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Ler por aí

Ler por aí

O escritor e a sua obra

Será possível separar o escritor da sua obra? O que é mais justo: separar ou não? Julgar a obra esquecendo a mão que a escreveu ou rejeitar a obra por não suportar a mão que a escreveu?

Tenho pensado neste tema por causa de dois escritores específicos mas antes de abordar casos específicos, generalizemos.

Acho que será mais ou menos unânime que a obra é uma coisa e que a pessoa é outra. Não faltam exemplos de grandes artistas que são, para ser simpática, fantásticas pessoas. Basta uma busca rápida no Google para se ficar horrorizado com o que se lê sobre Picasso, Byron ou Wagner. Hemingway, Enid Blyton ou Lewis Carrol também não ficam bem na fotografia.

A minha opinião é assim meio esquizofrénica. A verdade é que tanto acho que há pessoas e crimes que me fazem ter vontade de dizer que as suas obras, por melhores que sejam, deviam ser proibidas, banidas da face da terra, por outro lado sei que o tempo e o espaço fazem com que a obra seja julgada por si e que isso é o mais correto.

O tempo e o espaço.

Qualquer um de nós será capaz de ler os livros (ou obras) de qualquer criminoso desde que consigamos ter uma distância temporal suficiente para não haja uma identificação com as vítimas ou com o crime em si. E quando a pessoa é “apenas” má pessoa, sem que haja crimes envolvidos, então torna-se bem mais fácil conseguir apreciar as suas obras “humanizando-a”. Quem se importa que um escritor tenha sido um pai ausente se foi isso que permitiu que desse ao mundo uma obra fantástica? Quem se importa que tenha sido um marido desprezível se o seu trabalho é fenomenal?

Quem se importa que tenha sido uma pessoa menor se foi um artista maior?

A verdade é que só se importa quem tem uma ligação mais ou menos pessoal com ele/a. Caso contrário os defeitos são apenas uma nota de rodapé, uma curiosidade. Aqui o tempo e o espaço fazem o seu trabalho de protetores da arte.

Por vezes debatemo-nos com informações sobre os autores das nossas obras de arte favoritas que preferíamos não saber, que de alguma forma diminuem a obra por diminuírem a pessoa. Até chegam a diminuir-nos a nós, porque sermos apreciadores da obra mas a verdade é que se deixarmos o tempo e o espaço fazerem o seu trabalho talvez (apenas talvez) consigamos separar o autor e sua obra.

Sim, tenho dois nomes na cabeça ao escrever este texto. Nomes grandes da literatura Portuguesa e Mundial de gente de quem não gosto enquanto pessoa mas a quem reconheço o génio na obra. E acabo sempre por preferir fazer um esforço de distanciamento (nem sempre corre bem) e tentar olhar apenas para a obra.

 

(Mais opiniões sobre este tema:  Magda )

O Coro dos Defuntos de António Tavares

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Portugal rural e Portugal no mundo visto de uma maneira deliciosa e delirante. Nem o facto de haver um glossário no final do livro, que consultei afincadamente mas menos vezes do que previa, me fez desistir.

Há toda uma panóplia maravilhosa de personagens, a avó mística e meio maluca que tanto fazia partos e trazia vida à aldeia como era chamada para lavar e vestir os mortos.

A Rainha que morreu três vezes mas foi viúva muito mais vezes do que essas e que tinha uma irmã, que ao contrário dela era “seca e comprida como um rabo de bacalhau”.

Manuel Rato rapaz excêntrico, expulso do seminário por ler livros proibidos, que andava pelos montes, “Os caçadores viam-no pela noite, andando e saltaricando como um lobo, e pensavam que lhe tinha dado para a licantropia” e falava sozinho, “Uma melopeia interior que parecia um zumbido, como se tivesse engolido uma cana de toque ou um vibrante berimbau”, emigra para os EUA, volta, desaparece, volta outra vez, desaparece novamente...

Chichona a velha anafada ainda bonita que tinha sido prostituta na capital e acaba assassinada dando um mote de mistério à história.

Júlio Peixeiro que trazia as novidades à aldeia junto com os carapaus e as cavalas.

Zé Violeiro que quando deixou de beber perdeu a afinação dos cavaquinhos e violas, “Os tocadores queixavam-se do mau som que deles saía, um estalo quebradiço em que as notas pareciam trocadas” e assim abandonou as duas coisas de que mais gostava, a música e a branquinha.

Olivita a coleccionadora de santinhos que desaparece da aldeia para voltar toda emperiquitada a vestir meias de náilon, coisa nunca usada pelas outras mulheres da aldeia.

Tritão, o dono da tasca, comprou a primeira televisão e a partir desse dia a aldeia não voltou a ser a mesma.

O padre Sebastião que dizem é o pai do Manuel Rato e outros tantos personagens cada qual com os seus dramas a contribuir para a história alguns com morte e mistério. Mas os meus preferidos são o Labruaco que vivia das pedras e o Fogueteiro, negociante de explosivos. Juntos faziam uma sociedade e quando o primeiro homem chegou à lua o consenso foi geral: “Não passa de um calhau redondo, dizia. É boa para o Labruaco e o Fogueteiro irem para lá fazer rebentamentos!”

Uma das coisas que adorei neste livro foi o facto do autor nos dar pontos comparativos do que se passa no mundo com o que se passa na aldeia e em Portugal. Quando Io Apoloni está na capa da revista Plateia em Munique são assassinados atletas olímpicos israelitas. Na aldeia “após TV” discute-se porque não há estradas no espaço, no Chile morre o presidente. Quanto se começa a desobedecer ao regime e se canta canta Grândola, Vila Morena estreia A Golpada com Robert Redford e Paul Newman. Na capital estreia o filme Jesus Cristo Superstar mas “aquele Cristo do rock, de estilo pop e urbano, não era dali. O da aldeia estava bem preso à cruz e nunca de lá saía. Sofria a todo o instante e as suas chagas sangravam todos os dias”. E quando Paulo de Carvalho vai à Eurovisão cantar E depois do Adeus quem ganha são os Abba com Waterloo: “Para os homens da aldeia era unânime que, se os outros mandavam gajas boas e nós uns tipos manhosos, haveríamos de perder sempre.”

 

E finalmente o título explicado em duas frases que eu achei hilariante:

       "Não se pense que quando se enterra um cangalheiro tudo se passa tal como com o comum dos mortais. Os notabilíssimos homens da cangalha são recebidos em ovação no além e esperam-nos todos os que eles ajudaram a enterrar."

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

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 Fahrenheit 451,

A temperatura a que o papel do livro

se incendeia a arde 

 

Guy Montag é um bombeiro. Mas os bombeiros já não apagam fogos, afinal todas as casas são à prova de fogo. Os bombeiros queimam livros. São chamados para exterminar os poucos livros que ainda restam. Os livros que impedem a felicidade, perturbam as minorias, impedem a uniformização, a normalização da sociedade. Porque "nem todos nasceram livres e iguais, como diz a constituição, mas todos foram tornados iguais. Cada homem é a imagem de todos os outros; depois todos ficam felizes, porque não há montanhas que os obriguem a aninhar-se, a julgar-se. Assim! Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queima-se. Tira-se a bala. Abre-se uma brecha no espírito do homem."

Quando Clarisse lhe pergunta se é feliz, Montag não consegui evitar questionar-se. E é a sua luta contra o sistema que acompanhamos ao longo destas páginas. E é inevitável sentirmo-nos inundados pela angústia que está presente em cada frase, cada página deste livro. No centro, a luta de homem, a coragem necessária para um homem se confrontar a si próprio (maior que a necessária para confrontar o próprio sistema) e perceber que nada tem a perder, que a sua própria vida não é importante porque é vazia de sentido.

Foi em 1950 que Ray Bradbury começou a escrever o rascunho de "The Fire Man" que viria a ser "Fahrenheit 451". 1950. Há já 66 anos. O tempo de uma vida passou, tantas vidas passaram entretanto e ler este livro é ser constantemente puxado para o presente. É inevitável ler este livro e não percebermos que aquela é a vida de tanta gente, que escolhe sobreviver sendo conduzida, esvaziando a mente, vivendo emoções virtualmente, tornando sua a vida de personagens vazias e secas e esquecendo-se de viver, de construir a própria vida.

Visionário ou arauto de desgraças, não sei. Visionário, sem dúvida. Afinal, como o autor nos diz na parte final deste livro:

"Há mais do que uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas que correm de um lado para o outro com fósforos acesos."

Leiam, é um livro incontornável.

Podcast para leitores

Depois dos Blogs e Vlogs, viciei-me em Podcast. Tem várias vantagens em relação aos Blogs/Vlogs

  • posso ouvir em qualquer sítio - faço download em casa e depois oiço em qualquer sítio (carro, ginásio, etc)
  • é uma óptima forma de me isolar quando preciso concentrar-me nalguma coisa - sim, sou capaz de estar concentrada em algo e ir ouvindo gente a a falar de livros
  • a qualidade é muito melhor que a da maioria dos blogs e vlogs 

Em relação aos livros (porque depois há mais dois ou três de opinião que adoro) oiço os seguintes:

 

Portugueses:

  • O livro do dia, da TSF
  • Biblioteca de Bolso
  • Pessoal e Transmissível, da TSF

 

Brasileiros:

  • Podcast de Literatura: 30:MIN

 

Todos são muito, muito bons. Ainda estou na fase de ouvir episódios passados porque "descobri" os podcast de literatura há pouco tempo (só ouvia o Governo Sombra, os Cromos da Comercial e o Livro do Dia da TSF) mas parece-me que esgotei os Portugueses e que mesmo brasileiros não há assim tantos (os que são de fãs de uma série não me interessam). Se conhecerem algum que acham que posso gostar deixem aqui nos comentário, ok? Obrigada.

 

Ah, uso o Podcast Addict no telmóvel  e o Itunes no computador.

Roda dos Livros

A Roda dos Livros, está num concurso! E há n razões para votarem no nosso blog para o melhor blog de literatura do ano de 2015.

Ora vejamos:

1. A roda dos livros é a tertúlia literária mais rebelde e caótica do país. Não seguimos regras, excepto a que diz que por lá é o amor pelos livros que manda.

2. Somos divertidos. Juro. Até já levámos um raspanete porque estávamos a fazer demasiado barulho. A culpa foi da Elena Ferrante, um dia conto-vos a história

3. Temos um logo muita giro e um fotográfo fantástico que tem paciência para aturar montes de malucos por livros (já conhecem o Gil Cardoso)

4. Somos mais que uma tertúlia. Somos AMIGOS. E isso, é impagável.

....

E mais importante que tudo: somos tantos que temos por lá opiniões para (quase) todos os gostos. Poderia dizer que somos ecléticos (que somos) mas o que temos mesmo é um enorme amor pela leitura, pelos livros e que resolvemos partilhar isso com todos (infelizmente, o espaço não estica e nem toda a gente pode juntar-se a este grupo fantástico) neste blog. E daqui a pouco tempo vai haver uma enorme surpresa para todos os que nos quiserem conhecer melhor (mas eu não vos disse isto, está bem?).

E porque na Roda a Literatura Portuguesa tem um lugar especial e porque por lá tenho aprendido tanto.

Portanto ide votar na Roda dos Livros em:

Top Blogs Awards 2015

(e ainda podem ganhar vales da FNAC)

(e eu não gosto de perder nem a feijões - e isto é a feijões - ptto, porrrr Favorrrrr (assim mesmo com o sotaque do Conde de Contarrrr) ide lá votar no blog da Roda, sim? Obrigada)

O Amante Japonês, de Isabel Allende

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Allende, é sempre Allende. Mesmo quando não é fantástico, é sempre bom regressar aos livros de Isabel Allende. Mais que escritora é uma enorme contadora de histórias. E eu adoro uma história bem contada. Não interessa a volta que dê, é sempre a história o que mais me agarra, o que me fascina, o que me faz leitora.

Posto isto, não, não é o melhor do livro de Isabel Allende. Mas lê-se que é uma maravilha, aquece-nos a alma e faz-nos companhia durante umas boas horas.

Isabel Allende vem contar-nos histórias de amor. Daquelas que sobrevivem ao tempo, daquelas que vencem batalhas, das que são vencidas pelo preconceito, das que vencem os preconceitos. Allende conta-nos a amizade (o maior de todos os amores), conta-nos a beleza, o talento, a resignação, a força. 

Uma jovem, Irina, vai trabalhar para um lar de idosos onde conhece Alma, uma utente, e, através dela, Seth. Temos então a primeira história de Amor. Seth apaixona-se loucamente pela Irina e torna-se visita habitual da Avó, que aproveita desavergonhadamente a situação (não só é a forma de ver mais o neto mas o achar que Irina será o escândalo perfeito para o neto).

Seth e Irina vão juntar-se para "descobrir" a história de Alma. Quem será o homem com quem Alma se encontra regularmente? Quem lhe envia as cartas amarelas?

Mas desengana-se quem acha que apenas de amor se faz este livro. Aprendi bastante (campos de concentração de japoneses em território americano? Não fazia ideia) e reflecti bastante. Eutanásia, droga, suicídio, velhice, morte enfim... vida. 

Vale sempre a pena ler Allende.

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

 

 

Screen Shot 2016-02-14 at 21.38.44.png  451 50 anos.jpg

 

 

Não sei de quem foi a ideia peregrina de ler este livro na versão brasileira, pois é... se calhar fui eu que me entusiasmei com o facto de ser só um euro numa Sebo de Curitiba.

A verdade é que me estava a enervar o facto de, ao ler o livro, só imaginar uma série de TV com “dublagem Herbert Richers”. Não estou a dizer que a tradução brasileira não seja boa, é com certeza, mas neste caso não é para mim.

Empunhando o bocal de bronze, a grande víbora cuspindo seu querosene peçonhento sobre o mundo, o sangue latejava em sua cabeça e suas mãos eram as de um prodigioso maestro regendo todas as sinfonias de chamas e labaredas para derrubar os farrapos e as ruínas carbonizadas da história. Na cabeça impassível, o capacete simbólico com o número 451 e, nos olhos, a chama laranja antecipando o que viria a seguir, ele acionou o acendedor e a casa saltou numa fogueira faminta que manchou de vermelho, amarelo e negro o céu do crepúsculo.

… enquanto os livros morriam num estertor de pombos na varanda e no gramado da casa.

 

Encontrado o mesmo livro em versão original, releio desde o princípio e é como se fosse um livro diferente logo à primeira página, até me chamuscou as bochechas.

...

With the brass nozzle in his fists, with this great python spitting its venomous kerosene upon the world, the blood pounded in his head, and his hands were the hands of some amazing conductor playing all the symphonies of blazing and burning to bring down the tatters and charcoal ruins of history. With his symbolic helmet numbered 451 on his stolid head, and his eyes all orange flame with the thought of what came next, he flicked the igniter and the house jumped up in a gorging fire that burned the evening sky red and yellow and black.

... while the flapping pigeon-winged books died on the porch and lawn of the house.

 

Confesso que sempre que leio clássicos fico com um pé atrás mas este, ao contrário de outros (desculpa Kerouac, desculpa Joyce), não me deixou ficar mal. Embora tenha sido escrito há mais de 60 anos a forma como está actual hoje em dia é maquiavélico e assustador. Se o autor não conseguiu imaginar os telemóveis e ainda fala em cabines telefónicas, imaginou as caixas multibanco, o desaparecimento dos jornais escritos em papel, continuação de guerras e os ecrãs gigantes em cada casa, a estupidificação das pessoas com programas rasca continuamente a passar nesses ecrãs.

A escrita é vívida, transporta-nos na história, o calor de tantos livros queimados aquece-nos e faz-nos ter medo. Seguimos o bombeiro Guy Montag na sua evolução de queimador de livros para fugitivo possuidor de livros e no final, a forma encontrada para fazer persistir os livros, senão na sua forma original mas numa alternativa, é muito engenhosa.

 

Conseguem imaginar? Se todos os livros fossem queimados da face da terra?

 

Ontem foi um dia triste

“When writers die they become books, which is, after all, not too bad an incarnation.”

— Jorge Luis Borges

 

Espero que seja verdade.

 

Umberto Eco

Janeiro 5, 1932 - Fevereiro 19, 2016

 

Harper Lee

Abril 28, 1926 - Fevereiro 19, 2016,

O que vais ler a seguir?

Eu tinha um plano que era escolher um livro da(s) minha(s) pilha de livros a ler:

livros por ler.jpg

 Mas ontem fui à Roda do Livros e, não sei como, saí de lá com estes para ler:

livros roda.jpg

 Mas como combinado, aqui com a minha companheira de blog, vou ler este:

Screen Shot 2016-02-14 at 21.38.44.png 

Bondinho da Leitura - ainda o Brasil

Bondinho.JPG

 

 

Encontrei este Bondinho da Leitura quando passeava pelo “calçadão da 15” (como dizem os locais) que é a rua das lojas de Curitiba, Rua XV de Novembro, onde não passam carros. Estava um pouco vandalizado e sujo, não consegui perceber se estava fechado permanentemente ou se era devido ao adiantado da hora mas fiquei com muita curiosidade. Infelizmente não tive oportunidade de lá voltar.

Depois de uma pesquisa rápida na net encontrei: http://www.fundacaoculturaldecuritiba.com.br/espacos-culturais/bondinho-da-leitura/. Existe desde 1973! E ainda funciona, quando passei por lá já eram umas sete da tarde por isso estava fechado.

Em Lisboa não temos um eléctrico da leitura (ideia bem gira!) mas temos uma fantástica Cabine da Leitura, já conhecem?

 

 

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