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Ler por aí

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Curtas 2017 #26 - Os dramas dos leitores #1 (A ingrata tarefa de arrumar a estante)

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É um momento ingrato que acaba por acontecer na vida de qualquer leitor: a tarefa de arrumar a estante e escolher os livros que têm que ser postos fora de casa. No meu caso a separação não é assim tão dramática porque na verdade só preciso escolher os livros que não estarão comigo todos os dias já que os outros rumarão para as estantes da casa da minha mãe onde, na verdade, começo a construir uma biblioteca que um dia poderá contar a minha história enquanto leitora. 

Ainda assim, escolher livros e pô-los dentro de caixas não é fácil, fico sempre com aquele sentimento de traição, de estar a pôr fora de casa um amigo.

Esta arrumação andava a ser pensada há algum tempo porque a minha estante tem pouco espaço e estava num estado miserável, com livros na vertical e na horizontal, com tudo misturado e sem espaço para mais nada (e como é óbvio há livros que preciso comprar).

Já tinha decidido que estava na altura de me separar de alguns livros de que tinham sobrevivido às últimas purgas e que na verdade não estou a pensar ler ou reler (falo, por exemplo, da minha colecção de livros da Marion Zimmer Bradley, da Isabel Allende ou dos policiais). Os livros que sabia que tinham que ficar eram os que ainda não tinha lido, que penso reler, que posso querer consultar nos tempos mais próximos e os técnicos (já só cá estão uma pequena amostra). Ou seja, só iriam ficar os essenciais. 

Comecei a encher caixas. Foi fácil encher duas. Achei (inocente que sou) que isso seria suficiente para libertar o espaço e ficar com uma estante decente.

A fase seguinte é a da arrumação. Há quem arrume os livros por cores, há quem o faça por "lidos/não lidos", há quem arrume por ordem alfabética ou por editora. O meu critério é mais estranho (nunca vos disse que era normal, pois não?) e baseia-se na amizade. Este livro dar-se-ia bem com este; este autor ia gostar de estar ao lado deste. Sou incapaz de pôr ao lado de um dos meus livros preferidos um de que não goste ou de pôr ao lado de um escritor genial um que considero menos talentoso.

Às tantas comecei a aperceber-me que numa das prateleiras só tinha livros de mulheres portuguesas e não pude deixar de sorrir. Ficaram lá livros da Inês Pedrosa, da Rosa Lobato de Faria, da Maria Velho da Costa, da Ana Saragoça, Da Maria João Lopo de Carvalho, da Dulce Maria Cardoso, da Lídia Jorge, da Patrícia Muller, da Sophia de Mello Breyner, da Rita Ferro, da Hélia Correia e da Ana Margarida de Carvalho. Não são todos os livros que tenho de escritoras português (faltam lá algumas das minhas favoritas, que só tenho em ebook ou cujos livros estão emprestados ou em casa da minha mãe) nem todos os livros destas escritoras mas é uma amostra interessante.

O problema foi quando comecei a ficar sem espaço e com muitos livros ainda por arrumar. Confesso que entrei em pânico e tive que tomar algumas decisões dolorosas. Foram duas caixas muito difíceis de encher. 

E nas próximas semanas tenho que tirar pelo menos mais 2 caixas de livros desta estante. Tenho que arranjar coragem para pegar nos livros que ainda não li e que não me parece que vá ler nos tempos mais próximos e levá-los para outra estante. Mas agora não quero pensar nisso. 

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, de Gonçalo M. Tavares

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Dizia o autor (nesta entrevista) que neste livro a história fazia tangentes à História e à tradição oral de contar histórias. De facto, é impossível não perceber algumas dessas tangentes até para alguém tão distraído e pouco culto como eu.

Neste novo universo, a que chamou Mitologias, Gonçalo M. Tavares apresenta-nos a personagens fascinantes. Desde logo a mulher-sem-cabeça e o homem-de-mau-olhado que nos são apresentados no título. Mas não acredito que haja leitores indiferentes a Ber-lim, cujo nome (e não só) foi divido ao meio numa viagem de comboio a alta velocidade, por exemplo. Ou à Mulher-ruiva. Ou aos Cem-homens mais um. Ou até, quiçá, ao Lobo.

Uma das coisas que me fascina na escrita deste autor é a possibilidade de ler o que escreve de uma forma mais ou menos literal. Optei por ler este livro devagar, com calma, sempre em busca de pistas para outros significados, outras camadas. Gosto da lógica estranha do escritor (não será por acaso que o meu livro favorito dele é o O  Torcicologologista, Excelência) que permite várias leituras, que permite que a sua escrita (especialmente neste tipo de livro onde as leis da física e da lógica sejam completamente deturpadas – gosto do fantástico, já sabem) se transforme quase num jogo, sempre em busca de mais uma camada.

E se pararmos para pensar um pouco começamos a perceber que, também aqui, num livro que podia ser considerado um livro de contos de terror, se reflecte sobre o mal, a natureza humana, a coragem e a cobardia, a aleatoriedade, as escolhas de cada um a cada momento. Afinal, são os temas que GMT vai explorando em cada livro.

Não espero que todos gostem deste livro mas eu não hesito, nunca, em recomendá-lo. E tendo em conta que já o li 2 vezes, acho que ainda vou voltar a estas páginas outras vezes. Gosto e pronto.

 

"O Muro é da altura de um homem de um metro e oitenta, cujos pés balançam quatro metros acima do solo. Era esta a medida, a referência" pag 66

 

 

Curtas 2017 #25 - Os três livros e o Dia Mundial do Livro (que foi dia 23 de Abril)

No domingo passado, dia 23 de Abril, celebrou-se mais um Dia Mundial do Livro e do Direito de autor. 

E se é verdade que, se para quem lê este blog, todos os dias são dias do livro, a verdade é que estimular o prazer da leitura e chamar a atenção para o respeito pelos direitos de autor é extremamente importante. E para nós, leitores habituais e viciados, é mais uma desculpa para comprar um livro. Ou para pedir que nos ofereçam um. E uma desculpa para dedicar toda a tarde às leituras.

Já eu andei a laurear a pevide pelo país (e que país fantástico temos) e andei a passear entre os 3 livros do momento.

Sim, estou a ler 3 livros ao mesmo tempo, coisa estranha e que não gosto nada de fazer, mas a verdade é que são 3 livros tão diferentes que não faz mal (e quem sabe? Talvez sejam estas leituras paralelas que me fazem mudar de ideias acerca das leituras simultâneas)

Um é o Malparado de Pedro Mexia que é, na verdade, uma espécie de diário ou de entradas de blog (Malparado, de seu nome) e que não apetece ler todo de seguida. Até porque me sinto burra a cada página ou de cada vez que o senhor fala de autores, livros ou filmes de que não conheço, nunca ouvi falar. Liçãozinha de humildade e de aprendizagem. Hei-de sobreviver à leitura mas que faz mossa, faz. 

Outro é o A mulher-sem-cabeça e o Homem-do-Mau olhado, de Gonçalo M. Tavares que pede uma leitura cuidada e com calma. Seria fácil ler o livro em apenas algumas horas mas prefiro assim. Ler um bocadinho de cada vez, voltar atrás, ler de novo, deixar que o estranho se entranhe antes de avançar. Gosto também que procurar entrevistas com o autor à medida que vou avançando na leitura. 

E como há alturas em que ler no e-reader é mesmo o que dá mais jeito e porque precisava, para intercalar com as outras leituras, de uma boa história mantendo a qualidade, decidi pegar no "No Silêncio de Deus", da Patrícia Reis que já tinha comprado há uns tempos e de que estou a gostar imenso.

E vocês, o que andam a ler?

Curtas 2017 #24 - O lado negro dos clubes literários

Falar de livros é quase tão bom como ler. Por isso pertencer a um (ou mais) grupos literários é sempre um privilégio. Mas tudo tem o seu lado mau. Claramente o lado negro das conversas sobre livros é o crescimento exponencial das pilhas de livros por ler ou das listas de “eu quero ler isto antes do fim do mundo”.

Confesso que sou uma pessoa relativamente resistente a este fenómeno que é o de arregalar os olhos e ter a certeza que precisamos daquele livro na nossa estante mas ainda assim às vezes, tantas vezes, fraquejo e subitamente fico com a certeza que não tenho nada para ler e que preciso muito comprar aquele(s) livros(s).

Ainda ontem fui, cheia de boas intenções, à tertúlia organizada pela Editora Minotauro, ouvir o que a Márcia, a Célia, a Cris e a Cristina tinham para dizer e vim de lá com a certeza que preciso comprar o “A Magia Mais escura”, de V. E. Schwab e o “A mulher-sem-cabeça e o Homem do Mau Olhado” do Gonçalo M. Tavares (este não é da editora Minotauro, é da Bertrand mas descobri que já está à venda). Uma pessoa porta-se bem, persiste no esforço de limitar as comprar e diminuir o número de livros por ler e meia dúzia de palavras e uma capa bonita vence-a, sem apelo nem agravo.

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A sério, a bem das vossas carteiras, a bem da v/ sanidade mental (se forem como eu e detestarem ter muitos livros por ler), a bem das v/ leituras mantenham-se longe dos clubes de leitura, das conversas sobre livros e das sugestões daquela amiga que (como eu) vos diz: "tens que ler isto". 

Ou então não.

Mas não digam que não vos avisei.

Boas leituras

 

 

 

Sugestão para o fim de semana: A mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

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Hei-de ler, rapidamente, este livro do Gonçalo M. Tavares.  E um dia hei-de conseguir escrever qq coisa, mesmo que má (seguramente má) acerca do meu livro favorito do escritor (o Torcicologologista, Excelência), que já li uma vez e ouvi 2 e que ainda assim continuo a não perceber na totalidade mas a achar fascinante.

Para já fica este texto que saiu no Observador que achei interessante

Só com um verdadeiro talento é possível fazer literatura da linguagem anti-literária; só com uma invulgar segurança é possível criar um estilo a partir da linguagem mais vulgar, sem recurso a tinetas linguísticas próprias; Gonçalo M. Tavares conseguiu criar o estilo a partir da falta dele. E se isto por um lado impressiona, por outro pode criar um problema.

Não se perde nunca a lógica do absurdo, a frieza literária do raciocínio, o gosto pela criação de realidades imprevistas a partir da manipulação de premissas. As circunstâncias são diferentes, mas o modo de olhar para elas é o mesmo. 

O Quinto Evangelho, de Ian Caldwell

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Sinopse:

Uma semana antes da inauguração de uma exposição de arte nos museus do Vaticano, Ugo Nogara, o curador responsável, é encontrado morto em Castel Gandolfo. A polícia papal não consegue descobrir o autor do crime. E o padre Alex Andreou, amigo do curador assassinado, decide investigar por conta própria.

Para encontrar o homicida, tem de desvendar o segredo do curador - a verdade dos evangelhos acerca da relíquia sagrada mais controversa e misteriosa do Cristianismo. Porém, quando começa a compreender os contornos da morte de Ugo Nogara, e as suas consequências para o futuro das Igrejas Católica e Ortodoxa, o padre Alex apercebe-se de que também corre perigo.

O Quinto Evangelho é um thriller arrebatador, baseado numa profunda investigação histórica e bíblica. Dá-nos a conhecer os meandros da Santa Sé e agradará a todos os fãs de Dan Brown.

 

 

Se vos agrada a sinopse leiam a opinião da Célia, do Estante de livros, que é muito mais completa que a minha será.

 

 

 

Que melhor livro para ler durante a época Pascal que um (mais ou menos) thriller religioso? Confesso que oiço "polémica", "Vaticano", "teoria da conspiração" e não hesito em pegar no livro. E uma vez mais correu muito bem e foi o livro certo para ler em dois ou três dias (leio sempre estes livros de forma compulsiva).

Aprendi algumas coisas (nomeadamente sobre o Diatéssaron e a igreja ortodoxa) e acima de tudo diverti-me imenso. Confesso que a resolução do crime não me interessou muito nem me surpreendeu mas também não esperava que o fizesse. O que gosto mesmo nestes livros é ler (mais uma) teoria da conspiração (ou não) sobre um determinado facto ou crença. E como não há coincidências e tenho andado a ler algumas coisas sobre os evangelhos este livro veio mesmo a calhar. Na verdade não houve muita teoria da conspiração mas as explicações bíblicas compensaram e muito esse facto. 

 

 

Não se pode morar nos olhos de um gato, de Ana Margarida de Carvalho

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Depois de "Que Importa a Fúria do Mar" Ana Margarida de Carvalho regressou com este "Não se pode morar nos olhos de um gato" e a primeira coisa que tenho que referir é que, mais uma vez, o título deste livro é fabuloso (e é inspirado num poema de Alexandre O'Neill).

 

No livro, tal como no poema, este título esconde uma crueza que nos atinge às primeiras palavras.  Logo no primeiro capítulo é a santa de madeira do navio que nos fala, de enxurrada, num monólogo carregado de dor e raiva.

Os personagens vão-nos sendo apresentados aos poucos, por camadas. Primeiro estereótipos (o capataz, o passageiro, a fidalga, o criado) vão-se tornando gente à medida que nos vão contando a sua história. E cada um deles tem uma história, um segredo por contar, um pecado para expurgar.

O grupo que sobrevive ao naufrágio e se junta naquela praia está sujeito a todos os preconceitos que, na altura, ontem e hoje, moldam a sociedade. Numa situação extrema, como a que este grupo está sujeita, os preconceitos de raça, género ou religião tornam-se incontornáveis e é a absoluta necessidade que leva a que cada um dê o melhor de si (que nem sempre é suficiente ou aceitável) para que a sobrevivência seja uma realidade. Aliás, nem sequer é o melhor que emerge, mas o necessário, quando existe capacidade para tal. Ou correm o risco de se consumirem no processo.

A escrita irrepreensível de Ana Margarida de Carvalho e o tom que imprime a este livro deixaram-me interessada desde a primeira página mas este livro vive dos personagens.

A construção dos personagens é impressionante. Conhecemos cada um deles através do seu passado, de alguns das muitas histórias que o compoem.  Muitas vezes os livros apresentam-nos apenas o futuro, como se a qualquer momento pudéssemos esquecer quem somos, quem fomos e com que barro nos fizemos. Aqui, neste livro, não há disso. Há crueza, crueldade, preconceito, empatia, repulsa, coragem e cobardia, paixão, amor, amizade. Há toda a gama de emoções que atravessaram as épocas e através delas ficamos a conhecer melhor um conjunto de personagens que, ao serem obrigados a enfrentar os seus próprios fantasmas, se conhecem e se dão a conhecer.

Não esperem uma história de redenção nem uma história parecida à do Robinson Crusoe. Esperem uma história crua e impiedosa, cheia de histórias dentro, histórias feias e duras, histórias de desesperança. Não esperem redenção, esperem realidade. 

 

 

 

Curtas 2017 #23 - Os livros e a internet

Às páginas tantas de cada leitura faço uma busca no google e leio as vários opiniões de leitores comuns que encontro relativas àquele livro. Às vezes, as opiniões são tantas que escolho as de leitores que conheço e com os quais costumo concordar.

Mas às vezes, tantas vezes, é quase impossível encontrar uma opinião sobre aquele livro. Ora isto não significa que esses livros não são lidos mas somente que não lidos pelo tipo de pessoa que escreve blogs, faz vídeos ou actualiza o goodreads. 

Isto não é uma critica (cada um lê e escreve o que quer) mas apenas um facto, um facto que me deixa triste e que me faz pensar. Habituámo-nos (e os mais jovens que eu ainda mais) a procurar toda a informação na Internet, a confiar nos nossos pares, a viver rápida e fugazmente confiando que a informação nos há-de chegar.

Habituámo-nos a deixar para os outros a separação entre o trigo e joio, nos livros como na vida.

E com isso perdemos, nos livros como na vida, as maiores e melhores surpresas.

Curtas 2017 #22 - Mitos e outros temas livrescos (Releituras)

Fico sempre sem saber se devo ou não reler os livros.

E se reler um livro de que não gostei pode fazer-lhe justiça (há sempre livros que lemos em alturas erradas), reler um livro de que gostámos muito também pode estragar tudo.

Se um livro, a determinada altura, me marcou de forma a considerá-lo, por pouco ou muito tempo, o meu livro preferido, será uma boa ideia correr o risco de perceber que afinal não é assim tão bom?

A verdade é que uma releitura nunca vai ter o factor “novidade” ou “expectativa) no mesmo nível da leitura inicial. E se também é verdade que gostar tanto ou mais de uma releitura que da leitura inicial é descobrir uma pérola, também é verdade que a marca deixada uma desilusão vai ser impossível de apagar.

E eu, que gosto imenso de reler livros, vejo-me com medo de pegar novamente naqueles foram os meus livros preferidos durante muito tempo, apesar de considerar que mais importante do que um livro ser realmente bom é a marca que nos deixou aquando da sua leitura.

O Ano da Dançarina, de Carla M. Soares*

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Diz que amanhã está à venda, este O Ano da Dançarina, da Carla, uma escritora que já conquistou o seu lugar nas estantes e livrarias deste país.

Este ainda não é O livro da Carla que espero (ainda não perdi a esperança, Carla, de ver o Mão na rua) mas é sem dúvida uma óptima forma de ficar a conhecer melhor o Portugal de 1918 (e de passar umas boas horas).

Ide ao facebook da escritora que por lá ela explica como podem ganhar um exemplar deste livro que estará à venda amanhã, dia 05 de Abril.

 

*e não, nem a Carla nem ninguém me encomendou a divulgação. Como todas as que aparecem por aqui, são de minha livre e espontânea responsabilidade.

 

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