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Ler por aí

Ler por aí

Flores, de Afonso Cruz

 

O que farias para salvar o teu livro preferido? A que sabem os vossos beijos? Consegues imaginar um futuro de silêncio? Nós temos um cravo como símbolo da liberdade e da revolução, mas poderá uma simples flor criar uma tal onda que provoque uma revolução?
 
Esta é a história de um homem que perdeu o passado e o futuro. E é também a história de outro homem que perdeu o presente, que se perdeu no seu presente, e que acaba a tentar encontrar o passado do primeiro homem ajudando-se mais a si que ao outro. Ou é talvez a história de uma menina que por amor incondicional a um amigo improvável acaba por aprender a perdoar. Ou a história de uma mulher que com uma flor mudou, sem saber e durante algum tempo, o rumo de gentes. Ou a nossa história no mundo, um grito de alerta, uma chamada de atenção para que vejamos a paisagem, para que não percamos a cena completa por estarmos muito próximos das coisas*. 
 
Com uma critica social e política tenebrosamente certeira, com histórias dentro de histórias (ou talvez ao redor das histórias, nem sei) Afonso Cruz conseguiu fazer-me rir e (quase) chorar.
 
É o terceiro livro de Afonso Cruz que leio e sei como toda a gente adora o "Guarda-Chuvas" mas este Flores é o meu livro de AC. Apanhou-me de surpresa, enganou-me, enredou-me e encantou-me. Sou um bocadinho egoísta em relação aos livros: digo muitas vezes que me importa mais o que eu sinto e percebo de um livro do que aquilo que o escritor realmente quis transmitir. E aqui, com este Flores, isso não podia ser mais verdade. Até posso não ter percebido o que o escritor quis transmitir mas o que recebi foi tanto que isso chega. Por isso não tenho dúvidas que este vai ser o meu livro do ano. E que o vou reler muitas vezes (apetece-me começar a lê-lo outra vez). E depois do final dos Guarda-Chuvas, fiz finalmente as pazes com o Afonso Cruz.
 
 
* Frase roubada e adaptada duma certa página deste livro...



Curtas #15 (2015) : Perdi-me…

De alguma forma perdi-me nos últimos meses. Nunca fui de comprar livrosdesenfreadamente, nunca fui de comprar as últimas novidades, nunca estiveatualizada em relação às novidades editoriais. E subitamente a Roda dos Livrosmudou isto tudo. Subitamente sei o que vai saindo, há sempre alguém que tem aúltima novidade, há sempre alguém que chama a atenção para um lançamento, parao último livro daquele escritor maravilhoso que adoro. E os ebooks vieram mudartambém as regras do jogo: é demasiado fácil comprar em ebook. Posso comprar osebooks em qualquer sítio, a qualquer hora. E os livros acumulam-se de uma formainsuportável.
Na semana passada, quando fui ao encontro do LEYA em Grupo, vim de lá com 4livros novos. Dois (Os Anagramas de Varsóvia, de Richard Zimler, e o Hobit, deTolkien) foram livros que “comprei” através do Liga e Ganha e que uma amiga(que me tinha feito o favor de os ir levantar ao Jornal) me levou, um foi olivro que pedi para me comprarem porque não pude ir ao lançamento (O últimoPoeta, de Paulo M. Morais) e outro foi o de Mia Couto que não resisti a comprar(As mulheres de cinza).
A sério, ando descontrolada e detesto isso. Eu não preciso comprar livrosque não tenho tempo de ler e eu não tenho tempo de ler os livros que tenho láem casa e que QUERO ler.
Não é que gaste dinheiro que não possa gastar, todas as comprar que tenhofeito têm descontos enormes ou têm sido feitas com dinheiro acumulado em cartãomas detesto esta sensação e andar perdida no meio dos livros.

Portanto está absolutamente decidido: até ao final do ano só tenhoautorização para comprar o livro do LEYA em Grupo do mês de Dezembro (o deNovembro já tenho – é o O teu Rosto será o último, de João Ricardo Pedro).

Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo


Qualquer leitor terá os seus livros marcantes. Livros que os mudam enquanto gente, que os obrigam a crescer enquanto leitores e fazem com que todos os livros que  depois chegam à sua vida sejam "julgados" de uma forma mais crítica. Foi isto que este livro fez por mim. Mudou-me enquanto leitora.
Levei mais de um mês a lê-lo e isso, por si só, é estranho. Mais estranho ainda é não ter pensado, em nenhuma das quase 500 páginas, em desistir, fechá-lo e deixá-lo abandonado na estante. Depois de ter iniciado esta leitura era impossível deixar estar história fechada dentro de um livro. 
Muitas vezes foi difícil. A maravilhosa escrita do João de Melo não disfarça a violência, a tristeza, a angústia e acima de tudo a falta de esperança desta gente que procura a felicidade sem deixar as lágrimas de lado.
Tudo o que possa dizer acerca deste livro será redutor, basta pensar que a 25ª edição mostra que já venceu a prova do tempo, dos leitores de todas as idades e da crítica. Quanto a mim fico feliz por ter superado esta leitura e fico orgulhosa por, uma vez mais, constatar que tão bem se escreve em Português. 

Este é um livro com muitas vozes apesar de ter em Nuno, no seu percurso, um fio condutor. Nuno, o gémeo que contra todas as expectativas, sobreviveu, viveu os primeiros anos de vida (a que dificilmente se pode chamar infância) num inferno perdido numa ilha dos Açores. Sob o jugo de um homem violento e de uma mãe execrável (e é a "mamã" que eu não consigo compreender, perdoar)   vê na vinda para um seminário do continente a fuga impossível a uma vida miserável. Nuno e Amélia (uma menina-mulher que nem o deus do convento soube apoiar) pagam caro o preço da fuga à vida de trabalho e ignorância a que o patriarca da família os tinha destinado. 

Relato emotivo ou documento histórico, este é sem dúvida um livro para ler pelo menos uma vez na vida.

Foliar*

Eu folio
Tu folias
Ele folia
Nós foliamos
Vós foliais
Eles foliam

Comigo é mais: eu foliarei (lá para meados da próxima semana) e vocês?

(eu sei, um trocadilho demasiado fácil :) )

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