Ler por aí
 
30 de Junho de 2012


Valter Hugo Mãe, o homem das minúsculas, escreveu um dos melhores livros que já li. Para já considerei-o o meu "livro do ano". Confesso que não foi fácil começar a lê-lo, porque a falta de maiúsculas fez-me mais falta do que estava à espera. Foi a falta de maiúsculas e a falta de parágrafos. Que raio de mania esta, dos escritores se promoverem pela diferença na forma da escrita. Não me lixem, por muito que todas as virgulas estejam no lugar certo, há várias regras da gramática portuguesa completamente ignoradas. Mas como li algures a língua avança pela pena dos escritores e não através de acordos políticos por isso talvez o futuro seja esta forma de escrever. Afinal o Valter Hugo Mãe só foi pioneiro na questão das minúsculas, o resto faz lembrar Saramago. 
Mas depois de me ter habituado à falta do raio das maiúsculas e dos parágrafos fiquei rendida a este livro. Pelo que sei o autor escreveu 4 livros, cada um dedicado a uma fase da vida do ser humano. Comecei pelo fim, por este livro dedicado à 3º, à última idade. Não me fizeram falta os outros (mas vou lê-los, certamente) porque a história de António Silva (um dos Silvas) no feliz idade, um lar de idosos, para onde foi "obrigado" a ir depois do fatídico dia que lhe mudou a vida para sempre. Lá, no feliz idade, a história já não é só dele, mas também do Anísio, especialista em arte antiga, do outro Silva que se mudou para lá antes da idade certa e de livre vontade, do Esteves sem metafísica - esse mesmo, o do Fernando Pessoa-, do Pereira e de tantos outros. Do Américo, que dedica a vida aos velhos.

Como será sobreviver sem Amor? Sobreviver à pessoa Amada? A beleza de um sentimento transforma-se, numa fracção de segundo, numa maldição. De um momento para o outro o que nos mantinha ancorados à vida é o que nos arrasta para a morte. Melhor seria que morrêssemos juntos, de mãos dadas. Como viver cada dia depois disso, com os filhos que os abandonam num lar. Como fazê-los compreender que não é justo, que a velhice acontece-nos, não a escolhemos. Como evitar pôr num lar os nossos pais, quando não temos condições nem tempo para deles? Como explicar-lhes essa decisão?

Um livro livro que me fez rir muito, pensar muito e quase, quase chorar!
publicado por Patrícia às 21:32 link do post
21 de Junho de 2012

À conta de um comentário da Dulce no post abaixo estive a fazer umas contas e entrei em pânico.
Tenho 33 anos e se tudo correr bem e não ficar chéché antes tenho aí uns 40 anos de (boa) vida.  Leio bastante e não contabilizo leituras porque acho que não faz sentido mas se ler aí uns 20 livros por ano já não fico infeliz. Isto significa que lerei mais uns 800 livros. 800 livros? isso não é nada. Significa que nunca lerei os clássicos que me faltam, nem os novos autores, nem muitos livros especiais... 800 significa que a probalidade de ler "O" livro é ínfima. 


*vá, o pânico é relativo até porque tenho um bocadinho mais de juízo (e de problemas na vida) do que entrar em stress por tão pouco
publicado por Patrícia às 00:07 link do post
19 de Junho de 2012


É recorrente a discussão à volta do preço dos livros. Confesso não saber quanto dinheiro gasto em livros por mês ou ano. Basicamente depende de quão resistente sou. Sim, porque tento sempre resistir ao impulso de comprar livros novos quando tenho tantos para ler. Claro que nem sempre á fácil resistir e por isso acabam sempre por aparecer livros novos lá por casa. Mas acho, como a maioria das pessoas, que os livros são demasiados caros.
Não concordo, no entanto, que o preço dos livros seja uma das razões pelas quais se lê pouco em Portugal (coisa com a qual concordo, ao contrário de muita gente). Para quem quer ler há imensas possibilidades e comprar é apenas uma delas. Senão vejamos: há sempre quem nos ofereça presentes (nem que seja apenas no Natal) e se souberem que adoramos ler vão certamente oferecer-nos livros (sabem que podemos trocar se já tivermos) principalmente se souberem que não os podemos comprar.
Há bibliotecas um pouco por todo o lado. Podem não ter o último grito da moda em termos de livros, mas literatura? Há muita por lá.
Amigos. Todos (mesmo os mais insociáveis de nós) os temos. E esses amigos têm livros. Experimentem emprestar os vossos e vão ver se eles que eles retribuem o favor.
Alfarrabistas. Por poucos euros consegue-se comprar livros ótimos. E são como as bibliotecas: podem não ter o último livro da saga do momento mas por lá podem encontrar-se verdadeiros tesouros. Bookcrossing e outros programas do género… As revistas, que por 1 euro vendem livros bastante bons (poderão não ter o visual mais apelativo, a melhor das revisões… mas quantos livros já compraram com gralhas?). E na internet podem encontrar-se inúmeros ebooks totalmente gratuitos. De forma totalmente legal podemos ler livros de novos escritores que os disponibilizam ou ir a loja online que têm sempre alguns ebooks totalmente gratuitos.

Porque os livros estão caros, os ebooks também e os audiobooks é melhor nem falar. E não me parece que isso mude. Aliás acho que a tendência é para piorar. Com o aparecimento dos livros de bolso (o que eu “chorei” por eles) parece-me que o fosso entre os preços destes livros com os outros aumentou. E os nossos livros de bolso são caros, caríssimos aliás. Rondam os 10/12 euros, que é/era o preço dos livros mais antigos ou de novos escritores.
Em sites como o bookdepository, os livros de bolso rondam os 6/7 euros e nem sequer se paga os portes de envio. Claro que podemos dizer que por cá temos que considerar os custos da tradução, mas nesse caso fica por explicar o excessivo custo dos livros em Português.

Outra coisa que me transcende é o preço das sagas de livros. Quando de um livro para o outro o preço “cresce” 5 euros parece-me um bocadinho demais (Como o livro da Sandra Carvalho da Saga das pedras mágicas). E o mesmo acontece com os livros “às metades”(exemplo máximo “As crónicas de gelo e fogo”). E com os preços dos livros velhinhos editados com novas capas (A senhora da editora ficou um bocadinho chateada comigo na feira do livro por causa dos livros das Brumas de Avalon que andam a ser vendidos como novidades- quando se pode encontrar as edições antigas a 5 euros). E mesmo depois disto tudo temos a noção de que os escritores ganham pouquíssimo.
Enfim, o importante é saber escolher o que ler, como ler para que tenhamos sempre bons livros na estante. 

publicado por Patrícia às 17:12 link do post
16 de Junho de 2012


Este é o segundo livro autobiográfico de Frank McCourt que começa imediatamente após o final de As cinzas de Ângela e que mantém o mesmo tom que o livro anterior.
Se achei o primeiro livro escrito em tons de Sépia, diria que este passou para os cinzentos, às vezes perto do azul outras perto do negro. Quero com isto dizer que o livro continua a ser extremamente gráfico e que me foi muito fácil visualizar algumas cenas.
Ajuda o facto do escritor manter uma certa crueza na escrita que tanto nos dá vontade de rir como de bater, quer nele quer noutros personagens.
Frank, agora nos Estados Unidos da América, continua com maus olhos e dentes em péssimo estado e sendo Irlandês, com um sotaque cerrado, mantém consigo o espectro do alcoolismo que, na verdade, o persegue ao longo da vida.
Como alguém que adora ler, alguém que tem nos livros um escape da vida miserável, ir para a Universidade de NY estudar para se tornar professor é um sonho que parece inatingível mas que, por obra do destino (e do exército) se torna possível. Mas sobreviver, mandar dinheiro para a mãe e para os irmãos e estudar é difícil e requer uma força de vontade que Frank não sabe se tem.
A mãe de Frank (aqui percebe-se finalmente o título do primeiro livro, As Cinzas de Ângela) continua a ser uma mãe execrável e é uma personagem de quem não consigo sentir pena- apesar da vida miserável que teve. Mike (ou Alberta) é também uma personagem com a qual não consegui sentir empatia, mas é natural que assim seja porque afinal este livro foi escrito na primeira pessoa.
Tenho bastante vontade de conhecer o resto da vida deste homem extraordinário através do livro "O professor". Mais uma vez, Obrigada Cati pelo empréstimo, adorei como não podia deixar de ser.


publicado por Patrícia às 17:24 link do post
13 de Junho de 2012


Depois de ter lido ”No seu mundo” e ter gostado bastante, de ter lido o “Tudo por amor” que não me convenceu resolvi ler este “décimo círculo” que me fez pensar que “No seu mundo” é de facto um livro à parte no universo de livros desta escritora.
Mais um tema forte e com bastante potencial: Uma adolescente é violada pelo ex-namorado. E depois o ex-namorado aparece morto. E as coisas não são bem o que parecem e pronto: temos muitas confusões e uma trama imensa, que não permite aprofundar os temas que poderiam ser mais interessantes.
Trixie é filha de Daniel Stone, um desenhador de BD da Marvel com um passado bastante interessante e de uma professora universitária especialista na Divina Comédia de Dante, com relevo para o Inferno. E é através da passagem pelo inferno que Dante que se conta a passagem pelo inferno de Daniel Stone. Esta parte achei extremamente interessante e bem conseguida. Mas há imensas pontas soltas ao longo do livro (como a história de Seth) e da própria mãe de Trixie (que, apesar de ser uma das mais importantes personagens do livro, passa apenas de leve ao longo da história).
Acho que houve demasiados temas forte no livro: A violação, a relação vitima/criminoso, a traição, os segredos do passado, o amor, a recuperação de um trauma, a justiça, a linha entre o que é ou não é violação, a forma como os adolescentes americanos (quero pensar que por aqui ainda não é assim) vivem a sua sexualidade. Demasiado para um livro que não é assim tão denso e que, tendo todos os ingredientes para contar uma história fantástica e ao mesmo tempo transmitir alguns valores e desmistificar algumas áreas cinzentas que existem nas mentes mais retrógradas (ou nas mais libertinas), acaba por não fazer nada disso e limitar-se a utilizar temas quentes e polémicos para chamar a atenção.
Por tudo isto foi-me penoso ler o livro até ao fim. Parece-me que fico por aqui e que não volto a ler Jodi Picoult.
publicado por Patrícia às 22:34 link do post
07 de Junho de 2012


Já acabei de ler o livro “Queda de gigantes”há quase um mês, mas não tenho tido tempo para vir aqui escrever a minhaopinião.
Numa altura de intenso trabalho ter começado aler este livro, enorme, foi uma loucura total. Ainda por cima “tive” que fazer umapausa para ler o “O teu rosto será o último” por isso esta leitura arrastou-see talvez não lhe tenha dado a atenção merecida.
Mas, apesar de tudo, adorei. Como já imaginavaque acontecesse. O romance histórico é um dos meus géneros literários favoritose o Ken Follet consegue, como poucos escritores, prender-me a atenção (perde ,por pouco, para a Colleen McCullough  como seu “Primeiro Homem de Roma"). Apesar de ser fã deste género literário nãosou, de todo, muito exigente com a parte histórica. Quero com isto dizer quenão tenho assim tantos conhecimentos de história (depois do nono ano nunca maistive história  e a verdade é que, com uma  exceção, os meus professores não foram assim tão bons) e que basta que não hajanenhum erro demasiado óbvio para que eu fique feliz. Quando leio sobre o Egiptoou Roma a coisa já é um bocadinho diferente porque, como adoro esses temas, leiobastante e pesquiso tudo e mais alguma coisa. Mas da história do século XXconfesso não saber assim tanta coisa e este livro foi fantástico para  colmatar uma série de falhas.
5 famílias cuja história se entrelaça entre sie com a história mundial, com romance, crime, castigos (ou nem por isso), sortee azar. Valores como honra que se misturam e às vezes se confundem com puropreconceito.
Acho que vou ter, durante muito tempo,saudades daqueles personagens. Da Ethel, mulher de armas, fantástica. Umalutadora. Da Maud, que apesar de me ter desiludido um bocadinho espero que sejafeliz. Difícil vida que escolheu.  DoGus, uma surpresa. Do Walter. Do Fritz (ah, este ainda vai ter muito sapinhoque engolir).
É-me mais difícil falar da guerra da Rússiaporque, como em tantos conflitos, a razão não está em lado nenhum. A teorianunca consegue transformar-se na prática. A justiça não existe. E ler sobre umaguerra que vai ter tantas implicações tristes é muito complicado.
Gostei da forma como o escritor misturousituações reais com ficção (lá está a minha falta de conhecimentos históricos aemergir) e pôs os personagens em locais de destaque mundial. Gosteiprincipalmente de como os vários ângulos da história foram abordados: não háverdades absolutas , não há lados com razão e lados sem razão. Há interesses,uns bem intencionados outros nem por isso. Porque as guerras, todas as guerras,são começadas por poucos, por razões que pouco ou nada têm a ver com o que senoticia e se divulga. A história é contada e escrita pelos vencedores e àsvezes precisamos afastar-nos e olhar vencedores e vencidos e ver que, não rarasvezes, são exatamente iguais.
Agora é só esperar pelos dois próximosvolumes.
publicado por Patrícia às 23:41 link do post
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