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Ler por aí

Ler por aí

Curtas #5 (2016): Ler antes de dormir

Arranjar tempo para ler é daqueles coisas que é impossível para alguns (sendo a principal razão o "não querer") e super simples para outros (qualquer minuto livre é bom para ler). Mas boa parte das pessoas reserva uns minutos para ler antes de dormir. Eu percebo porquê. O silêncio, o conforto, a rotina. Mas ler à noite é coisa que eu não posso fazer. 

Não o posso fazer porque, em primeiro lugar, sou uma pessoa a quem a leitura não dá sono. Não vale a pena pensarem que me embalam com histórias. E depois porque não tenho qualquer autocontrole na coisa. Não há aquela disciplina de ler um conto ou um capítulo ou até ao final de não sei o quê. Se vou para a cama e me ponho a ler, leio até que a razão me vence... geralmente poucas horas antes do despertador tocar pela manhã. 

Ontem tinha a firme intenção de ir apenas ler um bocadinho, 10 minutos no máximo, afinal estava mesmo a começar o duelo do Adolin com o Relis (and whomever he brings) mas depois o Sadeas fez aquilo e o Kaladin... bem, fiquei com vontade de desatar ao estalo ao Kaladin. Enfim, o que interessa é que o tempo passou, o sono desapareceu e... demasiado rapidamente o despertador tocou.

E hoje estou nas trevas...

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(imagem do Words of Radiance: Shallan's Sketchbook: shardplate

 

Uma palavra nova por dia...

Quando foi a última vez que tiveram que ir ao dicionário, durante a leitura de um livro em Português, para verificar o significado de uma palavra?

 

Todos (ou quase) nós nos sentimos um bocadinho orgulhosos quando nos dizem que "saudade" é uma palavra Portuguesa sem tradução. Como acho que é impossível que não se sinta saudade em estrangeiro, diria que, quanto muito, não há uma tradução óbvia, literal, uma correspondência perfeita. Talvez nós, portugueses  tenhamos conseguido fazer a tradução perfeita de um sentimento tão grande.

 

Diz-se por aí que estamos a perder vocabulário, que cada vez usamos menos palavras, que cada vez sabemos menos vocábulos, que a língua Portuguesa está a perder a riqueza (ou estamos a esquecê-la). Diz-se que isso é mais ou menos transversal e que acontece também noutras línguas mas choca-me mais que isso nos esteja a acontecer a nós porque... bem, porque eu gosto da língua Portuguesa, é minha, é nossa e, em última análise, está na mão dos escritores, dos leitores e de todos os falantes mimá-la, cuidá-la, protegê-la.

É verdade que já tenho reclamado (e agora começo a ter alguma vergonha disso) por deparar com textos que me obrigam a parar de ler para ir ao dicionário. Quebra a leitura, não é? Chateia um bocadinho e depois já não podemos dizer que a leitura foi "fluída" (essa maravilhoso adjetivo tão em voga e que basicamente significa "fácil"). Mas a verdade é que eu gosto de livros que me ensinem e considero (também) minha obrigação aprender e evoluir.

Uma pessoa (que tem quase sempre razão) dizia-me muitas vezes "Mas porque é que usas tantos anglicismos? Com a língua tão rica que temos, não haverá em Português, forma de dizer o mesmo?". Ainda hoje, fica um bocado irritada quando ouve jornalistas, deputados e outros que tais a deturpar a nossa língua. É verdade que há palavras, especialmente francesas, que por motivos sociais, culturais ou políticos, vieram para ficar e que hoje estão completamente aportuguesadas mas também isso faz parte da evolução da língua. Não é disso que falo. Falo de utilizarmos palavras como "performance" quando podíamos usar "desempenho" apenas porque isso nos faz parecer mais "fashion" (ou na moda). Falo de usarmos a palavra spoilers quando podemos dizer "vou falar dos pontos cruciais da história, estragando-vos a possível surpresa" (podemos fazer como a Catarina e chamar-lhe estragadores). Falo das TAG que de simples etiquetas que permitem identificar tudo o que se diz sobre um determinado assunto passaram a coisas um bocadinho diferentes. Falo de "taguear" (ou coisa que o valha) que não existe nem em português nem noutra língua qualquer e que se pode traduzir por "identificar" ou o velhinho "passa ao outro e não ao mesmo".

 

E sim, eu também uso muitos anglicismos. Eu também uso palavras inglesas porque às vezes é mais fácil do que procurar a tradução correta em Português. Portanto este post é (como aliás todos os que, por aqui, tratam assuntos generalistas) mais para me fazer pensar a mim do que a vocês mas ainda assim gostava de ouvir a vossa opinião sobre este assunto.

 

 

Os Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia

Os vampiros.jpg

 

 

Apaixonei-me por este livro à primeira vista. Naquele dia decidi que queria ler este livro, tê-lo na minha estante. Chegou hoje e já o li. Quer dizer, fiz a primeira leitura, assim à pressa com vontade de perceber o que era isto, como é ler um romance gráfico. Ansiava tanto pela história como pelo formato ou pelo objecto em sim.

 

Deixem-me confirmar aquilo que já devem saber: nunca tinha lido um romance gráfico e a única BD que alguma vez me atraiu foi a do Quino. Mafalda rules, sempre. Tirando a Mafalda li alguma coisa (pouca) do tio patinhas e afins, do Tintim e do Asterix. Mais nada. Andava com vontade de aventurar neste género e perceber se poderei alguma vez ser leitora de BD. Digo-vos já que a resposta é um muito claro NÃO.

Vamos por partes. 

Este livro como objecto é muito bom. A capa é linda. Simples, poderosa, atrativa. Diz-me claramente: "não venhas ao engano, não sou um livro fácil, não esperes beleza, sorrisos ou luz." A capa, o papel, são perfeitos para este tipo de livro. Mas é uma edição Tinta da China, estranho seria não ser perfeita.

Sobre o formato é, para mim, muito difícil opinar. Como disse antes, percebo zero de BD. A minha sensibilidade visual é assim para o inexistente. A primeira coisa que me salta à vista são as cores. Acho que são eficazes para transmitir o medo, a angústia ou até a culpa. Senti, no entanto, falta das cores vibrantes de África. Pouco, muito pouco nestas imagens me situou na Guiné. Podia ser noutra guerra qualquer, noutro sítio qualquer. Esta história vive muito de sentimentos, de expressões e a verdade é que lá para o final (e não se esqueçam de que falo apenas da primeira leitura) conseguia reconhecer cada um dos personagens. Gosto muito das imagens deste livro (chama-se "arte", certo?).

Já quanto à história fiquei com um certo pé atrás. Este é um livro de 228 páginas e é demasiado parco em palavras para mim. Nada contra quem adora e provavelmente não seria tão eficaz de outra forma mas eu senti a falta das letras, das palavras. E se a verdade é que as imagens contam a sua própria história a verdade é que o discurso dos personagens não me convenceu. Faltam expressões, falta calão (só palavrões não chegam), faltam expressões idiomáticas. Não consigo identificar um único personagem pela forma de falar, um ou outro pelo conteúdo do discurso mas nem isso é fácil. Talvez eu não tenha razão e esse tipo de coisa não tenha cabimento neste tipo de livro mas... senti a falta das palavras. 

A balança entre imagem e palavra não me pareceu muito equilibrada. Apesar disso acho que os autores conseguiram passar a mensagem que pretendiam. Apesar da história ser bastante previsível e da "moral da história" não ser propriamente uma grande novidade, a verdade é que esta mistura de história de guerra e de filme de terror é interessante. 

Este livro, que vai fazer óptima figura na minha estante, não me afastou completamente do género mas também não me fez ter vontade de continuar  a ler romances gráficos.

 

 

O teste do tempo

Fiquei a pensar nas leituras de clássicos da literatura depois de ler o post da Sara “10 razões para ler clássicos”.

Ouvi algures (acho que foi no primeiro episódio do Biblioteca de Bolso quando o “D. Quixote” foi sugerido) que há livros que pela sua dimensão só se lêem na adolescência ou na reforma. Concordo absolutamente com isso e, apesar de ficar feliz com a profusão de livros que existem para miúdos/adolescentes, com a existência de bibliotecas e com a predisposição dos pais em investirem em literatura, acho que os clássicos vão perder alguma da sua importância com isso.

Quem é o miúdo/adolescente que vai pegar num clássico velhinho, com a capa feia e um cheiro a livro velho (eu adoro livros mas não me venham com cheiro a livro velho que começo já a espirrar, sim?) e com uma linguagem não adaptada aos dias de hoje se tem ali à mão de semear o último best seller? Posso estar errada mas diria “muito poucos”. Eu adorava ler mas o meu “eu adolescente” preferia livros novos e de aventuras.

É verdade que há sempre quem goste de clássicos (um beijinho, Sara) mas a verdade é que a maioria de nós leu Agatha Christie porque havia em barda nas feiras do livro (uma vénia à coleção vampiro) e alguns clássicos porque não teve “alternativa”, porque tinha imenso tempo para gastar e porque não nos deixavam ir para a rua nas horas de maior calor.

Li um dos meus livros favoritos (O conde de Monte Cristo) precisamente porque estava em casa da minha avó e não tinha “nada para ler”. Não li muitos clássicos mas li (várias vezes) livros como Terra Bendita de Pearl S. Buck (sem ter a noção de que estava a ler um prémio Nobel da literatura ou provavelmente tinha-me acagaçado), Os três mosqueteiros ou Jane Eyre. E nem falo dos clássicos portugueses (alguém ainda lê Júlio Dinis? Mamãe fez-me ler aquilo tudo no verão dos meus 12 anos, acho)…

E não consigo deixar de pensar que esta geração privilegiada que tem sempre livros novos por ler fica a perder algo por passar ao lado de alguns destes livros na altura da sua vida em que o tempo não é um recurso escasso.

The Way of Kings, de Brandon Sanderson

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Quase dois meses depois fechei o The Way of Kings com um misto de saudade e de vontade de pegar no Words of Radiance, o segundo volume destes The Stormlight Archive. Para todos os que me seguem no Twitter é óbvio que adorei este livro. Os que me seguem no Goodreads talvez tenham ficado surpreendidos quando dei "apenas" 4 estrelas a este The Way of Kings e não 5. Deixem-me começar este post por explicar isso. 4 estrelas significam a esperança que algum(s) dos 9 seguintes volumes da saga ainda seja melhor que este. Se não for, então prometo que vou lá alterar para as 5 estrelas.

 

A saga Stormlight Archives, que se diz ir ter 10 volumes, é do género fantasia épica e apresenta-nos mais um mundo (Roshar) de Cosmere, o Universo que está paulatinamente a ser criado Brandon Sanderson. Depois de ter ficado completamente agarrada com a série Mistborn (The final empire, The wall of ascencion e The Hero of ages) decidi (muito por culpa da Diana) começar a ler o The way of Kings e, subitamente, vi-me envolvida numa mega saga da fantasia épica (Cosmere) que ainda mal entendo mas que quero muito desvendar e conhecer. E eu, que prefiro livros adhoc ou na pior da hipóteses séries terminadas, vejo-me a ler e a fazer planos para ler livros de séries que mal estão começadas e a não me chatear nem um bocadinho com isso. E como já devem der percebido ando aqui a engonhar porque nem sei bem o que vos dizer acerca deste livro. Mas vamos lá...

 

Este primeiro volume apresenta-nos a Roshar, um mundo (que sim, também é protagonista) onde o poder está nas mãos de quem tem os olhos mais claros. É vários vezes discutida no livro a arbitrariedade da escolha de quem lidera.

Este é, sem dúvida, um livro de World Building, de construção de um mundo. Começamos por assistir ao momento em que 9 dos 10 heralds, no final de uma guerra (Desolation) contra os Voidbringer, se recusam a voltar para o Inferno lá do sítio (Damnation) quebrando um pacto antigo (the Oathpact).

 Os protagonistas deste livro são vários, Dalinar, Kaladin, Syl, Shallan, Jasnah, Szeth. É sobretudo pela voz e mão de Kaladin que somos guiados para este mundo e que começamos a compreender a estratificação desta sociedade onde a cor dos olhos é importante, as mulheres devem esconder a mão esquerda e onde ler ou escrever é apenas uma atividade feminina. Os sinais de alerta são tão gritantes que nem o mais tolo dos tolos consegue dizer que este é um livro que nada tem de real e que não levanta questões importantes e extremamente atuais. E ainda por cima fá-lo com uma história com personagens maravilhosos e interessantes e com magia.

Um Rei foi assassinado pelo Thruthless Szeth, os seus filhos e irmão vão vingar a sua morte nas Shattered Plains, numa guerra que mais parece um jogo entre nobres do que uma guerra que se pretende, efetivamente, ganhar. Dalinar (irmão do rei morto) vive na angustia de não perceber se as visões que tem durante as HighStorms são reais ou significam que está à beira da loucura. Kalinar e a sua mania de se manter afastado das Shardbades atiram-no para a escravatura. Jasnah, uma soulcaster, procura o verdadeiro significado para a morte do pai (o Rei Gavilar) e Shallan acaba por ir dar uma volta a Shadesmar sem saber bem como.

A verdade é que não faz qualquer sentido contar-vos esta história. Se vos agucei a curiosidade leiam o livro e depois podemos falar sobre ele. Não se assustem com o número de páginas. É muito mais fácil entrar neste mundo do que parece. Talvez faça sentido lerem primeiro outras coisas de Brandon Sanderson, talvez vos prepare melhor para estes Stormlight Archives. Há também imensos textos de apoio, explicações e ilustrações que podem encontrar por aí e que vos podem ajudar a situar-se na história. No final do vosso livro estão dicas, consultem-nas. Ao longo da história há mapas e ilustrações fundamentais.

Resta-me desejar-vos uma ótima aventura através de Roshar e deixar-vos uma imagem do prólogo. Cada capítulo começa com este género de frases, aparentemente sem uma grande ligação à história mas que, quando as percebemos, nos embrulha o estômago de uma maneira insuportável.

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