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Ler por aí

Ler por aí

2 livros e uma recomendação

Não sou de ler dois livros ao mesmo tempo mas comecei a ler o "Vozes de Chernobyl", de Svetlana Alexievich e sei que não vou aguentar ler apenas aquilo. O livro é muito bom mas o tema e as vozes deste livro são demasiado fortes, a dor é demasiado pungente e não é um livro para ser de uma assentada. E porque estou ainda fascinada com o "Teoria dos Limites" da Maria Manuel Viana resolvi ir conhecer a história de uma das personagens deste livro e comecei também a ler o "A vida dupla de Mª João". 

 

E por falar em Teoria dos Limites, como é que posso convencer-vos a ler este livro? Vá lá, arrisquem um bocadinho, leiam algo diferente, ultrapassem os vossos próprios limites. Desafiem-se.

 

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Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana

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Leibniz, matemático e filósofo, diz-nos, entre tantas outras coisas, que "o todo não é a soma das partes mas sim a sucessão, a integração  mais a sua interação". Pegar nisto, na noção de limite e continuidade, na pirâmide de base infinita e transformar tudo em literatura (sobre literatura) é algo assombroso mas perfeitamente possível para Maria Manuel Viana.

Tal como, apesar de uma função não estar necessariamente definida num ponto o limite nesse ponto pode existir, assim todos os personagens deste livro convergem para o Escritor, para o Outro que, enquanto vivo, foi uma âncora na vida de todos estes personagens. Aqui conhecemos, através da sua convergência para este homem, Mariana, Ana Sofia, Ana Lúcia, João Caetano, a Velha Senhora, Ana B e Maria João, e conhecemos as suas perspectivas em relação ao Outro sem, no entanto, o conhecer verdadeiramente. 

Depois de me ter sido repetidamente aconselhado pelos Rodistas, rendi-me à escrita desta escritora e a este livro de pouco mais de 150 páginas mas que é do melhor que já li. Sem me querer armar em pedante, tenho total noção que este livro não é para toda a gente, que nem todos os leitores estão interessados neste género de literatura mas tenho a certeza que faria bem a todos lê-lo, obrigar-se a pensar, a refletir nas questões que este livro nos põe. E não tenho dúvidas que cada leitor o lerá de forma diferente. Para mim este é um livro sobre possibilidades, sobre escolhas e consequências. Sobre o que somos, como nos vemos e como os outros nos vêem. Na diferença entre essas três perspectivas. E no esforço que fazemos para que essas perspectivas se aproximem ou se afastem. E no que o que somos e as escolhas que fazemos influenciam os outros, os que, de alguma forma, convergem para nós.

 

 

 

 

 

 

Curtas #4 (2016): Ebooks e Viagens

Nada como levar alguns ebooks para ler quando vamos de viagem. Um leitor digno desse nome nunca entra dentro de um avião sem um (ou mais) livros, nem se prepara para alguns dias de trabalho além-fronteiras sem dedicar algum tempo à escolha (difícil) das leituras para os dias em que não pode aceder à sua biblioteca particular.

E claro que nestas alturas percebemos que não temos em casa nada para ler e ir a uma livraria online é fundamental. Desde que a Diana falou do livro no Só Ler Não Basta que ando à espera de uma oportunidade para o comprar. E pronto, foi hoje. O Way of Kings, do Brandon Sanderson, vai fazer-me companhia na próxima viagem. 

Já nem espero pelas traduções em Português uma vez que este autor é publicado pela Saída de Emergência, que tem a doce mania de dividir os livros às metades, coisa que me tira do sério. Prefiro não me irritar e comprar em Inglês mesmo. Este, com mais de mil páginas, custou-me menos de 10 euros e nem DRM trazia. Sim, foi a primeira vez que comprei um ebook sem DRM (essa informação foi dada na compra - por ordem do editor, ebook sem DRM). Gostei e fiquei com vontade de comprar mais.

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Sempre vivemos no Castelo, de Shirley Jackson

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«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.»

Depois da atração, a curiosidade. Depois da curiosidade, a angústia. E é um enorme privilégio deixarmo-nos conduzir pela mão de uma menina-mulher até às profundezas de uma mente deturpada, olhando através dos seus olhos para a nossa própria imagem desfocada.

Primeiro Shirley Jackson fala-nos do medo e do preconceito. Da coragem de ser diferente. Depois troca-nos as voltas e leva-nos pela mão através da loucura, da inocência e da culpa. A solidão, o sacrifício e o amor também estão bem marcados nestas páginas.

Desde cedo me deixei conquistar por Merricat, uma personagem fascinante, e pelo seu fiel gato Jonas. Com eles acreditei que as palavras têm o poder de tecer uma proteção à nossa volta e com eles odiei Charles.

Nunca vou conseguir escrever nada de jeito sobre este livro porque, por um lado, não vos quero estragar a leitura contando demais, e por outro porque cedo percebi que este seria um dos “meus” livros de sempre.

Fantasia para dois coronéis e uma piscina, de Mário de Carvalho

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Confesso que peguei neste “Fantasia para dois Coronéis e uma piscina” um bocado a medo. “Medo” não será, talvez, a melhor palavra. Talvez “Respeito”. O respeito que o nome “Mário de Carvalho” transmite. Não sei que esperava mas não era certamente rir à gargalhada. E a verdade é que me ri muito com este livro. Não porque a história seja divertida, porque se for a pensar bem, não o é, é até uma crítica bastante contundente à nossa sociedade. Não por causa da escrita, que é maravilhosa e apesar de me ter obrigado a, volta e meia, dar uma olhadela ao dicionário, é ligeira e escorreita. Ri porque o “non-sense” de determinadas partes me deixou de boca aberta, ri porque há nestas páginas situações muito bem apanhadas. A cena do Xadrez é hilariante (como quase tudo o que rodeia Emanuel) e as da Baronesa são deliciosas.

O ponto forte deste livro não é a história no seu todo. Este é um caso em que, na minha opinião, as partes são bem mais fortes que o todo. Não tenho dúvidas que a maioria das coisas me passou ao lado (uma só leitura não é suficiente para compreender este livro) mas achei muito interessante ver como o autor usa o domínio da linguagem, seja através do elemento surreal (na cena da estação de serviço ou nas conversas entre o Mocho e Melro, por exemplo) ou da piada.

Neste livro, em que dois coronéis passam o tempo na piscina toda a gente fala, conversa. Conversa gente, conversam bichos, até o narrador conversa. Mas eu gostei especialmente de quando um dos coronéis conta uma história do seu passado e no final o outro diz: “se calhar isso passou-se mas foi comigo”.

A Mulher, de Meg Wolitzer

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Foi em 2003 que Meg Wolitzer publicou este “A mulher” que foi agora num “pós”- Os interessantes, reeditado pela Teorema.

Assim que me apercebi de que este livro foi publicado 10 anos antes que Os interessantes as minhas expectativas baixaram consideravelmente e isso foi mesmo o melhor que aconteceu. Ler este livro nessa perspetiva permitiu-me apreciá-lo de uma forma completamente diferente.

Tal como anos mais tarde fará no “Os interessantes” (é inevitável compará-los) MW brinca com a perceção (a nossa e a dos personagens), explora sentimentos e alguns grandes temas. Já neste livro o “talento” é esmiuçado e dissecado, já aqui os porquês e os como são bem mais importantes que o fim em si. Até porque, sabemos o fim deste o início. Deste o início foi um gato escondido com o gato de fora, de tal forma que, às páginas tantas, cheguei à conclusão que essa era a ideia. A escritora sabia que nós sabíamos mas fingia que não porque isso não interessa de todo. É por sabermos que podemos dar-nos ao luxo de, ao longo de toda a leitura, passarmos para lá das letras e analisarmos sentimentos, posturas, épocas, mentalidades.

Não posso deixar de destacar a evolução deste para o “Os interessantes” mas acabei por gostar bastante deste “A mulher” que se lê num instante e que tem um final agridoce, que por muito previsível que fosse, lhe deu um toque de realidade que nos põe a pensar.

Eu não ia escrever um post sobre a feira do livro

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Juro que não ia escrever. Estou tão farta de ver o "mesmo" post, uma e outra vez.

Mas não resisti. Ontem tive um evento por lá (o regresso da comunidade LeYa), fui mais cedo, levei a máquina e andei a tirar umas fotos. Gosto tanto de estar na feira sozinha (e acabar a jantar em ótima companhia), a passear, com calma, a olhar para a feira para além dos livros.

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 E depois foi o regresso da comunidade de leitores mais fixe de Lisboa e arredores. Ontem tivemos o privilégio de ficar a ouvir o editor Zeferino Coelho, responsável pela Coleção Livros da RTP, que (para além de ser uma simpatia) fala de livros com um amor que se sente. Ali ficámos a ouvir e a descobrir esta coleção cheia de bons livros, a um preço acessível - cada um dos livros em capa dura custa 10 € (ou 9€ porque é fácil encontrá-los com 10% de desconto), conhecer-lhe alguns "segredos", detalhes que de outra forma poderiam passar despercebidos (todos os desenhos da capa são feitos com letras!!!), saber o que está atrás da escolha de cada título, ter um vislumbre do que por aí vem. E ainda receber um presente muito especial (Obrigada!!! Vocês foram para lá de espetaculares).

Fiquei cheia de vontade de fazer esta coleção. Irei, certamente, comprar e ler alguns dos títulos que irão ser publicados. 

 

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Conversas (sur)reais #4: O orçamento da Feira do Livro

Em conversa com Mamãe depois de chegar da Feira do Livro:

 

Mãe: Então a Feira? Compraste muitos livros?

Eu: Não. O costume. O orçamento para a feira é de 20€ e cumpri. Dois nos alfarrabistas (um Ondjaki e um Harry Potter para acabar a coleção em português) e um novo do escritor que vem conversar com a Roda dos Livros no dia 06 de Junho

Mãe: Ainda me lembro do que gastei da última vez que te levei a uma feira do livro. 

Eu: Ena, eu fiz a minha colecção da Agatha Christie e do Sherlock Holmes nas feiras do Livro...

Mãe: Querias os livros todos. Nessa feira do Livro em Loulé gastei 5 contos em livros para ti.

Eu: Eh, eh, bem bom

Mãe: Dinheiro gasto em livros é sempre um bom investimento.

 

(2 conlusões: a culpa de eu ser viciada em livros é da minha mãe - abençoada seja - e o orçamento que reservo para a feira aos 37 é menor do que o que tinha aos 12 ou 13. Se calhar está na hora de aumentar o orçamentos das feiras...)

 

 

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