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Ler por aí

Ler por aí

Diz-me quem sou, de Júlia Navarro


Foi com muita curiosidade e altas expectativas que comecei a ler o último livro de uma autora de que gosto muito. Júlia Navarro escreveu a Bíblia de Barro, um dos livros que mais gostei de ler.
Na Espanha actual, um jornalista frustado, Guillermo, é contratado pela tia para desvendar a história da bisavó desaparecida. Ao longo do livro conhecemos um pouco Guillermo, a sua Mãe e a sua Tia. Os três são personagens desagradáveis, irritantes e absolutamente dispensáveis. A autora opta por contar a história de Amelia Garayoa aos bochechos seguindo a investigação levada a cabo pelo seu bisneto. Para mim a pior opção possível. Se inicialmente parece ser engraçado seguir os problemas do Guillermo mais para o fim torna-se extremamente irritante ouvir falar deste e de sua mãe (e dos seus telefonemas). Guillermo é guiado por várias personagens até descobrir a história de Amelia. Para mim também esta parte é menos bem conseguida. É tudo demasiado fácil e o jornalista é guiado como se de marioneta se tratasse. Claro que todos se lembram exactamente das palavras que Amelia pronunciou há 70 anos atrás e claro que era à primeira que Guillermo encontrava as pessas certas.
Calculo que a intenção a escritora fosse contar a história do sec. XX através de uma mulher e para isso um narrador omnisciente teria sido mais agradável. 
Mas não se enganem. Apesar disto adorei o livro. Apesar de ser impossível que apenas uma mulher passasse por tanto, apesar de Guillermo, apesar do final um tanto ou quanto ridículo. 
Amelia começa por ser uma miúda mimada que fazia parte da burguesia espanhola, que casa (meio por interesse, meio por amor) com Santiago e que tem um filho quando não tem, obviamente, maturidade para ser mãe. Passa de miúda mimada para mulher apaixonada (e tolinha) quando conhece Pierre. Não sei se é verdade que a necessidade cria o engenho mas basicamente é essa a vida de Amelia. De aventura em aventura, de desgraça em desgraça, de vitória em vitória vive a vida que começou a forjar numa época em que as mulheres não tinham voto em (quase) nenhuma matéria. Uma outsider toda a vida, vive à margem do que deveria ter sido a sua vida.
Mas é através da sua história que somos guiados ao longo da história do Sec. XX, começando numa Espanha dividida pela Guerra Civil, por Paris, passando por Buenos Aires a caminho da Moscovo de Estaline. Londres, Berlim, Varsóvia e até o Cairo  formam o palco da vida de Amelia. 
O comunismo, o nacional-socialismo, a Segunda Guerra Mundia, a espionagem e os jogos politicos do Mundo do século XX são o verdadeiro tema deste livro e foi precisamente disso que gostei.
A Amelia não é uma personagem com a qual se crie grande empatia, eu pelo menos não criei.  Mas vi em Amelia muitas outras personagens, algumas de que por quem torcia e outras de que não gostava nem um pouco. Neste livro, um romance histórico, encontra-se o melhor e o pior da humanidade e relembrou-me que até há pouco tempo era permitido que houvesse um muro que dividia um país, que se matava com impunidade quem não pensava da forma estabelecida, que os jogos de poder não levavam em consideração que a vida humana é o mais importante, que a dignidade não deve ser negligenciada, que a honra e o respeito são valores a preservar e que o importante da vida é ser feliz. E não consigo deixar de pensar que me lembro da queda do muro de Berlim, que já visitei aquela cidade e que ainda está enraizado na mente, no coração e no corpo de muitos tudo o que se passou antes de 1989. E que não sentido pensar que tudo isto é história porque acredito que ainda não o é. Hoje como antes, há muitos erros e crimes a serem cometidos.

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