Ler por aí
 
24 de Maio de 2017

Estou numa fase em que a pior coisa que me podem dizer de um livro é que "é belo". Se estamos a falar de ser belo no sentido físico deixa-me de pé atrás em relação ao conteúdo. Gosto tanto como qualquer outro leitor do objecto "livro" e é maravilhoso pegar num livro com uma edição bonita e cuidada mas, tirando raras excepções, a maior parte dos livros bonitos não me agrada. 

E se falarmos de "escrita bonita", "escrita lírica", "escrita poética" a coisa piora um pouco. Para já, não faço ideia do que raio é uma escrita poética ou lírica (apesar de, por vezes já ter pensado saber e achar que determinado livro tem esse tidpo de escrita) e por outro lado sei que gosto muito mais da escrita dura, objectiva, sem "salamaleques".

Não quero que me maravilhem com o horror: prefiro sentir-me horrorizada.

Não quero que me encantem com o nojo, prefiro sentir-me enojada.

Não quero que me façam pensar na literatura, quero que a literatura me faça pensar na vida.

Não quero que a literatura me faça mergulhar nas palavras, quero que me transporte para o impensável.

 

publicado por Patrícia às 10:53 link do post
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Bonita reflexão.
bjs
Edite a 24 de Maio de 2017 às 17:27
Gostei muito do teu post, enquanto pessoa que abomina aqueles livros das edições bonitinhas (ui, os sacos de gaze!), mas tenho uma questão! :)

(isto vem de uma pessoa que detesta a palavra "belo", não sei, acho uma palavra feia)

E se a narrativa for bonita? Até pode ser um bonito triste, um bonito horrível, pode ter uma escrita feia mas... não sei. Às vezes a narrativa em si é bonita, independentemente da forma como é escrita. Acho eu, que não me estou a lembrar de nenhum exemplo agora.

Por outro lado, outra pergunta: já leste Nabokov? Acho a forma como ele escreve bonita - exactamente porque me faz mergulhar, me transporta, não por ser cheia de floreados... é aquele jeito que ele tinha com as palavras, que invejo imenso porque inglês nem era a primeira língua dele.
Bárbara Ferreira a 24 de Maio de 2017 às 21:10
Agora que disseste isto, "belo" começou a parecer-me uma palavra parva.
Se for feito de uma forma que me pareça natural, gosto tanto de escrita crua como lírica, se bem que a esta lhe costume chamar requintada. Por exemplo, a escrita do Cormac McCarthy, para mim, é simples e concisa e serve na perfeição as histórias dele. Mas por outro lado, adoro a Marlene Ferraz por escrever frases tão sofisticadas que parecem quase versos. No fundo, são só caixinhas onde tentamos pôr as nossas leituras, e o que interessa é o que nos fazem sentir, não é?
Paula
Paula a 26 de Maio de 2017 às 15:54
Eu temo que use "escrita magnífica". :D Mas há livros assim. Penso por exemplo no "Stoner", no "Butcher's Crossing" e no "Arranha-Céus", que conseguem tornar o quotidiano em algo mais, quando o que descrevem são coisas triviais. Há algo no modo como constroem as frases, como conseguem dar a conhecer tanto apenas com palavras.
E o mesmo com o Shakespeare. Gosto de uma bem conseguida "turn of phrase", há falta de termo em português.
E gosto de me sentir maravilhada com o horror e sentir-me encantada com o nojo e isso tudo. No entanto, tudo isso tem de ser justificado, tem de fazer sentido. Voltando ao "Arranha-Céus", que é um livro sobre o qual eu nunca consigo falar de forma coerente, eu maravilhei-me com o horror em que aquelas personagens se tornaram, deleitei-me com o nojo em que viviam... Porque a história é muito mais que isso. É assustadoramente humana e apesar da belíssima escrita, tão crua. É ao ler livros destes que percebo o trabalho que um escritor, e mesmo de um tradutor, tem para encontrar a frase, a palavra perfeita que consiga englobar tudo aquilo que o autor quer dizer. O cuidado de uma boa construção, de pesar convenientemente as palavras... Não sei como explicar o que sinto quando me deparo com livros assim.
Mas também digo que nem todos são feitos para ser assim e que há quem se esforce demais e não o consiga fazer, pelo menos há quem não me tenha enchido as medidas, porque afinal o gosto acaba por ser subjetivo. :P
Quanto ao livro bonito, também julgo que sou culpada de tal, mas nem é tanto pelo livro em si mas pela história. Um livro com uma apresentação cuidada, uma capa apelativa, chama a minha atenção, mas se a história não me disser nada não vai ser a sua beleza estética a salvá-lo.
Carla B. a 3 de Junho de 2017 às 19:46
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