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Ler por aí

Ler por aí

SLNB, os hábitos de leitura e muita conversa...

Há quem diga que Só ler não basta. Eu concordo mas não sou eu que o digo, são elas, a Carla, a Diana e a Telma que decidiram falar sobre livros e desta vez deixam-me entrar na conversa.
O maior problema é mesmo deixar de falar. Avisei-as, à partida, que sou uma tagarela mas acho que elas compreendem bem essa compulsão para falar de livros, ou de tudo o que os envolva, como os Hábitos de leitura.

Deixo-vos o video (que ainda não revi, porque o mais provável é que tenha feito uma figurinha triste das que só eu sou capaz) e uma enorme OBRIGADA às meninas do SLNB pelo convite e pela excelente conversa.


 

Vida Roubada, de Adam Johnson



Tudo o que nos é proibido exerce sobre nós uma atracção irresistível. Eo que não sabemos torna-se grande, um mistério por resolver. E depois apareceeste livro e permite-nos ter um vislumbre do que se passa naquela terra. ACoreia do Norte é hoje um dos únicos pontos do planeta que não nos estáacessível. E como ansiamos por conhecer este país de que tanto se fala mas deque tão pouco se conhece. E a imaginação cresce como quando vemos aquele vídeoque corre no facebook acerca de uma suposta notícia norte-coreana de que teriamsido os primeiros a chegar ao sol (de noite, para não queimar). A ausência deinformações leva-nos a acreditar em tudo. Afinal é nisso que acreditamos: que aausência de informação que eles têm os levam a acreditar em tudo.
E este livro é um doce para quem acredita que aqui está um documentoverídico acerca daquele país. Afinal foi escrito com base numa imensa pesquisa.E esse é o problema deste livro: acabei-o com a sensação de “a montanha pariuum rato”, um livro escrito com as palavras que eu esperava ouvir sobre aquelepaís. Um livro escrito por um americano sobre a América e sobre a Coreia doNorte. (e depois penso que a minha crítica não é justa e que é normal que umamericano use como bitola os USA), cheio de comparações e de fantasia. Pormuitos factos que lá constem, este livro é ficção, não tenham dúvidas acercadisso. E é como livro de ficção que deve ser apreciado (o problema são sempreas expectativas e o marketing à volta de um livro).
E como livro de ficção devo confessar que gostei. Gostei muito mais daprimeira parte em que conhecemos Jon Do, um menino que, por culpa do acaso,cresce num orfanato na Coreia do Norte. E as imagens que nos são mostradasnesta primeira parte, são de uma violência atroz. O crescimento de Jun Do, oseu percurso vai-nos fazendo o retrato de uma sociedade fechada, de um ditadurae de um ditador manipulador e sádico.
Depois, na segunda parte do livro, onde o protagonismo se divide entrevários personagens começamos a perceber as pessoas, o que as move, como sãomanipuladas, como a inocência se mistura com a ignorância e dá um resultadocruel, violento. Como a força do amor pode mudar o mundo.
O que me desiludiu nesta segunda parte do livro foi a ridicularizaçãodo personagem do ditador. Ridicularizar aquele homem é subestima-lo emenosprezar todos aqueles que vivem sob o seu jugo. E isso incomodou-me,confesso. Alguém capaz de fechar um país daquela forma (e falo do que vejo nasnotícias e não do que li no livro) não deve ser menosprezado nem tratado comoalgo ridículo.
Achei muito interessante a personagem do “interrogador”, o seupercurso, as suas dúvidas, as suas escolhas. Talvez este homem seja o que maisse aproxima da realidade: a inocência, até mesmo alguma humanidade, que acabapor ser fruto da manipulação da desinformação e que se tem que adaptar e quetantas vezes acaba por desistir e se tornar parte do mesmo sistema.

No geral gostei de ler o livro mas as expectativas não foram, de todo,atingidas.

To Kill a Mockingbird, de Harper Lee

 
“Por favor não matem a cotovia” “Mataram a cotovia” “O sol é paratodos”
 
Só a quantidade de títulos diferentes que este livro tem tido na língua Portuguesa nos prova que cada um lê no livro algo diferente. Cada leitor destaca o que mais o interessou, chocou ou, de alguma forma, o tocou. Muitas vezes lemos um livro e lemos lá exatamente o que queremos. Seremos capazes de ler um livro de um autor de quem não gostamos e ser imparciais na sua apreciação?
E na vida como na leitura...
Ver o mundo pelos olhos de uma criança, com a sua inocência, magia e total ausência de preconceito. Claro que isso só acontece porque Scout foi educada por um homem muito especial para a época. Atticus Finch é tudo menos um homem da sua época, tudo menos um pai normal mesmo considerando os padrões de hoje. Atticus Finch, um personagem muito interessante, permite que os seus filhos (Scout e Jem) cresçam meio “selvagens” no que às regras da sociedade da época diz respeito mas incute-lhes um sentido de dever, responsabilidade, de moral e de cavalheirismo fabuloso. Educar pelo exemplo, algo que está demasiado esquecido hoje em dia.
Scout, uma menina maria-rapaz de 7 anos admira o pai e o irmão acima de tudo e com eles aprende a pensar. E conta-nos esta história, com muitas histórias à mistura, com episódios divertidos, com momentos cheios de emoção,conta-nos o horrível com voz doce e uma inocência e confiança inabalável.
Depois de ter lido este livro percebo porque é que é tão famoso, porque se tornou um clássico, porque é tão mencionado em tantos livros e filmes. E é um clássico que apetece ler. Li-o em inglês, o que me causou algumas dificuldades porque está escrito de uma forma muito “oral” e muitas palavras/expressões/contrações de palavras não constam do dicionário, mas tenho a certeza que ainda o vou reler em Português. Li-o em ebook mas ainda o vou comprar em livro físico porque tem mesmo que fazer parte da minha estante.
Este livro mostra-nos o pior da humanidade, fala-nos de preconceito,racismo, maldade pura. Mas dá-nos o maior dos tesouros: a esperança de que a bondade, a honra e o respeito existam e que, de alguma forma, vão conseguindo ganhar o seu lugar na sociedade. A amizade é maravilhosamente contada nestas páginas.

 

É muito difícil escrever o que quer que seja sobre este livro. Por um lado já tudo foi escrito, por outro não é nada bom elevar as expectativas de um leitor. Mas atrevo-me a dizer que toda a gente devia ler este livro. Que é o livro ideal para que alguém comece a ler. Que devia ser um livro estudado nas escolas. E que vou ter que descobri-lo por cá porque vai ser o meu presente de Aniversário/Natal para muita gente este ano. Adorei, como é óbvio.

Biografia involuntária dos amantes, de João Tordo


 
Há o amor. E depois há algo a quemuitos chamam amor, que consideram amor mas que mais não passa de loucura ou deobsessão ou simplesmente de solidão. Por vezes a ideia do amor é tão forte quea nossa própria história se transforma para dar lugar à história de uma amorinexistente, ou que existe somente dentro de nós. E convencemo-nos que sempreassim foi. E por este “desamor” somos capazes de perder tudo, a vida ou pior...perdermo-nos na nossa própria vida.
E depois há o momento. Ou osmomentos. Aqueles momentos que mudam o curso de uma vida. Aqueles momentosbanais, que nos apanham desprevenidos, sem defesas e que, simplesmente, nos transformanoutra pessoa.
 
E ainda há o sentido da vida.Aquele que nos faz acreditar num futuro. Aquele que nos faz ter orgulho em nóspróprios, que nos ancora à vida.
 A primeira metade deste livro nãofoi fácil de ler. Custou-me. A história não me prendeu, nem sei bem porquê.Talvez o tom acinzentado do livro me tivesse incomodado numa altura em quetinha tão pouca disponibilidade para ler.
Mas a verdade é que depois a litudo num instantinho. E gostei. Mais ou menos. É que raramente se fala decoisas bonitas neste livro. Viramos páginas à procura dos porquês, sabendo queestes são feios, macabros. Afinal sabemos o final pouco tempo depois de termoscomeçado o livro. Ou pelo menos é disso que a sinopse nos convence. Mas depoisdescobrimos que não.
Depois de ler este tipo de livroe de deixar assentar a poeira fico sempre com a sensação de que estou a fazerum grande filme ao imaginar segundos (e terceiros sentidos), histórias atrás dehistórias e que na realidade o autor não quis nada fazer jogos de palavras,quis mesmo foi contar uma história linear (bem, mais ou menos) em que umprofessor universitário, de quem me “foge” o nome - tenho para mim que nem sequerfoi  mencionado no livro ou se calhar foi,muitas vezes, e eu é que deixei passar para depois ver alguma ironia nissomesmo – e que vai à procura de respostas pelos 4 cantos do mundo e acaba pornos contar “ a biografia involuntária” de dois amantes e de algumas personagensque os rodeiam.
De qualquer forma, e sendo extremamenteegoísta, a verdade é que o importante é o que o leitor lê no livro. Tenho paramim que raramente (pelo menos se considerarmos os bons escritores) coincide coma ideia que os escritores tinham em mente mas não faz mal. É essa a beleza daliteratura, fazer-nos pensar.
Não é,nem nunca será um dos meus livros de eleição, mas gostei e recomendo