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Ler por aí

Ler por aí

Pequena Abelha, de Chris Cleave


Tinha expectativas altíssimas em relação a este livro. E posso dizer que não fiquei nada desiludida.
Para mim é um livro sobre amizade, sacrifício, África e principalmente sobre o ser humano, o que de melhor e de pior tem.
O livro conta-nos uma história simples, com episódios complexos e difíceis. É como se estivesse a ler um conto de fadas onde a inocência de uma história para crianças convive com os mais escabrosos acontecimentos que existem (basta lembrar-nos que o coração da branca de neve quase é arrancado).
Com uma escrita simples tem a particularidade de ser contado a duas vozes, de termos imensas vezes o mesmo acontecimento contado na perspetiva de cada uma das mulheres. Não quero falar muito da história porque acho mesmo que faz sentido ler o livro sem que saibamos o que vai acontecer mas digo-vos que a minha fé na humanidade mudou um bocadinho depois de ter lido este livro. Fez-me pensar e ter vergonha de tanta coisa, orgulho de outras. Fez-me sentir. Tristeza, principalmente. Mas mesmo assim leria novamente, sem hesitações.

Ler

Não pretendo alimentar qualquer polémica, este texto reflete apenas a minha opinião.

Defendi desde sempre que não há maus livros, mas sim livros para diferentes grupos de leitores. Tenho a mesma opinião em relação à música. Alguns dos meus cantores preferidos são Portugueses (aliás a maioria é) e relativamente pouco conhecidos. Sou parte de uma minoria que gosta destas músicas e a maioria das pessoas com quem me relaciono não gosta da música que eu oiço.
Já em relação aos livros não se passa o mesmo. Leio de tudo um pouco, gosto de quase todos os estilos literários e na minha estante convivem clássicos e literatura de cordel (com exceção de poesia - o meu calcanhar de Aquiles). Não sou de letras e nunca convivi com qualquer elite literária. Sempre me habituei a ser a (única) miúda sempre com um livro dentro da mala (ainda hoje sou assim) e que enquanto o pessoal jogava king, lia.
É difícil vermos alguma qualidade nos livros de um autor de que não gostamos. Acontece-me com autores como Nicholas Sparks, Susana Tamaro ou Jacqueline Carey. Depois por uma questão de hábito, por vergonha ou pura pressão social vemos qualidade em autores de que não gostamos nada, que não conseguimos ler. Acontece-me com António Lobo Antunes. Não consigo ler os livros do homem mas não me passa pela cabeça dizer que não têm qualidade (até porque acredito sinceramente que o problema neste caso é meu).
No fundo somos (eu admito ser, pelo menos) uns hipócritas literários com vários pesos e várias medidas, dependendo das críticas dos outros e das normas vigentes de que livros demasiado fáceis de ler, com muitos leitores e sucesso são livros da treta e que livros que poucos conseguem ler e que têm muitas palavras difíceis são fantásticos. Já tive discussões memoráveis quando alguém me diz que os livros dos TOPs de venda são todos maus. Dá-me azia ouvir este tipo de pedantice.
Ler, o que quer que seja, é ótimo. Ler algo que nos dê prazer é fantástico. Ler algo que achamos enfadonho não é o objetivo desta arte. Ler deve ser, sempre, um prazer.
Mas às vezes sinto-me a tremer um bocadinho nesta posição, confesso. Quando vejo tanto livro, igual ao anterior, sem nada de novo. Quando vejo que os miúdos cada vez leem menos e que não conseguem sair dos mesmos formatos e evoluir para outros géneros. Quando sinto que tenho saudades de ler bons livros mas que ando um bocadinho perdida na quantidade absurda de livros que andam por aí. Sim, quantidade não é sinónimo de qualidade e também não é sinónimo da falta dela. Mas às vezes, só às vezes, gostava que não houvesse tanto livro da treta à venda nas livrarias.

Uma criança que não queria falar, de Torey Hayden

Todos os outros vieram
Tentaram fazer-me rir
Brincaram comigo
Algumas vezes para rir e outras a sério
E depois partiram
Abandonando-me nas ruínas das brincadeiras
E eu não sabia quais eram a sério.
Quais eram para rir e
Vi-me sozinha com os ecos de risos
Que não eram os meus.

E depois chegaste
Com os teus modos estranhos
Nem sempre humanos
E fizeste-me chorar
E não pareceste importar-te que chorasse.
Disseste que as brincadeiras tinham acabado
E esperaste
Até que as minhas lágrimas se transformassem
Em alegria.

in One child



Tinha bastante curiosidade em relação a este livro e a esta escritora. As expectativas não eram altas porque acho sempre que este tipo de livro que “puxa pelo sentimento” e que , ainda por cima, é um best seller não é nada de especial.
Agora que tive oportunidade de o ler (Obrigada, Maria) mudei, um bocadinho, de ideia. Gostei bastante do livro. A história é cativante, a escrita e o tom são bastante acessíveis, lê-se num instante e passamos o tempo todo a torcer pela Sheila e pela Torey.
Torey é uma professora pouco convencional responsável por uma turma de ensino especial. 8 crianças com problemas vários, desde autismo a deficiências mentais e sociais mais ou menos profundas formam aquela turma de “malucos” que acaba por receber Sheila, uma miúda de 6 anos extremamente violenta e que aguarda vaga no hospital psiquiátrico local. Torey e Sheila desenvolvem uma amizade que as muda a ambas. Ao longo do livro emerge uma miúda muito especial e inteligente. Vemos como, imprevisivelmente, ela ganha uma hipótese de ter um futuro normal e risonho.
Esta foi uma experiência feliz, no meio de tantas experiências e tentativas inglórias protagonizadas por todos os professores de ensino especial (e alguns que teoricamente não o são). Torey fez um trabalho fantástico e a miúda era fora de série. Correu bem e deu um óptimo livro. Um livro que enche de esperanças pais e professores. Um livro que pode inspirar quem precisa de um novo fôlego no ensino. Numa altura em que tantos professores não têm qualquer vontade (ou talento) de ensinar é um livro que pode motivar.
Quanto a mim, menos bom, é o pouco desenvolvimento da história. Aquele ano não foi, certamente, tão fácil como Torey tenta mostrar neste livro. Não é um livro técnico, não o pretende ser, mas bem que podia ter sido um pouco mais desenvolvido. Mas provavelmente isso quereria dizer menos livros vendidos.
O que não percebi foi o título do livro: Uma criança que não queria falar. Não era Sheila, certamente. Mais um caso típico de traduções que não fazem qualquer sentido (o título original é One Child).
No geral acho que é um livro que vale a pena ler (com a disposição adequada para histórias lamechas) e que nos deixa com um sorriso nos lábios e a acreditar um pouco mais na humanidade.

A propósito da troca de livros


Foi com a Maria que troquei um livro. Eu não queria o "As quatro últimas coisas" e ela não gostou especialmente do "A criança que não queria falar", livro que me despertava a curiosidade. Hei-de cá deixar a minha opinião sobre o livro, claro, mas para já deixo à Maria um "Obrigada". Uma experiência que correu bem e que não me importo nada de repetir.