Ler por aí
 
17 de Fevereiro de 2014





Vir passar o fim de semana à casa da minha mãe, à casa da minha infância, é uma alegria para a leitora que há em mim. Este fim de semana vinha com ideia de trazer para minha casa três livros: o livro mais bonito da minha estante (Trilogia de la Niebla) e os meus dois volumes do D.Quixote, de Cervantes (mais do que ser um grande clássico da literatura estes livros têm para mim um significado muito especial e por isso ficaram estes anos todos na estante da minha infância – achei que estava na hora de virem para minha casa).



Para além destes e desafiada pela InêsBooks fui à cata do À noite logo se vê, do Mário Zambujal que tinha a certeza fazer parte da estante da minha mãe. E enquanto o procurava encontrei velhos e especiais amigos.

Os cinco volumes dos miseráveis que li há cerca de 10 anos. Os dois  volumes, de capa dura branca de uma simplicidade maravilhosa, de Guerra e Paz de Tolstoi (que ainda não li, acho que vão ser a minha leitura das férias). 

Uns Pear S. Buck da minha adolescência (Terra bendita –lido e relido tantas vezes- e Flor Oculta), os Agatha Crhristie e Connan Doyle de que tanto gostava. O primeiro livro que li “A pousada do anjo da guarda” da Condessa de Segur. O Diário de Anne Frank, incontornável. 


E depois vieram as boas surpresas. Como é que, tendo vivido boa parte da minha vida nesta estante (afinal lembrava-me, e com razão, de que o À noite logo se vê existia nesta estante) nunca tinha tropeçado neste O jogador de Dostoiesvky? Ou pior, como não sabia que, da estante da minha mãe fazia parte o “A Servidão Humana”? Como é que não sabia que tinha o livro do Salinger – the catcher in the rye? Como? Como?


Num ano em que a minha decisão é não gastar dinheiro em livros descobri um filão quase inesgotável de livros para ler. De bons livros para ler. A leitora que há em mim está a bater palminhas de contente. My best birthday present !!!



(“Mas estás outra vez à procura de livros?” muitas vezes o meu marido me disse estas palavrinhas este fim de semana)
publicado por Patrícia às 19:13 link do post
11 de Fevereiro de 2014

Estava com curiosidade em ler o The Cuckoo's Calling, de Robert Galbraith e estou a ler em Inglês no Kobo (estava com saudades de ler um ebook, confesso), de ler um livro mais leve (encaixo mesmo os policiais mais sangrentos nesta categoria).
Mas há muito tempo que não lia em inglês e a verdade é que requer mais atenção e estou a sentir alguma dificuldade. Falta de hábito.
publicado por Patrícia às 18:09 link do post
10 de Fevereiro de 2014







Por algum motivo obscuro resisti durantemuito tempo a ler os livros de João Tordo. Sinceramente nem sei bem porquê massempre que tinha que decidir entre aquele livro e outro escolhia o outro.
Há cerca de dois meses o Hotel Memória veioparar-me às mãos (mais um livro em movimento através da Roda dos Livros) e nemsequer veio muito bem recomendado. Mas apeteceu-me lê-lo e ainda bem que o fiz.
É o melhor livro do mundo? Não. Traz muitasnovidades? Não. Mas lê-se bem, é diferente do que se escreve por cá e faz-meter vontade de ler mais histórias deste escritor.
Hotel Memória. Um bom título, não vosparece? Simples, mas não banal.
Cedo percebemos que estamos perante umahistória negra, triste, violenta, contada por um homem destruído. Sinceramentenão me parece que seja daqueles livros que nos faz pensar. É um policial,extremamente violento nalgumas partes, que se lê quase compulsivamente. E digoquase porque a forma que o escritor escolheu para contar a história não dá, ameu ver, grande rapidez à história.
O narrador é o próprio Ismael e toda a história é-nos contada na primeira pessoa, com pouquíssimos diálogos.
Ismael apaixona-se perdidamente por Kim e amorte desta atira-o para uma espiral destrutiva. Perde a bolsa de estudos que omantinha em NY, perde o direito de viver na residência de estudantes, abandonaa Universidade, perde-se nos bares e acaba a dormir na rua por alguns dias. Aculpa do que aconteceu a Kim nunca o deixa. Um jovem europeu, destruído pelaculpa, acaba perdido em NY sem amigos, sem família, sem um âncora que o agarreà vida.
Samuel, um gigante rico contrata-o paraencontrar um homem, um Português, fadista, perdido para o mundo há tantos anos.
Que se desengane quem acha que esta buscavai retirar Ismael do fundo do poço. A busca por Daniel da Silva irá sermais perigosa do que se poderia imaginar. Mas para Ismael o perigo tem menospeso que a busca de respostas. Afinal o que liga Samuel a Kim? Quem é o cantorperfeito, aquele de que tanto falam?
 
Definitivamenteirei ler outros livros do escritor. Este Hotel Memória foi, no entanto, umexcelente começo e espicaçou-me a curiosidade. Agora as expectativas cresceram.
publicado por Patrícia às 16:33 link do post
09 de Fevereiro de 2014


 

 

Gostei muito de ler este livro, fez-me lembrar os que líamos nas aulas de português do liceu, mas sem a pressão dos testes e avaliações – super positivo! Deve ter feito parte, em alguma altura, do currículo académico porque tem umas notas escritas à mão sobre Neo-Realismo que tive de ir “googlar”, confesso a minha ignorância, talvez por ser das ciências, nunca tinha estudado este livro nem nenhum desta corrente literária. Peguei nele porque o vi numa estante de casa de mamãe e lembrei-me que alguém o tinha mencionado na Roda dos Livros.

Em resumo e o que temos é que ninguém é feliz nesta história.

Começamos por conhecer Álvaro Rodrigues Silvestre homem gordo, baixo de passo molengão é comerciante e lavrador que vai ao jornal da aldeia tentar colocar um anúncio: “Juro pela minha honra que tenho passado a vida a roubar ... Para alguma salvaguarda juro também que foi a instigações de D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre minha mulher”

Confesso que ao início simpatizei com este senhor, pensamos “ui coitado! tem uma mulher que é uma megera” mas ao longo da história deixei de ter qualquer simpatia pelo gordo consumido pelo remorso,  fraco, bêbado e cobarde.

A esposa, D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, é uma mulher altiva de olhos grandes e cabelos pretos, uma mulher esplêndida, fidalga.

Neste caso foi o contrário comecei por antipatizar à partida com a megera  da D.Maria para depois perceber o seu azedume, justificado pelo facto de a família fidalga ter ficado pobre e o pai Pessoa, Alva e Sancho  ter negociado o seu casamento com os Silvestres do Montouro, lavradores e comerciantes: sangue por dinheiro... Compra-se tanta coisa compre-se também a fidalguia. A azia da senhora é justificável quando se é dada para casar abaixo da condição social com um ignorante bêbado.

Temos também o Padre Abel porque não há livro tuga que não tenha um padre e a D. Violante “irmã” do padre. Irmã está entre “” porque ficamos na dúvida se são mesmo irmãos ou se são um casal, há falatórios na aldeia. Estes dois tal como o médico e a professora são presença assídua na casa dos Silvestre. D. Cláudia a professora, é a eterna namorada do Dr. Neto, frágil fisicamente e de espírito, tem medo de casar e medo de tudo em geral. O Dr. Neto  é um homem bondoso que para além de ser médico “cultiva” abelhas, tem sífilis hereditária pelo que não quer ter filhos que possam ser como ele e daí o eterno namoro platónico com a D. Cláudia. É o responsável pela parte filosófica nos serões em casa dosSilvestre é ele que fala das abelhas: “vida e morte o que são? ... tomemos por exemplo as abelhas. Partir do simples para o complexo. Sabe-se que após a fecundação o destino dos machos é a morte. Ora, como fecundar é criar...”

Uma história dentro da história maior do Silvestre com a D. Maria dos Prazeres é a da Clara com o Jacinto, o cocheiro da casa dos Silvestre. Clara é a filha do Mestre António oleiro, cego, que quer casar a filha com um homem rico, lavrador com terras, para que tenham uma vida melhor - estamos a ver aqui um padrão de usar as filhas casadoiras para sair da miséria. Mestre António fica a saber que a filha anda enrolada com o cocheiro pelo Álvaro Silvestre e claro que daqui não sai coisa boa: “O seu cocheiro vai dançar na corda bamba, Álvaro Silvestre, aprender quantas cabaças de água são precisas para matar a sede no inferno”.

“Uma abelha na chuva” deve ser dos melhores títulos de livros de todos os tempos e a abelha na chuva deste livro é a Clara: A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento aferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.”


 
publicado por Catarina às 00:25 link do post
08 de Fevereiro de 2014

Ler é um prazer e como se pode ver na rubrica “paixões antigas” tenhotendência a ser fiel a alguns escritores. É tão fácil ler algo que já sabemosque encaixa exatamente na expectativa que criámos. Por isso é que as sagas sãotão populares. Acabar um livros e ter, ali à mão, outro que mais não é que acontinuação daquele é, de facto, maravilhoso. Afinal quem nunca desejou queaquele livro, de que está a gostar tanto, nunca chegasse ao fim?
Há muito tempo que prefiro ler histórias que começam e acabam num único volume e fujo de sagas como o diabo foge da cruz.
E quando começo a ler sagas tento ter algumas regras: a saga tem queestar completamente escrita (exceção feita para as crónicas de gelo e fogo, masna verdade fui enganada), tenho que ter todos os volumes, não pode haver umnúmero exagerado de volumes (as trilogias são o meu limite, para dizer averdade). Embirro solenemente com sequelas de sagas (aquele regresso aSevenwaters nunca me convenceu) e geralmente é nessa altura que desisto de ler.
Mas gostos são algo que não se discute e compreendo perfeitamente aloucura das sagas (para terem uma verdadeira dimensão deste fenómeno podem irassistir a este Só Ler Não Basta) .
Para mim o verdadeiro “perigo” das sagas é que a teia que constroem setorna difícil de destruir.
Estive a ver o vídeo da Chris do canal Diário da Chris e uma das frasesque me chamou a atenção foi ela dizer que só compra livros que já sabe que vaigostar. Não conheço a Chris, nem conheço os seus hábitos de leitura pelo queacaba aqui a referência (mas aproveito para divulgar o canal desta menina) egaranto que não estou a fazer nenhum julgamento da sua forma de ler. Alémdisso, basta estar um bocadinho atento à blogosfera para nos apercebermos quecada vez mais há quem leia apenas um tipo de livros (e isto é verdade tambémpara quem lê apenas   literatura densa e supostamente “melhor”.Fazia tão bem a algumas pessoas ler um livrito qualquer daqueles que não nosensinam nada mas que nos fazem esquecer do mundo lá fora)

Compreendo tão bem esta frase e é tão bom comprar e ler apenas livrosbons. Mas a verdade é que o que eu oiço nesta frase é “estou tão confortávelnesta zona de leitura”, “encontrei o meu espaço na literatura”  e fico um bocadinho triste.  Porque a grande beleza da literatura édescobri-la. É ler um livro novo e ficar maravilhado. É conhecer novos autores.É descobrir que aquele autor de que tanto gostamos afinal não escreve assim tãobem – e que não faz mal nenhum porque continuamos a gostar dos seus livros eque iremos sempre lê-los, seja como Guilty pleasure, seja como Confort Reading.É obrigar a nossa melhor amiga, que nem sequer gosta muito de ler, a ler aquelelivro apenas porque gostámos tanto, tanto que temos que o partilhar.
Se às vezes corre mal? Ai corre e de quem maneira. Mas isso tambémacontece com os livros e com os escritores que tão bem conhecemos (não preciso devos falar do final da saga sangue fresco, pois não? Eu nunca li nada daescritora mas o sururu pela internet foi giro de se acompanhar). E garanto-vosque as vitórias compensam as derrotas.



Portanto, a quem teve a paciência de ler até aqui, lanço o desafio: apróxima vez que comprarem um livro comprem algo completamente diferente.Escolham um autor que ninguém lê, se for bom vão poder aconselhá-lo a toda agente e ainda dizer que foram vocês que o descobriram. Escolham um livro queseja o preferido daquela pessoa que tem um gosto completamente diferente dovosso: pode ser que descubram que afinal a vossa zona de leitura é um bocadinhomaior do que imaginaram. Arrisquem. 
publicado por Patrícia às 19:35 link do post
06 de Fevereiro de 2014

Eu queria muito ter gostado deste livro, até porque meapaixonei por esta capa à primeira vista. Namorei-a tantas vezes na livraria. Eas críticas a este este livro? Cada uma melhor que a outra. Devia terdesconfiado. Não devia ter deixado as expectativas crescerem.
Mas atenção: eu não detestei este livro. Confesso que lhefiquei um bocadinho indiferente. E ler as últimas 100 páginas foi um suplício. Lia contrarrelógio, algo que detesto fazer e acabei por me obrigar a ler mesmoquando não me apetecia muito ( e mesmo assim levei 2 semanas a lê-lo, não foiuma leitura rápida nem fácil).
Já não é novidade para quem lê os meus textos que às vezesassocio cores a livros. Neste caso a predominância do creme/castanho na capaatraiu-me mas a cor que associo a este livro é o cinza. Uniforme. Banal. Feio.Cor de rato. Uma cor triste, que se esquece facilmente. Porque este livro falade gente assim, amorfa, triste, trágica (mas sem a força das grandes tragédias,sem o negro que lhe está associado). E isto não tem nada a ver com o facto dobairro Amélia ser de ricos ou de pobres. Esta sensação de ausência de cor, deausência de calor não tem a ver com dinheiro, tem mesmo a ver com a ausência deforça, de coragem, de garra… sim, principalmente de garra. Alguns dos personagens,dos habitantes deste bairro até podem tê-la, mas rapidamente são esquecidos napanóplia de “entradas” deste livro.
E essa parte foi algo de que também não gostei. Isto não éum livro, com princípio, meio e fim. É o conjunto de uma série de entradas (aindapor cima por ordem alfabética, exceto uma) em que cada uma conta a história (ouum pouco da história, ou um acontecimento que a envolve) de uma personagem.Cada personagem é-nos apresentada dessa forma. Há entradas para personagens,entradas para acontecimentos. E pronto. O livro é isto.
Falta-lhe um rumo, um objetivo. Ou então eu é que não opercebi, porque como comecei a dizer a crítica geral (e mesmo a do goodreads) éótima.
E nem posso dizer que detestei o livro. Não me provocou arepulsa de Baltazar Serapião ou a angustia de um Desumanização. Simplesmenteeste livro não me transmitiu (quase) nada. Ou fui eu que não percebi nada. Provavelmentefoi isso.
Mas não deixo de o aconselhar.
Está muito bem escrito e apesar de não ter achado o “todo”interessante (até porque acho que o “todo” não existe), gostei das “partes”.Acho que o livro faz um fantástico retrato de um bairro naquelas condições. Umretrato de época excelente.

(E só uma perguntinha: já vi este livro ser considerado umpolicial. Não percebo. Alguém me explica, por favor?)
publicado por Patrícia às 16:21 link do post
02 de Fevereiro de 2014

Aviso já que este post tem “estragadores”. Querem saber se o livro vale a pena? Sim! Vão lê-lo.
Gostei de tudo neste livro, da história, da forma como está escrita, da personagem principal a Rosa, da capa e também do autor que, ao vivo e a cores, é um contador de histórias espectacular, fiquei fã e com vontade de ler todos os outros livros dele.
A maneira como é descrita o primeiro encontro dos pais da Rosa, a mãe uma arqueóloga e o pai um homem do campo alentejano é bem boa. A comparação das mãos do pai da Rosa, mãos cheias de alfaces plantadas e de açoites nos cães, com os dedos das mãos dos ex-namorados finórios da mãe que eram como os seus cabelos molhados acabados de lavar, é uma maravilha.
Todas as personagens têm a sua história. O professor Borja e o caseiro Rato que têm uma guerra aberta por causa do muro branco pintado com versos a preto. O Alípio que serve como o tonto da aldeia. O padre que gosta de apanhar açoites no rabo. A inglesa ricaça e esquisita, Miss Whittemore, que dorme numa cama feita da ossada de uma baleia. O pastor Ari que gosta da Rosa desde que são miúdos mas que temos logo ali a sensação que não vão acabar juntos.
A Rosa, uma miúda pobre do Alentejo, que guarda pedrinhas apanhadas nos bons e nos maus momentos e as chupa como rebuçados quando se quer lembrar desses momentos, a miúda que lê livros de cowboys que eram do pai e que tem de ir trabalhar para a casa de uns senhores ricos para sustentar a avó já velha e doente. A avó Antónia que quer, antes demorrer, ir visitar Jerusalém. Rosa como não tem dinheiro para a viagem resolve trazer Jerusalém ao Alentejo com a ajuda de todos da aldeia incluído a meretriz do bordel, em forma de avião, lá do sítio.
A casa de Miss Wittemore é decorada para ser o centro de “Jerusalém” e é aqui que tudo acontece. Há uma reconstrução da última ceia e ficamos a saber que Jesus Cristo bebia cerveja que é o pão líquido. O professor parece que vai pintar o muro e deixa Alípio no seu lugar, o pastorAri vai matar o professor que anda a dormir com a Rosa mas encontra o Alípio, e afinal o professor vai escrever no quarto da inglesa e a Rosa que está grávida mata os dois, a inglesa e o professor e diz a todos que foi o professor que matou a inglesa e depois se suicidou. Estava calmamente a ler uma história sobre uma miúda do Alentejo ...

 

O único senão que encontrei foi o fim da Rosa. Não que ache mal ela ter terminado como prostituta em Lisboa, morta aos 40 anos de uma doença venérea, sozinha, porque a vida é mesmo assim uma treta e depois morre-se. Ao menos podia ter sido a prostituta mais conhecida de Lisboa com o seu próprio bordel em forma de Saloon só para ligar com os livros das histórias de cowboys que lia quando era cachopa.
publicado por Catarina às 20:43 link do post
02 de Fevereiro de 2014

Pode não parecer, com o tempo que esteve pendurado aqui na parede do blog, mas a verdade é que gostei mesmo muito deste livro, o facto de ser compacto, estar em inglês e eu ter sido abalroada pela Roda dos Livros (li entretanto o Sr. Penumbra e o Jesus Cristo Bebia Cerveja) levou a um proloooooooongamento da leitura.
Este é um livro já velhote, foi editado em 1979 e é um conjunto de vários artigos publicados por Carl Sagan entre 1974 e1979 que, por isso, se lê como se fossem “contos”.
Começando pelo título, o Sr. Broca era cirurgião, neurocirurgião e antropólogo  francês dos anos 1800 que estudou a parte física do cérebro, queria saber se os assassinos, ladrões, violadores e outros malfeitores tinham um cérebro diferente das pessoas ditas “normais” então, andou a escarafunchar em cérebros de cadáveres amavelmente doados à ciência (ou não... ) e percebeu que existia uma área do cérebro responsável pela capacidade de falar ou de compreender a linguagem escrita ou falada. Ainda hoje essa área do cérebro se chama área de Broca. Resta dizer que este senhor morreu com 50 e poucos anos de uma hemorragia no cérebro e que, esse mesmo cérebro, ainda anda a flutuar dentro de um frasco cheio de formaldeído guardado algures no Museu do Homem em Paris. A ciência como a conhecemos hoje com todas as suas ramificações começou em muitos casos assim “deixa cá abrir esta cabeça para ver como é por dentro” e hoje temos programas de computador que simulam todo o funcionamento do corpo humano, no entanto, tivemos de começar por algum lado.  
O conhecimento é tudo, perguntar porquê como se fôssemos crianças de 5 anos, porque é que os planetas são redondos? Porque não pirâmides ? ou cubos? Propor hipóteses, verificar se fazem sentido comparando com o que já sabemos ser verdade, pensar em testes para comprovar a nossa hipótese inicial e estamos a “fazer ciência”.
E a palavra ciência tem sido usada praticamente para tudo desde que a religião (qualquer uma delas) deixou de ser a resposta para todas as questões universais. “Cientificamente comprovado” é o que mais se lê/ouve por esses canais de comunicação afora. Mas, não nos podemos esquecer do pequeno grande pormenor que é a prova. Eu até posso afirmar que consigo caminhar sobre a água, posso prová-lo? Em condições controladas, que possam ser repetidas? Pois é não é só dizer, é preciso provar, e Carl Sagan não brinca em serviço tem mais de 50 páginas a descascar no Sr. Velikovsky ou melhor no livro “Mundos em Colisão” onde encontra mais de 10 erros, contradições ou incorrecções e enumera-as todas, alegre e implacavelmente.
Um dos capítulos que mais gostei foi a sua visão pessoal da ficção científica, quando era miúdo lia as aventuras de John Carter e afins mas todos os pormenores incoerentes com a realidade faziam-lhe confusão. Sabia que tinha de ver séries como o Star Trek duma forma alegórica e não literal mas não conseguia encaixar o cruzamento entre um vulcano e uma terrestre que para ele era como um cruzamento entre um homem e uma petúnia. Considerava a ciência muito mais subtil, complexa e espectacular do que a maior parte da ficção científica.
Também a sua forma de nos ver, a nós raça humana, no nosso pequeno planeta chamado Terra no meio de uma imensidão desconhecida é bastante interessante. Coisas tão básicas como o nome dos planetas, luas, montanhas, existentes em planetas e em luas, satélites, cometas levaram a grandes discussões. Os nomes dos asteróides por exemplo são compostos por um número e um nome que começou por ser feminino normalmente da mitologia, por exemplo 1 Ceres, primeiro asteróide a ser “visto” tem o nome da deusa dos cereais.  No entanto, 2000 asteróides depois, esta regra começa ser difícil de ser seguida por falta de senhoras mitológicas e uma grande oportunidade perdida foi 1984 Orwell que teria dado um nome de asteróide bem catita de acordo com Sagan.
No entanto, Carl Sagan não falava só sobre o espaço, sistemas solares e afins sobre a forma de nos deslocarmos no nosso dia a dia e sobre os combustíveis fósseis afirma: posso facilmente imaginar uma futura sociedade, saudável e estável em que andar a pé e de bicicleta são os primeiros meios de transporte, com carros não poluentes de baixa velocidade e transportes públicos em carris total e largamente disponíveis para todos. Ainda não chegamos lá, Carl.
Para finalizar, a sua visão sobre Deus e a religião que não era incompatível com a ciência ou o conhecimento. Quando lhe perguntavam se acreditava em Deus, pedia sempre para lhe darem a definição de Deus, normalmente esta era: uma força maior que nós e que existe em todo o lado do universo, e a sua resposta: -acredito em várias dessas forças uma delas é a gravidade.

 

Seria um prazer falar com este senhor se ele ainda fosse vivo, sobre todo e qualquer assunto, que diria ele da evolução da “world wide web”? da clonagem? do turismo no espaço? das 40 horas de música dentro de um iPod? e de como parece que, por vezes, a raça humana não aprendeu nada de jeito.
publicado por Catarina às 20:38 link do post
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