Patrícia a 16 de Maio de 2012 às 22:25
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