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Ler por aí

Ler por aí

Espírito de Natal ou simplesmente sem palavras

(Fiz-me pequenina ao ler isto. Para mim (para nós) enquanto leitora, enquanto pessoa isto deixa-me estarrecida. Não sei como ainda acontece, como se deixa uma criança sem acesso ao mundo, aos mundos todos que cabem dentro das letras, dos livros. Para ele as letras podem ter cheiro bom a comida, para mim têm cheiro a liberdade, a fuga da realidade, a futuro)

 

Revi-o recentemente. Estava em falta com ele. Eu, eu era apenas mais uma pessoa que não conseguia cumprir o seu único desejo, o único meio que o podia conseguir aproximar do sonho de um dia conseguir cozinhar: aprender a ler. 
Não interessa as razões que o trouxeram aqui, à adolescência sem letras, sem histórias de dragões lidas antes de adormecer, sem livros de aventuras devorados, sem companhia de livros com cheiro a livros e a imaginação. Tem 16 anos e não sabe ler. E, não fosse o amor pela cozinha, talvez nunca verbalizasse essa vontade que eu sei que vai esmorecer face ao trabalho que o espera, à dedicação que é necessária, ao esforço de decorar letras, juntá-las até formarem palavras e textos com significado. Mas verbaliza. Várias vezes. A última naquele dia em que o revi e me olhou nos olhos e perguntou-me, sem cobranças, mas com um olhar profundo: "tu também não me vais ajudar a aprender a ler, pois não Liliana?". Eu, apenas mais uma igual a tantas que se importaram mas que não concretizaram, a tantas que se comoveram instantaneamente e depois foram-se esquecendo da promessa com o passar pesado dos dias e dos afazeres. Eu a ser mais uma , apenas mais uma, a não conseguir fazer qualquer diferença.
É sempre uma questão de ego. Não acredito no altruísmo, já aqui o disse, no verdadeiro altruísmo sem não se receber nada em troca. Claro que me comovi com um adolescente a quem não foi dada a oportunidade de aprender a ler. Guardei essa comoção uns meses, tentei arranjar solução mas acabei por desistir à força de tantos obstáculos e dificuldades. Não foi o rapaz que me fez mexer. Foram aquelas palavras embrulhadas no olhar escuro e profundo "tu também". Eu não queria ser aquela pessoa, não queria ser mais uma, outra igual a tantas, eu não queria aquele "também". Foi isso que me moveu. 
Depois os astros alinharam-se. Uma pessoa queria oferecer um presente solidário ao homem que mais ama e contactaram-me. O input era: "um presente que fizesse a diferença na vida de alguém". Eu, a medo, falei dele, dos seus olhos pretos como azeitonas e do seu desejo de aprender a ler. E a ideia de oferecer ao rapaz a oportunidade de aprender a ler, de um dia poder ler receitas e cozinhar ganhou forma e jeito de se concretizar. Depois apareceu a pessoa certa para o poder ensinar e, neste Natal ganhámos todos: ele, que em 2016 irá aprender a ler, a mulher que oferecerá ao marido um life makeover como não há memória, o marido que terá a oportunidade de mudar a vida de alguém e eu, especialmente eu, que já não serei também mais uma pessoa que tem pena mas não resolve, que se comove e segue em frente, que pára mas não age, que gostava muito mas não concretiza. 
Eu sou apenas um meio, uma ponte mas não sou, claramente, a pessoa que há dias olhou para ele sem resposta quando ele lhe perguntou: ""tu também não me vais ajudar a aprender a ler, pois não Liliana?". 
Vamos ajudar, sim, meu querido. Obrigada por me trazeres, assim, este presente de Natal. Para o ano escreves-me os postais. :)
 
Pólo Norte, no seu Quadripolaridades