Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ler por aí

Ler por aí

Curtas 2017 #24 - O lado negro dos clubes literários

Falar de livros é quase tão bom como ler. Por isso pertencer a um (ou mais) grupos literários é sempre um privilégio. Mas tudo tem o seu lado mau. Claramente o lado negro das conversas sobre livros é o crescimento exponencial das pilhas de livros por ler ou das listas de “eu quero ler isto antes do fim do mundo”.

Confesso que sou uma pessoa relativamente resistente a este fenómeno que é o de arregalar os olhos e ter a certeza que precisamos daquele livro na nossa estante mas ainda assim às vezes, tantas vezes, fraquejo e subitamente fico com a certeza que não tenho nada para ler e que preciso muito comprar aquele(s) livros(s).

Ainda ontem fui, cheia de boas intenções, à tertúlia organizada pela Editora Minotauro, ouvir o que a Márcia, a Célia, a Cris e a Cristina tinham para dizer e vim de lá com a certeza que preciso comprar o “A Magia Mais escura”, de V. E. Schwab e o “A mulher-sem-cabeça e o Homem do Mau Olhado” do Gonçalo M. Tavares (este não é da editora Minotauro, é da Bertrand mas descobri que já está à venda). Uma pessoa porta-se bem, persiste no esforço de limitar as comprar e diminuir o número de livros por ler e meia dúzia de palavras e uma capa bonita vence-a, sem apelo nem agravo.

A magia mais escura.jpggonccca7alo-m-tavares-e1492767813336.jpg

A sério, a bem das vossas carteiras, a bem da v/ sanidade mental (se forem como eu e detestarem ter muitos livros por ler), a bem das v/ leituras mantenham-se longe dos clubes de leitura, das conversas sobre livros e das sugestões daquela amiga que (como eu) vos diz: "tens que ler isto". 

Ou então não.

Mas não digam que não vos avisei.

Boas leituras

 

 

 

Sugestão para o fim de semana: A mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

gonccca7alo-m-tavares-e1492767813336.jpg

 

Hei-de ler, rapidamente, este livro do Gonçalo M. Tavares.  E um dia hei-de conseguir escrever qq coisa, mesmo que má (seguramente má) acerca do meu livro favorito do escritor (o Torcicologologista, Excelência), que já li uma vez e ouvi 2 e que ainda assim continuo a não perceber na totalidade mas a achar fascinante.

Para já fica este texto que saiu no Observador que achei interessante

Só com um verdadeiro talento é possível fazer literatura da linguagem anti-literária; só com uma invulgar segurança é possível criar um estilo a partir da linguagem mais vulgar, sem recurso a tinetas linguísticas próprias; Gonçalo M. Tavares conseguiu criar o estilo a partir da falta dele. E se isto por um lado impressiona, por outro pode criar um problema.

Não se perde nunca a lógica do absurdo, a frieza literária do raciocínio, o gosto pela criação de realidades imprevistas a partir da manipulação de premissas. As circunstâncias são diferentes, mas o modo de olhar para elas é o mesmo. 

O Quinto Evangelho, de Ian Caldwell

o quinto evangelho.jpg

 

Sinopse:

Uma semana antes da inauguração de uma exposição de arte nos museus do Vaticano, Ugo Nogara, o curador responsável, é encontrado morto em Castel Gandolfo. A polícia papal não consegue descobrir o autor do crime. E o padre Alex Andreou, amigo do curador assassinado, decide investigar por conta própria.

Para encontrar o homicida, tem de desvendar o segredo do curador - a verdade dos evangelhos acerca da relíquia sagrada mais controversa e misteriosa do Cristianismo. Porém, quando começa a compreender os contornos da morte de Ugo Nogara, e as suas consequências para o futuro das Igrejas Católica e Ortodoxa, o padre Alex apercebe-se de que também corre perigo.

O Quinto Evangelho é um thriller arrebatador, baseado numa profunda investigação histórica e bíblica. Dá-nos a conhecer os meandros da Santa Sé e agradará a todos os fãs de Dan Brown.

 

 

Se vos agrada a sinopse leiam a opinião da Célia, do Estante de livros, que é muito mais completa que a minha será.

 

 

 

Que melhor livro para ler durante a época Pascal que um (mais ou menos) thriller religioso? Confesso que oiço "polémica", "Vaticano", "teoria da conspiração" e não hesito em pegar no livro. E uma vez mais correu muito bem e foi o livro certo para ler em dois ou três dias (leio sempre estes livros de forma compulsiva).

Aprendi algumas coisas (nomeadamente sobre o Diatéssaron e a igreja ortodoxa) e acima de tudo diverti-me imenso. Confesso que a resolução do crime não me interessou muito nem me surpreendeu mas também não esperava que o fizesse. O que gosto mesmo nestes livros é ler (mais uma) teoria da conspiração (ou não) sobre um determinado facto ou crença. E como não há coincidências e tenho andado a ler algumas coisas sobre os evangelhos este livro veio mesmo a calhar. Na verdade não houve muita teoria da conspiração mas as explicações bíblicas compensaram e muito esse facto. 

 

 

Não se pode morar nos olhos de um gato, de Ana Margarida de Carvalho

Gato.jpg

 

Depois de "Que Importa a Fúria do Mar" Ana Margarida de Carvalho regressou com este "Não se pode morar nos olhos de um gato" e a primeira coisa que tenho que referir é que, mais uma vez, o título deste livro é fabuloso (e é inspirado num poema de Alexandre O'Neill).

 

No livro, tal como no poema, este título esconde uma crueza que nos atinge às primeiras palavras.  Logo no primeiro capítulo é a santa de madeira do navio que nos fala, de enxurrada, num monólogo carregado de dor e raiva.

Os personagens vão-nos sendo apresentados aos poucos, por camadas. Primeiro estereótipos (o capataz, o passageiro, a fidalga, o criado) vão-se tornando gente à medida que nos vão contando a sua história. E cada um deles tem uma história, um segredo por contar, um pecado para expurgar.

O grupo que sobrevive ao naufrágio e se junta naquela praia está sujeito a todos os preconceitos que, na altura, ontem e hoje, moldam a sociedade. Numa situação extrema, como a que este grupo está sujeita, os preconceitos de raça, género ou religião tornam-se incontornáveis e é a absoluta necessidade que leva a que cada um dê o melhor de si (que nem sempre é suficiente ou aceitável) para que a sobrevivência seja uma realidade. Aliás, nem sequer é o melhor que emerge, mas o necessário, quando existe capacidade para tal. Ou correm o risco de se consumirem no processo.

A escrita irrepreensível de Ana Margarida de Carvalho e o tom que imprime a este livro deixaram-me interessada desde a primeira página mas este livro vive dos personagens.

A construção dos personagens é impressionante. Conhecemos cada um deles através do seu passado, de alguns das muitas histórias que o compoem.  Muitas vezes os livros apresentam-nos apenas o futuro, como se a qualquer momento pudéssemos esquecer quem somos, quem fomos e com que barro nos fizemos. Aqui, neste livro, não há disso. Há crueza, crueldade, preconceito, empatia, repulsa, coragem e cobardia, paixão, amor, amizade. Há toda a gama de emoções que atravessaram as épocas e através delas ficamos a conhecer melhor um conjunto de personagens que, ao serem obrigados a enfrentar os seus próprios fantasmas, se conhecem e se dão a conhecer.

Não esperem uma história de redenção nem uma história parecida à do Robinson Crusoe. Esperem uma história crua e impiedosa, cheia de histórias dentro, histórias feias e duras, histórias de desesperança. Não esperem redenção, esperem realidade. 

 

 

 

Curtas 2017 #23 - Os livros e a internet

Às páginas tantas de cada leitura faço uma busca no google e leio as vários opiniões de leitores comuns que encontro relativas àquele livro. Às vezes, as opiniões são tantas que escolho as de leitores que conheço e com os quais costumo concordar.

Mas às vezes, tantas vezes, é quase impossível encontrar uma opinião sobre aquele livro. Ora isto não significa que esses livros não são lidos mas somente que não lidos pelo tipo de pessoa que escreve blogs, faz vídeos ou actualiza o goodreads. 

Isto não é uma critica (cada um lê e escreve o que quer) mas apenas um facto, um facto que me deixa triste e que me faz pensar. Habituámo-nos (e os mais jovens que eu ainda mais) a procurar toda a informação na Internet, a confiar nos nossos pares, a viver rápida e fugazmente confiando que a informação nos há-de chegar.

Habituámo-nos a deixar para os outros a separação entre o trigo e joio, nos livros como na vida.

E com isso perdemos, nos livros como na vida, as maiores e melhores surpresas.

Curtas 2017 #22 - Mitos e outros temas livrescos (Releituras)

Fico sempre sem saber se devo ou não reler os livros.

E se reler um livro de que não gostei pode fazer-lhe justiça (há sempre livros que lemos em alturas erradas), reler um livro de que gostámos muito também pode estragar tudo.

Se um livro, a determinada altura, me marcou de forma a considerá-lo, por pouco ou muito tempo, o meu livro preferido, será uma boa ideia correr o risco de perceber que afinal não é assim tão bom?

A verdade é que uma releitura nunca vai ter o factor “novidade” ou “expectativa) no mesmo nível da leitura inicial. E se também é verdade que gostar tanto ou mais de uma releitura que da leitura inicial é descobrir uma pérola, também é verdade que a marca deixada uma desilusão vai ser impossível de apagar.

E eu, que gosto imenso de reler livros, vejo-me com medo de pegar novamente naqueles foram os meus livros preferidos durante muito tempo, apesar de considerar que mais importante do que um livro ser realmente bom é a marca que nos deixou aquando da sua leitura.

O Ano da Dançarina, de Carla M. Soares*

17796148_10206981200003307_2646018012305418477_n.j

 

Diz que amanhã está à venda, este O Ano da Dançarina, da Carla, uma escritora que já conquistou o seu lugar nas estantes e livrarias deste país.

Este ainda não é O livro da Carla que espero (ainda não perdi a esperança, Carla, de ver o Mão na rua) mas é sem dúvida uma óptima forma de ficar a conhecer melhor o Portugal de 1918 (e de passar umas boas horas).

Ide ao facebook da escritora que por lá ela explica como podem ganhar um exemplar deste livro que estará à venda amanhã, dia 05 de Abril.

 

*e não, nem a Carla nem ninguém me encomendou a divulgação. Como todas as que aparecem por aqui, são de minha livre e espontânea responsabilidade.

 

Curtas 2017 #21 - Mitos e outros temas livrescos

O tempo (ou a falta dele) é um daqueles temas que qualquer leitor conhece bem. 

Para os leitores a verdade é que há sempre tempo para ler (nem que seja em 5 minutos na fila para comprar pão) e para os não leitores o "não tenho tempo para ler" é a desculpa perfeita.

Mas afinal a falta de tempo é ou não um mito?

Há uns tempos diria que sim, que é um mito, que isso da falta de tempo não existe.

Hoje penso duas vezes. Até porque sei que "tempo" é algo muito relativo. 

Não, nunca deixarei de ler. Ou quero acreditar que não. Eu adoro ler. Mas a verdade é que a vida às vezes atravessa-se no meio de tudo e o tempo falta. Não falo dos 5 minutos para ler. Isso arranja-se. Falo do tempo de qualidade, do tempo na nossa cabeça. Estar a ler e a pensar naquele relatório que temos que terminar ou se o gato está bem (been there, done that) não vale a pena. Às vezes falta-nos o tempo de qualidade para dedicarmos à leitura do momento.

E há coisas de que não queremos abdicar, de que não devemos abdicar. E às vezes o tempo que arranjamos é para outras prioridades que também nos enchem a alma. 

Mas, como leitora, vou sempre dizer "tantos livros, tão pouco tempo".

 

 

17760237_795185580636459_4184144691508663701_n.jpg

 

Imagem daqui