Ler por aí
 
13 de Novembro de 2016

 

A célula adormecida.jpg

Caríssimo Nuno, desculpa lá, mas tinhas mesmo, mesmo que fazer isso? Estou farta de te dizer que te acho "demasiado boa pessoa" mas depois de ler este livro, vou repensar essa opinião. Já te insultei em pensamento (não se faz, Nuno, não se faz) e até já to disse (mais ou menos pessoalmente) mas agora fica aqui o meu protesto, oficial. 

 

Depois da Trilogia Freelancer, em que nos apresentou um herói a que chamei carinhosamente "pseudo-totó", o escritor trouxe-nos um protagonista (dificilmente se lhe poderá chamar herói) muito mais complexo que, apesar de ainda manter um lado dócil e amoroso (acho que essa é uma característica do Nuno Nepomuceno e é a parte dele que empresta sempre aos seus personagens), vive atormentado pelo passado e pelas suas próprias decisões. Assim é Afonso Catalão, um homem que só no finalzinho deste livro se dá verdadeiramente a conhecer. Diana, uma jornalista com quem, definitivamente não me quereria cruzar nas estradas de Lisboa (detesto chico-espertos ao volante), é uma personagem apenas um pouco menos interessante que Afonso, mas a verdade é que passei mais de metade do livro com vontade de esbofetear esta palerma.

Depois há personagens com quem criei empatia imediata.  Por vezes, personagens com quem o autor não é nada simpático...

Dois acontecimentos dão o pontapé de saída para esta história. Na noite das eleições legislativas, futuro primeiro-ministro de Portugal é encontrado morto. Constança, a viúva, insiste que se trata de homicídio e não de um suicídio como parece à primeira vista. No parque Eduardo VII a bandeira Portuguesa é substituída pela do Daesh ao mesmo tempo que um ataque suicida acontece em pleno Marquês de Pombal.

Se e como os acontecimentos estão relacionados é aquilo que os leitores do "A célula adormecida" irão descobrir.

Um dos grandes dramas deste tipo de livro é a necessidade de "impingir" ao leitor uma enorme quantidade de informação, sem que isso pareça falso, deslocado ou simplesmente pedante. Consegui não revirar os olhos nestas partes (coisa que costumo fazer neste tipo de livro que me dá muita informação que já conheço e onde é uma seca procurar a parte que não sei) e admito que achei bastante interessante toda a informação sobre a religião muçulmana. Uma chamada de atenção para as ultimas páginas do livro onde o autor nos fala do que é verídico e do que é romanceado ou adaptado por questões literárias (é sempre das partes que mais gosto).

Gostei de ler este livro, de perceber a evolução do Nuno, quer no tipo de personagens, quer na transmissão de informação em massa e destaco, acima de tudo, a seriedade e o respeito com que (sei que) o Nuno trata de todos estes assuntos, sensíveis e tão atuais.

publicado por Patrícia às 20:18 link do post
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