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Ler por aí

Ler por aí

A HORA DA ESTRELA – Clarice Lispector

 
 
Desde que entrei na Roda dos Livros houve uma explosão de literatura na minha vida. Autores de quem nunca tinha ouvido falar foram lidos e alguns até vieram morar para a minha estante.
Um dos autores de quem se falou, já não sei em que Roda, foi Clarice Lispector que eu, confesso a ignorância, não conhecia. Fui pesquisar e fiquei a saber que é “uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX e a maior escritora judia desde Franz Kafka” – caramba! Eu não quero morrer estúpida tenho ler alguma coisa desta senhora, pensei eu.
Aproveitei os meus contactos no Brasil e pedi à minha amiga R. um livro da Clarice em vez de umas Havaianas (recebi as Havaianasna mesma, mas adiante...).
Em poucos dias tinha “A Hora da Estrela” nas minhas mãos que já li e não percebi nada... A sério, tenho mais um para acategoria Hã?
E não se perdeu nada na tradução, quer dizer há coisas do género “Pensar é um ato. Sentir é um fato” mas a malta relaxa que é brasileiro. Não é a forma, é o conteúdo que não consegui decifrar.
Em resumo temos: Macabéa a personagem principal, nordestina, pobre, feia, órfã, trabalha como dactilógrafa mas passa fome, apanha uma pneumonia e ainda lhe roubam o namorado, Rodrigo S.M. o narrador e escritor que quer escrever a história de Macabéa por quem está apaixonado, porquê? não fazemos ideia a rapariga é tão interessante como um agrafo solto, Glória colega de trabalho de Macabéa que lhe rouba o namorado, Olímpico de Jesus pseudo-namorado de Macabéa que nunca chega bem a ser e que a troca por Glória, Madama Carlota a cartomante, que já foi mulher da vida, que Macabéa vai consultar e que lhe diz que ela vai ter, dali para a frente, uma vida maravilhosa, mas depois vemos que não é verdade. Não vou contar o fim, leiam que vale a pena.
Do escritor Rodrigo S.M:
E também porque se houver algum leitor para essa história quero que ele se embeba da jovem assim como um pano de chão todo encharcado.
Da Macabéa:
Esqueci de dizer que às vezes a datilógrafa tinha enjoo para comer. Isso vinha desde pequena quando soubera que havia comido gato frito. Assustou-se para sempre. Perdeu o apetite, só tinha a grande fome. Parecia-lhe que havia cometido um crime e que comera um anjo frito, as asas estalando entre os dentes. Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.
Do Olímpico:
No Nordeste tinha juntado salários e salários para arrancar um canino perfeito e trocá-lo por um dente de outro faiscante. Este dente lhe dava posição na vida. Aliás, matar tinha feito dele homem com letra maiúscula. Olímpico não tinha vergonha, era o que se chamava no Nordeste de "cabra safado". Mas não sabia que era um artista: nas horas de folga esculpia figuras de santo e eram tão bonitas que ele não as vendia. Todos os detalhes ele punha, e sem faltar ao respeito, esculpia tudo do menino Jesus. Ele achava que o que é, é mesmo, e Cristo tinha sido além de santo um homem como ele, embora sem dente de ouro.
Da Glória:
Glória possuía no sangue um bom vinho português e também era amaneirada no bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido. Apesar de branca, tinha em si a força da mulatice. Oxigenava em amarelo-ovo os cabelos crespos cujas raízes estavam sempre pretas. (...) O fato de ser carioca tornava-a pertencente ao ambicionado clã do sul do país. Vendo-a, ele logo adivinhou que, apesar de feia, Glória era bem alimentada. Isso fazia dela material de boa qualidade.
Da madama Carlota:
...madama Carlota era enxundiosa, pintava a boquinha rechonchuda com vermelho vivo e punha nas faces oleosas duas rodelas de ruge brilhoso. Parecia um bonecão de louça meio quebrado.
Também temos Da Weasel:
Ah pudesse eu pegar Macabéa, dar-lhe um bom banho, um prato de sopa um beijo na testa enquanto a cobria com um cobertor. E fazer que quando ela acordasse encontrasse simplesmente o grande luxo de viver.
 
Sei que claramente isto é um “problema do utilizador”, há nesta história muito mais do que consegui abarcar, do que consegui entender. Ela (Clarice) disse que esta é uma história de uma inocência pisada, de uma miséria anónima e que esta novela tem 13 títulos diferentes:
 
A hora da estrela
 
A culpa é minha
ou
A hora da estrelas
ou
Ela que se arranje
ou
O direito ao grito quanto ao futuro
ou
Lamento de um blue
ou
Ela não sabe gritar
ou
Uma sensação de perda
ou
Assovio no vento escuro
ou
Eu não posso fazer nada
ou
Registro dos fatos antecedentes
ou
História lacrimogênica de cordel
ou
Saída discreta pela porta dos fundos
 
 

 

Clarice Lispector é muito à frente para mim.