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Ler por aí

Ler por aí

Curtas 2017 #20 - Provocação literária

O "Livro do desassossego" de Fernando Pessoa é o nosso "Ulisses", não é? A obra prima, favorito de todos os não-leitores que, por magia insuspeita, o leram, de fio a pavio, e ainda hoje, anos volvidos, o estão a digerir mentalmente. 

 

(Não, nunca li "O livro do desassossego". Li, algures por aí, algumas das entradas (toda a gente já leu algumas das entradas), conheço-lhe (mais ou menos) a estrutura mas nunca o li. Tenho em casa pelo menos uma versão parcial do livro mas hoje, finalmente, comprei a versão integral, apanhei uma promoção razoável, apeteceu-me e colmatei esta falha que me envergonhava enquanto leitora.)

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Curtas 2017 #19 - Ler por aí, o blog e página

Este blog tem evoluído muito dos últimos anos. Às vezes vou ler algumas das primeiras opiniões que por aqui andam e percebo que hoje não escreveria aquilo, nem sequer teria aquela opinião. Há livros que na altura detestei e que hoje são dos meus favoritos e outros que li e que hoje não seria capaz de passar da primeira página.Na verdade isso reflecte o que eu, enquanto leitora (e até enquanto pessoa) tenho evoluído. Espero continuar a crescer e a mudar de opinião, se assim se justificar, sem medo nem qualquer problema. Espero continuar a aprender com cada livro que leio, espero ler cada vez melhor. 

Entretanto decidi construir uma página de facebook para o blog (o link está aí ao lado) onde partilho os links dos posts e onde partilho outras coisas (entrevistas, notícias ou brincadeiras) que poderão interessar-vos enquanto leitores. 

Curtas 2017 #18 Mitos e outros temas livrescos (1)

Vamos "agarrar o boi pelos cornos"? 

Então o primeiro Mito (e tema livresco) vai ser "Não há maus livros".

O primeiro argumento é "o importante é ler, não interessa o quê".

Não, não é verdade. E se há idade (leia-se maturidade) que permite diferenciar o trigo do joio, há situações em que a responsabilidade do que é lido (e as suas consequências) está na mão de quem escolhe as leituras. Não sou a favor de se vetar os livros a serem lidos, nem sequer considero que há livros não adequados a jovens (a discussão à volta do livro do Valter Hugo Mãe foi simplesmente ridícula) mas acho importante que os miúdos leiam livros bem escritos, que não perpetuem erros gramaticais ou factuais e que fomentem não só os hábitos de leitura mas também a vontade de aprender.

O segundo argumento é "Mas lá porque tu não gostas do livro isso não significa que o livro seja mau, há quem goste, vende, etc"

Certíssimo. Mas (e há sempre um "mas") há dois tipos de maus livros. Um livro de que eu não gosto é, para mim e exclusivamente para mim, um mau livro mas sou plenamente capaz de o oferecer a alguém que dele goste e de admitir que é um caso de "não és tu, sou eu" (ninguém no seu juízo perfeito poderá dizer que um livro do Lobo Antunes ou da Agustina é mau, simplesmente eu ainda não cresci o suficiente para os saber apreciar - e espero um dia lá chegar, como cheguei a tantos outros).

Eu não chamo "mau livro" aos livros puramente lúdicos, que existem (e ainda bem) para nos fazer esquecer o mundo durante umas horas. Nada contra livros de vampiros, zombies e afins. Nada contra livros (mais ou menos) eróticos mesmo que aquilo só dê vontade de rir (dar vontade de rir é bom, o mundo precisa de riso). Nada contra romances românticos com novelas de faca e alguidar... desde que cumpram o seu papel e que estejam acima do nível "lixo" no que à língua/linguagem diz respeito. 

Mas deixe-mo-nos de tretas: há mesmo maus livros. Há livros que nunca deveriam ter saído das gavetas (ou do computador) do escritor. Há livros que deveriam ter sido barrados no editor (ou passado por um editor para bem do aspirante a escritor).

Um escritor tem que saber escrever, não lhe basta ter uma boa ideia. Infelizmente há quem até tenha boa ideias mas não as saiba transmitir. Um livro tem que ter um enredo, esse enredo tem que ser interessante, os personagens têm que estar bem construídos, os factos têm que estar correctos. E se estivermos a falar de ficção cientifica ou fantasia, a coisa tem que estar coerente e bater certinho no fim. Caso contrário não funciona. E há muitos livros que por aí andam que não estão em nenhuma destas categorias. E é fundamental que estejam, pelo menos, numa delas. Caso contrário, desculpem, mas são maus livros. 

 

 

 

Curtas 2017 #17 - Mitos e outros temas livrescos

Eis que começa uma nova série aqui no blog: “Mitos e outros temas livrescos”. Gostei tanto de falar convosco nos “direitos dos leitores” que precisava continuar este diálogo de alguma forma.

Assim proponho-me a falar um bocadinho, sempre sem me levar muito a sério, de variadíssimos temas, relacionados com livros e leituras.

Obviamente não faço ideia se isto vai resultar, se terei temas, paciência ou imaginação para esticar isto mais do que meia dúzia de dias, mas não faz mal.

Também não me proponho ter posts todos os dias nem com dias marcados. Seria bonito mas não vale a pena enganar-vos: não vou conseguir. Combinemos uns 2 por semana, enquanto a imaginação ajudar, ok?

Se tiverem ideias para temas a desenvolver, sintam-se à vontade para os sugerir (que eu agradeço e muito).

Até já

O Velho e o Gato, de Nils Uddenberg

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Escrevo este post com um gato deprimido e infeliz ao colo. Tem um "funil" na cabeça e apesar de ser para o bem dele (eu sei mas ele não) fico com o coração partido ao ver a sua miserabilidade. O meu amor por animais em geral e por este gato em particular faz com que os meus amigos, aqueles que me conhecem bem e se esforçam por me fazer feliz, procurem coisas como este livro para me oferecer no meu aniversário. O meu obrigada a uma amiga (e um amigo também) muito especial que entrou na minha vida através desta paixão comum, os livros, e que já se tornou presença insubstituível. 

Este, O velho e o Gato foi o livro perfeito para estes dias, em que o meu gato tem sido uma presença ainda mais constante na minha vida. O amor por uma animal é diferente do amor pelas pessoas mas nem por isso menos importante. A atenção e o carinho que lhes temos é-nos devolvido em dobro, mesmo pelos gatos. 

Este homem tinha decidido há muito que não queria ter animais, que não tinha nem vida nem paciência para tal. Mas uma gatinha decidiu o contrário. Ela decidiu que ele e a sua mulher eram os "seus humanos" e tornou-se, com a força de vontade (leia-se teimosia) que todos os donos de gatos tão bem conhecem, uma companheira, uma amiga, um membro de pleno direito daquela família. 

Não vale a pena alongar-me com a história. É uma história banal, uma verdadeira história de amor e lá para o final a história transforma-se numa reflexão sobre a relação Homem-Gato, sobre o que nós conhecemos dos gatos, o seu comportamento, as suas emoções, as suas razões. E aí, para além do homem, vê-se o psiquiatra. Um livro amoroso e interessante, que será certamente uma óptima escolha para qualquer leitor que já se tenha apaixonado por um gato.

Não se pode morar nos olhos de um gato

Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato

 

Alexandre O'Neill

Curtas 2017 #16 : Chamem-me "velha do restelo" à vontade

Em estudante era normal usar todos os truques para escrever mais depressa. Comer letras nas palavras era o mais básico. Os "que" passavam a um "q" cortado em baixo, os advérbios terminados em "mente" tinham uma "/" em vez deste final, o muito passava a  mto, o quanto a qto. Por razões profissionais (sou do tempo em que parte da comunicação se fazia por telex - já não do picotado mas via computador - pago por caracter) aprendi muito mais abreviaturas, em português e em inglês que uso regularmente por fazer parte da linguagem da área (há listagens imensas de abreviaturas, é todo um mundo). 

Talvez por ter este hábito enraizado não me consigo habituar às substituições dos Q por K ou do CH por X. Não considero ter qualquer benefício, não poupa tempo, irrita-me e considero-o esteticamente feio  (e antes que perguntem, sim, acho uma página cheia de palavras uma visão bonita - o problema é quando determinadas palavras - erros ortográficos, por exemplo - sobressaem). 

Os Dez Livros de Santiago Boccanegra, de Pedro Marta Santos

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Cada momento é a convergência de muitos caminhos, de muitas escolhas, de acasos, de coincidências, de erros, de sucessos. Cada momento de cada um de nós é cheio de momentos dos outros, de escolhas dos outros e também nossas.

Assim é este livro. Um livro que contém muitos livros. Uma história cheia de histórias. O fio condutor é-nos indicado logo de início e é impossível ficar indiferente a um Santiago menino, é-nos impossível não sofrer com Santiago, uma e outra vez. Mas também me foi impossível não ficar atraída pela solidão, pelas sombras de Santiago, o homem.

Um livro que nos conta a solidão, a busca pela redenção, o espiar da culpa, o sofrimento e a violência. 

Este é um livro cheio de referências, cheio de música, cheio de pintura. Tal como há quem, no livro, traga à vida determinadas obras, também nós as visualizamos, as imaginamos, as procuramos.

Sabemos desde o início que caminhamos, com constantes viagens ao passado para um acontecimento fantástico, um acontecimento brutal, daqueles que marcam a viragem do tempo.

Mas mais do que curiosidade em desvendar esse mistério, foram os personagens, as suas histórias que, livro após livro, me mantiveram agarrada a esta história. 

E há aqui personagens fantásticos. Os meus preferidos, Laura e Ismael. E Santiago, claro. Mas o vazio de Laura entristeceu-me e a solidão e a perda de Ismael partiram-me o coração. 

Não é um livro fácil este. Nem sequer é um livro feliz ou bonito. Mas é, sem dúvida, um livro magnífico. 

Espero que seja um livro lido. Apesar de achar que o escritor o merece, digo que acho que deve ser um livro lido por causa de cada leitor. É um livro que nos desafia a cada página.

 

 

 

Curtas 2017 #15 Direitos dos leitores (parte 7)

E na última parte desta brincadeira que foram os Direitos dos Leitores vou ter que falar daquele que é o mais importante, fundamental e inalienável direito do leitor.

Falo, claro, do direito de ... "Não ler".

(Se por algum leitor deste blog está no ensino obrigatório, esqueça, este direito não pode ser invocado nas leituras obrigatórias. Não me usem como desculpa para não ler um livro. Vocês têm mesmo que ler isso. Não gostam? azareco, é obrigatório. Considerem-no como um prelúdio da idade adulta: ainda irão, pela vida fora fazer muita coisa que não queriam fazer e a maioria será bem mais desagradável que passar umas horas refastelado no sofá a ler um romance tão maravilhoso quanto "Os Maias")

Não ler um livro específico, não ler determinado autor, não ler um género literário, não ler durante uma semana, não ler durante um mês, não ler durante um ano.

É, para a maioria de nós, contranatura? sim, é. Mas Não Ler é um direito. Não ser Leitor é um direito.

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