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Ler por aí

Ler por aí

José Saramago


José Saramago, prémio Nobel da literatura, foi um grande escritor. Daqueles que vão ficar na memória. O escritor vai ficar na memória. O homem, nem por isso. Mas isso já é uma opinião muito pessoal. 
Há quem não gostasse do homem. Há quem não gostasse do escritor. Não gostar do escritor porque não se gostava do homem é simples burrice. Quanto ao homem, não tenho muito a dizer. Fez asneiras? a sério? quem não as fez? O homem será chorado por quem dele gosta (que isto do amor não acaba com a morte). O país chora a morte do escritor. O escritor escreveu em Português, ganhou um Nobel com livros escritos em Português. Vivia em Espanha? E então? Não somos um país de emigrantes? 
Eu li dois livros dele: O Evangelho segundo Jesus Cristo e O ensaio sobre a cegueira. Não gostei especialmente dos livros. Mas apenas porque não me dei lá muito bem com aquela escrita, assim corrida, como quem pensa. Mas sempre o achei um contador de histórias e dos livros achava-os criativos, inéditos, diferentes. Mas a escrita....
Bem da escrita não fui fã. O engraçado é que a minha Mãe, professora do primeiro ciclo do ensino básico, católica convicta e fã do Saramago, sempre disse que por causa dos livros dele passou a ter outra postura com os seus alunos. Apesar de ter sido sempre uma professora exigente, aprendeu "algumas" coisas com o Saramago e isso sempre me fez pensar...  Depois de ter lido dois dos seus livros decidi não voltar a ler mais nenhum. Simplesmente porque não me apetecia, porque já o tinha lido e sabia do que estava a desistir.
Mas na minha família, de católicos convictos há muitas fãs de Saramago e entre todos nós temos todos os seus livros. Assim, acabei por ser convencida (pela minha Mãe, claro) que não ler o Caim era um erro enorme. E acabei por lê-lo. Uns anos depois dos outros já não me foi tão complicado lê-lo. Até porque o livro é divertido. E um destes dias vou ler o "Memorial do convento", que é o livro preferido da minha Mãe e vou ler "A viagem do elefante" que a minha prima achou maravilhosamente divertido. Enfim, morreu o homem. Os livros ficam por cá, para serem lidos e relidos, porque gostando ou não da sua escrita, não se pode negar que o homem era um génio e escrevia muito.  

Fúria Divina, de José Rodrigues dos Santos

Uma mensagem secreta da Al-Qaeda faz soar as campainhas de alarme em Washington. Seduzido por uma bela operacional da CIA, o historiador e criptanalista português Tomás Noronha é confrontado em Veneza com uma estranha cifra: 6AYHAS1HA8RU.

Ahmed é um menino egípcio a quem o mullah Saad ensina na mesquita o carácter pacífico e indulgente do islão. Mas nas aulas da madrassa aparece um novo professor com um islão diferente, agressivo e intolerante. O mullah e o novo professor digladiam-se por Ahmed e o menino irá fazer uma escolha que nos transporta ao maior pesadelo do nosso tempo.

Baseando-se em informações verídicas, José Rodrigues dos Santos confirma-se nesta obra surpreendente como o mestre dos grandes temas contemporâneos. Mais do que um empolgante romance, Fúria Divina é um impressionante guia que nos orienta pelo labirinto do mundo e nos revela os tempos em que vivemos.



Este romance foi revisto por um dos primeiros operacionais da Al-Qaeda



Mais um livro do jornalista e romancista José Rodrigues dos Santos. Mais um da saga Tomás Noronha. Este livro tem, para mim, pontos positivos e negativos. Comecemos portanto pelos negativos.
Tomás Noronha. O personagem principal vale como ponto negativo do livro. Já não há paciência para este cromo armado em d.juan de levar por casa. Percebo que, para o autor, seja mais fácil pegar neste personagem conhecido e fazer a história girar à sua volta, once again. Isto quase me parece a saga da ANITA…. Ele é TN e Cristóvão Colombo, TN e os poços de petróleo, TN e a fórmula de Deus, TN o salvador da pátria…. Para quando “TN na praia”?
Não é nada credível esta utilização de TN. Senão vejamos: apenas TN tem os conhecimentos suficientes para perceber o Islão e tem que explicar o BêABá à CIA , NEST e FBI. E não interessa se os operacionais da CIA estão dedicados a neutralizar potenciais ataques terroristas. Eles não têm a preparação suficiente para perceber peva do islão. É demasiado complicado perceber porque é que eles consideram os USA como um dos inimigos! Ah e não faço ideia quantos anos o senhor tem, mas considerando que a mãe dele ainda está mais ou menos saudável (nunca vi aquela doença ser de tão simples trato), que ele continua a ser o melhor da aldeia, não terão passado assim tantos anos desde o último livro… mas foram os suficientes para que ele se tornasse fluente numa das mais complexas línguas existentes… e claro que continua a ser fluente em aramaico. Ah e nem uma única referência às mulheres que com ele se cruzaram anteriormente nem à filha morta, nem à ex-mulher… TN tornou-se patético.
Neste livro apenas o Tomás Noronha é inteligente. A CIA, o NEST e o FBI estão cheios de incompetentes. Os criptanalistas da CIA e afins não conseguem decifrar uma cifra apenas porque não consideram a hipótese de ler aquela coisa na direcção “árabe”…
Como pontos positivos tenho que referir a parte islâmica. Os capítulos reservados a Ahmed são muito interessantes e levam-nos a perceber um pouco do que leva alguém a tornar-se fundamentalista. O encontro com Bin Laden talvez seja um pouco forçado, mas não é isso que tira interesse ao livro.
Resumindo: Lê-se bem, mas apenas à custa do tema. As personagens ocidentais são desinteressantes, vazias e tolas.
Acho que o José Rodrigues dos Santos está a começar a escrever livros “a metro” e com isso começa a perder a qualidade que mostrou em livros como “A filha do capitão”, “Codex” e principalmente “A ilha das trevas”.

Livros e leituras

Ontem estive numa tertúlia literária com a escritora Lídia Jorge que escreveu livros como “O vento assobiando nas Gruas” e “A costa dos murmúrios”. Adorei, claro. A escritora é amorosa e para alguém que gosta de livros é muito interessante estar à volta de uma mesa (éramos poucas) à conversa com uma escritora. Falou-se de livros, claro. Em particular falou-se de “O vento assobiando nas gruas” e foi muito interessante conhecer a opinião da escritora, saber como nasceu a “Milene” e como ela “chamou todas as outras personagens”.

Mas também falámos de preconceito. De como há tanto preconceito com os escritores Portugueses, em especial com as mulheres escritoras. Gostei da perspectiva da escritora que se recusa a queixar-se. Assim este ponto da conversa foi breve.

Mas eu não tenho nenhum género de problemas em falar sobre isso (aliás já não é a primeira vez aqui no blog) e portanto cá vai: Eu acho mesmo que há um enorme preconceito. Eu mesma me sinto preconceituosa. Aconteceu-me com a Rosa Lobato Faria acontece-me com muitas outras escritoras. Há muita comparação entre estas escritoras e a Margarida Rebelo Pinto que apesar de ter a qualidade de ter posto muita gente a ler é uma escritorazinha perto destas senhoras. Não que os romances de cordel não tenham o seu mérito, porque têm. Mas têm um público-alvo muito diferente e específico. E temos a tendência para juntar nesse grupo todas as escritoras e julgá-las pela mesma bitola. Erro crasso. Perdemos oportunidades de ler óptimos livros e aprender muito.

Há também a falta de publicidade (se não em quantidade pelo menos em qualidade) aos autores portugueses. E há o preço dos livros (é impressionante mas às vezes é mais barato comprar um livro de um autor Português noutra língua). E há os escritores da moda, os livros da moda que podem ser ou não fantásticos que vendem sempre.

Outro erro, na minha opinião, é nas nossas escolas não se apostar na leitura dos livros actuais. Sim, os Maias são fantásticos e são riquíssimos em relação à linguagem e à história e à mensagem e tudo o mais. Mas a verdade é que ninguém vai aprender a amar os livros a ler os Maias, ou os Lusíadas (que acho maravilhosos) ou o Amor de perdição (giro que se farta, mas um bocadinho “out” nos tempos que correm). Felizmente já há professores com a coragem de escolher os “não-clássicos” que pertencem à lista dos livros de leitura aconselhada. Infelizmente são poucos.

Eu acho que podemos, todos, mudar esta realidade. Ler é tão bom. Só é preciso descobrir isso e que há livros para todos os gostos.

Os Pássaros de Seda, de Rosa Lobato Faria


Os Pássaros de Seda
de Rosa Lobato de Faria
Edição/reimpressão: 1996
Páginas: 208
Editor: Edições Asa
ISBN: 9789724117584
Colecção: Finisterra

Graças à qualidade eterna do carácter de minha mãe e ao consequente travão que ela pôs à entrada do "progresso" naquela casa, a Pedra Moura guardou para sempre a sua transcendência de lugar mágico.
O reino dos contos de fadas e dos autos de Natal, o mundo dos antigos aromas e sabores, o sítio da infância, o refúgio ideal para nascer e para morrer.
Assim terminam as memórias de Mário, um dos protagonistas de Os Pássaros de Seda, um livro sobre a condição humana, que opõe os valores perenes da infância, do maravilhoso e do amor à precariedade das paixões e dos transes da fortuna.
Um magnífico romance que, depois de O Pranto de Lúcifer, confirma a sua autora como uma presença incontornável no panorama da nova ficção portuguesa.



Mais um livro maravilhoso da Rosa Lobato Faria. Continuo a gostar imenso dos livros desta escritora. São livros pequenos, daqueles óptimos para ler de uma assentada, numa tarde ou num fim-de-semana.
Este livro conta a história de Diamantina. Mário e ela combinam escrever cada um as suas memórias e depois trocar. Mário, fiel a este acordo, escreve um livro com as suas histórias que dá a Diamantina pouco antes de morrer. Mas o livro é mais sobre ela que sobre ele. Afinal e segundo as palavras de Mário “ tu és a minha vida”.
Assim conhecemos uma Diamantina linda e cheia de talento, que com as suas colchas bordadas com pássaros vence na vida, cresce e atinge o sucesso.
Mas o talento na vida profissional não tem paralelo na vida pessoal e Diamantina não tem sorte no amor.
Um livro sobre o amor platónico, sobre as escolhas, a sorte, as consequências. Um livro com personagens muito interessantes e onde as histórias do Tio Zebra são um dos pontos mais interessantes.

A ilha debaixo do mar, de Isabel Allende


A Ilha debaixo do Mar
de Isabel Allende
Edição/reimpressão: 2009Páginas: 512
Editor: Caracter Editora
ISBN: 9789896810009

Para quem era uma escrava na Saint-Domingue dos finais do século XVIII, Zarité tinha tido uma boa estrela: aos nove anos foi vendida a Toulouse Valmorain, um rico fazendeiro, mas não conheceu nem o esgotamento das plantações de cana, nem a asfixia e o sofrimento dos moinhos, porque foi sempre uma escrava doméstica. A sua bondade natural, força de espírito e noção de honra permitiram-lhe partilhar os segredos e a espiritualidade que ajudavam os seus, os escravos, a sobreviver, e a conhecer as misérias dos amos, os brancos. Zarité converteu-se no centro de um microcosmos que era um reflexo do mundo da colónia: o amo Valmorain, a sua frágil esposa espanhola e o seu sensível filho Maurice, o sábio Parmentier, o militar Relais e a cortesã mulata Violette, Tante Rose, a curandeira, Gambo, o galante escravo rebelde… e outras personagens de uma cruel conflagração que acabaria por arrasar a sua terra e atirá-los para longe dela. Quando foi levada pelo seu amo para Nova Orleães, Zarité iniciou uma nova etapa onde alcançaria a sua maior aspiração: a liberdade. Para lá da dor e do amor, da submissão e da independência, dos seus desejos e os que lhe tinham imposto ao longo da sua vida, Zarité podia contemplá-la com serenidade e concluir que tinha tido uma boa estrela

Que sou fã da Isabel Allende não é novidade para ninguém. Por isso também não é surpreendente que considere este mais um livro a não perder.

Teté (Zarité) nasce escrava e teima em não morrer apesar de todos os esforços de sua mãe para que isso aconteça. Uma mulher escrava e mãe prefere não deixar que os seus filhos nasçam para uma vida de escravidão.

Isabel Allende é uma das poucas escritoras com a capacidade de nos contar uma história de escravidão, de sangue e lágrimas, uma história tristíssima com extrema doçura. Teté é um misto de força e bondade, de coragem e lealdade. Submissa e orgulhosa conta-nos uma história de sangue, suor e lágrimas que nos levam desde os campos da cana-de-açúcar no Haiti até Nova Orleães, da escravidão até à liberdade. O preço da liberdade é, para muitos, demasiado alto. Num mundo em que a cor da pele define o ser gente ou coisa, em que o pedaço de papel faz toda a diferença, onde nem todos têm alma e em que a crueldade é habitual a lealdade paga-se com traição.

Um livro a não perder cheio de personagens interessantes que enchem de cor e alegria uma história triste.