Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ler por aí

Ler por aí

Uma volta ao mundo com leitores, de Sandra Barão Nobre

Há uns anos, leitora mas menos leitora do que sou hoje, as feiras do livro eram apenas um sítio onde ia "ver e comprar livros". Foi em Lisboa, já depois de pertencer à Roda dos Livros, de frequentar comunidades de leitores e de ter um blog sobre livros que comecei a viver A feira de maneira diferente.

É quase impossível não encontrar alguém conhecido na feira. Pode ser um leitor, um escritor ou mesmo um editor ou um livreiro. Há sempre alguém que me diz "Olá, então que livro compraste?".

Este ano, pela primeira vez, decidi ir à caça de um autógrafo (do Gonçalo M. Tavares) pelo que rumei em direcção ao parque num feriado de calor. A Catarina juntou-se a mim, encontrámos a Inês com alguns amigos e foi assim, ao redor de uma mesa e rodeados de livros, que conheci a Sandra e soube que o Acordo Fotográfico já não era apenas um blog que provoca inveja mas um livro maravilhoso. 

 

capa-livro-af.jpg

 

Como sempre a "publicidade" ao livro é uma escolha minha, juro que a Sandra não me pediu para a fazer...

 

Aprender a rezar na era da técnica, de Gonçalo M. Tavares

Aprender-a-Rezar-na-Era-da-Tecnica.jpg

 

(vou tentar que o post tenha o menor número de spoilers possível, mas terá SPOILERS)

Não será novidade para ninguém que este é um livro “duro”, difícil de ler. Difícil, não pela linguagem, mas pelo conteúdo. Não é possível haver qualquer empatia com os personagens. Também não é novidade que este é um livro sobre o “mal”. Mais um livro sobre o Mal, um tema recorrente nos livros do GMT, um livro sobre a capacidade, a tendência ou predisposição que o ser humano tem para o mal.

Estou a ler a tetralogia de “O Reino” numa ordem absolutamente aleatória e assim este é o segundo livro que leio (na verdade é o terceiro mas não conto a primeira vez que li o Jerusalém pois, claramente, não estava preparada para o ler).

Na primeira parte deste livro conhecemos Lenz Buchmann e ficamos (eu pelo menos fiquei) com certeza de que estamos perante um ensaio sobre “como se atinge o grau máximo de maldade”. Não é necessário estar com meias medidas, não acredito que haja uma pessoa capaz de ler este livro e não o associar imediatamente ao nazismo. Lenz Buchmann é um psicopata, infelizmente inteligente (geralmente são), execrável e que odiamos a cada página que passa. A construção deste homem, o resultado da sua educação ou da genética (teremos que ter em conta o contraste com a personalidade do irmão), a sua evolução de médico frio e orientado para os resultados (e para a excelência da técnica conseguida à custa da eliminação de qualquer réstia de compaixão ou empatia) para o político sedento de poder prepara-nos para tudo, menos para a segunda parte do livro.

O mais assustador, nesta fase, é o quão simples é o raciocínio atrás das atitudes daquele homem. A certeza que é superior, que as regras (sejam as da lei ou da ética) não se aplicam a si, a necessidade de controlo (sobre si e sobre os outros), a total ausência de humanismo (ou de humanidade) patente em cada gesto, em cada atitude, fazem de Lenz um líder extremamente eficaz e perigoso.

Disse que é impossível não associar este livro, este personagem, ao nazismo mas o mais assustador é que, a cada página, a cada atitude de Lenz, reconhecemos atitudes extremamente actuais, reais, contemporâneas. Atitudes que, sem dificuldade, reconhecemos.

A segunda parte do livro, é outra coisa absolutamente diferente. Lenz, continua a ser o ser humano execrável que é na primeira parte do livro, e obviamente que também me passou pela cabeça que “cá se fazem, cá se pagam” mas não me parece que esse seja o objectivo do autor. Aliás, parece-me que a aleatoriedade é um factor a ter em conta. As personalidades de Júlia e do irmão, o seu crescimento e transformação também nos devem fazer pensar.

No início deste texto disse que não foi possível criar empatia com qualquer personagem. Então porque gostei tanto deste livro? Porque gosto tanto dos livros do GMT?

Acho que é a escrita crua e dura, sem floreados, sem aparentes tentativas de tornar literariamente belas as reflexões sobre o mal. Posso passar metade do tempo horrorizada com o que este autor escreve mas ao mesmo tempo penso, reflicto sobre o que está ali e sobre o que eu vejo ali. E não é essa grande função da literatura?

Book Lover Cat

Feira 2017.jpg

 

Não interessa onde estou... se estou em casa, este bicho maravilhoso é a minha sombra. Ontem, quando me sentei para ver os emails, ele arranjou maneira de se aninhar ao meu lado. Não interessa se os livros da feira ainda não foram arrumados na estante e ainda estão em pilha em cima da secretária, há ali lugar para ambos. Para os livros e para o gato. 

A feira, uma e outra vez

20_20_JR.jpg

 

Ontem fui a mais uma tertúlia da 20|20, onde o Ricardo Duarte conversa com escritores sobre livros e leituras. Já lá tinha ido no primeiro dia (e o convidado era o Pedro Vieira) e, tal como ontem, havia pouquíssima gente a assistir à conversa. Ganhámos nós, os poucos que ali estávamos, porque tínhamos bastante espaço e ainda conseguimos estar uns minutos à conversa com entrevistador e entrevistado. Perde quem não está. Ouvir o João Reis a falar do seu "A Avó e neve russa" foi muito divertido.

Tenho tanta pena de não conseguir ir mais vezes (mas vou ouvir todas as conversas assim que forem divulgadas as gravações) e garanto-vos que se a tertúlia fosse às 19h e não às 21h estava lá todos os dias. Assim, fui duas vezes, espero ir pelo menos mais uma e vou ficar à espera que para o ano a editora aposte novamente neste formato. 

O desinteresse dos leitores portugueses pelos nossos escritores é gritante na feira e sinceramente isso entristece-me e preocupa-me, porque eu acho que se escreve muito bem por cá e porque gosto mesmo muito de ler em Português.

 

E já, agora, para quem possa pensar que o post me foi encomendado ou que recebo livros do grupo editorial em questão, como é costume por aí, esqueça. Eu ou este blog não tem qualquer género de ligação com qualquer editora (excepto que eu lhes compro livros).

87ª Feira do Livro de Lisboa

feira 2017.jpg

(sniff, sniff, cheira a farturas....

Sim, já fui à feira, já bebi ginjinha e já comprei livros. Já fui à feira acompanhada e já fui sozinha. Fiz todas as compras quando fui sozinha. Comprei num alfarrabista o "O Ano da morte de Ricardo Reis" de José Saramago porque é um dos poucos livros de Saramago que não tenho e há quem diga que é o melhor dele. Comprei na barraquinha da Teodolito o "A Teoria dos Limites" da Maria Manuel Viana porque é um dos meus livros favoritos e não tinha nenhum exemplar meu e comprei Noite e Dia, da Virgínia Woolf na Relógio D'água porque me apeteceu.

Quando fui à feira sozinha não havia por lá escritores e havia espaço, muito espaço. Gosto de andar assim, à vontade. Confesso, aqui que ninguém nos ouve, que gosto tanto de ir à feira com o pessoal dos livros como de ir assim, sem tempo marcado nem conversas. 

O melhor da feira este ano? Para além dos livros? As tertúlias com os escritores que acontecem no espaço da 20|20. É sempre um prazer ouvir o Ricardo Duarte à conversa sobre livros e só não vou todos os dias porque não posso. Fui no primeiro dia, ouvir o Pedro Vieira e espero ir ouvir o João Reis e Patrícia Reis. E, se conseguir, a Dulce Maria Cardoso. E espero ouvir todas as conversas em podcast (espero que seja divulgado nesse formato).

O pior da feira? A comida e o café em copo de chocolate. De quem foi a triste ideia de inventar café em copo de chocolate? Eu sei que, por um miserável minuto, me passou pela cabeça de que podia ser interessante mas passou-me depressa.