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Ler por aí

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Curtas 2017 #6 - O livro, o leitor e o livreiro

A relação entre entre livro e leitor mudou muito nos últimos anos. Ainda há pouco tempo comprar um livro era uma coisa séria, implicava ponderação, compromisso. A maioria dos leitores quando comprava um livro sabia que aquele objecto iria ser importante e fundamental na sua vida nos tempos seguintes. Um livro não era só mais um. Era O livro do momento. Sem outras fontes de informação, o livreiro era um dos principais conselheiros e não poucas vezes a relação leitor-livro ganhava um outro vértice. E, tantas vezes, a relação leitor-livreiro era já uma relação de amizade.

É inegável que é infinitamente melhor ter acesso a livros diferentes, opiniões diferentes, preços diferentes. Mas não posso deixar de sentir alguma saudade desse tempo, que na verdade nunca foi meu, em que a necessidade de ser parco nas compras implicava um engenho na escolha. Mas não voltava atrás. Gosto de acrescentar livros à estante sempre que me apetece, gosto de levar num dispositivo electrónico dezenas de livros. Gosto de saber que o acesso aos livros é cada vez mais amplo, que há mais livros, mais leitores.

Mas não é possivel trilhar este caminho sem deixar vítimas pelo caminho. As pequenas livrarias, os alfarrabistas ficaram sem clientes e muitas estão a fechar. Os grandes livreiros, que eram acima de tudo grandes leitores, são uma espécie cada vez mais em extinção. 

Vivemos um tempo de transição, sentimos as feridas das vitimas deste processo de modernização, sentimos as suas vitórias. E este texto que nos deixo (de Nuno Pacheco, no Público) é um exemplo disso. Vale a pena ler.

 

No universo das livrarias teremos ainda, provavelmente, mais más notícias no futuro. Mas a par delas vão surgindo novos espaços, com ousadia e ideias próprias, uns nascidos dos que fenecem, outros vindos apenas de gente com paixão pela leitura, pelos livros, pelo mundo que os vê crescer. Talvez a prazo ressurjam até os antigos vendedores qualificados, que se foram perdendo na mercantilização rápida e impessoal dos nossos dias. Se isso acontecer, o requiem de hoje poderá dar lugar a um verdadeiro renascimento nos próximos anos. E há-de haver público, se houver engenho e gosto em tal tarefa.

 

 

Harry Potter e a criança amaldiçoada, J. K. Rowling, Jack Thorne, John Tiffany

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É inevitável ter alguma curiosidade em relação a mais um livro no universo de Harry Potter. Fiz questão de baixar as expectativas em relação a este livro uma vez que, não me interessa o que está escrito na capa, este NÃO é um livro da colecção Harry Potter. Se o fizesse seria impossível não detestar, não desiludir. Mas este livro merece, ao menos, ser julgado pelo que é: um fanfiction* autorizada por ser na realidade o guião de uma peça de teatro baseada na colecção.

Seja por razões económicas ou simplesmente para querer dar um doce aos fãs, a verdade é que publicar isto como "a oitava parte da história" foi um erro monumental (ok, admito que todos os envolvidos - excepto os leitores - pensem de forma diferente uma vez que este livro vale muito mais do que o seu peso em ouro).

Mas olhemos para este livro como o que é: fanfiction em forma de guião.

Assim não é má de todo. Um dos grandes problemas é que é impossível reconhecer os protagonistas da série aqui: Harry, Hermione e Ron nunca se tornariam nestas pessoas (o que fizeram ao Ron, então, é ridículo) e isso retira a credibilidade toda à coisa. Mas numa fanfiction (não é por acaso que repito esta palavra até à exaustão) não é imperativo reconhecer os protagonistas - aliás, por definição, numa fanfiction tudo é possível.

Portanto, retiremos o que sabemos das personagens e analisemos as novas: Albus, Delphi e Scorpius.

Albus não me cativou e a culpa é de tudo o que sei sobre Harry Potter e a sua trupe. É impossível que Albus saísse daquela família. Teria funcionado se Albus fosse que se se espera de um herdeiro do HP, se fosse uma peste mimada, se fosse um puto execrável e com mania de que era bom mas nunca, nunca seria assim. Ou então o Harry enganou-nos bem durante 7 livros.

Delphi até podia ser interessante mas não faz muito sentido ter passado despercebida até à idade adulta...

E por fim, Scorpius.

Scorpius é a razão pela qual este livro até faz algum sentido. Eu sou menina para ler um livro inteiro sobre as aventuras de Scorpius. Esqueçam tudo o resto e concentrem-se na história e na personalidade do filho de Draco Malfoy.

O verdadeiro presente que JK Rowling nos dá neste livro é a possibilidade de conhecer um personagem complexo o suficiente para realmente pertencer ao mundo Harry Potter. Tudo o resto neste livro foi "para encher chouriços"...

 

* Para quem não sabe uma fanfiction é, basicamente, uma narrativa escrita por fãs com personagens/locais de um outro livro.

Curtas 2017 #5 - A problemática do livro errado

Sim, eu sei que abandonar a leitura de um livro é um direito incondicional de qualquer leitor. Seria o primeiro dos artigos numa Constituição Literária que se prezasse. O problema, o meu problema, é que abandonar um livro, desistir da sua leitura é algo que me faz sentir meio traidora, como se estivesse a cometer um pecado (a educação judaico-cristã aplicada à condição de leitora dá nisto) e a diminuir-me enquanto leitora. 

Mas há alturas em que é inevitável. Abandonar um livro, deixá-lo para trás, voltar a colocá-lo na estante é por vezes a coisa certa a fazer.

Nas últimas semanas ando a arrastar comigo um livro que, tenho que admitir, não me apetece ler (e não, não interessa qual é o livro, escusam de perguntar), que não me consegue agradar nem interessar. E o pior: nem sequer me irrita/incomoda/chateia. A verdade é que o livro me é absolutamente indiferente (e a indiferença é sempre o pior dos sentimentos). Pego, leio meia página e começo a divagar. Se estiver em casa é altura de ligar a TV e pôr uma série qualquer, se estiver fora de casa é certo e sabido que pego no telemóvel e me perco nas redes sociais.

Nada disto seria dramático se eu fosse capaz de ler vários livros ao mesmo tempo. Bem tenho tentado ler outras coisas ao mesmo tempo mas só pego em livros que até são bons mas que não são os livros que me apetecer ler agora, assim numa espécie de castigo "se não lês aquilo não podes ler o que te apetece" e as últimas semanas têm sido literariamente penosas.

Agora que já decidi que não vou continuar a ler o outro livro, só preciso de acabar de ler os livros que entretanto comecei a ler (com a desculpa que um era ebook - Os dez livros de Santiago Boccanegra - e outro não-ficção "A doença, o Sofrimento e a Morte entram num bar" ) e dos quais até estou a gostar bastante para voltar a entrar nos eixos enquanto leitora e recomeçar a atualizar este blog como deve ser.

Lobo Solitário, de Jodi Picoult

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Há alturas em que a leitura se arrasta, em que a concentração não nos permite ler nada de muito exigente e que só nos apetece pegar num livro daqueles para ler de uma ponta à outra sem pensar muito no que se está a fazer. Os livros da Jodi Picoult são assim. Sempre com um tema central mais ou menos polémico. E na verdade não sou fã da escritora. Gostei do No Seu Mundo, que se debruça sobre o síndrome de asperger mas foi penoso acabar de ler os restantes livros da escritora que me passaram pelas mãos.  Ainda assim, e porque os livros têm razões que a razão desconhece, resolvi pegar neste "Lobo Solitário". Tenho que confessar que foi a leitura certa nesta altura (e que mais se pode pedir de um livro, não é?). 

Luke, apaixonado por lobos, tem um acidente e os filhos, Edward e Cara têm que tomar a decisão mais complicada das suas vidas: desligar ou não as máquinas que lhe permitem estar vivo. Edward, mais velho e distante do pai, Cara, a companheira de todas as horas de Luke. Esgrimam-se argumentos, as emoções trocam as voltas à razão e Jodi Picoult torna-nos fácil a decisão. Este é talvez a pior parte deste livro: em vez de fazer pensar, reflectir sobre algo tão sério e difícil  como é a eutanásia, faz com que essa decisão seja, para nós leitores, ridiculamente fácil. E mesmo quando é (e eu acredito que às vezes é) a escolha certa nunca, nunca é fácil. Uma vez mais, o tema certo, o desenvolvimento errado.

E para que a trama se adense, os personagens vêem-se envolvidos em situações absurdas com soluções ridículas (a sério aquelas acusações ali no meio eram absolutamente dispensáveis).

Ainda assim, gostei do livro. 

Gostei do livro porque alguns capítulos são sobre os lobos. A história de Luke que vai viver com os lobos durante dois anos fez com que as horas passadas a ler este livro valessem a pena. 

 

 

 

O Evangelho Segundo Lázaro, de Richard Zimler

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Voltar a contar uma história que já é amplamente conhecida acarreta riscos. Quando essa história envolve religião, o risco é ainda maior. Contar a Paixão de Cristo pelos olhos de Lázaro é de uma enorme coragem. 

Para apreciar este livro são, na minha opinião, necessárias várias coisas: algum conhecimento das escrituras, interesse pela religão e mente aberta. Não vale a pena pegarem neste livro se não tiverem estas três características. 

Mas se tiverem... vão encontrar muitas personagens que já conhecem e que ao mesmo tempo são novas para vocês, Lázarus, Marta, Mia, Yeshua (Jesus), Maria e muitos novos personagens que saem do anonimato para ocupar lugares de destaque nesta história. Talvez tenham algumas surpresas (confesso que não me surpreendi muito ao longo destas páginas) e certamente irão ter sempre a sensação de estar a olhar para uma imagem que já conhecem mas que é, ao mesmo tempo, totalmente nova.

Apesar das diferenças óbvias entre a Paixão de Cristo segundo Zimler e a que conhecemos dos evangelhos este não é um livro que pretenda apenas provocar. Sim, é um livro que pretende fazer-nos questionar, que nos pretente fazer pensar. Mas é, acima de tudo, um livro que nos pretende fazer sonhar, imaginar.

Curtas 2017 #4 - Um eReader e a Lei de Murphy

Nem tenho como vos contar como foi a semana que passou. Mas a minha vida regeu-se pela Lei de Murphy: tudo o que podia acontecer, aconteceu. Talvez esteja a exagerar ligeiramente porque felizmente não houve danos permanentes. Mas a verdade é que não foi uma semana fácil. Uma das vítimas da Murphy foi o meu ereader maravilhoso. Já tinha uns anos e não sobreviveu a uma queda. (a primeira vez que caiu ao chão partiu-se - Murphy's law). O drama, o Horror, a tragédia. A situação está resolvida, já tenho um novo eReader (o meu marido acha mais fácil aturar-me com eReader do que sem ele) mas a verdade é que, enquanto leitora, já não me é fácil viver sem eReader. Gosto da portabilidade da coisa, gosto de ler confortavelmente quando acordo ao sábado de manhã e o meu marido e o gato continuam a dormir, gosto de ler sem óculos, gosto da sensação de ir para outro país e ter dezenas de livros comigo, gosto de comprar livros a um preço (ligeiramente) mais reduzido, gosto do acesso directo a dicionários. Gosto de ler em formato electrónico. 

A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares

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"Seis números encontravam-se colados ao dado e dali não saiam. E não havia um sétimo algarismo, uma sétima hipótese. O limite era seis.

Era essa exactidão que o excitava, essa exactidão bem definida por limites inalteráveis que no entanto guardava ainda um espaço para as suas decisões estranhas , que na verdade não eram decisões. (...) A grande decisão que existia no jogo, era afinal essa decisão profunda e forte que é decidir que se aceita, decidir que se está pronto para a submissão absoluta, para a não interferência no desenrolar dos acontecimentos"

Joseph Walser é um homem que vive à margem da sua própria realidade. De forma absolutamente voluntária escolhe ser um espectador e não um protagonista da vida. Para além dos jogos semanais de dados, "funde-se" com uma máquina mantendo com ela uma relação simbiótica, de subserviência, quase de amizade e tem uma peculiar colecção que guarda no quarto do filho que nunca teve.

Gonçalo M. Tavares é um dos escritores que considero mais desafiantes. Gosto da sua escrita, gosto da sua forma de falar de uma coisa enquanto fala de outra, gosto do domínio que tem da língua, da literatura e gosto acima de tudo do facto que ser um escritor que não poupa o leitor, que não escreve (só) para os leitores. Gosto das constantes reflexões que o autor nos propõe a cada passo.

Falta-me muito para compreender na totalidade os livros deste escritor mas facilmente lhe reconheço o génio. 

Parece-me que a natureza humana, o bem e o mal, principalmente o mal, estão sempre presentes nos seus livros. 

A relação do Homem com a Máquina é, de facto, um tema central neste livro mas é a relação do Homem com o Homem que me  despertou mais a atenção. Joseph Walser busca a solidão e total autonomia em relação aos outros. 

"Não tinha sequer uma pistola, mas eliminara a grande fraqueza da existência, fizera desaparecer a primária fragilidade da espécie: não possuía qualquer inclinação para o amor ou para a amizade!"

"E Walser não pôde deixar naquele momento de ser capturado por um orgulho: ele, sim, era um grande Homem, como defendia Klober, que conseguia estar separado de todos os outros, um homem verdadeiramente sozinho e individual."

Este foi um livro que não "digeri" nem fácil, nem rapidamente. Aliás, já o li há algumas semanas mas volta e meia volta-me à mente e obriga-me a reflectir. E esse é um dos principais objectivos da literatura, não é? Obrigar-nos a reflectir, pensar. Incomodar-nos.